Julho 02, 2019

'Caminhar é minha filosofia de vida'

'Caminhar é minha filosofia de vida'

Ela é uma peregrina, e transformou as caminhadas em filosofia de vida. Desde que se aposentou, em 2002, a servidora pública Maria Cirlene Cordioli, formada em Serviço Social, tem dedicado sua vida a andar pelo mundo, descobrindo novas culturas, convivendo com pessoas diferentes e extasiando-se diante das belezas naturais e históricas que encontra pelo caminho. Pode ser uma trilha de poucas horas e de acesso fácil pelas praias de Florianópolis, onde mora. Pode ser o Caminho de Santiago, percorrido em 30 dias na Europa, ou a Trilha Inca, no Peru, completado há poucos dias. De todas as viagens, garante, volta para casa com novos aprendizados.

Cirlene tem 66 anos, e não sabe dizer quantas caminhadas já fez. Foram milhares de quilômetros em pelo menos 10 países. Um grande orgulho foi ter completado a Peregrinação de Shikoku, caminho japonês de 1.200 quilômetros que passa por 88 templos budistas, sendo que em cada um deles o peregrino recebe no seu caderno uma espécie de carimbo feito à mão, na hora, com pincel e nanquim. Esta caminhada é tida como uma jornada para culto e treinamento espiritual e autoconhecimento.

De todas as trilhas e caminhos que já percorreu, se tivesse que escolher o seu preferido seria a Estrada Real, que passa pelas cidades históricas de Minas Gerais (principalmente), Rio de Janeiro e São Paulo. Esta foi a primeira via aberta oficialmente pela Coroa Portuguesa para ligar o litoral fluminense à região produtora de ouro no interior de Minas Gerais, no século 17. Outro local no Brasil que indica é a Serra da Capivara, no sul do Piauí. Qualquer pessoa com o mínimo de preparo físico, diz Cirlene, pode fazer esta trilha. "A historia do homem brasileiro está lá. São 25 mil figuras rupestres, dentro de uma serra belíssima. Nosso país tem muitos lugares lindos", diz.

Vida de caminhante também é feita de perrengues. Sirlene não lembra com muito entusiasmo da trip ao Monte Roraima. Nao foi a trilha ingrime montanha acima que a incomodou. Foi o platô mesmo, lá em cima, a 750 metros do solo. Ela conta que eram tantas pedras, pedregulhos e rachaduras no solo (obrigando as pessoas a pularem de um lado para o outro sobre as fendas) que daquela vez voltou extenuada e estressada. Uma das poucas caminhadas que, garante, não repetiria.

A peregrina nasceu e cresceu em Braço de Norte, Sul catarinense. Uma infância feliz correndo na rua, brincando no mato, rodeada pelos irmãos. Tem espirito livre e aventureiro desde pequena. Filha de agricultores sem muitas posses, teve que se esforçar para passar no vestibular da UFSC para Serviço Social. Durante a faculdade participou duas vezes do Projeto Rondon, que levava jovens universitários para realizar trabalhos sociais comunitários no interior do Brasil.

Depois, já formada, ingressou no serviço público estadual, e só podia viajar nas férias. Foi com a aposentadoria que pode transformar os passeios em peregrinações, algumas com mais de um 30 dias de duração. As caminhadas viraram filosofia de vida. Comemorou sozinha o aniversario de 50 anos fazendo o Caminho de Santiago, o primeiro de todos, e nunca mais parou. "Amei, adorei, me senti um passarinho, livre. Daí não consegui mais parar. Saía de um e ia para outro. E tem sido assim até hoje. Amo a cultura dos povos, a história, a arte, a natureza. Tudo me encanta. Hoje não consigo passar muito tempo se fazer um caminho. Me tornei uma profissional", diz.

Solidariedade, desprendimento e simplicidade são os valores que permeiam a vida dos peregrinos, explica Cirlene. "Você deixa de olhar tanto para o próprio umbigo e aprende a se importar mais com o outro, com o companheiro de caminhada. E a simplicidade porque você vê que é possível viver bem com menos. Nas peregrinações, por exemplo, uma mochila de cinco quilos na costas é mais do que suficiente."

Sirlene é praticante de yoga, fez o curso justamente na época em que começou a caminhar "profissionalmente"' e agrega exercícios de fortalecimento das articulações e das pernas, essenciais para os peregrinos. Caminha na Avenida Beira-Mar ou na areia da praia do Pântano do Sul. Diariamente faz alguma atividade fisica. "Quem quer ser um peregrino tem que deixar o sedentarismo de lado e começar a se exercitar, caso contrario não vai conseguir ir muito longe" alerta.

Ela faz parte da Associação Catarinense dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela, ACACSC, que tem por objetivo principal preparar as pessoas para esta caminhada. Os sócios reúnem-se também para explorar novas trillhas e percorrer outros destinos. Interessados podem fazer contato pelo telefone (48) 30247648.

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Viviane Bevilacqua

Viviane Bevilacqua

Trinta anos de jornalismo diário e predileção por temas ligados ao comportamento humano. Crônicas que falam sobre as relações familiares, educação, saúde e o cotidiano de todos nós, sempre de forma leve e direta, como se fosse um bate-papo entre a jornalista e o leitor.

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