Fevereiro 12, 2019

Calor, suor e cinema

Calor, suor e cinema
Cena de O Pantâno

Calor do cão, senegalês, tórrido, saárico, canícula, sucursal do inferno...qualquer que seja o clichê que se use para definir este verão ainda não é suficiente. A gente entra no elevador, chega na aula, vai ao médico, entra na loja, conversa com amigos e o papo é sempre o mesmo: "ai, que calor !!!!".

Sim, estamos monotemáticos! Também pudera, as temperaturas nas grandes cidades brasileiras estão batendo todos os recordes desde o início da medição em 1943. E a tal da sensação térmica, então? Chegamos a comemorar quando o termômetro não passa dos 30°.

Seguindo a tendência, adivinhem qual é o tema desta edição ? Acertaram, selecionei alguns filmes que tem o calor como pano de fundo. Ele acaba sendo personagem da história, pois mexe com corpos, necessidades e a própria sanidade mental dos pobres humanos sujeitos a altas temperaturas.

Então, que tal ligar o ventilador ou o ar condicionado e começar da leitura? Gostou, não gostou, faltou? Comente no rodapé da coluna ou pelo e-mail cineseries@portalmakingof.com.br

(*) Tema sugerido pelos amigos Fernando e Suzete.

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FAÇA A COISA CERTA (Do the right thing) – Spike Lee – 1989

O diretor Spike Lee é daqueles que sempre "toca na ferida". Neste primeiro sucesso dele, Lee ambienta a história no Brooklin, uma área pobre com predominância de negros e latinos. É aí que está localizada também a pizzaria de Sal, um ítalo-americano, seus dois filhos e o ajudante interpretado pelo próprio Spike Lee. No dia mais quente do ano Sal (Danny Aiello), um ítalo-americano, é dono de uma pizzaria em Bedford-Stuyvesant, Brooklyn. Com predominância de negros e latinos, é uma das áreas mais pobres de Nova York. Ele é um cara boa praça, que comanda a pizzaria juntamente com Vito (Richard Edson) e Pino (John Turturro), seus filhos, além de ser ajudado por Mookie (Spike Lee). Sal decora seu estabelecimento com fotografias de ídolos ítalo-americanos dos esportes e do cinema, o que desagrada sua freguesia. No dia mais quente do ano, Buggin' Out (Giancarlo Esposito), o ativista local, vai até lá para comer uma fatia de pizza e reclama por não existirem negros na "Parede da Fama". Este incidente trivial é o ponto de partida para um efeito dominó, que não terminará bem.(Sinopse:Adoro Cinema) – veja o trailer

 

CORPOS ARDENTES (Body hot) – Laurence Kasdan – 1981

Um advogado sem talento, uma socialite sexy e um verão tórrido. Dessa combinação nasce uma paixão, sexo ardente e o pedido da amante para que o advogado mate o marido dela, um homem muito rico. Algumas das mais quentes , no duplo sentido, cenas de sexo do cinema. William Hurt e Khatleen Turner ( na foto), no auge de suas belezas, mandam ver. Suspense do bom, clima noir, baseado no filme "Pacto de Sangue, de 1944, do grande diretor Billy Wilder.

 

O VERÃO DE SAM ( Summer of Sam) – Spike Lee – 2000

Olha o Spike Lee de novo aí, gente! No verão de 1977, uma onda de calor e assassinatos em série aterrorizam uma comunidade de Nova York. Autodenominado "Filho de Sam", o criminoso parece morar no local o que gera um clima de paranóia, alimentada pela cobertura da mídia. Os crimes realmente aconteceram e Spike Lee teve que alterar o roteiro a pedido das famílias das vítimas. John Leguizamo e Adrien Brody ( na foto) estão no elenco.

 

BARTON FINK – Delírios de Hollywood – Joel e Ethan Cohen – 1991

A história se passa em Nova York, em 1941, sob um calor infernal. John Turturro ( na foto com Michael Lerner) interpreta Barton Fink, um dramaturgo famoso convidado por Hollywood para escrever o roteiro de um filme B. Trancado num hotel de segunda categoria, Barton tem uma crise criativa e não consegue escrever. Calor, bloqueio profissional e, para completar, um assassinato deixam o escritor à beira da loucura. Barton Fink foi o primeiro filme da história a ganhar os três principais prêmios do Festival de Cannes, sendo que a Palma de Ouro foi uma escolha unânime do júri. Depois disso, os irmãos Cohen não pararam de ganhar prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Filme com "Onde os fracos não tem vez".

