Junho 19, 2018

A Rússia e seu cinema

A Rússia e seu cinema
​Cena da escadaria de Odessa -O Encouraçado Potemkin- Sergei Eisenstein​

Pode ser que muitos de vocês já estejam de s...cheio com a cobertura da Copa do Mundo de Futebol, onde cada pedrinha da Praça Vermelha de Moscou vira pauta. Mas, a Rússia é tão cinematográfica que não resisti ao "gancho" para falar do cinema russo e das muitas vezes em que o país virou cenário de filmes de outras nacionalidades.

Confesso, envergonhada, que estou distante do cinema russo atual que, pelo que leio, tem produzido bem e bastante. Prometo me atualizar sobre a  nova produção daquele país e voltar ao tema em outro momento.

Bem, gostaria de escrever sobre os clássicos russos usando o idioma original, mas dos tempos de universidade só consigo lembrar de  kak vas zovut ( qual é o seu nome?) e menya zovut ( meu nome é...). Ah, e da svidaniya ( tchauzinho). Então, em respeito à língua de Tchekov, Tolstoi e Dostoiévski , melhor irmos direto aos filmes em português mesmo.

Faltou algum filme na lista ? Já sabe:  escreva para cineseries@portalmakingof.com.br ou deixe seu comentário no rodapé da coluna.

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CLÁSSICOS RUSSOS

O Encouraçado Potemkin ( direção:Sergei Eisenstein – 1925)

Baseada na história verdadeira do motim ocorrido no encouraçado Potemkin, em 1905, um prenúncio da revolução russa, essa produção muda transformou para sempre a maneira de filmar. A cena mais famosa é a da escadaria de Odessa, onde o exército czarista atira contra civis e vemos uma mãe ferida deixar o carrinho do bebê descer pelos degraus, criando enorme suspense. Essa cena seria refeita e homenageada em "Os Intocáveis", de Brian De Palma , em 1987. Assim, como De Palma, outros grandes diretores , como Charlie Chaplin e Billy Wilder, têm na obra de Eisenstein seu filme favorito.


Sergei Eisenstein

 

Outubro ( direção: Grigori Aleksandrov e Sergei Eisenstein – 1928)

Nesse filme que marca os dez anos da Revolução Bolchevique, Eisenstein divide a direção com outro cineasta. O diretor que revolucionou a linguagem cinematográfica e participou ativamente da transformação política do país, acabou se decepcionando com o novo regime. O Estado disse o que ele podia ou não mostrar no filme. O genial Eisenstein nunca mais conseguiu filmar como gostaria.

 

Andrei Tarkovsky ( vários)

Tarkovsky é considerado não só um dos maiores diretores russos, mas também do cinema como um todo. Mestres como o sueco Ingmar Bergman e Akira Kurosawa admiravam o trabalho desse cineasta. Não vou indicar UM filme, mas chamar a atenção para o fato de que todos os filmes de Tarkovsky estão disponíveis online na internet ( site Open Culture). Entre eles estão "André Rublev", "O Espelho" , "A Infância de Ivan" e "O Sacrifício". Escolha o último para começar, mas é bom avisar que o cinema de Tarkovsky não é nada "fácil" para quem só gosta de ver ação nas telas.

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PRODUÇÕES RUSSAS

Sol Enganador ( direção: Nikita Mikhalkov  - 1994)

Rússia, verão de 1936. Kotov, um herói revolucionário e comandante do exército russo, está passando uma temporada em sua casa de campo junto de sua filha e de sua esposa. Tudo corre bem até a chegada de seu velho amigo Dimitri, um homem charmoso que logo ganha as atenções das mulheres da casa. No entanto, Kotov sabe a verdade sobre o velho conhecido e, no meio do governo de Stalin, sabe que há algum perigoso segredo escondido por trás da aparente visita social de Dimitri. (Sinopse:Adoro Cinema). "Sol Enganador" conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1995.

 

Guerra e Paz ( vários)

"Guerra e Paz", de Leon Tolstoi, é um dos maiores romance da literatura universal. Ele foi adaptado várias vezes para as telas. Há o grandioso "Guerra e Paz" americano, de 1956, dirigido por King Vidor, com Audrey Hepburn, Henry Fonda e Mel Ferrer;  a versão russa de 1965/1967, com oito horas de duração, dirigida por Sergei Bondarchuk, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; mais a minissérie com o selo de qualidade da BBC, de 2016,com seis episódios. Basicamente: durante a invasão do exército de Napoleão à Rússia, Natasha (Audrey Hepburn) se apaixona pelo conde Pierre Bezukhov (Henry Fonda. Ele tem um casamento agendado por obrigação com uma mulher fútil e voluptuosa (Anita Ekberg). Voltando do front, Andrei (Mel Ferrer), amigo de Pierre, um triste viúvo, recupera a alegria de viver ao se apaixonar por Natasha.Escolha a sua versão e bom proveito!

