Fevereiro 14, 2020

Filmes que quebraram tabus

Filmes que quebraram tabus
Dustin Hoffmann e Anne Bancroft em The Graduate/reprodução

O mundo está em constante transformação. Às vezes, depois de um certo período de marasmo, vem o turbilhão. A partir dos anos 60, com o movimento hippie, o feminismo e os protestos estudantis de 68, os costumes e preceitos morais foram chacoalhados. Quem é muito jovem não sabe que antes disso, uma mulher desquitada ( no Brasil, ainda não existia divórcio) era duramente discriminada. Nem a igreja, nem a sociedade aceitavam  a dissolução do casamento. Aliás, mulher era mal vista por muito menos, como fumar, sair sozinha à noite e até tomar cafezinho em pé no balcão.  Hoje parece bobagem, né? Mas este é só um exemplo.

O Cinema, sempre ele, começou a cutucar algumas feridas e a desafiar os padrões e a censura vigentes. Hoje alguns filmes antigos até podem parecer ingênuos, mas na época ajudaram a abrir corações e mentes. Se pegar mos um exemplo da televisão, ironicamente vamos encontrar a atriz Regina Duarte como a personagem que mais sacudiu as tradicionais donas-de-casa brasileiras. A série Malu Mulher, da TV Globo com direção de Daniel Filho, mostrava a coragem de uma mulher para deixar o marido infiel e recomeçar a vida sozinha com a filha. Regina fez história ao som de "Começar de novo", de Ivan Lins. Talvez por isso agora pareça tão incongruente a sua participação em uma política cultural que prega um moralismo calcado na religião ," excomunga" filmes como Bruna Surfistinha e impõe temáticas evangélicas  para financiar uma produção. Fecha o parêntese.

Voltando : muitos filmes desafiaram o puritanismo, principalmente nos anos 70. Alguns pegaram bem pesado e hoje não seria fácil arranjar produtores para aqueles trabalhos.  A liga da moral e dos bons costumes iria reagir, a classificação etária seria a máxima etc... Outra coisa: certos filmes podem ter "envelhecido" do ano de lançamento para hoje, outros podem ser considerados cinematograficamente ruins, mas de uma coisa podemos ter certeza: romperam tabus e botaram o espectador pra pensar. Não precisamos concordar com tudo, como de fato há coisas que até causam certa repulsa, mas elas existem e precisam ser contadas.

Deixo para os sociólogos, antropólogos e psiquiatras explicarem a onda moralista e puritana que está se formando atualmente. Vamos falar de filmes, bons ou ruins, que quebraram tabus. Como quis colocar o maior número de títulos possível, reduzi o tamanho das sinopses nesta edição. Se interessou? Vá atrás que vale a pena saber mais. Se tiver alguma sugestão, por favor, acrescente.

Boa leitura, bons filmes. Até a próxima semana.

____________________________________________________________

 

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM – direção: Mike Nichols  (1967)

Hoje pode até parecer  ingênuo, mas há 50 anos a história do estudante seduzido pela mãe da namorada causou! A maravilhosa Anne Bancroft viveu Mrs. Robinson, embalada pela canção de Simon and Garfunkel (Hello darkness). O jovem Dustin Hoffmann foi lançado ao estrelato nesta delícia de filme, dirigido por Mike Nichols. Aumente o som e curta (Editores VideoMac).



A BELA DA TARDE – direção: Luis Buñuel – ( 1967)

Uma dona de casa pacata e burguesa,  com um casamento insatisfatório apesar de harmonioso, decide se prostituir das 14h às 17h num bordel de Paris. Catherine Deneuve, linda de doer, é a bela que foi viver suas fantasias e provocou alvoroço na época do lançamento.



O ÚLTIMO TANGO EM PARIS – direção: Bernardo Bertolucci ( 1972)

Este filme deu o que falar ! Trata-se do encontro entre um americano recém viúvo, interpretado por Marlon Brando, e uma jovem francesa, a atriz Maria Schneider. Sem saber o nome um do outro, passam a ter um relacionamento sexual intenso. Mesmo quem não viu o filme, ouviu falar da cena da manteiga, por exemplo. Há pouco tempo o título voltou às manchetes em tom de escândalo, quando Maria contou que se sentiu violentada por Brando e Bertolucci. Ela tinha apenas 19 anos e as filmagens não levaram isso em conta.

