Julho 13, 2019

Bate-papo com um dos mais renomados pianistas do país

Bate-papo com um dos mais renomados pianistas do país
Fotos Rudi Bodanese

O catarinense Pablo Rossi, considerado um dos maiores pianistas brasileiros, volta a Florianópolis para um concerto no dia 16.07 no Teatro do CIC e conta com exclusividade à coluna como está a adaptação na nova cidade, Nova York, e os novos projetos

O pianista apareceu para o mundo da música como um prodígio. Lançou seu primeiro CD aos 11 anos, estudou durante cinco anos em um conservatório em Moscou, fez concertos mundo afora e, agora, na flor dos 30 anos, inicia uma nova fase em uma nova cidade, Nova York, para onde se mudou há menos de um ano. 

Natural de São José, Pablo volta ao estado após rodar o mundo para um espetáculo no Teatro do CIC, na próxima terça (16.07), o "Concerto Promenade", em que ele interpreta composições de Beethoven, Chopin, Piazzolla e outros clássicos acompanhado dos músicos da Ensemble Promenade.

Em papo exclusivo para a coluna, ele conta como está a adaptação à Big Apple, os projetos sociais, o que ele aprendeu musicalmente estudando sob o rigor dos russos e detalha também suas manias, gostos e sonhos. "Antes de ser um artista do entretenimento, quero ser um artista do povo, que ajude a promover mudanças", comenta Pablo. 

 

 

Você vai celebrar no show mais de duas décadas de carreira. O que mudou na sua concepção musical dos primeiros trabalhos até agora? Há novas influências musicais e artísticas no seu trabalho e nos estudos?

Eu acho que seria mais fácil dizer o que não mudou, com toda a certeza: minha entrega de corpo e alma para uma das mais belas formas de arte - a música. O artista tem que  se prostrar, como um devoto, diante da sua arte, deixando para o pano de fundo todos aqueles detalhes que são bem menos importantes, como o sucesso, a vaidade etc.

Essa visão de vida sempre foi muito clara para mim e acredito que foi isso que possibilitou o florescimento e desenvolvimento da minha carreira artística. Agora, para não fugir da pergunta, acho que hoje aprendi a fundir aquela naturalidade e liberdade, onipresente no meu modo de tocar desde pequeno, com essa incansável busca pela perfeição, pela beleza estética, pelo ideal filosófico, pela racionalidade que só pode ser irracional na arte!

 

Porque a escolha por morar em NY? Conte um pouco de sua rotina lá e também do relacionamento com o público norte-americano, você faz muitos concertos lá?

Puxa, quando me mudei para Nova York no ano passado não imaginava que seria inundado com tantas novidades e descobertas, tanto cultural como socialmente. Sem contar a experiência eletrizante de morar seis anos em Moscou! Na verdade, era para eu ter já ido parar em NY há alguns anos, porque quando decidir sair do Brasil para continuar minha formação artística eu tive uma oferta de bolsa para estudar na Juilliard School. Na época, essa seria a alternativa mais "cômoda", quase que segura. 

Mas no fim acabei optando pela "fria" Moscou! E não me arrependo nem um pouco, acho que foi a melhor escolha para aquele momento, pois lá tive uma formação acadêmica muito sólida, com muita disciplina, o que me deu uma bagagem incrível e, de certa maneira, representou uma fase importante da minha vida inicial de pianista. Se não fosse pela dedicação pedagógica de duas grandes mestras russas do piano: a professora Olga Kiun, em Curitiba, e a concertista Elisso Virsaladze, em Moscou, não teria chegado até aqui. 

Quando veio finalmente o convite para cursar um segundo mestrado em performance pianística na Mannes School of Music, em Manhattan, sob a orientação de outro grande pianista e pedagogo americano, o professor Jerome Rose, foi como se a minha vida voltasse lá para trás, de volta a essa grande cidade. 

O que mais me surpreendeu em NY foi o pragmatismo do povo americano. Essa característica está presente no dia-a-dia da vida deles. Sem contar que eles são extremamente profissionais e sérios no ambiente de trabalho - eficiência é quase que um mantra! Isso foi muito importante para mim, principalmente para a minha carreira. Eles têm um senso de mercado e promoção artística como ninguém!

Preciso dizer mais alguma coisa? Só para dar um exemplo, em menos de um ano lá já toquei mais de 10 concertos, sendo dois deles em uma das salas de concertos mais celebradas do mundo, o Carnegie Hall. Lá você se sente, de certa maneira, valorizado, reconhecido e isso é muito importante para a auto-estima do artista e para o ego também! 

Bom, eu ainda estou em processo de adaptação (por incrível que pareça!) ao modus operandi americano e nem preciso dizer que o pragmatismo ainda é um dos pontos que ainda não consegui me adaptar na prática...(vide as minhas intermináveis respostas!)

 

Você acaba de ser escolhido para um seleto grupo de personalidades catarinenses históricas, dentro do projeto Pequenos Grandes Talentos. Como é estar entre Cruz e Sousa, Anita Garibaldi e tantos outros talentos catarinenses? 

