Maio 03, 2019

As divas do Cinema – parte II

As divas do Cinema – parte II
Audrey, Brigitte e Sophia (montagem:fashionbubbles)

Como já era esperado teve gente reclamando da ausência de outras divas do cinema na edição da semana passada de Cine&Séries. Afinal, todo mundo tem a sua favorita. Acontece que nem todas tiveram suas histórias retratadas nas telas. A proposta era mostrar aquelas que foram extraordinárias - para o bem ou para o mal - também na vida pessoal e acabaram atraindo o interesse dos roteiristas. Algumas como Marilyn Monroe, talvez a que melhor represente o que é ser uma diva, foram retratadas várias vezes. Outras musas, porém, não viraram filme.

Algumas manifestações : o jornalista Jaime Gargioni relacionou as suas paixões que ficaram fora da lista, Brigitte Bardot, Sophia Loren, Isabella Rosselini, Valentina Cortese, Gina Lollobrígida, Cláudia Cardinale e Sarita Montiel. A francesa Catherine Deneuve foi lembrada por Deborah Matte.  Apesar de ser a maior estrela do cinema francês em atividade, Catherine ainda não teve sua vida contada nas telas. Aliás, a França nos deu a maravilhosa Jeanne Moreau, além de Anouk Aimée, Leslie Caron, Simone Signoret, Michéle Morgan, sem falar nas que vieram na geração seguinte, onde destaco Juliette Binoche. A leitora Samira Razig diz que "é impossível escolher a "Diva das Divas", pois todas são quase divindades femininas". Eu tenho lá minhas preferências, mas também não me arrisco a apontar a nº 01.

É impossível falar de todas, mas continuamos no tema com mais algumas divas nesta 2ª parte de "Como o cinema (re)trata suas divas", apontando seus respectivos filmes ou documentários para quem quer saber mais.

Boa leitura!

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BRIGITTE BARDOT

A francesa Brigitte Bardot ou simplesmente BB, começou sua carreira de modelo aos 15 anos e aos 17 já estreava no cinema. Ela possuía um ar diferente das outras atrizes com seu jeito juvenil e saudável, misto de ninfeta e femme fatale. Em artigo de Luciano Trigo, ele conta que quando," pouco mais que adolescente, BB apareceu nua em E Deus criou a mulher (1956), de seu então marido Roger Vadim, provocou o primeiro de muitos escândalos. Descrita como "a mulher mais livre do pós-guerra na França", Brigitte chamou a atenção da intelectualidade francesa, a ponto de Simone de Beauvoir a definir como "uma locomotiva da história das mulheres". De certa forma, ela foi a garota-propaganda involuntária e acidental de um mundo em transformação, marcado pela liberdade sexual e pela valorização da fama. Pagou seu preço: aos 15 anos tentou pela primeira vez cometer suicídio, ligando o gás e enfiando a cabeça dentro do forno. Tentaria se matar mais uma vez ao descobrir que estava grávida de seu filho Nicholas. Brigitte considerava a gravidez um castigo divino, e por isso não se tem notícia de fotografias suas que a mostrem barriguda. Quando Nicholas nasceu, foi entregue aos cuidados de uma babá. Após a separação, seria criado pelo pai, Jacques Charrier, o segundo dos quatro maridos oficiais da atriz".

Em 1973, aos 39 anos, Brigitte decidiu encerrar a carreira que teve filmes importantes como "O Desprezo", de Jean-Luc Godard, " E Deus criou a mulher", sua marca registrada, e "Viva Maria!", de Louis Malle. Passou a viver reclusa em um casarão em Saint-Tropez, dedicando-se inteiramente à causa de proteção dos animais. Suas poucas declarações desde então já a colocaram em situações difíceis pelo conteúdo racista, xenófobo e homofóbico, uma incoerência com quem foi símbolo de comportamento livre e à frente do seu tempo.