 

O CÉU QUE NOS PROTEGE ( The sheltering sky) – Bernardo Bertolucci – 1990

Já falei tantas vezes dele na coluna, né? Mas sou fanzaça desse filme do grande Bertolucci e ele está aqui de novo. A trama se passa após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando um casal americano viaja para a África na companhia de um amigo. Kit e Port querem reencontrar a paixão que os uniu , pois o casamento passa por uma crise de tédio e desencanto. Um acontecimento trágico muda o encaminhamento da história. A partir daí, começa uma longa jornada pelo deserto, com imagens fantásticas e a descoberta interior de um dos personagens. Raras vezes vi cenas de tanta sensualidade envolta em tanta roupas! John Malkovich, com quem tenho algumas divergências, e Debra Winger interpretam o casal. Vale também ler o romance de Paul Bowles que inspirou o filme. Ah, e a trilha sonora do Ryuichi Sakamoto então ?? Espetacular...

 

O PÂNTANO (La Ciénaga)- Lucrecia Martel – 2004

La Ciénaga, o título original, é também o nome de uma cidade argentina conhecida pelas grandes extensões que costumam alagar com a chuva forte e repentina, formando verdadeiros pântanos. Perto dali fica o povoado de Rey Muerto, onde está localizado o sítio La Mandrágora, para onde vão os donos com os filhos e uma prima também com filhos. Em meio a um verão infernal acontecem conflitos familiares e um acidente doméstico muda o roteiro de férias do grupo. Este foi o primeiro filme de Lucrecia Martel, uma das mais prestigiadas diretoras argentinas da atualidade.

 

O REI ESTÁ VIVO ( The king is alive) – Kristian Levring – 2001


Este é um dos filmes do Manifesto Dogma 95, criado por diretores dinamarqueses, e que prega um cinema mais simples, sem artifícios. É desafiador usar apenas câmera na mão, luz natural, sem auxílio nem de trilha sonora. Sabe-se pouco dos personagens de Kristian Levring : são onze turistas brancos, de origem inglesa, francesa e sul-africana, num ônibus dirigido por um chofer negro, que cruza um deserto africano. O veículo sai da rota e , sem gasolina, acaba num vilarejo abandonado. Presos no deserto, o grupo enfrenta fome, calor, desconforto o que acaba gerando conflitos. Um ator sugere montarem a peça Rei Lear, de Shakespeare, para se distraírem.
Não fica claro sobre esse deserto, que pode ser em qualquer lugar da África (nos créditos finais se indicam as locações na Namíbia).

 

VERÃO VIOLENTO ( L´estate violenta) – Valério Zurlini – 1959

Já contei na coluna que gosto muito dos filmes de Valério Zurlini  , para mim o diretor italiano mais subestimado entre os grandes de sua época, Visconti, Rosselini, Pasolini, Antonioni, Fellini... (ô, turma genial !). Ele não apela para recursos fáceis, conta uma história com triste delicadeza, como o meu favorito "A primeira noite de tranqüilidade", com Alain Delon.

"Verão Violento" se passa em 1943. Em plena Segunda Guerra Mundial, jovens ricos e desocupados passam os dias na praia, sem se preocuparem com a turbulência política do país, que assiste aos últimos momentos do regime fascista de Benito Mussolini. Nesse cenário, um desses jovens, Carlo, apaixona-se por Roberta, uma mulher mais velha que perdeu o marido na guerra. Começa um tórrido romance entre eles enquanto a Itália muda para sempre. (Cineplayers). O principal nome do elenco é o do francês Jean-Louis Trintignant, em mais uma bela atuação.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

REPARAÇÃO – Ian McEwan – 2002

Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis vê uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou. (editora: Cia das Letras).

 

FILME: DESEJO E REPARAÇÃO ( Atonement) – Joe Wright – 2008

Os livros do autor inglês Ian McEwan sempre rendem bons filmes, como os recentes A Balada de Adam Henry e Na praia . Não é diferente com Reparação que nas telas brasileiras ganhou o acréscimo da palavra Desejo. O elenco condiz com a história: Keira Knightley, sempre ótima em filmes de época, James McAvoy e a minha queridíssima Vanessa Redgrave.  Filmaço !!

