Junho 04, 2019

Cinema, Paz & Amor

Cinema, Paz & Amor

Para alguns parece que foi ontem, mas o mais importante festival de música do século XX está fazendo 50 anos em 2019!  A década de 60 - que se notabilizou pelas mudanças políticas e comportamentais - tem no Festival de Woodstock um símbolo, uma espécie de resumo do movimento que sacudiria o mundo. Da liberdade do corpo e do amor livre, à estética dos cabelos longos, das roupas coloridas e flores no cabelo, o pacote completo esteve presente na pequena cidade de Bethel, EUA. O festival pretendeu afirmar a cultura hippie, cuja base era paz & amor, e protestou contra a Guerra do Vietnã que já durava dez anos. "Faça amor, não faça a guerra" virou um slogan mundial e definitivo.

A previsão inicial de público se mostrou tímida, pois cerca de 400 mil pessoas estiveram em Woodstock, sete vezes mais que o esperado. Essa explosão de gente fez com que os organizadores permitissem o acesso mesmo de quem não tinha ingresso. Por sorte, era ao ar livre, num grande campo, onde sempre cabia mais um... Não havia infraestrutura e uma tempestade transformou o terreno num lodaçal, mas as fotos registram que ninguém pareceu se incomodar com isso. Apesar da multidão, o evento registrou apenas três mortes: uma por apendicite, outra por atropelamento e a terceira por overdose de heroína ( o que se, diga-se de passagem foi pouco porque sexo, drogas e rock and roll foi outra marca da época e de Woodstock).

Aqueles três dias do verão de 1969 entraria para a história como um louvor à contracultura, transformando a música em poderoso instrumento de contestação e mudanças sociais. E a qualidade dos músicos que lá se apresentaram ? Uau ! Foram 32 atrações que incluíam Janis Joplin, Joan Baez, Carlos Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who e Jimi Hendrix. Eu, adolescente, lembro também do impacto que me causaram as apresentações de Joe Cocker com a lendária With a little help from my friends , dos Beatles, e ainda Richie Havens, o cantor negro sem dentes que gritava com sua voz rouca Freedom (sometimes I feel like a motherless child / às vezes me sinto como uma criança sem mãe...).

Infelizmente eu não tinha idade, nem grana para estar lá ao vivo, mas o Cinema, ah, sempre ele...me transportou para essa experiência única, numa época em que os jovem não só achavam, mas tinham certeza que poderiam transformar o planeta num lugar de paz & amor. Acho que não deu muito certo, mas isso já é outra história...Há muitos filmes retratando os anos 60, o movimento hippie e a aura de esperança de viver de forma diferente. Selecionei alguns para esta edição. Agora é só ler a coluna, escolher os filmes e...have a good trip, bicho!

Você pode ver o documentário sobre o Festival de Woodstock aqui

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Sem destino (Easy Rider) –Denis Hooper – 1969

Easy Rider está para o cinema, assim como Woodstock está para a música. O símbolo cinematográfico do movimento hippie virou um cult e também está completando 50 anos este ano. Foi a estreia na direção de Dennis Hopper, que também atua no filme ao lado de Peter Fonda. Ele conta a história de dois rapazes que estão viajando de motocicleta em direção ao sul dos Estados Unidos. Depois de levarem drogas do México a Los Angeles, eles querem chegar em New Orleans a tempo de participar do Mardi Grass, um dos mais famosos carnavais do mundo.

Durante o percurso, a dupla faz uma parada numa comunidade hippie e acaba presa. Lá eles conhecem o jovem advogado George Hanson, vivido por Jack Nicholson, um alcoólatra de boa família que os ajuda. O preconceito com os motoqueiros e seus cabelos longos é grande e a situação pesa para o lado deles. Na vida real, o filme também sofreu discriminação e chegou a ser proibido em dois estados americanos. Jack Nicholson recebeu vários prêmios como melhor ator coadjuvante e Dennis Hopper foi considerado o melhor diretor estreante no Festival de Cannes. Outro ponto marcante de Sem Destino é a trilha sonora que traz alguns dos melhores momentos do rock dos anos 60.

