Abril 03, 2019

A ditadura no Brasil sob as lentes do Cinema

A ditadura no Brasil sob as lentes do Cinema

No último domingo, 31 de março, completou-se 55 anos da instalação da ditadura militar no Brasil. Esse período durou 21 anos, durante os quais houve censura aos meios de comunicação, à produção cultural como a literatura e a música, prisões, tortura, execuções e desaparecimentos até hoje não resolvidos.

Não vou me estender sobre os chamados anos de chumbo, mas como esse período importante da nossa História é pouco ensinado nas escolas, recorremos ao Cinema para mostrar um pouco do que se passou.

Comentários, reclamações, elogios, adendos...podem ser feitos no rodapé da coluna ou pelo cineseries@portalmakingof.com.br

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Que Bom Te Ver Viva - Lucia Murat (1989)

Misturando ficção e fatos reais, o filme mostra como ex-presas políticas da ditadura militar brasileira enfrentaram a tortura e a prisão. A diretora Lucia Murat conheceu o drama na pele, pois também foi prisioneira política. No elenco está a talentosa Irene Revache. (Veja o trailer)

 

Eles não usam black tie – Leon Hirzman( 1981)

O filme é cria da peça de Gianfrancesco Guarnieri, escrita duas décadas antes, e mostra os anseios dos trabalhadores e a luta sindical nos anos 70. Carlos Alberto Ricelli interpreta Tião, operário que resolve não aderir à grave ao descobrir que a namorada está grávida. Ele entra em conflito com o pai, Gianfrancesco, líder grevista que passou três na prisão durante o regime militar. O elenco traz Bete Mendes, como a namorada, e Fernanda Montenegro no papel da mãe de Tião.

 

Pra Frente, Brasil - Roberto Farias (1982)



Reginaldo Faria interpreta um pacato cidadão que ao voltar para casa é confundido com um "subversivo". Ele é levado pela polícia e submetido a sessões de tortura para confessar seus supostos crimes. O fundo desse horror é a euforia da Copa do Mundo de Futebol de 1970. O título é uma referência ao jingle sobre a disputa do campeonato. Antonio Fagundes, Carlos Zara e Natalia do Vale completam o elenco. O filme teve problemas com a censura por "incitamento contra o regime militar", mas foi exibido em versão sem cortes em 1983.

 

Nunca Fomos Tão Felizes – Murilo Salles (1984)

Um homem que passou oito anos na prisão durante a ditadura militar reencontra o filho que, até então, vivia interno em um colégio católico. Os dois passam a viver num apartamento vazio, quase como estranhos. O filho tenta descobrir a verdadeira identidade do pai e seu passado de guerrilheiro. Claudio Marzo e Roberto Bataglin são pai e filho.

 

O que É Isso, Companheiro? - Bruno Barreto (1997)

Inspirado no livro de Fernando Gabeira, o longa-metragem narra o sequestro do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, por grupos de esquerda com participação do jornalista e autor. Além dos brasileiros Selton Mello, Pedro Cardoso e Fernanda Torres, o filme contou com o ótimo ator americano Alan Arkin no papel do embaixador. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

 

Ação Entre Amigos - Beto Brant ( 1998)



Quatro ex-guerrilheiros se reencontram 25 anos após o fim do regime militar, período em que foram presos e torturados. Ao descobrirem que seu carrasco, o homem que matou a namorada grávida de um deles, ainda está vivo, eles planejam vingar-se. Depois de seqüestrar o torturador, eles recebem uma informação que preferiam ignorar.

 

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias - Cao Hamburger (2006)

Mauro é um garoto de 12 anos, apaixonado por futebol, que é repentinamente deixado pelos pais no prédio onde o avô mora, pois precisam "sair em férias" repentinamente. Na verdade, eles estão fugindo das forças repressoras da ditadura militar. O menino começa a perceber que há algo estranho à sua volta.

 

Zuzu Angel (2006), Sérgio Resende

A história é real. Patrícia Pilar vive Zuzu Angel, uma estilista de sucesso, que teve o filho, Stuart, desaparecido. Mais tarde ela recebe uma carta anônima, dizendo que ele foi sequestrado, torturado e morto no prédio da Aeronáutica. Seu corpo teria sido jogado no mar. Zuzu começou a busca incessante pela verdade, enfrentando forças perigosas. Ela acabou morrendo em um misterioso acidente de carro. Chico Buarque fez a comovente canção "Angélica" para ela: "...quem é essa mulher que canta sempre estribilho ? (...) Só queria embalar meu filho que mora na escuridão do mar.".

Quase dois irmãos- Lucia Murat - (2015)

Dois amigos de infância voltam a se encontrar nos anos 50: Miguel, se elegeu senador, Jorge virou traficantes de drogas. Eles negociam um projeto social em uma favela, onde Jorge tem influência. Duas décadas depois eles voltam a se reencontrar, só que desta vez como prisioneiros na Ilha Grande, onde presos políticos e comuns dividiam o mesmo espaço durante a ditadura militar. O filme de Lucia Murat ganhou vários prêmios no Festival de Cinema de Mar Del Plata, Festival de Havana, Festival Brasileiro de Paris, entre outros.