(Clipe de 50anosderock – Canção: Ne Me Laisse Pas L'Aimer – voz:BB)

 

Documentários sobre La Bardot

Para saber mais sobre a diva, hoje com 85 anos, há documentários disponíveis no YouTube. As imagens mostram uma jovem de uma beleza atemporal. Mesmo hoje, BB seria considerada um ícone do estilo moderno e despojado. No vídeo abaixo, as legendas são em espanhol para facilitar a compreensão.

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SOPHIA LOREN

O cinema italiano é tido como aquele que inventou o "divismo". Entre suas maiores estrelas estão Gina Lollobrígida, Cláudia Cardinale, Anna Magnani,  Silvana Mangano, Monica Vitti, Virna Lisi.  Talvez a diva das divas italianas seja Sophia Loren que hoje, aos 84 anos, se mantém bela e elegante. Ela foi a primeira atriz a ganhar o Oscar num filme de língua estrangeira, em 1962, por Duas Mulheres. Ganhou a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes pelo mesmo trabalho.

A família de Sophia passou muitas dificuldades no pós-guerra. A filha mudaria essa condição ao ser descoberta em um concurso de beleza e fazer primeiro trabalho no cinema aos 17 anos. Em 1957, a jovem de 23 anos casou com o importante produtor Carlo Ponti, bem mais velho que ela, com quem viveu até a morte dele em 2007. Durante alguns anos Sophia recusou vários papéis para cuidar dos dois filhos que teve com Carlo e que hoje se dedicam também ao cinema. Ela trabalhou com grandes diretores e fez ótimos filmes como Ontem, Hoje e Amanhã, Um dia muito especial (na foto), Os girassóis da Rússia (todos com Marcelo Mastroianni) e atuou ao lado de grandes nomes do cinema americano, como Marlon Brando ( A condessa de Hong Kong, dirigido por Charles Chaplin), Charlton Heston ( El Cid), John Wayne, Burt Lancaster,Cary Grant...

Uma curiosidade: o nome completo da diva italiana é Sofia Constanza Brígida Villani Scicolone...

 

Sophia Loren: A vida de uma estrela – 1980

Sophia interpreta a ela mesma e também a sua mãe nessa produção da rede de TV americana NBC. Ali ficamos sabendo mais sobre a infância pobre, vivida entre Roma e a Sicília durante a Segunda Guerra Mundial, sobre o pedido de casamento que recebeu do grande astro Cary Grant, a quem Sophia preteriu por Carlo Ponti, seu companheiro da vida inteira. Inspirado no livro 'Sophia: Living and Loving: Her own Story' de Aaron E. Hotchner.

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AVA GARDNER

"Ela é o animal mais belo do mundo"! A definição do poeta e cineasta Jean Cocteau sobre Ava Gardner explica o quão linda era a atriz norte-americana, nascida em 1922, numa fazenda da Carolina do Norte. E lá teria permanecido se seu cunhado não tivesse mandado fotos da jovem para a MGM. O chefão Louis B.Mayer viu a beleza de Ava e resolveu investir, retirando seu sotaque caipira sulista e fazendo com que tivesse aulas de interpretação. Deu certo. Depois de várias "pontas", ela virou a grande Ava Gardner em As Neves de Kilimanjaro, 1952, ao lado de Gregory Peck; fez Mogambo, de John Ford, com Clark Gable e Grace Kelly e A Condessa descalça, com Humprey Bogart.

Durante as filmagens de E agora brilha o sol , 1957, baseado em livro de Ernest Hemingway, Ava resolveu enfrentar um touro furioso que a atacou, deixando-lhe um corte na face, o que a obrigou a fazer uma cirurgia plástica. Ela foi casada com Mickey Rooney, o ator baixinho e mais feio de toda a Hollywood, e com Frank Sinatra, que tentou suicídio quando ela o traiu e resolveu abandoná-lo. Ela adorava a Espanha e recentemente saiu um livro, contando as aventuras amorosas e a vida boêmia de Ava naquele país. Ela gostava de beber e morreu reclusa, em Londres, em 1990, depois de sofrer um AVC aos 67 anos.

