Setembro 19, 2020

A Bond Girl e os velhinhos de amanhã

A Bond Girl e os velhinhos de amanhã
Diana Rigg nos anos 60 e como a Rainha dos Espinhos em 2013.

Dando um tempo no formato temático de Cine & Séries, mas garantindo a leitura semanal para quem segue a coluna. Toda sexta-feira,  uma nova "Crônica em Quarentena" e, claro, dicas de filmes e séries para amenizar esses tempos difíceis de pandemia e isolamento social. Fiquem bem!

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A Bond Girl e os velhinhos de amanhã

Tudo começou quando meu "velho" amigo e colega dos tempos de RBS TV e, agora, de Portal Making Of, Roberto Azevedo, me instigou a escrever sobre a atriz inglesa Diana Rigg, morta pelo câncer há duas semanas, aos 82 anos. Para as novas gerações, ela é lembrada pelo papel de Ollena Tyrel, A Rainha dos Espinhos, na série Game of Thrones.

Mas para alguém da minha geração, e metida a ser um arquivo ambulante do cinema clássico, foi imperdoável nunca ter reconhecido naquele rosto marcado pelo tempo a única Bond Girl a casar com o charmoso agente, em "007 -A serviço de sua Majestade", de 1969. Entre 1961 e 1969, Diana tinha feito a série Os Vingadores (The Avengers), muito popular até hoje.

Algum leitor pode estar se perguntando: " afinal por que a colunista está falando de Diana Rigg nas Crônicas em Quarentena ?". Explico: essa bela atriz beirava os 80 anos quando integrou o elenco de Game of Thrones e sabemos que é preciso fôlego para gravar uma série. Ela, como tantos outros velhos ( não tenho medo da palavra, mas podem trocar por "idosos") estava ativa, lúcida e cheia de vida. Não era apenas " alguém que ia morrer mesmo", como disse um conhecido jornalista, ou " cada um coloque a avó e o avô num canto da casa", como aconselhou o primeiro mandatário por achar que o Estado não tem obrigação com a população idosa.

Outro "jornalista" brasileiro defendeu a ideia do vice-governador do Texas, Dan Patrick, de que os mais velhos deviam se sacrificar pelos mais jovens para não quebrar a economia. Isso me lembrou da tradição dos inuítes, população indígena do Alasca e Groenlândia, em que os idosos cometiam suicídio para não se tornarem um peso para a comunidade.

Foram tantos disparates contra os velhos que não dá para citar todos. E nem convém. Ainda ecoa na minha lembrança a carta de despedida do ator Flávio Migliaccio, que tirou a própria vida, aos 85 anos, logo no início da pandemia:"Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo aqui ".  

A antropóloga e escritora Mirian Goldenberg, professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) explicou que a pandemia acelerou a "velhofobia" que já era forte no Brasil. Acrescento : ser "velhofóbico" é uma grande tolice, pois esses serão os  velhinhos  de amanhã.

È doloroso alguém se sentir descartável porque o tempo passou. O que dizer para quem fala "ah, mas já estava velho mesmo"? Que eles olhem para alguém que amam muito, digamos, sua mãe ( ou seu pai, avô, avó, um amigo...). Depois digam se acham que está na hora dela partir para que a sua vida seja mais fácil. Doeu? A resposta vale também para a mãe dos outros. No fim, tudo se resume à capacidade de empatia.

(Brígida De Poli)

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DICAS DE FILMES E SÉRIES

Os vingadores – série – Eurochannel- 1961

Quer conhecer o trabalho de Diana Rigg quando jovem e ainda se divertir? A série Os Vingadores está disponível no Eurochannel  (Now/Net), em versão HD, remasterizada. Sinopse: John Steed (Patrick Macnee) é um excêntrico espião britânico que embarca em uma perigosa missão ao lado de David Keel (Ian Hendry) a fim de vingar o assassinato da esposa de Keel. Tempos depois, chegou a vez de Steed se unir a parceiras revolucionárias e muito à frente de seu tempo para desvendar intrigantes casos.

 

Doces Magnólias –  1 temporada – Netflix

Esta série foi indicada pela Jaqueline de Oliveira, minha querida podóloga, que também curte as histórias seriadas.

Inspirada na saga de livros escrita por Sherryl Wood, a trama mostra como as amigas Maddie, Dana Sue e Helen enfrentam romances, problemas com a família e vidas profissionais conturbadas enquanto mantém seus laços de amizade. A série é protagonizada por JoAnna Garcia Swisher, Brooke Elliott e Heather Headley e foi renovada para uma segunda temporada.

