Março 20, 2018

Como o cinema vê o cinema

O cinema no cinema

Já mostramos na coluna como o Cinema retrata o jornalismo,  o futebol, a gastronomia, a amizade etc... Mas, como o Cinema vê a si mesmo ? Como ele se coloca nas telas? Com mais “carinho” do que trata os jornalistas ou advogados, por exemplo, muitas vezes caracterizados como profissionais ambiciosos e sem caráter ? Bem, escolhi algumas películas para descobrirmos juntos como é “o cinema no cinema” ou, para usar um “palavrão”, filmes metalinguísticos. Um mote importante nesse assunto é como nós, amantes da sétima arte, somos capazes de nos transportar para dentro da história , como a Cecília que abre a nossa lista... Com vocês, a metalinguagem.

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A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (direção: Woody Allen - 1985)

Um dos meus filmes favoritos do Woody Allen. Ele fez vários falando dos bastidores, da arte de filmar, homenageando seu diretor ídolo, Ingmar Bergman...mas em “A Rosa Púrpura do Cairo”, Allen mostra o encantamento e a ilusão do Cinema. A polêmica ex-mulher do diretor, Mia Farow, interpreta Cecília, uma garçonete que vive um casamento fracassado e encontra nas telas a fuga para sua vidinha medíocre. No escurinho da sala, ela saboreia o glamour e a fantasia com o personagem/ator (Jeff Daniels) que “sai da tela”. O filme gerou até a denominação “ Complexo de Cecília” ( o meu, já contei aqui, é Sean Connery interpretando Mark Ruthland em “Marnie – Confissões de uma Ladra”, de Alfred Hitchcock).

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CREPÚSCULO DOS DEUSES ( direção: Billy Wilder – 1950- p&b)

Não dá pra deixar esse classicão de fora quando o assunto é bastidores do cinema. Glória Swanson é Norma Desmond, antiga estrela do cinema mudo, que não se conforma em não ser mais a rainha das telas. Norma vive numa bolha irreal e contrata um jovem escritor endividado( William Holden) para reescrever um roteiro. Ele se muda para a mansão da ex-estrela e pensa que vai se dar bem. Pensa.

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CINEMA PARADISO ( direção:Giuseppe Tornatore – 1990)

Um dos filmes mais amados do planeta. Toto, o menino de uma cidadezinha italiana, descobre e se apaixona pelo cinema. Ele faz amizade com Alfredo, o projecionista local. Já adulto e cineasta famoso, Toto volta à aldeia e procura pelo velho amigo, enquanto relembra sua infância de encantamento diante da tela.

O filme, estrelado por Phillipe Noiret como Alfredo, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro e Prêmio do Júri em Cannes.

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SPLENDOR ( direção: Ettore Scola- 1989)

Embora não ache “Splendor” o seu melhor trabalho, Ettore Scola é um dos meus diretores italianos mais queridos. Ele dirigiu “Feios, sujos e malvados”, “Um dia muito Especial”, “Nós que nos amávamos tanto” e o extraordinário “ O Baile”, todo contado em dança e música. Há muitos pontos em comum entre o filme de Scola e “Cinema Paradiso”. “Splendor” é um velho cinema, onde o dono vivido por Marcello Mastroiani se vê diante da necessidade de vender a sala que já não se sustenta.Comovente, bela música. A produção é franco-italiana.

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BOOGIE NIGHTS ( direção : Paul Thomas Anderson – 1998)

O mote dessa comédia dramática  é o cinema pornô. Mark Whalberg é um garçom que vira ator de filmes pornográficos ao ser descoberto por Jack Horner ( Burt Reynolds). Ele vira Dirk Digller, ganha dinheiro e tudo o que costuma vir junto com uma fama tão repentina, drogas e decadência. “Boogie Mights-Prazer sem limites” alavancou a carreira de Mark Whalberg, hoje um dos atores mais bem pagos de Hollywood. Mas em um encontro com jovens cristãos o ator disse que se arrependia e esperava que Deus o perdoasse por ter vivido Dirk Diggler. Se estava brincando, ninguém sabe...

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ED WOOD ( direção: Tim Burton – 1994)

Um dos “n” filmes que Tim Burton filmou com seu alter ego, o ator Johnny Depp. Ele interpreta Ed Wood, considerado o pior diretor de todos os tempos. Sem recursos, Wood inventava de tudo para conseguir filmar. O filme de Tim Burton deu ao veterano Martin Landau um Oscar de melhor coadjuvante, vivendo outro ator real , Bela Lugosi, em fim de carreira.