 

SALÓ -120 DIAS DE SODOMA – direção: Pier Paolo Pasolini (1976 )

O cinema de Pasolini sempre foi perturbador. Em Saló , adaptado da obra de Marquês de Sade, ele vai ao extremo e  desloca os quatro libertinos (conhecidos como "os amigos") da França pós-revolução para o fascismo italiano. Quando o filme foi lançado na Alemanha Ocidental em fevereiro de 1976, foi confiscado pelo estado para e ameaçado de banimento. A corte do distrito de Stuttgart classificou-o como pornográfico e pregador da violência. E é pesadíssimo mesmo, portanto mantenha as crianças longe.



IMPÉRIO DOS SENTIDOS – direção: Nagisa Oshima ( 1976)

Entre outras coisas o filme trouxe um questionamento: o que diferencia um pornô de um filme de arte? A história de uma ex-prostituta que se envolve em um caso de amor obsessivo com o senhorio da propriedade onde trabalha como criada, fala de uma paixão obsessiva. Não dessas que a mulher rejeitada cozinha o coelhinho da filha do amante, mas algo tão profundo que não há limites morais, nem de vida ou morte. As cenas de sexo – quase o filme todo – atraíram grande público ao cinema. E estamos falando de mais de quatro décadas atrás.

 

PRETTY BABY – direção: Louis Malle ( 1978)

Este é um filme que sempre me vem à lembrança como um dos que teria dificuldade de produção hoje por causa do tema. A história se passa em New Orleans, nos anos 20, e Brooke Shields interpreta a filha de 12 anos de uma prostituta. Quando a mãe foge para se casar, a virgindade da menina é leiloada e ela obrigada a trabalhar para a dona do bordel. A história  é narrada pelo fotógrafo vivido por Keith Carradine. Malle não poupou Brooke das cenas de nudez.

 

CALÍGULA – direção: Tinto Brass (1979)

Um dos filmes mais polêmicos e escandalosos entre tantos dos anos 70. Dirigido por Tinto Brass, com cenas adicionadas por Giancarlo Liu e Bob Guccione, Calígula é barra pesada mesmo. A ascensão e queda do Império Romano e suas orgias sem freio deixaram os críticos de cabelo em pé. O filme foi taxado de perverso e doentio. Malcolm McDowel que já tinha escandalizado em Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, é Caio Caesar Germanicus, o Calígula. Alerta: mantenha as crianças longe da sala. É pesadíssimo.

 

LA LUNA – direção: Bernardo Bertolucci ( 1979)

Bertolucci já tinha causado o maior alvoroço com o seu O último tango em Paris quando fez La luna, a história de uma cantora de ópera que viaja com o filho adolescente e descobre que ele é viciado em heroína. O ponto X do trama é a relação incestuosa entre mãe e filho, mas é filmado de forma delicada e não apelativa.

 

AMOR, ESTRANHO AMOR – direção: Walter Hugo Khouri ( 1982)

Este filme continua muito falado, apesar de ter quase 40 anos, pelas inúmeras tentativas feitas pela apresentadora Xuxa para tirá-lo de circulação. O drama erótico mostra um menino menor de idade como cliente da personagem de Xuxa, uma prostituta. Ela conseguiu embargar o  filme na Justiça, mas depois que prescreveu ficou liberado para exibição.  Walter Hugo Khoury tinha este estilo e sempre foi super respeitado. O elenco reúne ainda Tarcisio Meira, Vera Fischer e Mauro Mendonça.

 

MÁ EDUCAÇÃO – direção: Pedro Almodóvar ( 2004)

O assunto foi tabu durante séculos e hoje está na berlinda na vida real e nas telas. Os casos de pedofilia na igreja ganharam uma luz diferente nas mãos do diretor espanhol que disse em uma entrevista  "La Mala Educación não é um ajuste de contas com os padres que me educaram mal, nem com a Igreja em geral. Caso tivesse necessidade de me vingar, não teria esperado quarenta anos para fazê-lo. A Igreja não me interessa, nem como adversária". Gael Garcia Bernal faz três papéis no filme, talvez a melhor interpretação de sua carreira. Como sempre, Almodóvar provando que é ótimo diretor de atores.

____________________________________________________________

 

DICA DA COLUNA – PARASITA

Para quem ainda não viu o ganhador do Oscar 2020 - que fez história por ser o primeiro filme internacional a levar o prêmio principal – os cinemas da Grande Florianópolis se tocaram e o trouxeram de volta à programação.

Parasita, do coreano Bong Joon-ho pode ser visto nos cinemas Paradigma (SC-401), Cinemulti (Rio Tavares) e Continente Shopping (São José).  Corre lá!

____________________________________________________________

(*) Fotos reprodução/divulgação

THE END

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Artigos Relacionados

Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

Comentários