Maio 16, 2019

Crianças invisíveis

Crianças invisíveis
Cena de Cafarnaum

Este talvez seja o tema mais triste que se pode abordar: a infância perdida, abandonada, maltratada... Quando olhamos a forma com que estamos tratando nossas crianças fica difícil não perder a fé na humanidade. Se o Homem não cuida de suas próprias crias, não protege o que cresce, então, nossa honra está perdida. Foi isso que o poeta Tejada Gomez escreveu em "Hay um niño em la calle", poema depois musicado e cantado pela incrível Mercedes Sosa: É honra do Homem proteger o que cresce, cuidar para que não haja infância perdida nas ruas (...) De outro modo é inútil, de outro modo é absurdo ensaiar na terra a alegria e o canto, porque de nada vale se há uma criança na rua (...).E exatamente nesta hora, há uma criança na rua. Há milhões de crianças nas ruas, nos orfanatos e campos de refugiados pelo mundo.

A inspiração desta edição veio do caso do menino sírio Radwan Hassan, surdo pelos bombardeios na cidade de Raqqa, aos três anos, e que hoje vive num campo de refugiados no Líbano. Quem acompanha a coluna deve lembrar que pedi ajuda, através do site Vakinha, para compra de um aparelho de surdez e tratamento para ele. A empresa suíça Hear the World acabou doando o aparelho e o valor arrecadado na Vakinha pagou as pilhas por um ano, as consultas com a fonoaudióloga, o transporte até a clínica e uma máquina de lavar roupa para a mãe de Radwan, que é faxineira no campo de refugiados onde vive com os cinco filhos. Bruna Kladetz, coordenadora da Círculos de Hospitalidade, entidade de apoio a refugiados e imigrantes em Santa Catarina, esteve em Beirute para levar a ajuda e viu de perto a difícil situação da família de Radwan. Agradecemos do fundo do coração a todos que se solidarizaram e contribuíram para o menino voltar a ouvir e poder frequentar a escola. Radwan também agradece. Olhem ele na foto, experimentando o aparelho. Não dá uma alegria na gente?

Voltando ao cinema e a outros Radwans reais que existem por aí, selecionei filmes que mostram o drama da infância desassistida em várias partes do mundo. Espero que essas histórias nos ajudem a conhecer, refletir e a entender nossa responsabilidade com o futuro desses meninos e meninas. É uma questão de honra. Boa leitura.

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CRIANÇAS INVISÍVEIS– Ridley Scott, Spike Lee, John Woo... – 2005

Sete grandes diretores dirigiram cada um o seu curta-metragem, mostrando o sofrimento de crianças em várias partes do mundo: Brasil, Itália, Inglaterra, Sérvia, Chinas, Estados Unidos e Burkina Faso. Eles trabalharam de graça e parte da renda foi doada para a Unicef e o Programa Mundial contra a Fome. A história brasileira, dirigida por Kátia Lund, retrata as crianças coletoras de sucata em São Paulo.

Disponível grátis no YouTube

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CAFARNAUM (Caos) – Nadine Labaki – 2019

A diretora libanesa é contundente ao mostrar o drama de Zain, um menino de 12 anos, que entra na Justiça contra os próprios pais. Motivo da ação: eles o terem colocado no mundo. Até chegar a isso, o garoto viu sua irmã favorita – mal saindo da infância - ser obrigada a casar com um homem mais velho e as conseqüências disso. Filho de pais negligentes e que não param de ter filhos, Zain rola pela cidade e ainda se depara com outro drama envolvendo uma refugiada e seu bebê. Zain Al Rafeea, o garoto que interpreta o protagonista é responsável por metade do bom resultado do filme. Ele é convincente, comovente e poderia dar aula de atuação a muito ator adulto famoso. Cafarnaum levou o Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes de 2018 e só não levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro porque topou com o "arrasa quarteirão" mexicano, Roma.

Disponível no Now/Net - pago

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BEASTS OF NO NATION – Cary Fukunaga – 2015

Primeiro filme original na história da Netflix, o filme vai por outro caminho bem diferente de Cafarnaum para mostrar o drama das crianças em países em conflito. Agu é um garoto obrigado a lutar na guerra civil da África do Sul, depois do assassinato do pai. O pequeno soldado é liderado por um comandante paternal e cruel ao mesmo tempo. O papel terrível coube ao ótimo Idris Elba. Aos poucos o filme vai mostrando a transformação do garoto que vivia numa família bem estruturada, em um jovem amadurecido à força capaz de qualquer coisa para sobreviver.

Disponível na Netflix

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FILHOS DO PARAÍSO – Majid Majidi – Irã – 1998

Ali, de nove anos, e Zahra, de seis, pertencem a uma família humilde de Teerã. Um dia, Ali leva o único par de sapatos da menina ao sapateiro e na volta, os perde. Para não contar aos pais, ele faz um acordo com a irmã para revezarem o velho par de tênis dele na hora de irem à escola. Pela manhã, é Zahra quem usa o calçado, à tarde é Ali. A preocupação dele é a de resolver logo o problema. Uma competição entre escolas em que o prêmio para o terceiro é um par de sapatos parece ser sua salvação. Mesmo com seus tênis em frangalhos, Ali corre muito para conquistar os sapatinhos da irmã...

