Maio 31, 2019
FIESC INSTITUCIONAL

O impacto da Alcatraz transcende as fraudes que investiga

O impacto da Alcatraz transcende as fraudes que investiga
POLÍCIA FEDERAL/DIVULGAÇÃO

A Operação Alcatraz da Polícia Federal e da Receita Federal, deflagrada nesta quinta (30), que tem o foco da investigação na Secretaria Estadual de Administração e na Epagri, gera uma avalanche de especulações políticas sobre os fatos ocorridos entre 2009 e 2018. As prisões preventivas do advogado Nelson Castello Branco Nappi Júnior, que foi secretário-adjunto da Administração e que ocupava atualmente a Diretoria de Tecnologia e Informações da Assembleia, bem como do médico veterinário Luiz Ademir Hessmann, ex-prefeito e vereador de Ituporanga e por 10 anos na presidência da Empresa responsável pela extensão rural no Estado, afetam igualmente o PSD e o MDB. Quando há tamanho impacto, obviamente os padrinhos de ambos entram na mira das repercussões. Estabelecer uma relação direta entre as acusações que são imputadas aos presos e quem os cerca politicamente é, neste momento, leviano e precipitado.

 

Estrondoso

O prejuízo de R$ 25 milhões na Administração e de R$ 3 milhões na Epagri, que levaram à detenção de 11 pessoas, sete delas preventivas e quatro temporárias, constitue-se em um escândalo retumbante. A investigação, iniciada em 2017, ganhará potencial mais destrutivo se, mais à frente, convergir para dados da Operação Lava Jato. No campo minado de delações premiadas e muito em função do infinito universo de créditos tributários gerados a empresas que, de acordo com a PF, fraudaram licitações e firmaram contratos superfaturados com a ajuda de agentes públicos e servidores, com rombo de R$ 100 milhões de impostos não recolhidos. Há todos os componentes de um grande esquema de corrupção, algo que merece apuração detalhada e punição exemplar.

 

A reação 1

A reação do presidente da Assembleia, deputado Julio Garcia (PSD), que, em nota, desconhece inteiramente as razões do envolvimento de seu nome no episódio, é emblemática e proporcional ao empecilho que traz, por ora, ao projeto político de um dos maiores articuladores do Estado. Houve duas buscas e apreensões em imóveis de propriedade do deputado, que determinou a imediata exoneração de Nelson Castello Branco Nappi Junior do cargo no Legislativo. Julio, que, à época dos fatos era conselheiro de Contas do Estado, aguarda os acontecimentos, não esconde a perplexidade. O ex-secretário adjunto e diretor da Assembleia tinha uma irmã do deputado como secretária na passagem pela Administração.

 

A reação 2

Do lado de Hessmann, que atravessou quatro administrações estaduais na direção da Epagri - as de Luiz Henrique (MDB), Leonel Pavan (PSDB), Raimundo Colombo (DEM, depois PSD) e Eduardo Pinho Moreira (MDB) -, há um silêncio por parte do grupo que lhe respaldava. Nem o deputado federal Rogério Peninha Mendonça nem o ex-deputado federal e secretário (Educação, Articulação Nacional e Administração) João Matos se manifestaram.

 

Todos os nomes

A decisão da juíza da 1ª Vara Federal de Florianópolis, Janaína Cassol Machado, que fundamenta as detenções na Operação Alcatraz, tem 38 páginas.

Os sete presos preventivamente

Estão no Complexo da Penitenciária da Agronômica em Florianópolis (e um deles foi presos em Vinhedo, SP): o ex-secretário adjunto de administração do governo do Estado, Nelson Castello Branco Nappi Júnior; a advogada Michelle Oliveira da Silva Guerra; o servidor da Secretaria de Administração, Danilo Pereira; o fundador da empresa Intuitiva Digital Solutions, Maurício Rosa Barbosa, a esposa de Maurício e sócia administradora da Intuitiva Digital Solutions, Flávia Coelho Werlich; o representante da empresa DigitalNet, Fabrício José Florêncio Margarido; e o ex-presidente da Epagri e ex-prefeito de Ituporanga, Luiz Ademir Hessmann.

E os presos temporariamente

Estão na sede da Polícia Federal, em Florianópolis:o servidor público da Secretaria de Administração, Luiz Carlos Pereira Maroso; o analista de tecnologia da informação e comunicação da Epagri, Renato Deggau; o gerente de projetos da Secretaria de Administração, Edson Nunes Devincenzi; e o gerente de tecnologia da informação e governança eletrônica da Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca, Fábio Lunardi Farias.