 

La noche que no acaba – documentário – TCM

Essa produção do canal de TV TCM acompanha Ava desde que ela chegou ao pequeno povoado de Tossa de Mar, em 1950, para rodar Pandora and the Flying Dutchman, até ela filmar seu último filme, Harém. A atriz passava grandes temporadas na Espanha, onde podia escapar da vida cheia de restrições exigida pelos estúdios de Hollywood. Um dos grandes amores da diva foi o famoso toureiro espanhol Luís Miguel Dominguín, que lhe foi apresentado por Ernest Hemingway. ( Na foto em "A condessa descalça")

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ROMY SCHNEIDER

Nascida numa família de atores austríacos, a austro-francesa, Romy Schneider fez seu primeiro papel no cinema aos 15 anos. Pouco depois encarnou Sissi, a imperatriz da Áustria ( na foto), em uma trilogia que a transformaria numa estrela internacional. O mega sucesso do personagem perseguiu Romy durante muito tempo, pois só lhe ofereciam papéis de figuras doces e angelicais. Enquanto tentava se libertar desse estereótipo, ela amadurecia também na vida pessoal ao conhecer seu grande amor, o ator Alain Delon, com quem filmou Cristina. Uma relação conturbada de idas e vindas que acabou quando ele decidiu se casar com Nathalie Delon. Romy nunca se recuperou da separação. Infeliz no amor, mas realizada na profissão ao ganhar papéis fortes com diretores importantes como Luchino Visconti e Orson Welles. Ela provou ser mais que um rostinho bonito (lindo, aliás...) e que tinha talento. Mas a vida reservava uma tragédia pessoal insuperável: David, seu único filho, morreu aos 14 anos. Quando tentava pular o muro de casa, ele caiu sobre as lanças de metal e perfurou a artéria femoral. Romy, que já abusava de álcool e barbitúricos, se afundou de vez e morreu do coração pouco depois, aos 44 anos.

 

A vida de Romy Schneider - Torsten C. Fischer– 2009

Narra os principais momentos da vida e da carreira da atriz. Na vida adulta, Romy é interpretada por Jessica Schwarz.

 

Três dias em Quiberon – Emily Atef - 2018

Esse filme austro-franco-alemão estreou na França no ano passado e foi exibido no Festival de Berlim. Ele retrata um episódio da vida de Romy Shneider quando em 1981, pouco antes de morrer, deu uma entrevista a um jornalista alemão enquanto recebia tratamento em Quiberon, sul da França. O filme causou a indignação da filha da atriz que rejeitou a imagem da mãe como uma mulher infeliz e dependente química. A produção recebeu vários prêmios, principalmente na Alemanha.

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KATHERINE HEPBURN

Pra começo de conversa, Katherine Hepburn é a atriz com o maior número de Oscars da história do prêmio. Aliás, nenhum ator também conseguiu o feito de conquistar quatro vezes a estatueta de ouro na categoria principal. Diferente das colegas divas dos anos 1930, ela se recusava a usar maquiagem fora das filmagens e, ó, horror!, preferia usar calças compridas a vestidos. Katherine teve um grande drama quando era muito jovem: o suicídio do irmão que ela adorava. Desde então, passou a usar a data de nascimento dele como sua.

Kate começou a atuar no teatro e logo filmou Vítimas do Divórcio, um sucesso que abriu as portas de Hollywood. Em 1934, recebeu sua primeira indicação ao Oscar por Manhã de Glória. Neste ano também teve a ousadia de se divorciar de seu primeiro marido. A partir daí se sabe que ela manteve um romance extraconjugal com o ator Spencer Tracy até a morte dele. Spencer era casado e católico e nunca quis se separar da mulher oficial. Os dois trabalharam juntos em vários filmes, inclusive no último filme dele, o ótimo Adivinhe quem vem para jantar.

Ela continuou trabalhando e permaneceu só até o fim da vida. Aos 74 anos disse:"Eu não vivi como uma mulher. Eu vivi como um homem. Eu fiz tudo o que queria e eu ganhei dinheiro o suficiente para me manter e eu não tenho medo de viver sozinha". A mais brilhante atriz americana da história morreu em 2003, aos 96 anos. 

