Janeiro 15, 2019

Filmes onde meninos vestem rosa e meninas vestem azul

Filmes onde meninos vestem rosa e meninas vestem azul
Zoé Heran em 'Tomboy'/Reprodução

Uma declaração da nova ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, causou polêmica nas redes sociais e na mídia tradicional.  Ao se referir à discussão de gênero, Damares disse que "meninos vestem azul e meninas vestem rosa". Questionada sobre a conotação preconceituosa da frase, a ministra respondeu ser apenas uma metáfora, mas que devemos "respeitar a identidade biológica da criança".

Sem entrar no mérito da questão, nem querer analisar a confusão que muita gente faz entre identidade de gênero, sexo e orientação sexual (me faltam espaço e conhecimento profundo para um assunto tão complexo), o episódio me fez lembrar de filmes com personagens transgêneros. Alguns ajudam a entender melhor a condição da pessoa trans e a compreender que o determinante é sua identidade, isto é, como ela se vê.

O número de produções sobre o tema é maior do que se pode pensar num primeiro momento, mas fiz uma seleção bem enxuta. Como sempre você está convidado a acrescentar os seus favoritos, sugerir ou criticar no rodapé da coluna ou pelo e-mail : cineseries@portalmakingof.com.br

 

JOGO PERIGOSO –  direção: Anthony Page -1986

Um dos primeiros filmes a ter um personagem transexual como protagonista, conta a história real de Richard Radley, um médico e exímio jogador de tênis que se submete à cirurgia de troca de sexo. Se hoje ainda é tabu, imaginem nos anos 70. Além de enfrentar a pressão dos amigos e da família, ele sofre boicote em sua participação no circuito feminino de tênis. Assumindo o nome de Renée Richards, ela chegou a ser técnica da mega tenista Martina Navratilova. Mais tarde, Renée voltou a praticar a medicina. 


Hoje, entidades defensoras dos direitos dos gays reivindicam que personagens transgêneros sejam vividos por atores trans. Polêmica à parte, na época o papel do médico/médica foi vivido(a) pela maravilhosa Vanessa Redgrave ( na foto, ela com a identidade masculina do personagem).

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MENINOS NÃO CHORAM – direção:  Kimberly Peirce  - 1999

Hilary Schank subiu ao primeiro patamar de Hollywood, aos 21 anos, por este papel que disputou com centenas de outras atrizes. O esforço valeu a pena, pois ela faturou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Atriz, feito que repetiria com Menina de Ouro, em 2004. Em Meninos não choram ela vive Teena Brandon, uma jovem do interior dos EUA em conflito com sua homossexualidade.  Aos poucos, ela vai assumindo uma identidade masculina e vira Brandon, namora, faz amigos e trabalha como homem. Baseada numa história real, o filme toca em questões tristes e delicadas, sem usar estereótipos. (na foto, Hilary num evento e como Brandon).

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TRANSAMÉRICA – direção: Duncan Tucker – 2005

Às vésperas de fazer uma cirurgia para mudança de sexo, a travesti Bree descobre que tem um filho adolescente e problemático. Aconselhada pela psicóloga a resolver essa questão antes de fazer a operação, ela decide retirar o garoto da prisão. Eles iniciam uma viagem juntos, com o filho pensando que Bree é uma missionária disposta a ajudar. Haverá o momento ideal para contar que é pai dele ? Felicity Huffman foi indicada ao Oscar e Globo de Ouro como melhor atriz pelo papel de Bree. Perdeu o Oscar para Reese Witherspoon em Johnny & June, a biografia do cantor Johnny Cash. Felicity (na foto como Bree) ganhou outros prêmios importantes pela interpretação.

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TOMBOY – direção : Celine Sciamma – 2011

Tomboy é um termo criado para caracterizar garotas que têm hábitos ou características típicas de meninos. É isso que acontece com Laure, uma menina confundida com um garoto ao se mudar para uma nova cidade. Ela diz se chamar Mikael e mantém a falsa identidade para fazer parte do grupo e participar das brincadeiras masculinas. Esta produção francesa ganhou o prêmio Teddy no Festival de Berlim. ( Na foto, a atriz Zoé Heran que interpreta Laure/Mikael)

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MEU NOME É RAY – direção : Gab Dellal – 2015

O título original é 3 Generations: Ray nasceu mulher, mas nunca se identificou com o gênero e se prepara para fazer a cirurgia de transgenitalização. Sua mãe, Maggie, tenta encontrar a melhor forma de lidar com a questão, mas a avó homossexual de Ray, Dolly , recusa-se a aceitar a resolução e cria um conflito familiar. Três nomes importantes fazem filha, mãe e avó: Ellen Fanning ( na foto), Naomi Watts e Susan Sarandon.

