Setembro 05, 2017

A Celesc está no meio de uma polêmica

O debate é uma das muitas prerrogativas do parlamento, mas no caso do projeto que autoriza o financiamento de R$ 1,2 bilhão do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a Celesc pela Assembleia há o exercício de um velho clássico: governo versus governo. A matéria está parada na Comissão de Constituição e Justiça sob a justificativa de seu presidente, o deputado Jean Kuhlmann (PSD), de que a situação financeira do governo do Estado deve ser avaliada antes de se liberar a operação. Maior acionista da estatal, o Estado detém 20% do Capital da Celesc e será o avalista do financiamento, enquanto a União é o fiador junto ao BID.

Na versão mais propagada por integrantes do PSD, como o presidente do Conselho de Administração da estatal, o ex-deputado Pedro Bittencourt Neto, a injeção dos recursos com taxa de juro baixa (correção do dólar mais 3% ao ano, carência de cinco anos e 20 anos para pagar) será fantástica para a empresa. O problema, alerta Pedro Bittencourt, está em retirar estes valores de futuros pedidos de recursos para obras públicas em outras áreas, principalmente em infraestrutura, por parte da administração estadual. É, neste ponto, que começa um embate político com a bancada do PMDB, que alega que os objetivos deste discurso não são tão republicanos assim. O assunto promete.

 

Disputa

Para os peemedebistas, embora alguns deles tiveram que ser convencidos de que o financiamento torna-se fundamental para o futuro da Celesc, os pessedistas não têm interesse em tocar o assunto porque traria dividendos à futura gestão de Eduardo Pinho Moreira, em 2018, quando Raimundo Colombo renunciar para concorrer ao Senado. Os dedos estão apontados para o projeto do deputado Gelson Merisio, presidente estadual do PSD, ao governo, que, por sua assessoria, avisa que esta versão não procede, muito menos outra de que uma futura privatização da Celesc esteja em sua pauta.

 

A dúvida

A última vez que a privatização de uma estatal entrou no debate pré-eleitoral, no caso a Casan, deu no que deu. Denúncias e delações, no âmbito da Operação Lava Jato, comprometeram biografias com a suspeita de caixa dois, o que ainda será apurado sobre as eleições de 2010 e 2014. Ou alguém não aprendeu a lição ou paga para ver.

    

Ações

Enquanto Leandro Nunes da Silva, representante dos funcionários no Conselho de Administração da estatal, pede um posicionamento do governador sobre o assunto e informa que o finaciamento também será tratado diretamente com os deputados, via sindicato da categoria, a direção da Celesc tem se movimentado nos bastidores. O presidente Cleverson Siewert e os diretores  José Carlos Oneda (Finanças e Relações com Investidores) e Enio Branco (Geração, Transmissão e Novos Negócios) entraram em campo para garantir os recursos que atenderiam também os rígidos parâmetros determinados pela Aneel para a manutenção da Celesc. Oneda e Branco, ligados a Colombo, não teriam sido bem recebidos por caciques do PSD e estenderam os pedidos de ajuda aos demais governistas. Detalhe: a Celesc, que investe de R$ 300 milhões a R$ 350 milhões por ano em manutenção de linhas de transmissão e subestações, utilizará os recursos do BID em melhoria e ampliação de seu parque energético.  

 

No governo

Pedro Bittencourt Neto conversou com Raimundo Colombo por três horas no último domingo. Um dos assuntos foi o financiamento do BID. O presidente do Conselho de Administração saiu com a sensação de que Colombo também teme a perda dos recursos do banco para outras áreas. Porém, nos corredores do Centro Administrativo nem a hipótese de que demandas pessoais do deputado Jean Kuhlmann travaram o projeto são descartadas. O parlamentar nega.   

 

Por falar

Algo que amuderece entre os governadores de Rio Grande do Sul  (José Ivo Sartori, PMDB) e Paraná (Beto Richa, PSDB) é a privatização dos ativos do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Se vendidos, Santa Catarina poderia receber R$ 1,5 bilhão. Lembre-se de que Colombo repete a frase como um mantra: “Privatização é assunto para início de governo!”

 

RAFAEL WIETHORN/DIVULGAÇÃO

NA TELA

Na propaganda partidária na TV, o deputado federal Jorginho Mello dirá que o PR, partido que preside no Estado, foi o que mais ampliou o número de prefeitos, vices e vereadores nas últimas eleições. O partido é o segundo em número de filiações em Santa Catarina, de acordo com o TRE, e isso é importante para Jorginho, que teve o nome lançado como pré-candidato ao governo.

 

Ah, Janot (1)!

Um dos maiores equívocos do procurador-geral da República Rodrigo Janot, admitido por muitos setores do Ministério Público Federal, foi mesmo dar salva-guarda, embora na forma da lei, e livrar os irmãos Wesley e Joesley Batista, da J&F, da prisão em nome do conteúdo bombástico de suas delações premiadas. Agora, prestes a deixar o posto, Janot sai enfraquecido ao mandar investigar os “Freeboys” Batista e outros asseclas justamente pela documentação do que foi delatado por eles, pois falta consistência, e ainda ter que engolir a seco que o ex-procurador da República Marcelo Miller, que assessorou o procurador-geral, pode ter dado vantagens aos executivos da J&F enquanto estava no cargo, antes da exoneração e do trabalho de auxílio às delações, algo que foi objeto inclusive de uma discurso do presidente Michel Temer.

 

Ah, Janot (2)!

A nova denúncia patrocinada por Janot contra Temer virá, mas sem a força que já se antevia. A pressa e o foco exagerado contra o Palácio do Planalto fez o procurador-geral fazer de conta que ignorava que trabalhava com provas produzidas por gente, como os irmãos Batista, que cometeram crimes tão graves quanto os que acusavam na classe política. Janot pode ter uma despedida melancólica e compremeter a relevância da Operação Lava Jato por vaidade extrema.

 

Pois é

Não há dúvida de que os vereadores Afrânio Boppré (PSOL), Lino Peres (PT), Renato Gerske (PSOL), Marcos de Abreu (PSOL), Vanderlei Faria (PDT) e Pedro Silvestre (PP) obtiveram uma vitória contra o presidente da Câmara Guilherme Pereira (PR) e o prefeito Gean Loureiro (PMDB) ao conseguirem um mandado de segurança para que o Legislativo abra as CPIs das festas do aniversário da Capital e dos Resíduos Sólidos. O problema é o de sempre: os vereadores abriram mão do debate no ambiente da Câmara e de suas prerrogativas para provocar a interferência de um outro poder, o Judiciário, pelas mãos do juiz Laudenir Fernando Petroncini, da 3a Vara da Fazenda Pública da Capital. Depois não adianta dizer que a classe política não se entende e é mal vista.

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Roberto Azevedo

Roberto Azevedo
Jornalista com 35 anos de profissão. Foi repórter, editor, chefe de Reportagem, editor-chefe, chefe de Redação, gerente e diretor de Jornalismo na RBS TV (Blumenau e Florianópolis), hoje NSC TV; na TV Record (Florianópolis) e na Rede TV Sul (hoje SCC SBT); comentarista na RIC TV (hoje NDTV) e na Record News; editor de Política e colunista no Diário Catarinense (DC), e colunista no Notícias do Dia (ND). Atuou nas rádios União AM e FM (Blumenau e Florianópolis) e na Rádio Record da Capital. Atualmente, além do Making Of, faz comentários na Rádio Cidade em Dia FM, de Criciúma, e é diretor de Conteúdo na TVBV (Band).
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