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O ARTISTA ( direção: Michel Hazanavicius – 2012)

Essa produção francesa dividiu opiniões quando ganhou o Oscar de Melhor Filme e Melhor Ator, mas é uma história criativa, feita em preto&branco que tem tudo a ver com a temática desta edição. Jean Dujardin levou a estatueta de melhor ator, mas depois de “O Artista” nunca gostei dele em outro papel.

“Na história, George Valentin (Jean Dujardin) é um astro do cinema mudo. Veterano, engraçado e extremamente vaidoso, tem certeza de que as pessoas sentam nas salas escuras para vê-lo e não o filme. Quando a indústria cinematográfica vira os olhos (e os ouvidos) para o cinema falado, sua vida vira do avesso. Tudo porque a jovem atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo), que ele apoiou e acabou apaixonado, torna-se uma estrela requisitada e rica. Teimoso, resolve bancar uma produção muda para provar sua teoria, porém o som e a ausência dele, foram implacáveis. Em decadência, o artista precisa rever seus conceitos, mas o orgulho o impede de entender que o tempo não para.(sinopse: Adoro Cinema)”

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Outros tantos: “ A Noite Americana” ( François Truffaut), “Cantando na Chuva”, com Gene Kelly, “ Oito e Meio”, do Federico Maravilhoso Fellini, “Super 8”, produzido por Steven Spielberg, “ Os Sonhadores”, de outro grande diretor italiano – Bernardo Bertolucci -, “ Sete dias com Marilyn”, sobre um período da vida da deusa MMonroe, “ Lembranças de Hollywood”, com Meryl Streep, “O Nome do Jogo”, com John Travolta, “Hitchcock”, sobre o talentoso e cruel diretor, “ A Garota”, também sobre as filmagens de “Os Pássaros” de Hitchcock,  e... (coloque os seus).

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FORA DE SÉRIE

ENTOURAGE – FAMA E AMIZADE ( EUA - 8 temporadas-HBO)

Não foi fácil achar uma série sobre os bastidores de Hollywood, mas depois lembrei dessa comédia que reúne um ator, seu irmão maluquete e amigos que formam a entourage do título.

Vincent Chase ( Adrian Granier)vira um astro de cinema da noite pro dia e seus amigos do antigo bairro se juntam a ele para ajudá-lo na nova vida. A série é baseada na história de Mark Wahlberg (olha ele aí, de novo!) um dos maiores cachês de Hollywood atualmente. O próprio Wahlberg é um dos produtores de “Entourage”.

A série não “pega pesado” com o sistema, mas mostra as habituais picuinhas, inveja, frustrações, bajulações do meio artístico. Sem falar no medo eterno de fracassar a qualquer momento. No meio disso tudo, há as aventuras amorosas do galã - e dos amigos que conseguem se dar bem, graças à proximidade com alguém famoso. Não sei por que lembrei agora de Neymar!

 Para mim um dos personagens mais interessantes de “Entourage” é o empresário  do astro, Ari Gold , interpretado maravilhosamente pelo ator Jeremy Piven. Estressado, sendo obrigado pela mulher a fazer terapia de casal, enfrentando a concorrência e a vaidade dos clientes famosos...Ari é a cara de Hollywood.

Pode não ser completa, mas dá para se ter um visão dos bastidores da bilionária indústria cinematográfica.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET – O LIVRO( Brian Selznick – 2007)

Em 1931, o menino órfão Hugo Cabret vive escondido em uma estação de trem de Paris. Ali, ele cuida do funcionamento de gigantescos relógios no lugar do tio que desapareceu. À noite, tenta consertar uma máquina de aparência humana para desvendar uma mensagem oculta, usando peças de brinquedos que ele furta. Seus planos, porém, correm risco. Ele é descoberto pelo dono da loja de brinquedos da estação e pela curiosa Isabelle. Essa obra-prima aclamada pela crítica mundial mistura elementos do cinema e dos quadrinhos para contar uma história sobre os primórdios do cinema, a vontade de criar vida e a aventura da imaginação. (Resenha oficial).

Selznick escreveu o livro para homenagear um dos pioneiros do cinema, George Méliès (1861-1938), famoso mágico ilusionista  que virou o “pai dos efeitos especiais” depois de ganhar o protótipo de uma câmera cinematográfica. Méliès fez 555 filmes, sendo o mais importante  "Uma Viagem à Lua" (1902), baseado nas obras de Júlio Verne e H.G. Wells.

O FILME

Martin Scorsese fez uma bela adaptação da obra de Selznick para as telas. Reza a lenda que ele foi instigado pela esposa a fazer um filme que a filha deles, de 12 anos, visse e admirasse ( Scorsese é famoso por seus filmes de gangster beeem adultos). Assim nasceu “ A Invenção de Hugo Cabret”, um misto de fantasia, ação, aventura, drama, ficção científica... Essa foi a primeira película de Scorsese em 3 D, elogiada até por James Cameron, que usou a nova tecnologia em “Avatar”.