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Zabriskie Point – Michelangelo Antonioni – 1970

O mestre Antonioni também colocou seu olhar sobre o movimento de contracultura. O filme conta a história de Daria e Mark , dois jovens que se conhecem no deserto. Ela é uma estudante de antropologia; ele abandonou a sala de aula e é procurado pela polícia suspeito de ter assassinado um policial em um protesto estudantil. Antonioni vinha do grande sucesso de Blow Up, mas não conseguiu repetir a mesma reação junto à crítica desta vez. Já a trilha sonora arrasou e rendeu o álbum também com título de Zabriskie Point , trazendo Jerry Garcia, Grateful Dead, The Youngbloods, Patti Page, Roscoe Holcomb, John Fahey, Kaleidoscope...

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Jesus Cristo Superstar – Norman Jewison – 1973

Na era do paz&amor quem esteve na berlinda foi aquele que pregou o amor como a coisa mais importante da vida, Jesus. Essa ópera-rock fez enorme sucesso na Broadway e depois virou filme pelas mãos de Norman Jewison. A história dos últimos sete dias de vida de Cristo causou polêmica, pois traz a visão atormentada de Judas Iscariotes sobre os fatos, em um contexto contemporâneo: os soldados romanos possuem metralhadoras e Jesus é uma figura hippie. Além disso, Jesus é próximo demais de Maria Madalena, algo considerada uma blasfêmia. Continua causando polêmica ainda hoje, como demonstraram com as manifestações contra a adaptação da peça no Brasil em 2014.

As canções são do produtor e compositor Andrew Lloyd Weber, considerado um dos melhores do século XX, responsável por sucessos como O Fantasma da Ópera e Evita.

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Godspell – A Esperança - David Greene – 1973

Ainda sou capaz de lembrar, mesmo que vagamente, a alegria que Godspell me causou quando o vi pela primeira vez. Também baseado numa peça da Broadway, mas em produção bem mais simples e barata, o filme mostra uma versão moderna do Evangelho Segunda São Mateus. Na cena inicial alguns moradores param seus afazeres, ao serem chamados para prepararem o caminho do Senhor. Os últimos dias da vida de Jesus são narrados através de parábolas, canções e danças, em plena Nova York. Músicas como Day by Day ficaram na minha memória quando saí do cinema, uma belezinha que acabou ganhando o Oscar de Melhor Canção.

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Hair – Milos Forman – 1979

Na minha memória, Hair não era tão antigo. Parece que faz menos tempo, mas me surpreendo ao ver que já tem 40 anos! Mais um filme baseado em musical de sucesso, mas neste caso com bastante modificações sob direção do húngaro Milos Forman. Há quem não goste, pois acha que perdeu um pouco a mensagem de contestação, mas não é um mau filme. Tudo começa quando um jovem soldado é recrutado para a Guerra do Vietnã. Certo de que deve cumprir seu dever, ele cruza com um grupo de hippies que têm outra maneira de encarar a vida. Conhece também uma jovem aristocrata por quem se apaixona.

As canções são maravilhosas e eternas, como Aquarius e Let the sunshine in.

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Across the universe – Julie Taymor – 2007

Sei que muita gente não gosta de musicais, mas esta belezinha de filme merece uma chance. A história é toda "costurada" com músicas dos Beatles. Os próprios personagens e o título também foram retiradas das canções do grupo inglês.  Sinopse: Década de 60. Jude (Jim Sturgees) e Lucy (Evan Rachel Wood) estão perdidamente apaixonados. Juntamente com um grupo de amigos e músicos eles se envolvem nos movimentos da contracultura de sua época, tendo como guias o dr. Robert (Bono) e o sr. Kite (Eddie Izzard).

