Janeiro 03, 2020

Bem mais que dois papas

Bem mais que dois papas
Jonathan Pryce e Anthony Hopkins em Dois Papas

Depois de alguns anos sem filmar, o cineasta brasileiro Fernando Meirelles voltou à direção com o ótimo Dois Papas. A trama: descontente com os rumos da Igreja, o cardeal Jorge Bergóglio tem um encontro com o papa Bento XVI para pedir sua aposentadoria, mas é surpreendido pela notícia da renúncia do próprio pontífice. Opostos na sua visão sobre o papel da Igreja Católica, o alemão e o argentino têm longas conversas, onde Bergóglio acaba convencendo Bento XVI sobre a necessidade da instituição se atualizar em relação a alguns cânones. A desconfiança inicial entre os dois acaba se transformando em camaradagem e admiração mútua, a ponto do renunciante reconhecer que Bergóglio seria o homem ideal para substituí-lo. É o que acaba acontecendo, com o argentino assumindo o papado com o nome de Francisco. Como sabemos, ele tem feito o que propôs, modernizar o Vaticano, mexer na ferida das denúncias de pedofilia nas suas hostes e aproximar a Igreja dos preceitos cristãos de ajuda aos necessitados, como os refugiados.

A descontração do argentino que conta piadas, assiste futebol, dança tango e assovia Abba diante da dureza e formalidade do alemão, acaba rendendo ótimas cenas, costuradas com diálogos primorosos que a gente adoraria saber que são verdadeiros. Ficamos conhecendo mais também sobre a culpa que Jorge carrega por sua atuação ambígua durante a ditadura militar na Argentina. Nesses encontros os dois religiosos abrem o coração um para o outro e Bergóglio percebe a solidão do papa e o sacrifício que o espera caso ele aceite disputar o cargo máximo da Igreja. 80% do tempo só há dois atores em cena, mas que atores! Jonathan Pryce interpreta Francisco e Anthony Hopkins, pra mim em sua melhor interpretação dos últimos anos, vive Bento XVI.

Uma boa notícia: já tendo sido exibido nas salas de cinema, agora Dois Papas está disponível na Netflix, sua produtora original.

Ficou super claro qual é o tema da semana, não? Papas já renderam bons filmes e séries. Selecionei alguns, mas a lista está aberta e você pode acrescentar os seus favoritos.

                                 

FilmIsNow Movie Trailers
 

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AS SANDÁLIAS DO PESCADOR – DIREÇÃO:Michael Anderson – 1968

Convém começar falando de Morris West, o autor do livro que deu origem ao filme, e que escreveu também O advogado do diabo e A Eminência, todos sobre os bastidores da Igreja Católica. Em As Sandálias do Pescador, ele faz quase uma profecia do que aconteceria 10 anos depois: a chegada de um papa não-italiano ao poder. Na realidade o polonês Karol Wojtila, na ficção o ucraniano Kiril Lakota, ex-prisioneiro político da União Soviética, cuja filosofia é minimizar o sofrimento das pessoas. Ele acaba também mediando o conflito nuclear entre China e União Soviética. Lakota é vivido por Anthony Quinn, ao lado de grandes nomes como Laurence Olivier, Vitorio De Sicca e Sir John Gielgud. Apesar de ser uma super produção, o filme só ganhou o B+Globo de Ouro pela melhor trilha sonora original.

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O ESCARLATE E O NEGRO – direção: Jerry London – 1983

Baseado no livro The Scarlet Pimpernel of the Vatican, aqui a figura central não é o papa, mas o Monsenhor Hugh O'Flaherty, um irlandês que se dedica a esconder refugiados e aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Ele monta uma verdadeira rede de pessoas que o ajudam a proteger os fugitivos que não param de bater à sua porta, enquanto o Papa Pio XII mantém uma postura de indiferença diante das perseguições. O`Flaherty realmente existiu e foi condecorado após o final da guerra. Seu intérprete é o carismático Gregory Peck, enquanto o papa Pio XII é vivido pelo inglês John Gielgud. Obs.: Há muita controvérsia sobre a atuação de Pio XII durante o conflito. Biógrafos o colocam como colaboracionista, mas outros dizem que ele agiu contra o nazismo em silêncio.