O filme ganhou vários Oscars técnicos: fotografia , efeitos visuais, edição de som e direção de arte. Scorsese ganhou o Globo de Ouro como melhor diretor, mas no Oscar perdeu como melhor filme e direção para “ O Artista”, por coincidência, ambos homenageando o Cinema.

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É COISA NOSSA

SANEAMENTO BÁSICO- O FILME ( direção: Jorge Furtado – 2007)

Atrás do nome estranho dessa comédia brasileira se esconde muita coisa interessante. O diretor Jorge Furtado é conhecido por sua linguagem inovadora nos curtas “ O dia que Dorival encarou a guarda”e “ Ilha das Flores” e ainda em “O Homem que copiava”, “Meu tio matou um cara” e “Mercado de Notícias”.

A sinopse de “Saneamento Básico” é da Casa de Cinema, de Porto Alegre, da qual Furtado faz parte: “Na pequena Linha Cristal, a comunidade se mobiliza para construir uma fossa no arroio e acabar com o mau cheiro. Marina, a líder do movimento, descobre que a Prefeitura este ano só tem verba para produzir um vídeo de ficção. Então ela e seu marido Joaquim resolvem filmar a história de um monstro que surge no meio das obras de saneamento. Marina escreve um roteiro, Joaquim faz uma fantasia. Silene aceita ser atriz, Fabrício tem uma câmara. Aos poucos, as filmagens vão envolvendo todos os moradores do local “.

O filme dentro do filme se chama “ O Monstro da Fossa”.  O elenco é de primeiríssima :Fernanda Torres ,Wagner Moura ,Camila Pitanga , Lázaro Ramos e Tonico Pereira.

Se você ainda não viu, divirta-se e reflita com essa declaração de amor ao cinema. “ Saneamento Básico” está disponível na Netflix.

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EM CARTAZ

C&S  indica os bons filmes com entradas gratuitas em Florianópolis

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CIC- Centro Integrado de Cultura / FCC- Fund. Catarinense de Cultura

 22 /03 - 19h30, 20h e 20h30 (3 sessões)

Almofada de Penas ( pré-estréia)

Direção:Joseph Specker Nys – 12 minutos – Brasil – classificação:10 anos

Sinopse oficial: Logo após sua lua de mel, Alicia contrai uma doença inexplicável, enquanto seu marido Jordão presencia tudo de modo indiferente. Algo oculto a está enlouquecendo. A doença faz a jovem mulher mesclar a realidade com alucinações monstruosas.

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Dia 23, 24 e 25 de Março de 2018 às 20h

A Visitante Francesa

Direção: Sang-soo Hong - País: Coréia do Sul - Classificação: 14 anos

Sinopse oficial: Uma jovem instala-se com a mãe numa pensão em Mohang, uma cidade costeira da Coreia do Sul. Para passar o tempo e, quem sabe, fazer algum dinheiro que as salve da ruína econômica em que estão mergulhadas, decide escrever o argumento para uma curta-metragem. A história segue três francesas (todas interpretadas por Isabelle Huppert) que ali chegam como turistas. Cada uma tem as suas motivações pessoais, mas todas se alojam na mesma pensão, conhecem as mesmas pessoas e têm uma ligação com o atraente salva-vidas que ali trabalha.

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Dia 24/03 – 16 horas

Cineclube Infantil  - Sessão de longa-metragem internacional -CIC

Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar (de Hayao Miyazaki, animação, Japão, 2008, 101 min)

Oficial oficial :Ponyo é uma princesa peixe dourado, que, acidentalmente, sai do mar e se torna amiga de um menino. Ela acaba se transformando numa menina. Para não voltar a ser peixe, ela precisa encontrar o amor. Mas sua presença na Terra pode causar drásticas mudanças no ambiente.

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HASTA LA VISTA, BABY

Frases de Cinema

As lições de Alfred para o jovem Toto (Cinema Paradiso-1988)

"O que quer que você faça, ame o que faz, como você amava a cabine do Paradiso quando era criança."

“A vida não é como se você viu nos filmes, a vida é mais difícil. Vá embora. Eu não quero mais te ouvir, eu só quero ouvir falar sobre você.”

“Mais cedo ou mais tarde, chega um momento em que falar e ficar quieto é a mesma coisa.”


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Sobre a colunista:

Brígida De Poli é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinem, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

Contato: cineseries@portalmakingof.com.br

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Mark Wahlberg rindo à toa por ter sido citado duas vezes na coluna...

THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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