Dezembro 01, 2019

Húngaro, espanhol, polonês, coreano... as línguas do Oscar

Húngaro, espanhol, polonês, coreano... as línguas do Oscar

O Oscar é o grande prêmio do cinema norte-americano e, pelo peso de sua indústria, acaba se tornando importante no mundo inteiro. Embora o público americano não goste de ler legendas, há sempre um idioma diferente que brilha na cerimônia: italiano, espanhol, húngaro, chinês, francês... já se ouviu de tudo na hora da apresentação do Melhor Filme em Língua Estrangeira. O bom é que isso abre para o mercado, filmes que jamais chegariam ao Brasil e nos coloca em contato com um Cinema muitas vezes mais interessante que os tradicionais.

Ainda não saiu a lista dos indicados para o Oscar 2020, mas dos 93 estrangeiros inscritos alguns já são considerados presença certa na 92ª cerimônia, em 09 de fevereiro: Dor e Glória, de Pedro Almodóvar ( uhuuu !) e o favorito da crítica, o coreano Parasita. Ainda podem conquistar um lugar o francês Les Miserables e O Menino que descobriu o vento, do Reino Unido, dirigido pelo ator Chiwetel Ejiofor ( disponível na Netflix). Mas é lindo ler a lista completa onde aparecem Cazaquistão, Eslovênia, Estônia, Lituânia, Macedônia do Norte...países que a gente nem sabia que faziam cinema.

Quanto ao Brasil, o mais perto que estivemos de ouvir português na hora da entrega foi com as indicações de O Quatrilho( 1996), de Fábio Barreto, cineasta falecido na semana passada depois de 10 anos em coma devido a um acidente de carro, e com O que é isso, companheiro? (1998). O pioneiro  das indicações foi O Pagador de Promessas ( 1963), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, um festival mais prestigiado pela crítica que o Oscar. Tivemos indicações como co-produtores, com O beijo da mulher aranha, produção norte-americana, com direção de Hector Babenco, cineasta mais brasileiro que argentino. Indicado para o Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, O Beijo deu o prêmio de Melhor Ator a William Hurt.

Well, fiz uma seleção de ganhadores do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira por capítulos, digamos, meio peculiares. Como sempre,  a lista fica em aberto para quem quiser acrescentar os seus títulos favoritos. Não sejam tímidos, opinem.

Boa leitura, bons filmes e  até a próxima sessão!

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OS QUE NOS TIRARAM O OSCAR

 

SEMPRE AOS DOMINGOS – direção: Serge Bourguignon – 1962

Em 1963, perdemos o Oscar para a França com Sempre aos Domingos que conta a história de um soldado que sofre de amnésia parcial. No regresso à França, ele vive em modo vegetativo, junto com sua esposa. Um dia conhece uma menina a qual havia sido deixada pelo pai em um orfanato. Pierre se faz de pai da menina para levá-la ao parque sempre aos domingos, livrando a moça do entediante orfanato. Em meio às brincadeiras e conversas, cresce a desconfiança das pessoas em respeito à amizade dos dois.

Nosso concorrente era O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.

 

A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE ANTONIA – direção: Marleen Goris  - 1995

Em 1996, O Quatrilho, de Fabio Barreto, perdeu o Oscar para este filme dos Países Baixos.

Sinopse: Em uma pequena vila holandesa, uma matriarca relembra momentos marcantes de sua vida e os curiosos personagens com quem conviveu. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a independente Antonia voltou à cidade natal acompanhada da filha. Assim teve início uma saga familiar que atravessou gerações.

 

CARÁTER – direção: Mike vam Diem - 1998

Essa co-produção Holanda/Bélgica não fez grande sucesso, mas tirou a chance do Brasil levar seu primeiro Oscar com O que é isso, companheiro? de Bruno Barreto ( irmão de Fábio).

Sinopse: O pequeno Jacob Katadreuffe é criado apenas pela mãe, já que o garoto é rejeitado pelo pai. Incomodado com a fama de bastardo, Jacob cresce tentando entrar em contato com o pai, que responde de maneira violenta a cada aproximação, e processa-o algumas vezes. Com a ajuda da mãe, Jacob consegue se tornar um advogado de sucesso.