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O BANHEIRO DO PAPA – direção: Enrique Fernandes e Cesar Charlone – 2007

Gosto muito dessa co-produção Uruguai-Brasil que conta o alvoroço causado pelo anúncio da passagem do papa na cidadezinha de Melo, fronteira entre os dois países, em 1998. Incentivada pelas notícias na imprensa, a população vê na visita papal uma forma de ganhar algum dinheiro vendendo bebida, comida, bandeirinhas, medalhas... Já Beto, um pequeno contrabandista, tem uma ideia diferente: resolve construir el baño del Papa que os turistas vindos de outros lugares para ver sua Santidade pagarão para usar. Pra isso, ele terá que realizar longas e arriscadas viagens até a fronteira onde compra o material, além de enfrentar a contrariedade de sua esposa Carmen e a filha Silvia , que sonha em ser radialista. Não vou dar spoiler sobre o final da história porque o desfecho é fundamental.

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HABEMUS PAPAM – direção: Nanni Moretti – 2012

Nanni Moretti é um dos mais populares nomes do cinema italiano. Aqui ele é responsável pela direção, roteiro e atuação. A trama:após a morte do papa, o conclave do Vaticano se reúne para escolher seu sucessor. Depois de várias votações, enfim há um eleito. Os fiéis, amontoados na Praça de São Pedro, aguardam a primeira aparição do escolhido , mas ele não vem a público por não suportar o peso da responsabilidade. Quer renunciar mesmo antes de assumir. Tentando resolver a crise, os demais cardeais decidem chamar um psicanalista para tratar o novo Papa. Moretti interpreta o psicanalista e o ótimo ator francês Michel Piccoli é o papa. Delícia de filme!

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FORA DE SÉRIE

YOUNG POPE - 2 temporadas – Fox Premium

Quando li a primeira vez sobre a série que traria a história de um jovem papa achei que seria algo leve e "inspirador". Grande engano, o papa interpretado por Jude Law, escolhido aos 47 anos para ser uma marionete das raposas do Vaticano, não tem nada de adorável. Ele carrega os traumas da rejeição materna, da vida no orfanato, tem dúvidas sobre a fé, fuma, é homofóbico e também não é dócil. Então, longe de ser uma série bonitinha, Young Pope é perturbadora.

Não sei se já contei aqui que quase encontrei com Jude Law? Ele estava filmando a série nos estúdios da Cinecittá, em Roma, quando estive lá há alguns anos. Eu não podia fazer plantão na porta do estúdio, mas bem que tive vontade...hahahaha. Naquele dia só consegui ver a desmontagem do cenário de Os 7 odiados, de Quentin Tarantino, que tinha sido filmado em outro set, e o cenário da série Roma. Ah, e pensei ter visto o fantasma de Federico Fellini, um dos meus diretores favoritos, que costumava filmar sempre no lote número 5 da Cineccitá... Um dia conto mais para vocês sobre esse lugar mágico.

Voltando ao Jovem Papa, fiquei surpresa que um assunto tão pouco "palatável" tivesse rendido uma segunda temporada, mas ela voltou e ainda trouxe ninguém menos que John Malcovich para fazer companhia a Jude Law. A direção é do seu criador, Paolo Sorrentino.

A primeira temporada está disponível no canal Fox Premium/Now/Net. Vai encarar?

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ENQUETE : QUAL O MELHOR FILME DE 2019 ?

Uma rápida enquete de C&S no twitter trouxe resultados pouco surpreendentes. Por um esquecimento imperdoável na primeira rodada não incluí Bacurau, assim tentei uma "regra de três" na segunda, mas não sei se fui matematicamente justa. Uma coisa, porém, não mudou de uma pra outra : o vencedor foi o novo malvado favorito do público...

CORINGA – 52%

PARASITA – 29%

BACURAU – 15%

Outros – 4 %

p.s.: Meu favorito, Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, não recebeu votos. 

 

E O SEU QUAL É ? ____________________________________________________________________

Se você responder nos comentários (no rodapé da coluna) ou pelo e-mail bridepoli2@gmail.com pode ganhar um brindezinho...

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Que bello tributo. Grazzie mille!

 

 

Fotos: Divulgação/Reprodução

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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