 

Anna Karenina- A História de Vronski ( direção  -Karen Shakhnarov- 2018)

Já falamos na coluna sobre as adaptações de "Anna Karenina", outro grande romance de Leon Tolstoi. Esta produção russa vai adiante da história original : coloca em cena Sergei Karenin, o filho de Karenina, e o ex-amante dela, o Conde Vronski. Sergei quer entender através dos relatos de Vronski por que sua mãe se suicidou. É sempre interessante uma adaptação que usa outro olhar, ainda mais de um romance com personagens tão ricos.

 

Sem Amor ( direção: Andrey Zvyagintsev – 2017)

Um casal à beira da separação discute com quem vai ficar o filho de 12 anos. O garoto que acompanha as frequentes brigas dos pais, desaparece. Entra em cena a polícia e sua burocracia. Frieza, isolamento, falta de empatia e de comunicação, mesmo num mundo tão "conectado", estão no drama que já entrega no título o fundo de tudo. O filme conquistou o grande prêmio do júri do Festival de Cannes 2017 e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018.

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FILMES PASSADOS NA RÚSSIA

Os Girassóis da Rússia ( direção: Vittorio de Sica – 1970)

Considerada uma das mais belas histórias de amor do Cinema, o filme de de Sica conta a história de Giovanna, interpretada pela gloriosa Sophia Loren, e Antonio, o não menos glorioso Marcello Mastroianni. Eles são casados há apenas 12 dias quando Antonio é enviado para a frente russa para lutar na Segunda Guerra. Ele nunca mais retorna e Giovanna, inconsolável, parte para a Rússia em busca do marido. Acaba encontrando Antonio, já com outra família. Triste e belo filme.

 

A Casa da Rússia ( direção: Fred Schepisi –  1990)

Uma mistura de história de espionagem e romance entre Sean Connery e Michele Pfeifer. Ele, um editor, e ela tentando passar os livros de seu antigo amante para que seja publicada no Ocidente. Connery vai para a Rússia para desvendar quem é realmente o autor das obras.

 

Reds( direção: Warren Beaty – 1981)

Warren Beaty aproveitou seu prestígio em Hollywood para dirigir esse drama histórico, em plena Guerra Fria, baseado na obra de "Os 10 dias que abalaram o mundo", de John Reed.

Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, John Reed (Warren Beatty), um jornalista americano, conhece Louise Bryant (Diane Keaton), mulher casada que larga o marido para ficar com ele e se torna uma importante feminista. Os dois se envolvem em disputas políticas e trabalhistas nos Estados Unidos e vão para a Rússia a tempo de participarem da Revolução de outubro de 1917, quando os comunistas assumiram o poder. Este acontecimento inspira o casal, que volta à América esperando liderar uma revolução semelhante. ( sinopse:Adoro Cinema)

Foi indicado a 12 categorias no Oscar  em 1982 e conquistou três: Melhor Diretor, Melhor atriz Coadjuvante para Maureen Stapleton e Melhor Fotografia.

 


A última Estação ( direção: Michael Hoffman – 2009)

Olha o Tolstoi aí de novo, gente ! Aqui ele é personagem de uma joia do cinema atual.

Nos tempestuosos últimos anos da sua vida, Leo Tolstoi (Christopher Plummer), o mais aclamado de todos os escritores russos, vive dividido entre a sua doutrina de pobreza e castidade e toda uma vida hedonista. Por esse motivo, pondera abdicar de tudo isso e ceder, em testamento, os direitos autorais da sua obra ao povo russo. Em 1910, depois de 48 anos de casamento e total dedicação, Sófia Andréevna (Helen Mirren), esposa e mãe dos seus 13 filhos, vê-se na iminência de perder todo o seu património. Consumida pela raiva, ela levará a sua luta ao limite e, em desespero, usar-se-á de todos os trunfos para proteger o legado do marido e o futuro da sua família.(Sinopse:Cinecartaz)

Helen Mirren e Christopher Plummer foram indicados ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Ator Codjuvante.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

 

Dr JIVAGO- BORIS PASTERNAK – 1957

A publicação do romance  foi censurada na União Soviética, terra do autor, pelo Partido Comunista. O livro precisou ser contrabandeado para o Ocidente e foi lançado na Itália em 1957. Só em 1987, os conterrâneos de Pasternak tiveram liberdade para ler a história do médico e poeta Iúri Andréievitch Jivago. No início favorável à Revolução Russa, Jivago vai aos poucos percebendo que o novo regime traz a perda de liberdades individuais , há excesso de autoritarismo e de privilégios. Esse olhar crítico do personagem incomodou o governo soviético e Boris Pasternak foi impedido de receber o Nobel de Literatura, atribuído a ele em 1959.

