Outubro 18, 2018

#elas têm a força

#elas têm a força
Ingrid Bergman/Joana D`Arc

Muito se tem falado sobre a força das mulheres e o seu papel decisivo nessa eleição. Elas foram à rua gritar não, gritar sim, um maior número se candidatou e só na Câmara Federal a participação feminina aumentará em 51% na próxima legislatura. Se lembrarmos que as mulheres só tiveram direito ao voto em 1932, ainda assim facultativo, passando a ser igualado ao voto masculino apenas em 1965, entende-se o longo caminho para chegarmos até aqui.

O cinema é fascinado por essas figuras ousadas que ajudaram a mudar o mundo não só através da política formal, mas com gestos e ações em momentos decisivos. Mereceram ser retratadas mil vezes nas telas.

Embora a ficção tenha criado personagens inspiradores, preferi fazer um recorte de filmes sobre mulheres reais. Elas pertencem a vários matizes político-ideológicos e lutaram por causas diversas. A escolha se deu por um único critério: coragem.

A lista está aberta para inclusão de filmes sobre mulheres que vocês entendam ser merecedoras de aplausos. Faltou alguma ? Escreva no rodapé da coluna ou para o e-mail bridepoli@gmail.com

------------------------------------------------

 

JOANA D`ARC –1928/ 1948/1957/1962/1999

Sim, a figura que abre a coluna mereceu muitos filmes. Desde a "A Paixão de Joana D`Arc", de 1928, passando pela versão de 1948, com Ingrid Maravilhosa Bergman ( foto de abertura), até a de Luc Besson, em 1999, com Milla Jovovich, numa atuação bastante criticada. Na foto, as 4 Joanas: Jean Seberg, Ingrid, Angela Salloker, Angela Falconetti .Todos podem ser vistos no You Tube.

Joana de Domrémy, uma jovem profundamente católica que diz ouvir o chamado de Deus,  luta heroicamente contra a ocupação da França em 1431.  Ela assume o comando do exército francês contra os dominadores ingleses, na Guerra Santa que vinha desde 1337. Joan acabou traída pelos seus pares, presa, torturada e queimada na fogueira sob a acusação de blasfêmia.

 

ROSA DE LUXEMBURGO  - Margareth Von Trotta (1986)

Sinopse: Nascida na Polônia e doutora em Ciências Econômicas, Rosa Luxemburgo torna-se uma das grandes líderes do movimento operário revolucionário alemão, adere ao Partido Social-Democrata alemão em 1898 e em 1914, rompe violentamente com essa agremiação. Rosa, a Vermelha, como era conhecida, visceralmente internacionalista e antibelicista condena como uma traição o apoio dos social-democratas à deflagração da Primeira Guerra Mundial. Ao lado de Léo Jogiches, o amante e do revolucionário Karl Liebknecht, junto com o qual fundou a Liga Spartakus, embrião do futuro Partido Comunista Alemão, a militante se embrenha cada vez mais no movimento de massas, passando longos períodos na prisão.(Cineclick)

Barbara Sukova que interpresa Rosa é uma atriz extraordinária que há pouco tempo nos deu "Hanna Arendt – Ideias que chocaram o mundo" - figura que bem poderia estar na nossa lista de mulheres fortes. Bárbara recebeu a Palma de Ouro como melhor atriz no Festival de Cannes pelo papel de Rosa.

 

SILKWOOD - O RETRATO DE UMA CORAGEM – Mike Nichols ( 1983)

Uma mulher comum que trabalha numa fábrica de componentes nucleares, mãe de três filhos que moram distante, vive com uma amiga e o namorado dela. Assim é a vida meio descontrolada de Karen Silkwood. Ela muda quando percebe várias irregularidades na empresa e

 decide denunciar ao sindicato. Mas, as coisas tomam uma proporção assustadora com o perigo de radiação para milhares de pessoas. Karen não desiste, é perseguida e...

Meryl Streep, em mais um papel memorável, foi indicada ao Oscar e Globo de Ouro, assim como Kurt Russel e Cher aos de melhor coadjuvantes. Cher foi premiada com o Globo de Ouro.

 

EVITA - Alan Parker – 1996

Já devo ter falado na coluna que sou fã desse musical sobre Evita Perón. Acho também que Madonna nunca esteve tão bem num papel. A crítica, porém, não parece morrer de amores pela adaptação da famosa peça da Broadway para as telas. A história mistura dois personagens que nunca se encontraram, Che Guevara, interpretado por Antonio Banderas ( que canta bem!) e a mítica Evita, mulher do presidente argentino Domingos Perón. Nascida na pobreza, ao se tornar importante Eva liderou movimentos a favor dos mais necessitados e acabou idolatrada pelo povo e desprezada pelos militares. Em meio a polêmicas, ela morreu de câncer aos 33 anos.