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INDOMÁVEL SONHADORA - Benh Zeitlin, EUA, 2013

Hushpuppy, uma menina de seis anos de idade , vive em uma comunidade miserável isolada às margens de um rio. Seu pai está muito doente e, para piorar a situação, pai e filha precisam lidar com as consequências trazidas por uma forte tempestade, que inunda toda a comunidade. Vivendo em um barco, eles encontram alguns amigos que os ajudam. Entretanto, o pai vê como única saída explodir a barragem de uma represa próxima, o que faria com que a água baixasse rapidamente e a situação voltasse a ser como era antes. (sinopse oficial).

Indomável sonhoradora concorreu ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz, Diretor e Roteiro Adaptado.

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TARTARUGAS PODEM VOAR  - Bahman Ghobadi – 2005

Esta produção Irã-Iraque retrata os moradores de uma vila de curdos no Iraque, na fronteira entre o Irã e a Turquia e pouco antes do ataque americano contra o país, buscando desesperadamente uma antena parabólica para ver notícias via satélite. As crianças que parecem como refugiadas na história eram realmente refugiadas na vida real. Elas "garimpavam" minas terrestres para vender. Foi o primeiro filme realizado depois da morte de Sadam Hussein.

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A FEITICEIRA DA GUERRA - Kim Nguyen – 2012

A jovem Komona está grávida. Ela conta ao seu filho, ainda no ventre, sua história de vida. Esta garota participou da guerra dos rebeldes em um país da África Central, tendo como único apoio a presença do Mágico, um garoto de 15 anos que sonha em se casar com ela. Ao longo dos meses passados juntos, Komona e o Mágico se apaixonam, e fogem para viverem juntos o mesmo amor e o mesmo ideal de resistência diante da guerra. (Sinopse:Adoro cinema)

A Feiticeira da Guerra recebeu uma menção especial do júri ecumênico no Festival de Berlim em 2012 e foi pré-indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Foi também selecionado nos festivais de Vancouver, Tribeca e Cambridge.

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É COISA NOSSA

O CONTADOR DE HISTÓRIAS – Luiz Villaça - 2009

O filme mostra a história real de Roberto Carlos Ramos, pedagogo mineiro e um dos maiores nomes da educação infantil e contador de história da atualidade. Nos anos 70, ele foi deixado numa instituição para menores pela própria mãe. Escapando do destino habitual nesses casos, aos 13 anos conheceu a psicóloga francesa Margherit Duvas, o que mudou sua vida. No Brasil para uma pesquisa, Margherit acabou adotando o garoto analfabeto e provando que é possível reverter o que parece sem solução. Roberto ( na foto, ao lado do cartaz) aparece dando um depoimento no final do filme.

A portuguesa Maria de Medeiros interpreta Margherit Duvas  e  Chico Diaz levou o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel de Camelô.

Disponível grátis no YouTube

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FORA DA PAUTA

Lembrando que de 14/05 a 25/05 acontece a 72ª edição do Festival de Cannes, o mais prestigiado dos festivais de cinema. Assinalei os dois concorrentes que têm minha torcida.

- "The Dead Don't Die", de Jim Jarmusch (Estados Unidos), na abertura

- "Dolor y gloria", de Pedro Almodóvar (Espanha)

- "O traidor", de Marco Bellocchio (Itália)

- "The Wild Goose Lake", de Diao Yinan (China)

- "Parasite", de Bong Joon Ho (Coreia do Sul)

- "Le jeune Ahmed", de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica)

- "Roubaix, une lumière", de Arnaud Desplechin (França)

- "Atlantic", de Mati Diop (França/Senegal)

- "Matthias & Maxime" de Xavier Dolan (Canadá)

- "Little Joe", de Jessica Hausner (Áustria)

- "Sorry we missed you", de Ken Loach (Grã-Bretanha)

- "Les Misérables", de Ladj Ly (França)

- "A hidden life", de Terrence Malick (Estados Unidos)

- "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Brasil)

- "The Gomera" (The Whistlers), de Corneliu Porumboiu (Romênia)

- "Frankie", de Ira Sachs (Estados Unidos)

- "Portrait de la jeune fille en feu", de Céline Sciamma (França)

- "It must be heaven", do palestino Elia Suleiman

- "Sibyl", de Justine Triet (França)

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Goodbye, Doris Day

Coluna fechada, mas não dava para deixar passar em branco a morte de Doris Day, que merecia ter estado na nossa lista de divas (sorry)! Doris brilhou em comédias românticas, muitas ao lado do galã Rock Hudson, nas décadas de 50 e 60. Seus papéis ingênuos e familiares renderam a ela o apelido de "Namoradinha da América" e a "Eterna Virgem". Mas Doris tinha talento, além de atuar, cantava bem. Chegou a trabalhar com Alfred Hitchcock em O Homem que sabia demais. Atualmente se dedicava à fundação de proteção aos animais que leva seu nome. Doris partiu na terça-feira, 13, aos 97 anos.

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É honra do homem proteger o que cresce, se não tudo está perdido ( T.Gomez).


Foto: UNICEF/UN0188813/Njiokiktjien


THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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