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Especial

Há filmes que dão um nó na cabeça do espectador – nada é o que parece ser - e seria bom virem com manual de instrução. A Netflix raramente inclui filmes desse tipo, mas recentemente disponibilizou o filme do Charlie Kaufman, que já havia dirigido Sinèdoque, Quero ser John Malkovich e o meu favorito, Brilho eterno de uma mente sem lembrança ( ganhador do Oscar de Melhor Roteiro em 2005).

Em Estou pensando em acabar com tudo , Kaufman oferece mais um de seus  roteiros que "criam teses sobre a expansão do consciente humano".  

Pedi ao jornalista e escritor, Roberto Cattani, que me indicou o filme, que ele escrevesse sobre a nova obra do diretor.                               

Estou pensando em acabar com tudo ( 2020)

Muitas vezes, as definições dos serviços de streaming não ajudam muito para entender como é o tal filme: 'vigoroso', 'comovente', 'romântico', 'empolgante', qualquer coisa... Mas no caso de Estou pensando em acabar com tudo, uma definição que acompanha o filme é perfeita: 'cerebral'. Só faltou acrescentar outras características: 'claustrofóbico' e 'desconexo'. Não deveria ser surpresa para quem já assistiu outro filme de Charlie Kaufman: aquele Sinédoque, Nova Iorque, que era outro exercício de encerrar o mundo num ambiente fechado (e nesse caso, fictício), sem saída possível. Aliás, parece que Kaufman sentiu tanto a falta de Philip Seymour Hoffman (protagonista magnífico de Sinédoque) para o novo personagem que foi buscar um meio sósia dele, só que insosso e estranhamente bruto, ainda que disfarçando com a delicadeza.

Nesse Estou pensando em acabar com tudo, de 2020, a pandemia e a quarentena devem ter influenciado a paranóia de confinamento desse típico intelectual novaiorquino. A cada vez que o filme se arrasta e nos arrasta para um novo ambiente fechado, fechadíssimo — o carro debaixo da tempestade de neve, a casa dos sogros, de novo o carro com mais neve, a antiga faculdade de Jesse, vazia — parece que a coitada da moça nunca vai conseguir sair de lá, e nós com ela. Teria sido uma descrição magistral da claustrofobia, de fazer inveja ao Hitchcock, se aos poucos o filme não desandasse em inserções surreais e flashbacks, que não parecem acrescentar nada à história, e até sobrepõem-se à trama, até ocupar todo o espaço no final, sem que o espectador consiga interessar-se minimamente —, se já não dormiu ou não foi buscar um pouco de ar na varanda. Difícil entender como o Rotten Tomatoes foi dar uma aprovação de 83% para essa ordalia para o espectador —, mas pelo menos o coloca no gênero Horror. (Roberto Cattani)

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EXTRAS

As mulheres no Festival de Cinema Veneza 2020

As mulheres brilharam no primeiro festival presencial do ano ( os outros foram cancelados por causa da pandemia).  Cate Blachet (foto) presidiu o júri e a diretora chinesa, Chloe Zhao, levou o Leão de Ouro pelo filme Nomadland.  Forte candidato ao Oscar, o filme tem a premiadíssima Frances McDormond  no elenco e mostra uma comunidade de moradores de vans que atravessa o oeste dos Estados Unidos.

 

A voz humana de Pedro Almodóvar

Quem também brilhou em Veneza foi o meu querido Almodóvar e sua "musa", Tilda Swinton, no curta  filmado em plena pandemia, A Voz Humana. É a primeira vez que ele filma em inglês. Apesar de ter recebido vários convites de Hollywood, Almodóvar nunca quis abandonar a língua espanhola nas suas películas. Baseado na obra de Jean Cocteau, A Voz Humana  aborda a complexidade da comunicação entre as pessoas.

O cartaz é simplesmente lindo!Tomara que possamos conferir logo.

 

Lembrete: domingo (20) é dia de entrega do Emmy

Quem curte assistir o Oscar da TV deve ficar ligado que a 72ª edição vai ser online, mas mesmo assim contará com estrelas como Meryl Streep e Michael Douglas.  Entre as séries indicadas estão algumas de que gosto muito, como A Maravilhosa. Mrs.Masel e Succession. A série Ozark, da Netflix, também está no páreo, mas o grande campeão de indicações é Watchmen, da HBO.Estarei a postos para torcer pelos meus favoritos.

A transmissão será pelo canal TNT e pela internet.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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