A escolha de Madonna para o filme não foi bem recebido pelos argentinos que ainda hoje reverenciam a memória da ex-primeira dama. Houve tentativa de boicote ao filme nas salas de exibição do país. Madonna acabou recebendo o Globo de Ouro pela atuação. No mais, as canções são quase todas da peça da Broadway e, sem dúvida, muito, muito boas, como a super conhecida " Don´t cry for me Argentina",  que surge no momento mais comovente do filme quando Madonna/Evita canta no balcão da Casa Rosada já sabendo que está doente.

 

ERIN BROCKOVICH – Steven Sorderbergh – 2000

Esse foi um dos papéis mais sérios e importantes de Julia Roberts no cinema, tanto que lhe rendeu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor atriz.

Ela interpreta a personagem real de Erin Brockovich ( na foto Julia e a verdadeira Erin), uma mulher simples que vai trabalhar no escritório do advogado que a defendeu num caso de acidente de carro. Sem dinheiro e com três filhos para criar, Erin perde a causa. No escritório ela descobre casos arquivados na área imobiliária. Ao investigar ela percebe que moradores de uma comunidade estavam sendo envenenados pela água, contaminada pela indústria. Ela enfrenta mil obstáculos, mas não desiste e monta um processo de mais de 300 milhões de dólares como indenização aos habitantes do lugar.

 

UMA MULHER CONTRA HITLER – Marc Rothemund – 2005

Alguns críticos consideram esse filme alemão maniqueísta demais: quem é bom é perfeito, quem é mau é o demo em pessoa ( Hitler não era?). Bem, mas o que importa é que Sophie Magdalene Scholl realmente existiu e fez parte  do Movimento Rosa Branca de Munique, se contrapondo ao nazismo junto com o irmão, Hans. Eles resolvem alertar todos da faculdade onde estudam sobre as mortes de milhares de jovens do exército alemão no gelado front oriental contra os russos. Os irmãos protestam distribuindo panfletos pró-rendição, mas acabam presos por crime de traição e colaboração com o inimigo. Eles sofrem as penas do inferno na prisão e enfrentam um julgamento , claro, nada justo. Apesar das críticas, é bom saber que nem toda a sociedade alemã concordava com as atrocidades praticadas pelos nazistas e seu grande chefe, Adolph Hitler.

 

A DAMA DE FERRO – Phyllida Loyd – 2011

Antes de se posicionar e adquirir o status de verdadeira dama de ferro na mais alta esfera do poder britânico, Margaret Thatcher teve que enfrentar vários preconceitos na função de primeira-ministra do Reino Unido em um mundo até então dominado por homens. Durante a recessão econômica causada pela crise do petróleo no fim da década de 70, a líder política tomou medidas impopulares, visando a recuperação do país. Seu grande teste, entretanto, foi quando o Reino Unido entrou em conflito com a Argentina na conhecida e polêmica Guerra das Malvinas.(Sinopse:Adoro Cinema).

Concordando ou não com as ideias de Margaret Thatcher, ela foi f...ao "esgrimar" contra o machismo e se firmar como grande liderança mundial. Meryl Streep abraçou o papel como sempre faz, com competência. Nunca é fácil interpretar um personagem real, mas ela foi indicada a vários prêmios.

Margareth Tatcher, a dama de ferro, morreu em 2013, depois de um longo período de demência.

 

SIMONE DE BEAUVOIR –UMA MULHER ATUAL – 2008

Esse documentário de 52 minutos reúne momentos importantes, imagens de arquivo e depoimentos  sobre a romancista, filósofa, ativista política e feminista  francesa Simone de Beauvoir. O subtítulo já diz tudo: nascida em 1908, suas ideias e 21 livros, continuam atuais 100 anos depois. A direção é de Domique Gros. Esse média-metragem está disponível  no You Tube. Vale à pena saber mais sobre essa mulher que foi uma das mais importantes pensadoras do século XX.

