Agosto 23, 2019

Dona Solange, o retorno?

Dona Solange, o retorno?

Lendo as notícias sobre os vetos presidenciais a projetos já aprovados pela Ancine- Agência Nacional do Cinema por tratarem de temas LGBT e raciais, lembrei da série da HBO que já recomendei aqui na coluna em outras ocasiões: Magnífica 70. Ela mostra em detalhes como era produzir cinema durante a ditadura militar no Brasil. A Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) era o órgão de censura oficial e atuou entre 1972 e 1988. Subordinada ao Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça, ela tinha poderes para aprovar ou recusar conteúdos de comunicação, jornais, telenovelas e manifestações de arte, como o cinema, a música e a literatura. Os funcionários da DCDP emitiam um laudo, carimbavam a terrível palavra "vetado", e fim de conversa. De 1981 a 1984, a divisão foi chefiada por Solange Hernandes, considerada a mais rígida e autoritária de todos que passaram pelo cargo. Mesmo já ao final do regime militar, ela ainda ordenava aos subordinados mais rigor na análise das letras de música e dos filmes. Sua assinatura aparecia antes de programas de televisão e seu nome virou até letra de música do cantor Léo Jaime. Eu tinha tanto para dizer / Metade eu tive de esquecer / E quando eu tento escrever / Sou imagem vem me interromper / Eu tento me esparramar / E você quer me esconder / Eu já não posso nem cantar / Meus dentes rangem por você / Solange, Solange, Solange.

Dona Solange virou pop, mas a simples menção de seu nome fazia tremer os artistas brasileiros. Eles passaram a depender dos gostos pessoais e dos humores da poderosa chefe da Divisão de Censura. Segundo os arquivos, 1.168 músicas foram vetadas. Às vezes, anos de investimento numa obra poderia ir por água abaixo com a tesoura fatídica. Os motivos apresentados para censurar um filme eram os mais esdrúxulos, mas "manter a moral e os bons costumes" tinha um peso forte. Além das produções nacionais, o carimbo agia também contra filmes estrangeiros considerados subversivos política ou moralmente. Cinéfilos e críticos de cinema chegavam a viajar para outro país para ver determinada película, como aconteceu com Je vous salue, Marie, proibido no Brasil e exibido no Uruguai.

Acho que já ficou claro porque me lembrei de Dona Solange, não? Inspirada no assunto selecionei alguns filmes censurados, integral ou parcialmente, durante os anos de chumbo no Brasil. Conto um pouco também para quem é mais jovem ou menos informado alguns episódios daqueles tempos que, espero, não voltem nunca mais. Vade retro, pé de pato, mangalô três vezes... Se vocês tem alguma história para contar, escrevam. Boa leitura.

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FORA DE SÉRIE

MAGNÍFICA 70 – 3 temporadas - HBO

Aqui está outra vez uma das melhores séries brasileiras - produzida com o selo de qualidade da HBO- Magnífica 70  mostra como censura do regime militar impactou o cinema nacional. Ela explica como funcionava a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) que determinava o que o público podia ver, ler ou ouvir, mas nem de longe a série é didática ou chata.  A trama é ambientada na Boca do Lixo, nome informal dado à região da Luz no centro de São Paulo, onde produtoras cinematográficas passaram a dividir espaço com prostitutas e criminosos nos anos 70.  Ali eram filmadas as pornochanchadas, filmes de gosto duvidoso, com muito sexo e atores desconhecidos.  Seja como for, ajudaram a manter o emprego de técnicos, produtores e diretores naquele período.

Na série, "Magnífica" é o nome de uma produtora da Boca , responsável pelo filme "A Devassa da Estudante".  A história : Vicente (Marcos Winter) trabalha como censor do governo, apadrinhado por ser casado com a filha de um general (Paulo César Pereio). Ao avaliar o filme, ele percebe a semelhança entre o personagem da protagonista, Dora Dumar ( Simone Spoladore ) e sua cunhada já falecida, Angela, por quem sentia forte atração. Vicente veta o filme. Quando o produtor da película e Dora vão até o prédio da Censura apelar contra a proibição, ele fica fascinado pela atriz e decide ajudá-los a liberar "A Devassa da Estudante".  Daí pra frente, visitando a Magnífica, Vicente vai se apaixonando pela arte de fazer cinema. 

O elenco é ótimo e a cenografia nos leva de volta aos anos 70. Claro, não é uma série leve ou bonitinha, é para adultos. Afinal, Magnífica 70 fala de crimes, traição, incesto, tortura, perseguições e tudo o que envolveu aquele período.

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ALGUNS FILMES CENSURADOS

PRA FRENTE BRASIL – Roberto Farias – 1982

Em abril de 1982, quando faltavam duas semanas para o lançamento do filme, Dona Solange Hernandes decidiu vetar sua exibição. A história de um homem comum confundido com um terrorista, que é preso, torturado e morto, interpretado por Reginaldo Faria, não agradou aos militares. Celso Amorim, então diretor-geral da Embrafilme, demitiu-se do cargo. A estatal era co-produtora do filme e impediu a exibição de Pra frente Brasil no Festival de Cannes. Só oito meses depois o filme foi liberado sem cortes.