 

Em fase de lançamento :

Deslembro – Flávia Castro- ( 2019)

Vencedor do prêmio da crítica na Mostra de Biarritz, Deslembro foi também o único longa brasileiro a integrar a seleção oficial do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Na trama, a protagonista Joanna deixa Paris rumo ao Rio de Janeiro após a anistia, em 1979.  Ela e a família estavam exiladas na França há 10 anos, após o desaparecimento do pai, vítima da ditadura. Joanna volta num momento em que o Brasil está rumando para a redemocratização. A diretora é filha de um ex-guerrilheiro morto em circunstâncias obscuras em Porto Alegre em 1984, história que ela tentou desvendar no documentário Diário de uma busca.

 

Marighella – Wagner Moura - ( 2019)

O filme de estreia de Wagner Moura na direção já causou polêmica mesmo antes da estréia, prevista para este ano no Brasil ( já foi exibido no Festival de Cinema de Berlim). Seu Jorge interpreta o guerrilheiro e ex-deputado baiano Carlos Marighella, dissidente do PCB e fundador da organização armada Ação Libertadora Nacional.  O cinebiografado já foi considerado o "inimigo público número 1" , "terrorista" e "comunista" e grupos de extrema direita ameaçaram invadir o set de filmagem para "dar uma lição" na equipe por ousar contar sua história. O filme abrange o período do golpe de 1964 à morte do protagonista, em 1969, numa emboscada comandada pelo chefe do Dops de São Paulo, o delegado Sérgio Paranhos Fleury. O elenco traz ainda Bruno Gagliasso, Herson Capri e Adriana Esteves.

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FORA DE SÉRIE

Magnífica 70

Já falei com entusiasmo desta série na coluna mais de uma vez. Considero uma das melhores produções para a TV fechada, no caso a HBO, que já foi a melhor do ramo. Magnífica 70 retrata um dos lados mais perversos dos regimes totalitários: a censura. A história conta como funcionava a famigerada Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) que determinava o que o público brasileiro podia ver, ler ou ouvir .

Ela mostra a Boca do Lixo, nome informal dado à região da Luz no centro de São Paulo, onde produtoras cinematográficas passaram a dividir espaço com prostitutas e criminosos nos anos 70.  Ali eram filmadas as pornochanchadas, filmes de gosto duvidoso, com muito sexo e atores desconhecidos.  Seja como for, ajudaram a manter empregados os técnicos, produtores e diretores naquele período difícil para a cultura. Na série, "Magnífica" é o nome de uma produtora da Boca.

A origem da trama : Vicente (Marcos Winter) trabalha como censor do governo, apadrinhado por ser casado com a filha de um general (Paulo César Pereio). Ao avaliar o filme A devassa da estudante, produzido pela Magnifíca, ele percebe a semelhança entre o personagem da protagonista, Dora Dumar ( Simone Spoladore ) e sua cunhada já falecida, Angela, por quem sentia forte atração. Vicente veta o filme. Quando o produtor da película e Dora vão até o prédio da Censura apelar contra a proibição, ele fica fascinado pela atriz e decide ajudá-los a liberar a película.  Daí pra frente, visitando a Magnífica, Vicente vai se apaixonando pela arte de fazer cinema. 

O elenco é ótimo e a cenografia nos leva de volta aos anos 70. Claro, não é uma série leve, é forte e para adultos, afinal fala da traição, incesto, crimes , tortura, perseguições e tudo o que envolvia o período dos anos de chumbo.

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Sobre a edição "O Cinema em busca da felicidade":

Uau... Brígida! Só ler as "Frases de cinema" e já me perco em reflexão. Que dirá ver tais filmes! Grata por suas surpreendentes sugestões. (Maria Gobbi)

Assisti o documentário Happy que você sugeriu. Não gosto da ideia de que "dinheiro não traz felicidade". (Biaguiar)

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PARTIU...

... Agnés Vardá, uma das principais vozes da Nouvelle Vague e pioneira na direção de filmes, quando essa ainda era uma atividade só para homens. Por coincidência, ela esteve presente na nossa edição da semana passada com o filme As duas faces da felicidade. Nascida na Bélgica e radicada na França, Vardá participou do Festival de Berlim em fevereiro deste ano, onde disse que gostaria de trabalhar até os 102 anos de idade. Faleceu dia 29/03, de câncer, aos 90 anos. Em uma de suas últimas entrevista, disse Agnes sobre seu trabalho: O que propomos às pessoas, é de dividir algo. A prova é que ficamos tão felizes quando a sala está cheia. Quando sou aplaudida, isso me dá muito prazer". Então, palmas agradecidas para ela!

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A CARA DO CINEMA

Como o assunto é cinema brasileiro, nada como Zezé Motta, atriz e cantora, para a homenagem da semana. Seu papel mais famoso é Xica da Silva (foto), no filme homônimo de Cacá Diegues. Fez também Quilombo, Orfeu, Para viver um grande amor, Tieta, Anjos da Noite entre muitos outros. Zezé já fez muitos trabalhos em TV e é também forte ativista do movimento negro brasileiro. Salve, Zezé!

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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