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O SUCESSO DOS NOSSOS VIZINHOS

 

A História Oficial (1985) e O Segredo de seus olhos (2010) – Argentina

Que a Argentina faz um ótimo cinema todo mundo já sabe, mas às vezes esquecemos que nuestros hermanos já levaram o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira duas vezes. A primeira com uma história sobre uma chaga aberta durante a ditadura , o seqüestro dos bebês de guerrilheiros mortos pelos militares.

Já na segunda vez, o filme trazia o grande astro do cinema argentino e o nome mais conhecido fora do país, Ricardo Darín. Essa foi 4ª parceria entre o diretor Juan José Campanella e Darín. Apesar de uma certa "invejinha", reconheço: o filme é ótimo. Mais que uma película policial é uma história de suspense e amor pouco banal, triste e  com final surpreendente. Hollywood gostou tanto que resolveu fazer um remake, com Julia Roberts e Nicole Kidman, lançado em 2015.

 

UMA MULHER FANTÁSTICA –direção: Sebastián Lelio – 2017 – Chile

Pois o Chile que nem produz tanto, acabou levando o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2018 pela história de uma garçonete trans que precisa enfrentar o preconceito da família do seu companheiro morto. O filme levou outros prêmios importantes no Festival de Cinema de Berlim, o Goya etc...

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MEUS GANHADORES FAVORITOS

Só me dei conta agora, puxando pela memória, que alguns dos meus filmes favoritos na vida foram ganhadores do Oscar em Língua Estrangeira!

 

Amarcord – direção: Federico Fellini – 1973

Quem acompanha a coluna já leu que Amarcord encabeça qualquer lista de preferidos que eu faça. É difícil escolher um filme favorito, mas o meu seria esta obra-prima de Fellini, o italiano que nos deu A Doce Vida, Oito e Meio, Roma, Noites de Cabíria, entre outros. Amarcord reúne humor, lágrimas, cenas inesquecíveis como a do transatlântico Rex que passa pela pequena Rímini, cidade onde nasceu o cineasta...tudo embalado pela música magistral de Nino Rota. O filme levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em um ano que o ganhador do prêmio principal foi O Poderoso Chefão II, de Francis Ford Coppolla, que concorreu também por A Conversação na mesma edição. Teve premiação também para Chinatown, de Roman Polanski. Que ano para os cinéfilos! Uau! Saudades...

 

Dersu Uzala – direção: Akira Kurosawa – 1975 – Japão

O japonês Akira Kurosawa figura entre os grandes mestres da história do cinema. Ele ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em um ano que tinha outro filme de que gosto muito: Perfume de Mulher, que receberia o famoso remake com Al Pacino em 1993. Mas, Dersu Uzala é mesmo uma obra maravilhosa.

Sinopse:O capitão Vladimir Arseniev é enviado pelo governo soviético para explorar e reconhecer as montanhas da Mongólia, juntamente com uma pequena tropa. Em meio a expedição eles encontram Dersu Uzala , um caçador que vive apenas nas florestas. Percebendo que Dersu conhece bastante o local, o que pode facilitar o trabalho, o capitão lhe oferece que acompanhe a tropa até o término da missão. É o início de uma forte amizade entre o capitão e Dersu, que aos poucos demonstra suas habilidades.

 

A FESTA DE BABETE – direção: Gabriel Axel – 1987 – Dinamarca

Um filme delicado que conta uma história de afeto e gratidão, quando a francesa Babete é acolhida por duas irmãs num pequeno vilarejo dinamarquês. Ao ganhar na loteria, ela prepara antes de partir um banquete com as melhores iguarias que aquelas pessoas de vida simples jamais haviam experimentado. A produção ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1988 e abriu um filão para histórias que envolviam gastronomia.