 

O aviador – Martin Scorsese – 2005

Um episódio da vida de Katherine Hepburn pode ser visto no filme em que Leonardo DiCaprio interpreta o polêmico milionário Howard Hughes, famoso por namorar grandes estrelas.  Hughes e Katherine tiveram um romance, até ela trocá-lo por Spencer Tracy. Reza a lenda que o milionário chegou a comprar fotos comprometedoras de Spencer e Kate para se vingar. No filme de Scorsese, Katherine é vivida pela ótima Cate Blanchet (na foto, as duas).

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O LIVRO QUE VIROU FILME

NATALIE WOOD

Filha de imigrantes russos, ela nasceu em San Francisco, EUA, onde foi batizada como Natasha Nikolaevna Zacharenko-Gurdin. Já aos quatro anos fez um pequeno papel em Happy Land (1943). A família resolveu investir na carreira da menina e se mudou para Los Angeles, onde ela virou simplesmente Natalie Wood. Fez seu segundo filme em 1946, mas o sucesso veio mesmo no ano seguinte com O milagre da rua 34, um filme com tema natalino. A partir daí se tornou uma atriz infantil super ativa, com 18 filmes no currículo. Na vida adulta, Natalie contracenou com James Dean no grande sucesso, Juventude Transviada (1956), sendo indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Cinco anos depois concorreria novamente pelo papel de Maria no musical Amor, sublime amor, mas perdeu para Rita Moreno que atuava no mesmo filme. Para mim, a melhor atuação de Natalie foi em O Clamor do Sexo, filmaço de Elia Kazan, onde ela contracena com Warren Beaty.

Na vida pessoal, a moça de ar meigo não foi feliz. Casou três vezes, duas com o mesmo marido, o ator Robert Wagner ( na foto). Ela estava em companhia dele no seu iate Splendour, em 1981, quando desapareceu durante a noite, supostamente tentando entrar num bote depois de uma briga. Seu corpo surgiu em terra firme na manhã seguinte e as circunstâncias de sua morte nunca foram totalmente esclarecidas. Trinta depois da morte da atriz, o capitão do iate revelou que o casal havia brigado muito depois de beber vinho em excesso e que Robert Wagner não fez questão alguma de procurar a mulher. Natalie Wood tinha 43 anos.

A vida – e principalmente, a morte – de Natalie acabaram inspirando vários livros. Natasha – The biografy of Natalie Wood, de Suzanne Finstad ; Natalie Wood- a Life, de Gavin Lambert e Goodbye Natalie, Goodby Splendour, escrito pela irmã da atriz, Lana Wood.

 

A misteriosa morte de Natalie Wood – 2004 - Peter Bogdanovich –

O telefilme mostra o total controle da mãe, Maria, sobre Natalie. Ela esperava ver a filha famosa no mundo inteiro. Uma cigana tinha previsto o sucesso de Natalie e também que ela deveria evitar a água, pois ali correria um risco mortal. A trajetória de Natalie Wood é narrada de forma dramatizada e também documental, com depoimentos que conviveram com ela.

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EXISTE ALGUÉM PRA CHAMAR DE DIVA HOJE?

ENQUETE

O cinema produziu muitas divas no passado. Já falamos de várias na coluna. Mas e hoje?  Há alguma atriz à altura da denominação? Fiz uma breve enquete no twitter, colocando as opções abaixo ( tinha incluído Julia Roberts e Oprah Winfrey, mas o sistema no tt só aceita 4 alternativas):

1)Angelina Jolie ( 10%)

2)Scarlett Johansson (13%)

3)Meryl Streep (67%)

4) Nenhuma (10%)

E você ? Qual sua favorita ? Responda no rodapé da coluna ( é super fácil se cadastrar no Disqus) ou pelo cineseries@portalmakingof.com.br

(*)Atenção Little Monsters: deixei Lady Gaga de fora porque ela é diva na música mas no cinema recém fez seu primeiro filme.

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Acaba aqui a homenagem às nossas divas. Voltaremos na próxima terça-feira com outro tema.

THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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