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TANGERINE – direção: Sean Baker -2015

Assim que sai da prisão, a prostituta transexual Sin-Dee descobre através de sua melhor amiga que o namorado Chester está saindo com outra pessoa, uma mulher cisgênero. Sin-Dee decide encontrar os dois e puni-los pela traição. O diretor declarou no Festival de Sundance que gravou todo o filme com apenas 3 iPhones 5s. Ainda não vi o filme, mas só posso dizer uau! para a revolução tecnológica.

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UMA MULHER FANTÁSTICA – direção: Sebastian Lelio -2017

Já falamos deste filme na edição sobre o cinema chileno. O drama conta a história da trans, Marina Vidal, que de dia é garçonete e à noite é cantora. Ela vive uma relação apaixonada com Orlando, um homem mais velho. Ele morre após um derrame e a namorada transexual é vista no hospital como alguém "suspeita". O filme mostra o preconceito escancarado, a agressividade explícita, mas também pessoas cujo discurso não se confirma na prática, tipo, "não sou preconceituoso, mas...". Daniela Veja ( na foto) vive a protagonista e é a maior responsável pela veracidade e dignidade que o filme transmite. Uma mulher fantástica acabou levando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e também o Globo de Ouro na mesma categoria.

 

Outros: Tamara (Venezuela), Entre-laços (Japão), Tudo sobre minha mãe (Espanha), Alberto Nobbs ( EUA), A luta pela beleza (Tailândia), Má Educação (Espanha), Café da Manhã em Plutão (Reino Unido)

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O LIVRO QUE VIROU FILME

A GAROTA DE COPENHAGUE – David Ebershoff – 2000

O autor, David Ebershoff, lecionou Escrita Criativa nas universidades de Nova Iorque e de Princeton e é atualmente professor no curso de pós-graduação em Literatura na Universidade de Columbia. Seus livros já foram traduzidos em 18 línguas. O mais famoso é a obra que inspirou o filme. "A garota dinamarquesa" se passa no início da década de 20, em Copenhague, e se baseia na história real do pintor dinamarquês Einar Wegener e sua esposa,Gerda Gottlieb, também pintora. Einar descobre sua identidade feminina quando Gerda pede que ele use um vestido para posar como modelo para um quadro. Aos poucos, Einar vai se transformando em Lili Elbe. No início, há um conflito com a esposa, mas depois Lili recebe total apoio de Gerda. Com o tempo, Einar/Lili resolve se submeter à primeira cirurgia de mudança de sexo da história, o que exigia uma coragem enorme, pois estamos falando de 1930. Mas, David Ebershoff escreveu uma obra de ficção, como define em nota no final do livro. "Escrevi o romance a fim de explorar o espaço íntimo que definia esse casamento incomum. Estas páginas contêm alguns fatos importantes acerca da transformação de Einar, mas os detalhes da história são invenções da minha imaginação", afirma Ebershoff. O resultado é um romance inquietante sobre uma inusitada e sincera história de amor e um retrato de um dos primeiros transexuais a passar por uma cirurgia de mudança de sexo no mundo. (Editora Rocco)

O FILME – A GAROTA DINAMARQUESA – direção : Tom Hooper – 2015

Um filme sobre uma história tão fantástica deveria ser excelente, mas a adaptação deixa a desejar. Einar/Lilli é vivido por Eddie Redmayne ( vencedor do Oscar de Melhor Ator pelo papel de Stephen Hawking no ano anterior) mas não extrai tudo do personagem duplo que qualquer intérprete mataria para . A sueca Alicia Vikander consegue ser mais verdadeira no papel da mulher que apoia o marido em sua jornada de transformação. O diretor também pesa a mão no melodrama em muitas cenas. Mesmo assim, A garota dinamarquesa merece ser visto pela qualidade da produção e pela história incrível que poucos conheciam até ser filmada. (Na foto, Alicia Vikander e Redmayne).