------------------------------------------------

 

O LIVRO QUE VIROU FILME

PHILOMENA: UMA MÃE, SEU FILHO E UMA BUSCA QUE DUROU CINQUENTA ANOS – Martin Sixsmith -  2013

Philomena Lee era ainda jovem e solteira quando ficou grávida. Vivia na Irlanda dos anos 1950 e, para receber cuidados especiais e expiar seus "pecados", foi levada a um convento. Em meio às freiras, criou o filho por três anos, até a igreja decidir vendê-lo para adoção, sem antes obrigá-la a assinar um documento em que prometia nunca mais ver o filho. Adotado por uma família americana, Michael, como passou a ser chamado, se tornou um advogado de sucesso e um dos nomes mais proeminentes do Partido Republicano nas administrações de Regan e Bush. Mas ele também guardava segredos, que colocavam em risco sua carreira e a busca por sua mãe. Para reconstituir essa história, o jornalista britânico Martin Sixmith conversou com vários de seus personagens e reuniu fotografias, cartas, diários, documentos. As lacunas foram sendo preenchidas aos poucos, como em um trabalho de detetive, ao qual o jornalista se dedicou por cerca de cinco anos. (Resenha- Cultura).

PHILOMENA – Stephen Frears – 2013

Gosto muito do diretor inglês Stephen Frears ( Ligações Perigosas, Alta Fidelidade, Os Imorais), o que já é meio caminho andado. A outra metade fica por conta da atriz Judi Dench, que interpreta Philomena, a mãe que procura o filho durante cinquenta anos. Ela é ótima sempre!

O filme até ameniza a verdadeira situação das fallen woman, jovens solteiras que tinham filhos e trabalhavam quase como escravas nas lavanderias das freiras na Irlanda e outros países. Além do trabalho exaustivo, sofriam toda espécie de humilhação.

O filme recebeu vários prêmios, principalmente pelo roteiro adaptado.

------------------------------------------------

 

É COISA NOSSA

Mulheres fortes e corajosas é que não faltam na nossa História. O cinema brasileiro retratou muitas delas. Escolhi duas, mas poderiam ser bem mais.

Zuzu – Sérgio Rezende – 2006

Patrícia Pilar vive Zuzu Angel, uma estilista de sucesso, que se manteve alheia aos desmandos na ditadura no Brasil até ter o filho sequestrado, torturado e morto pelos militares. Ela enfrentou forças perigosas em busca do paradeiro de Stuart ou ao menos localizar seu corpo. Zuzu acabou morrendo em um misterioso acidente anos depois. Foi para ela que Chico Buarque escreveu "Angélica": "Quem é essa mulher/Que canta sempre o mesmo arranjo/Só queria agasalhar meu anjo/E deixar seu corpo descansar (...)//

 

Nise: o coração da loucura – Roberto Berliner – 2016

Nos anos 50, a Dra.Nise da Silveira ficou um ano e meio presa por porte de livros marxistas. Quando saiu da prisão voltou a trabalhar num hospital psiquiátrico público no Rio de Janeiro. Ela não aceitou os métodos tradicionais da época: eletrochoque e lobotomia para tratar esquizofrênicos. A médica foi isolada pela equipe e transferida para o setor de terapia ocupacional, enfiado no porão do hospital. O que ela encontrou foi puro horror. Começou então um nova forma de tratamento dos pacientes, juntando amor e arte. Glória Pires vive a Dra. Nise e Fabricio de Oliveira ( na foto com Gloria Pires) foi escolhido melhor ator coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

------------------------------------------------

 

HASTA LA VISTA, BABY!

Palavras delas

"No meio das trevas, sorrio à vida, como se conhecesse a fórmula mágica que transforma o mal e a tristeza em claridade e em felicidade. Então, procuro uma razão para esta alegria, não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma. Creio que a própria vida é o único segredo." (Rosa de Luxemburgo)

                                            ****

 

"Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres" (Rosa de Luxemburgo)

                                              

                                              ****

 

"Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância." ( Simone de Beauvoir)

                                             

                                               ****

Se meus críticos me vissem andando sobre as águas do rio Tâmisa, diriam que é porque eu não sei nadar. (Margaret Thatcher)

                                              ****

 

"Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade." (Zuzu Angel sobre o filho desaparecido na ditadura)

 

                                               ****

 

------------------------------------------------

MENS@GEM PARA VOCÊ

"Essa minha coluna predileta foi do céu ao inferno da semana passada pra cá! Tá difícil ver série de política porque tudo fica aquém da realidade! Nem as séries mais conspiratórias, como Scandal, parecem tão impossíveis agora. Mas sim, estamos monotemáticos... (Dedé Ribeiro)

R.:Sim, convém ler um pouquinho a edição sobre séries políticas, fazer uma pausa e reler um pouco a anterior sobre fugir pra Pasárgada ou Shangri-lá, depois volta...e assim vai. ;-)

------------------------------------------------

Fiquem tranquilas, garotas, estamos a postos ! Até semana que vem.


(cena de "Mulher Maravilha")

THE END

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

Comentários