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É COISA NOSSA

ÁRIDO MOVIE – Lírio Ferreira – 2005

Jonas trabalha na cidade como repórter do tempo e precisa viajar ao interior para o enterro do pai, com quem quase não teve contato. No caminho, ele conhece uma cineasta que está produzindo um filme sobre a água na região e se envolve com ela. Atrás dele vai um grupo de amigos doidões, viajando de carro e se metendo em confusões. A diferença entre o "povo da cidade" e o "povo do sertão" é gritante. Ao chegar, Jonas é desafiado até a vingar a morte do pai. Guilherme Weber ( na foto), ator que o interpreta talvez não seja tão conhecido do grande público, mas é super talentoso. O elenco tem nome famosos como Selton Mello, Giulia Gam, José Dumont, Renata Sorrah e Matheus Natchergaele.

Outros: Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas, Amarelo Manga

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CARA DE CINEMA

JENNIFER O´NEILL

Em Houve uma vez um verão ( Summer of 42) o calor não é amaldiçoado. Ele marca as férias de três adolescentes na Ilha de Nentucket, em 1942. Com os hormônios à flor da pele, os garotos buscam novas descobertas. Sob direção de Robert Mulligan, o filme é um dos mais delicados entre centenas que abordam o rito de passagem da adolescência para a maturidade. É Hermie, de 14 anos, quem tem a mais extraordinária experiência ao se apaixonar por Dorothy, uma mulher mais velha, cujo marido foi para guerra. Acaba acontecendo um encontro inusitado, belo e triste entre esses dois seres tão diferentes. Costurando tudo isso está a trilha belíssima do francês Michel Legrand, um dos grandes compositores do cinema, morto há poucas semanas.

A nossa cara de cinema da semana é, claro, Jennifer O`Neill, a Dorothy. Aos 23 anos, este foi seu maior e praticamente único sucesso no cinema. Uma curiosidade: Jennifer nasceu no Rio de Janeiro, em 1948, onde seu pai era adido cultural da embaixada dos EUA. Ela mantém as duas nacionalidades e fala português corretamente.

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Mens@gem para você

De: Rutilandia Costa

"Realmente é muito triste ver como estamos lidando com tantas desgraças ambientais e parecemos cachorros tentando morder o próprio rabo sem chegarmos a lugar algum... porque não tem saida...Tem! Cada um de nós precisa despertar dessa inércia e ver a realidade que vivemos, acabar com a cegueira e encarar o que realmente esta acontecendo com nosso mundo, não só com a nossa realidade mas com esse planeta que nos acolheu. Seres imediatistas que não mensuram o tamanho do estrago que provocam não só aos outros mais no fim a si mesmos! Uma vez eu disse :que planeta queremos deixar para nossos netos viverem? E aí um espírita me respondeu : que planeta quero deixar para quando eu voltar...".

Ruti, muito interessante a ótica espírita sobre o futuro. Talvez se imaginássemos viver para sempre, a gente cuidaria melhor da Terra, já que nosso egoísmo não leva em conta as próximas gerações.
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De: Mário Antonio

Tema muito oportuno. E por falar em oportunidade, há uma semana o presidente estadunidense ironizou via redes sociais o chamado "aquecimento global", por conta da onda de frio que está ocorrendo no seu país, no mesmo ano que se cumprem os 15 de lançamento de um filme B, de 'ficção científica, que além de bom entretenimento, mostra como linha básica do enredo a iminência de uma segunda Era Glacial, devido ao aquecimento do planeta e o consequente derretimento dos polos: "O Dia depois de Amanhã", com
Dennis Quaid.

PS: para evitar quaisquer dúvidas, a referência do cartaz, decerto, é ao 'cult' "O Planeta dos Macacos"...

Bem lembrado! Se uma nova lista trouxer os filmes de ficção sobre o tema, "O dia depois de amanhã" estará nela. "O Planeta dos Macacos", então, mais ainda. O final do original de 1967 é um dos mais impactantes da história do cinema e resume tudo que estamos falando aqui ( O que vocês fizeram???, pergunta horrizado o comandante Taylor/Charlton Heston) . E serviu de base para o cartaz de "The day after tomorrow", como você bem lembrou.

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UFA! E NÃO ESQUEÇA: NOVA EDIÇÃO DA COLUNA TODAS AS TERÇAS-FEIRAS...

 

THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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