 

TUDO SOBRE MINHA MÃE – direção: Pedro Almodóvar – 1999 – Espanha

Gostei do cinema de Almodóvar desde o primeiro filme a que assisti, mas foi com Todo sobre mi madre que ele se tornou o meu diretor vivo favorito!  Chorei rios com a interpretação da argentina Cecília Roth que perde o filho atropelado e vai um busca do pai do garoto para avisá-lo da morte. Além do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2000, ele recebeu inúmeros prêmios e o diretor espanhol se tornou um sonho não realizado de Hollywood: Almodóvar jamais aceitou encabeçar uma produção norte-americana. Na próxima edição do Oscar, ele talvez não repita o feito porque tem como concorrente Parasite, o coreano que já levou a Palma de Ouro em Cannes, mas se Dor e Glória vencer abrirei uma garrafa de Freixenet, o espumante espanhol dos filmes almodovarianos...hahahaha...

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INJUSTIÇAS (na minha modesta opinião)

 

AMORES PERROS – direção: Alejandro Gonzalez Iñárritu – 2000

Fazia muito tempo que um filme não me impactava tanto quando vi Amores Brutos- quase por acaso numa viagem a Belo Horizonte- em 2000. Criativo, intenso, inesperado...o diretor mexicano acabou se tornando queridinho de Hollywood e de lá pra cá colecionou Oscars por Birdman e O Regresso. Mas em 2001, Amores Perros perdeu para O Tigre e o Dragão, do taiwnês Ang Lee, outro cineasta estrangeiro que fez bem sucedida carreira em Hollywood. Não que O Tigre e o Dragão seja ruim, é ótimo, acabou ganhando em outras categorias, inclusive, mas eu estava apaixonada por Amores Brutos!

 

CENTRAL DO BRASIL – direção: Walter Salles – 1998

Ok, aqui eu reconheço uma opinião bem emocional para falar em injustiça, mas neste ano não me conformei do maravilhoso Central do Brasil perder para a A Vida é Bela, do italiano Roberto Begnini. Mas ganhou outros prêmios importantes como o Globo de Ouro, o Festival de Berlim e o Bafta de língua estrangeira.  Maior injustiça MESMO foi Fernanda Montenegro ter perdido o Oscar de Melhor Atriz para Gwyneth Paltrow e aqui não é por razões emocionais. O trabalho da loirinha em Shakespeare Apaixonado não chegava aos pés de Fernanda.

 

CIDADE DE DEUS – direção:Fernando Meirelles – 2003

Sabe-se lá porque a Academia esnobou o excelente filme de Meirelles na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em 2003. O título escolhido pelo Brasil não chegou a ser selecionado. No ano seguinte, mudaram de ideia e Cidade de Deus concorreu nas categorias Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição. Não levou, mas foi uma espécie de reparação da injustiça na edição anterior do Oscar.

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POR FALAR EM OSCAR

Já entrou em cartaz nas salas de exibição o candidato a candidato a representar o Brasil no Oscar 2020: A vida invisível, de Karim Ainouz. Enquanto não sai a lista dos selecionados, vale conferir o filme que superou o bem sucedido Bacurau, de Kleber Mendonça, na escolha do título que pretende ir ao Oscar.

Sinopse: Década de 1940. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor. O elenco traz também Fernanda Montenegro e Gregorio Duvivier.

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DICA – EM CARTAZ

ATÉ BREVE – direção: Fernanda Kaminski ( curta-metragem)

29/11 – sexta-feira - 18h - Cinema do CIC-Centro Integrado de Cultura, Florianópolis. O filme faz parte da 13 ª Mostra Fita Crepe de Ouro e será exibido com outras produções de alunos do curso de Cinema da Unisul.

Sinopse: Diante de uma situação delicada, Eliza, uma mulher diagnosticada com demência, confunde passado e presente, real e imaginário, lembranças e alucinações.

Ficha Técnica:

Diretor: Fernanda Kaminski Categoria: Ficção; Drama romântico

Roteiro: Fernanda Kaminski Direção de fotografia: Karol Vrumm Direção de Arte: Gau Cordeiro Montagem/Edição: Igor Miguel Joner Som Direto: Bruno Rengel Edição de Som: Bruno Rengel Produção: João Lobo Produção Executiva: Valmir Kaminski e Henrique Kaminski

Elenco: Iarima Castro Alves (Jovem Eliza), Beth Nogueira (Eliza), Eduardo Rafael (Jovem Carlos), Luiz Falcão (Carlos), Ana Letícia Brochado (Pequena Mila), Célio Alves (Ricardo).

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THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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