Fui meio que pego de surpresa, pois é muito gratificante receber esse reconhecimento pelo meu trabalho, especialmente no meu próprio estado, onde tudo começou!

Se por um lado é uma grande honra poder estar junto dessa "turma" de grandes personalidades que tanto contribuíram para a história não só do nosso estado, mas do nosso país, por outro é intimidante, de certa maneira.

Eu considero  que fiz tão pouco pela nossa sociedade e estar nesse rol de grandes cidadãos só me faz ter mais energia para batalhar por novos projetos que possam ter um impacto direto social. Agradeço à Laine Milan (TVi) e ao Anselmo Prada (NSC TV) por terem confiado no meu trabalho e terem dado espaço para a minha história ser contada!


Você já se envolveu com alguns projetos de impacto social certo? Fale mais sobre eles e outros que pretende desenvolver. 

Defendo a ideia de que todo e qualquer artista é um influenciador social e por isso deve promover a sua arte em prol do próximo, buscando sempre difundir os ideais humanistas, que formam as bases da nossa sociedade.

Por isso da importância de transformarmos esse ativismo cultural na essência de toda e qualquer atividade cultural. Sempre procurei, desde o começo da série "Concertos Promenade", atingir o maior número de pessoas, oportunizando a todos o  acesso a cultura de alta qualidade! 

Foi o que sempre fizemos: recitais didáticos nas mais variadas instituições públicas (casas de idosos, hospitais, escolas), concertos beneficentes com renda revertidas para projetos sociais, além da série de concertos didáticos que têm como objetivo incentivar a formação de plateias jovens.

Para mim, o bem-estar social está diretamente ligado ao meu trabalho como músico; antes de ser um artista do entretenimento, quero ser um artista do povo, que ajude a promover mudanças, sejam elas quais forem, na vida de cada um que tenha contato com minha música!

 

Você já tocou nas principais salas de concerto do mundo, viveu a cultura em países com larga história em música erudita. Como é possível desenvolver a "formação de plateias" no Brasil, que não tem essa tradição mais clássica na música? Você tem experiência em outros países latinos, que seriam semelhantes ao Brasil nesse sentido?

Não é só possível desenvolver e incentivar essa cultura da música clássica, mas é necessário que possamos oferecer à nova geração horizontes de pensamento mais amplos, expandindo assim a mente humana de cada jovem ouvinte.

Nada melhor do que a música para atuar como ferramenta nessa "inclusão social" e, por isso, acho muito difícil compararmos outros países com o Brasil, no que diz respeito às questões culturais. 

Precisamos, sim, entender e sentir as nuances de cada centro urbano, compreender as necessidades do nosso público consumidor, enfim, tentar descobrir a essência de cada indivíduo que se predispôs a doar o seu maior bem de consumo: o seu tempo.

Esse é o nosso maior desafio enquanto artistas, de conseguir uma  conexão direta e profunda com a nossa plateia. É essencial ler nas entrelinhas e incorporar cada uma dessas realidades sociais ao nosso trabalho - só assim será possível transmitir a transcendência da arte, que pode mudar a vida das pessoas!

 

O que você espera levar ao público catarinense, da sua terra, com o Concerto Promenade? Fale um pouco do programa e também da possibilidade de termos outras apresentações suas aqui no estado.

Os "Concertos Promenade" já estão há mais de dez anos encantando as plateias de Santa  Catarina, trazendo sempre novas tendências, inovando no seu formato, dinamizando nas apresentações, procurando promover a fusão das diferentes vertentes artísticas e, principalmente, produzindo performances que emocionem o público! Não será diferente no nosso próximo espetáculo do dia 16 de julho, no CIC.

Teremos um programa bastante diversificado, com obras que abrangem diferentes estilos musicais, desde o classicismo de Beethoven, passando pelo romantismo de Chopin e culminando com o dramatismo de Piazzolla.

Para dialogar, teremos projeções de trechos do documentário que conta a minha trajetória desde pequeno ("Pequenos Grandes Talentos"). O episódio na íntegra será transmitido para todo estado pela NSC TV no dia 20, às 14 horas. Tenha certeza que eu serei a pessoa mais realizada da noite, fazendo aquilo que mais tenho prazer na vida: música.

Além de poder dividir o palco com outros talentosíssimos músicos, alguns deles parceiros de longa data, como meu irmão Juan Rossi, violinista, e o amigo "moscovita" Umberto Grillo, violista.

 

Feedback


O que você não fica sem? Arte

Uma mania: Várias! Depois de comer evito ficar sentado, senão fico extremamente incomodado. Ou seja, nada de comer antes dos concertos! 

O que você abomina? Pessoas superficiais (abominar é  uma palavra forte demais!) 

O que você mais admira? Sinceridade

A melhor viagem: Aquela em boa companhia!

Uma palavra: música

Uma frase: "Feliz é quem pode amar!" (Hermann Hesse)

Um lugar no mundo: Aquele que tenha um piano por perto

Uma saudade: dos meus anos em que eu não precisava pensar e me preocupar com outra coisa além de estudar piano!

Um sonho: ver nossos jovens envolvidos cada vez mais com a cultura (música, literatura, cinema, etc..), independentemente da classe social.

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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