Criticado por muitos, inclusive pelo famoso Vladimir Nabokov, autor de "Lolita",  "Dr. Jivago" conta a história da pós Revolução Russa através do amor proibido entre o médico, casado, e a belíssima Lara Antipova, amante de importante figura da Revolução Bolchevique.

Boris Pasternak morreu em 1960. Só em 1989, o filho do escritor pode receber o Nobel de Literatura em nome do pai.

 

Dr JIVAGO – O FILME (direção: David Lean – 1965)

David Lean já tinha recebido dois Oscars de Melhor Diretor por "Lawrence da Arábia" e "A Ponte do Rio Kwai" quando filmou " Dr.Jivago".  A película dividiu opiniões. Parte da crítica considerou a abordagem  sentimental demais, calcada mais no romance entre Lara e Jivago do que nas questões histórias. Lean quase abandonou o cinema, mas fez ainda dois belos filmes:"A Filha de Ryan" (1970) e "Passagem para a Índia" (1984), pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar.  Ao fazer 50 anos em 2015, "Dr.Jivago" recebeu as merecidas homenagens, negadas quando do seu lançamento.

Esse épico é uma aula de cinema. A passagem das estações marcada pelas folhas que caem, pela neve que cobre tudo, é uma lindeza. E por falar nisso, Julie Christie, no papel da sofrida Lara, enche a tela de beleza e talento. Omar Sharif, não tão bom ator, convence pelo tipo físico, mesmo sendo egípcio e não russo.  Lean preferia Peter O´Toole que havia feito o papel de Lawrence da Arábia, mas o ator recusou alegando a exaustão que aquele trabalho lhe causou. No elenco está também o ator preferido do diretor, Alec Guiness, com quem ele já tinha trabalhado em "A Ponte do Rio Kwai". Guiness faz o papel do irmão de Jivago e é o narrador da história.

O filme tem três horas de duração, uma canção famosa (O Tema de Lara) e transformou-se numa das maiores bilheterias da história. Em 1966, recebeu  cinco Oscars. Perdeu o de Melhor Filme para "A Noviça Rebelde". Julie Christie ganhou o prêmio de Melhor Atriz no mesmo ano, mas por outro filme " Darling-A que amou demais".

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FORA DE SÉRIE

Séries Russas na Netflix

Influência da Copa Mundial de Futebol na Rússia ou não, várias séries produzidas naquele país foram compradas pela Netflix, ainda por chegar ao Brasil. Fique de olho nos títulos, alguns disponíveis no Eurochannel: "Silver Spoon", "Internos", "Cozinha" e " Fizruk". 

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EM CARTAZ

Imperdível para quem gosta de Cinema. É O FAM.

De 19/06 a 24/06 acontece o 22º Florianópolis Audiovisual Mercosul - FAM 2018 - com Fórum Audiovisual que reúne Encontro de Mercado com Players, Rally Universitário, Palestras, Oficinas, Lançamento de livros, Painéis e o Festival com a exibição de 58 filmes de 10 países - Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia,Estados Unidos da América (por coprodução com o Brasil), Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

A programação completa está disponível no www.famdetodos.com.br  

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BEIJO DE CINEMA

Não dava para abrir mão do beijo entre os lindos Lara e Dr. Jivago, Julie Christie e Omar Sharif. Dá para imaginar ao fundo o "Tema de Lara', tocado à exaustão depois do lançamento do filme.

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HASTA LA VISTA, BABY!

Frases de Cinema

 

"Tudo que sei, só sei porque amo." (Frase de Leon Tolstoi na abertura de "A Última Estação")

                                                ***

" E somos a derradeira lembrança de tudo que foi infinitamente grande, de tudo quanto se fez no mundo durante os milênios que decorreram entre eles e nós, e, em memória daquelas maravilhas, nós respiramos, nós amamos, nós choramos". (Dr. Jivago)

                                                   ***

" Depois percebi que se pode viver sem amor". (Giovanna/Sophia Loren-Os Girassóis da Rússia)

                                                  ***

"A condessa Bezukhov tinha a justa reputação de ser muito amável. Sabia dizer o que não pensava..."(Guerra e Paz -Leon Tolstoi)

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Sobre a coluna anterior "O amor está no ar ...e nas telas" :

"É incrível como muitas dessas histórias de filmes de amor são a mesma história. Conseguiste apontar algumas que se diferenciam da fórmula! Aquelas com a sequência "segredo/paixão/descobre segredo/separa/perdoa/casa" são insuportáveis!" (Dedé Ribeiro/Vancouver,Canadá)

No tema lembrei de " Candelabro Italiano", de 1962". (Jaime Gargioni/Florianópolis)

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AMEI A COLUNA!  SPASIBA !

THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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