Junho 20, 2019

A danada da procrastinação

A danada da procrastinação
Reprodução Freestock

Sentei por perto e fiquei observando meu filho e a namorada dele planejando a viagem que farão para a Europa no fim de agosto. Estavam tão concentrados e felizes reservando passagens, procurando acomodação e definindo roteiro que nem repararam em mim. Enquanto os olhava, lembrei de quando também tinha 30 anos e dos planos que fazia para o futuro. Naquela época, viajar para a Europa – ou para qualquer outro destino distante – era um privilégio de quem tinha muito dinheiro, e não era o meu caso. Então, eu fazia planos. Ou melhor, tinha sonhos de conhecer o mundo.

Acontece que só sonhar não adianta, e o que a maioria de nós mais faz na vida é procrastinar, ou seja, jogar tudo para o futuro: um dia eu viajo, quando ficar mais velha vou voltar a estudar, ainda vou fazer um intercâmbio, quando tiver tempo lerei todos os livros que tenho vontade, uma hora dessas eu vou sair no meio da tarde só para ir ao cinema, no semestre que vem volto para a academia. E dá-lhe empurrar com a barriga, como se o futuro fosse resolver todas as nossas frustrações e pendências do presente.

Com a desculpa de que "não temos tempo", adiamos nossos desejos e jogamos todas as nossas expectativas de realizações pessoais lá na frente, como se tivéssemos certeza de que mais adiante elas se tornarão, enfim, realidade. Mas como saber o que o futuro nos reserva? Num piscar de olhos tudo pode mudar. Quem nos garante vida longa e saudável? Ou uma estabilidade financeira a longo prazo? São tantas as variáveis que o ideal é ir realizando os desejos, na medida do possível, ao longo da vida, sem deixar tudo para mais tarde.

A antropóloga Mirian Goldenberg diz que a maioria das pessoas deseja coisas que poderia ter em qualquer fase da vida. Por que então jogamos tudo para o futuro? Com base em suas pesquisas de campo, concluiu que muitos acreditam que só quando estiverem mais velhos conquistarão a liberdade e a sabedoria para aproveitar melhor o tempo e, assim, parar de tentar responder desesperadamente às expectativas e demandas dos outros. E a pergunta que ela deixa no ar, e que vale para cada um de nós, é: Por que não posso ser mais livre para "ser eu mesma" desde agora e parar de procrastinar a felicidade?

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Viviane Bevilacqua

Viviane Bevilacqua

Trinta anos de jornalismo diário e predileção por temas ligados ao comportamento humano. Crônicas que falam sobre as relações familiares, educação, saúde e o cotidiano de todos nós, sempre de forma leve e direta, como se fosse um bate-papo entre a jornalista e o leitor.

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