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O BANDIDO DA LUZ VERMELHA – Rogério Sganzerla  - 1968

Livremente inspirado no caso de João Acácio Pereira da Costa, o filme mostra um assaltante misterioso (Paulo Villaça) que usa técnicas extravagantes para roubar casas luxuosas de São Paulo. Ele é apelidado pela imprensa de "bandido da luz vermelha", já que traz sempre uma lanterna vermelha e conversa longamente com suas vítimas. No entanto, seus roubos e crimes chamam tanta atenção que um implacável policial começa a perseguir o "bandido da luz vermelha". (dados:Adoro Cinema).

Os censores cortaram várias cenas consideradas imorais e retalharam o filme de Sganzerla que, aos 22 anos, criou uma ousada, marginal, diferente esteticamente. O Bandido da Luz Vermelha acabou eleito sexto melhor filme nacional de todos os tempos segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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A FALECIDA – 1965 e SÃO BERNARDO - 1972 - Leon Hirszman

Baseado na peça teatral homônima de Nelson Rodrigues, com Fernanda Montenegro no papel principal, a censura classificou o filme como impróprio para 18 anos, alegando "adultério da esposa e cinismo do marido traído". Além disso, se imbuiu do papel de crítico de cinema e fez uma série de críticas de ordem técnica, alegando até enquadramentos ruins. Hirschman enfrentou ainda a exigência de inúmeros cortes em seu grande filme São Bernardo (1972) ,adaptação do romance de Graciliano Ramos. O cineasta recorreu, mas sete meses depois quando saiu a liberação de São Bernardo, a produtora já tinha ido à falência.

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ÚLTIMO TANGO EM PARIS – Bernardo Bertolucci – 1972

Na época do lançamento o forte erotismo de algumas cenas provocou o seu veto parcial em vários países. No Brasil, por conta da censura militar, o filme levou 07 anos para ser liberado. Marlon Brando interpreta um americano, cuja mulher acabara de se suicidar, que vive um tórrido relacionamento com uma jovem desconhecida francesa que conhece em Paris.

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LARANJA MECÂNICA – Stanley Kubrick – 1972

Nem foi tanto a violência que incomodou a censura brasileira,como em outros países. Laranja Mecânica filme só foi liberado depois de colocaram uma bolinha no púbis da jovem que aparece nua em cena. E lá vai a moça correndo, enquanto a bolinha escapa de onde deveria ficar...hahaha. Acabou virando uma cena tragicômica. Um gênio como Kubrick não merecia isso.

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JE VOUS SALUE, MARIE – Jean-Luc Godard – 1985

O último caso de censura oficial ( até agora, toc,toc,toc...) praticado pelo Ministério da Justiça ocorreu em 1986, no governo José Sarney, já na Nova República, quando decidiu pela proibição da exibição do filme Je Vous Salue Marie do diretor francês Jean-Luc Godard. A pressão da Igreja foi decisiva, já que o filme de Godard mostrava uma versão moderna da história de Maria, mãe de Jesus, em duas partes. A primeira delas é a de Marie, uma estudante que trabalha em um posto de gasolina, e de seu namorado José, um jovem taxista. Quando o anjo Gabriel avisa de sua gravidez, os dois têm de enfrentar os desafios e os planos divinos. O veto ajudou a divulgar o filme e cinéfilos brasileiros viajavam a Montevideo para ver a obra de Godard. Como já sopravam os ventos da volta da Democracia ao Brasil, houve protestos, manifestações, pressão de segmentos sociais contra a censura.

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CABEÇA DE CENSOR

Era difícil saber o que se passava na cabeça dos censores. Às vezes uma palavra já era motivo suficiente para desconfiarem que a obra fosse subversiva e passavam a tesoura ou proibiam na íntegra. Enquanto isso, os autores tentavam encontrar estratégias para ter seu material liberado. Nunca se usou tanta metáfora como forma de driblar a censura. Como bem explicou o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony: "A gente contava com dois fatores, um a favor e outro contra. O a favor era o seguinte: os censores eram muito burros, então não percebiam certas nuances. Por sua vez, por serem muito burros, muitas vezes cismavam com coisas que não tinham nada demais e proibiam uma peça ou uma música".  Aqui, algumas histórias do que se passou.

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Bolinhas retardatárias

Laranja Mecânica, um dos grandes filmes de Stanley Kubrick, lançado internacionalmente em 1971, foi proibido pelo governo Médici e só pode ser exibido no Brasil em 1978. Para a liberação, porém, os censores exigiram bolinhas pretas sobre os seios e a genitália dos atores nas cenas de nudez. Como ainda não existia computação eletrônica, as bolinhas às vezes "atrasavam", então o ator corria e a mancha preta ficava para trás deixando a genitália descoberta. A gente acabava rindo no cinema, apesar da temática séria e violenta do filme.