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On the Road ( Na estrada) – Walter Salles – 2012

Para mim, Walter Salles é um dos melhores diretores brasileiros em atividade. Depois de nos dar pérolas como Central do Brasil e Diários de Motocicleta, ele encarou talvez seu maior desafio: adaptar para o cinema o livro-ícone da contracultura, escrito por Jack Kerouac, um dos principais nomes da geração beatnik americana. (Sinopse :Adoro Cinema):  Nova York, Estados Unidos. Sal Paradise (Sam Riley) é um aspirante a escritor que acaba de perder o pai. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund) ele é apresentado a um mundo até então desconhecido, onde há bastante liberdade no sexo e no uso de drogas. Logo Sal e Dean se tornam grandes amigos, dividindo a parceria com a jovem Marylou (Kristen Stewart), que é apaixonada por Dean. Os três viajam pelas estradas do interior do país, sempre dispostos a fugir de uma vida monótona e cheia de regras.

Quinze roteiros foram escritos antes desse de Walter Salles e José Rivera ser aceito. Para melhor compreender o universo de Pé na Estrada, Salles resolveu rodar antes um documentário sobre o percurso citado no livro. Desta forma ele e uma pequena equipe percorreram o mesmo caminho, entrevistando pessoas e captando informações sobre a ambientação a ser utilizada no longa.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock: A True Story of a Riot, a Concert and a Life )– autor :Elliot Tiber  -

Aconteceu em Woodstock é uma história real escrita por Elliot Tiber, o homem que levou o festival para a pequena cidade de Bethesdá. Ele conta que tudo aconteceu quase por acaso. Para salvar o hotel dos pais da falência, ele ofereceu o terreno para promover um show de rock e arrecadar dinheiro. Ele só não sabia das proporções que o evento tomaria e chegou a ser hostilizado pelos moradores por possibilitar a invasão de milhares de hippies na sossegada localidade. O livro, divertido e engraçado.

 

Aconteceu em Woodstock – direção: Ang Lee – 2009

O diretor Ang Lee, premiado por O Segredo de Brokeback Mountain, leu o livro, gostou muito e resolveu adaptar para o cinema. Ele não utilizou nenhuma imagem original do festival. Ele se prende mais ao que acontecia na sociedade nos anos 60, quando o evento revolucionário acontecia. Mas juntando o filme sobre do festival em si + Ang Lee, dá pra se tornar um expert em Woodstock.

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Mens@agem para você

Babamos !

Sobre a edição anterior, "Os sem noção e filmes sobre adoção", uma amiga leitora reclama que A estranha vida de Timothy Green não está disponível na Netflix, como a coluna informou. Foi mals, peço desculpas. É que de tempos em tempos o streaming retira filmes do acervo.

 

Obrigada, Jaime Gargioni, pela linda sugestão de tema.

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FORA DA PAUTA

Todos convidados a conhecerem "As Mulheres da minha vida"!

Entre uma coluna e outra escrevi um livro de crônicas que será lançado na próxima sexta-feira, 07/06, das 19h às 21h, na Biblioteca de Arte e Cultura da FCC, no Centro Integrado de Cultura (CIC), Florianópolis. Nele eu falo sobre mulheres que aprendi a admirar ainda muito jovem e que me influenciaram e encantaram em várias áreas, da música à filosofia, do ativismo político à literatura, das artes plásticas ao, claro,...cinema! O pano de fundo tem um pouco a ver com o tema da edição de hoje, pois foi uma época de mudanças e revoluções. Minhas e do mundo.

Apareçam lá !

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Falamos sobre os símbolos do movimento hippie como cabelos longos, roupas coloridas, flores na cabeça, estética psicodélica, LSD, a ideia de amor livre, pé na estrada, liberdade... Um gesto característico que resumia tudo isso: os dois dedos significando não mais a "vitória" dos tempos da guerra, mas algo mais importante : paz&amor, como fez Jimmy Hendrix em Woodstock. Paz e amor pra vocês também!

THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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