 

Impacto

O ex-governador Eduardo Pinho Moreira, envolvido na costura de um nome de consenso à presidência do MDB, que deve sair nesta sexta (31), foi surpreendido pelo episódio da Polícia Federal. Ainda pela manhã nesta quinta (30) lembrou que, ao assumir o governo, em fevereiro do ano passado – foi efetivado em abril do mesmo ano -, determinou a revisão de todos os contratos que o Estado mantinha com empresas privadas, tanto na área de terceirização quanto na área de tecnologia, objeto do pente-fino da operação que envolve a Receita Federal.

 

Histórico

Quem conhecia a rotina da Secretaria Estadual de Administração confirma que Nelson Castello Branco Nappi Júnior e Luiz Ademir Hessmann eram próximos, pelo menos no contexto do governo. Não foram poucas vezes que Hessmann se encontrou com Nappi Júnior na sede da pasta no Centro Administrativo, localizado na SC-401, não tão longe da sede da Epagri, no Bairro do Itacorubi, na SC-404.

 

Prudência

As operações da Polícia Federal, inclusive as que têm apoio da Receita Federal, são marcadas pela espetacularização de ações. Não à toa, equipes de reportagem já estavam a postos nos locais de cumprimento dos mandados de busca e apreensão. A publicidade dos fatos conflita com o de manter o nome dos detidos em sigilo, vazados com frequência, o que aumenta a responsabilidade de quem divulga as informações e as listas. Sugere-se prudência às repercussões e aos ataques nas redes sociais de forma prematura.

 

Resultado

O estrago de biografias de envolvidos direta ou indiretamente nos acontecimentos gerados por operações policiais é praticamente incorrigível, uma pré-condenação por parte da sociedade antes que o Ministério Público ofereça uma denúncia formal ou o Judiciário acate. Não há registro de pedidos de desculpas ou mea-culpa em falhas de investigação por parte da Polícia federal, Ministério Público Federal ou Judiciário (Justiça Federal), vide o lamentável episódio da Operação Ouvidos Moucos, na UFSC, que levou ao infortúnio do então reitor da universidade, Cao Cancellier (Luiz Carlos Cancellier de Olivo).

 

As notas oficiais

“A Assembleia Legislativa, por meio da Diretoria de Comunicação Social, informa que o evento policial ocorrido hoje não tem como foco o Poder Legislativo de Santa Catarina.

Um mandado de busca e apreensão foi cumprido nesta manhã no prédio administrativo da Avenida Mauro Ramos, onde foram vistoriados e apreendidos documentos e equipamentos eletrônicos, de uso do diretor de Tecnologia, Nelson Nappi, investigado no inquérito.

Por determinação do presidente, deputado Julio Garcia, o diretor foi exonerado do cargo no dia de hoje (30).

Até o presente momento a Assembleia Legislativa não teve acesso a informações mais precisas a respeito do inquérito ou sobre o teor das acusações. Mas está atenta e à disposição das autoridades para que o caso seja esclarecido no menor espaço de tempo possível.

Florianópolis, 30 maio de 2019”

 

NOTA À IMPRENSA

“Surpreendido por uma operação policial na manhã de hoje, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Julio Garcia, informa que desconhece inteiramente as razões pelas quais teve seu nome envolvido nas investigações.

Assim que tiver acesso e conhecimento integral dos autos e analisá-los, prestará todas as informações necessárias.

Florianópolis, 30 de maio de 2019”

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roberto-azevedo política economia bastidores da política Santa Catarina
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Roberto Azevedo

Roberto Azevedo
Jornalista com 34 anos de profissão. Foi repórter, editor, chefe de Reportagem, chefe de Redação, editor-chefe, gerente e diretor de Jornalismo, nas RBS TV de Blumenau e Florianópolis, na TV Record de Florianópolis e na Rede TV Sul!; comentarista na RIC TV Record e na Record News; editor de Política e colunista no Diário Catarinense (DC), e colunista no Notícias do Dia (ND). Atuou nas rádios União de Blumenau e União FM de Florianópolis, e na Rádio Record da Capital. Atualmente, além do Making Of, faz comentários nas rádios do Grupo RCC (Bombinhas e Nova Trento) e na 105 FM (Jaraguá do Sul); e assina uma coluna no Diarinho, de Itajaí.
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