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Cinema Novo na mira

Um dos mais importantes movimentos da história da cultura brasileira, o Cinema Novo, era visto com eterna desconfiança pela ditadura. A tesoura da censura retalhou ou proibiu filmes da maioria dos cineastas da época, como Joaquim Pedro de Andrade (O Padre e a moça, Macunaíma) e Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol).

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Tesouradas nas novelas

Ora, se o cinema já era visado, imaginem a televisão que entrava nos "lares da família brasileira". A telenovela Roque Santeiro, prevista para 1975, foi proibida depois que os militares descobriram, mediante grampo telefônico, que ela era baseada numa peça proibida de Dias Gomes. O grande sucesso da Rede Globo só foi ao ar em 1985, restando apenas Lima Duarte do elenco original. Outra telenovela famosa, Selva de Pedra, também teve várias cenas retalhadas.

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Shakespeare comunista

Em 1976, o então ministro da Justiça, Armando Falcão, vetou na televisão a encenação de Romeu e Julieta pelo Ballet Bolshoi. A explicação foi que por ser uma companhia russa e a Rússia fazer parte da comunista União Soviética, o ballet devia ser comunista também.

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Driblando a censura

Artistas e jornalistas usavam de criatividade para driblar a censura. Em algumas canções, Chico Buarque usou o pseudônimo de Julinho da Adelaide, pois a simples menção de seu nome já era motivo para o censor torcer o nariz. Quando mandou Apesar de você para o DCDP, Chico achava que seria vetada por causa dos versos "Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão / A minha gente hoje anda / Falando de lado / E olhando pro chão, viu / Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão", mas a canção foi liberada. Acontece que só depois os censores perceberam que o Estado de que Chico falava era com "e" maiúsculo e o "você" era o General Médici.

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Questão de gosto

Os critérios eram variados e o censor não entendia o que era a liberdade poética ou aceitava o humor nas letras. Adoniran Barbosa foi censurado por "escrever errado, pelo péssimo gosto ou gosto duvidável" ao usar a linguagem coloquial em letras. A mais conhecida, gravada até por Elis Regina mais tarde, foi Tiro ao Álvaro, onde ele usava palavras como " tauba" no lugar de "tábua".

(Fontes– site Educação/ Cláudia Mogadouro - Revista Superinteressante - O Estadão)
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OS FAVORITOS DE DILMA JULIANO

A professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem e da Graduação em Cinema e Audiovisual da UNISUL- Universidade do Sul de Santa Catarina,  aponta alguns de seus favoritos. Dilma escolheu como recorte o cinema nacional, tudo a ver com o tema desta edição.

Minha ligação com o cinema: Minha memória vai lá na infância, aos 7 anos, nas sessões matinais de domingo de "Tom e Jerry" ou os filmes de Mazzaropi. Há dez anos sou professora do curso de graduação em Cinema e Audiovisual, na UNISUL, e sinto um prazer imenso em trabalhar com uma rapaziada criativa, disposta a aprender um fazer técnico e teórico que, muitas vezes, resulta em filmes incríveis.

Um filme: Seriam muitos e de épocas diversas. Mas nesse momento um é "Café com canela", direção de Glenda Nicácio e Ary Rosa. Um filme sensível e que, sob meu olhar, fratura a imagem de negros e pobres brasileiros como vítimas e/ou como criminosos. São personagens, seres humanos universais em seus dramas, seus sentimentos em suas vidas cotidianas. Uma
contraface das repetidas imagens de "favelados", como "Cidade de Deus" por exemplo, vendidas como representativas de brasileiros. Há muitos e tantos sujeitos pobres e negros com histórias lindas a serem contadas pelo cinema – "Café com canela" faz isso.

Um ator: Selton Mello, ator, escritor, diretor. Um rapaz de muitos talentos.

Uma atriz: Ruth de Souza, primeira mulher negra protagonista no cinema brasileiro. Uma atriz versátil que sem distinção de papéis teve desempenho maravilhoso durante toda a carreira.

Uma série de TV: "Amores roubados", direção de José Luis Villamarin, roteiro George Moura,
Sérgio Goldenberg, Flávio Araújo e Teresa Frota, baseado em um romance-folhetim do séc. XIX intitulado "A emparedada da Rua Nova", de Carneiro Vilela. Série, com 10 episódios exibidos em janeiro de 2014, conta a história das relações de proprietários e empregados de vinhedos localizados às margens do Rio São Francisco, com requintada fotografia, montagem e trilha sonora. Uma série que mostra o desenvolvimento técnico e estético da produção audiovisual
brasileira, independente do espaço de exibição, no caso, a TV.

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POR FALAR NISSO...

A 47ª edição do Festival de Cinema de Gramado que encerra neste sábado, 24, abriu com a exibição de Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho, vencedor do Prêmio do Júri em Cannes este ano. A cerimônia de abertura foi palco, como não poderia deixar de ser, de manifestações em defesa do cinema nacional e contra a volta da censura. Nossa diva, Sônia Braga, estava presente e dedicou seu trabalhou em Bacurau a Marielle Franco, vereadora e ativista, cujo assassinato continua sem respostas. O filme de Mendonça foi muito bem recebido pelo público do festival e é um dos indicados a representar no Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Aguardemos.

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THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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