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É COISA NOSSA

VERA – direção: Sérgio Toledo – Brasil - 1986

É muito triste esta trama biográfica de uma menina que luta para encontrar seu lugar num mundo cada vez mais complexo e hostil. Órfã, passa a adolescência numa instituição para menores onde, aos poucos, começa a desenvolver uma personalidade masculina e a se impor às outras meninas. Aos dezoito anos, ela sai do internato e, com a ajuda de um professor, consegue arranjar emprego e começar a vida. No trabalho, conhece Clara e tenta se aproximar dela. As duas se tornam amigas e Vera radicaliza seu comportamento, vestindo-se como homem e comportando-se como tal. Na vida real, ela era Sandra Herzer e adotou o nome masculino de Anderson Herzer. Poeta, ela escreveu o livro " A queda para o alto". O filme levou vários prêmios, inclusive o Urso de Prata no Festival de Berlim, para a então novata Ana Beatriz Nogueira ( na foto )que interpreta Vera.

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FORA DE SÉRIE

TRANSPARENT – 4 temporadas – Amazon

Ainda não tive chance de assistir Transparentnão por falta de vontade, mas de acesso às séries da Amazon. Sei que ela ganhou o Globo de Ouro na primeira temporada por melhor série de comédia e Jeffrey Tambor como melhor ator. Ele é o protagonista Mort, um pai que chama os três filhos adultos para uma reunião que eles imaginam ser sobre herança. Na verdade, o pai quer informar que vai se assumir como transgênero. Mort vira Maura e, a partir daí, o mundo deles vira de pernas pro ar, com todas as dificuldades possíveis de adaptação à nova situação.

Jeffrey Tambor ( no centro da foto) é um ótimo ator e era a alma da série, mas foi demitido no fim da quarta temporada ao ser acusado de assédio por duas colegas transgêneros do elenco. Mais um que foi para a "geladeira" (eterna?), assim como o super astro Kevin Spacey, de House of Cards. A 5ª e derradeira temporada será sem o personagem Mort/Maura.

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Alguns leitores responderam para aonde iriam se pudessem viajar no tempo, pergunta da coluna anterior:

Oi, Brígida, se eu pudesse viajar no tempo, iria para Paris da década de 20. Como sou romântica,  fico imaginando conversar com artistas como Dalí e escritores como Hemingway, por isto gostei  muito do filme Meia noite em Paris. Também gosto do ator Owen Wilson. Não sou muito de filmes de ficção científica. Beijos. (Giovanna)

Já fiz muita fantasia "viajando" no tempo, mas sempre mudando de destino.
Agora, penso que Pasárgada é uma boa pedida. Lá, esperança do poeta, poderia
ser amigo do rei. Não pelas benesses da amizade, mas para viver  mais em
paz, sem atritos, tudo em harmonia. Que ingenuidade, não é mesmo? (Jaime)

"Se for para viajar no tempo, que seja para o futuro. Ao passado, só para confirmar e lamentar que a história que prevalece é aquela escrita pelos poderosos - os 'vitoriosos'- de então?

Por certo, muito menos seria para o século XIV, na França, como no filme "Linha do Tempo" (Timeline). O melhor da produção é o título. Dois atores que ganharam destaque estão no elenco: o falecido Paul Walker, da franquia 'Velozes e Furiosos" e Gerard Butler, de '300', entre outros.

O roteiro é baseado num dos livros do consagrado autor de sci-fi, Michael Crichton. Fez quase noventa milhões de dólares de bilheteria.

Com tudo isso, só consegue ser um grandissíssimo desperdício; de talentos, de grana, de oportunidade de falar de guerra e paz. Se fosse o caso, o melhor seria voltar no tempo para decidir não assistir o filme e evitar um desperdício a mais, isto é, duas horas na expectativa de que a história fosse melhorar com o desenvolvimento do roteiro". (Mário Antonio)

A colunista errou: na edição passada troquei o nome do ator Christopher Reeve pelo de Steve Reeves, me referindo ao filme Em algum lugar do passado. O alerta foi do leitor Guilherme, a quem agradeço a correção.

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CARA DE CINEMA

Tudo a ver Laverne Cox ser a cara de cinema da semanaEla foi indicada ao Emmy pelo papel de Sophia Burset na série Orange is the new Black e é uma das mais bem sucedidas atrizes transexuais de Hollywood. Laverne é também produtora, escreve e dá palestras sobre o preconceito sofrido pelas pessoas trans. Ela tem um irmão gêmeo, M.Lamar, que interpretou o papel de Sophia antes da cirurgia de troca de sexo na série.

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THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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