Outubro 14, 2017

Marcelo 7 Cordas e sua Negra Catarina na área!

 

Marcelo Silva, também conhecido como Marcelo 7 Cordas, nasceu no Morro do Mocotó, onde cresceu entre becos, escadarias, samba e carnaval.  Hoje, Doutor em Antropologia (sempre trabalhando com pesquisas sobre samba e afins) esse Capricorniano se dedica a lançar seu primeiro CD autoral, Negra Catarina. Para isso está no ar a campanha de financiamento coletivo pelo Benfeitoria, onde amigos e admiradores do samba podem contribuir com determinadas quantias, tendo como contrapartida a aquisição do CD e ingressos para o show de lançamento.

Pai de quatro filhos, Tayssuê (22), Cauê (17), Lauriel (9) e o pequeno Caio (5) - esse último com a grande sambista Verônica Kimura, sua companheira - esse admirável músico conta um pouco sobre sua vida e obra, desde a infância no Mocoté e a paixão latente pelo Carnaval à, finalmente, o tão esperado Negra Catarina.

Com vocês, Marcelo 7 Cordas; Doutor em Antropologia, melodia e simpatia!

 

 

Como foi sua infancia?

Ah... as lembrança mais fortes sãos as das festas de preparação do carnaval, tínhamos a quadra da FAC ali embaixo do Mocotó, e o Seu Tomé, que era Protegidos da Princesa, era o responsável por essa quadra. Então, de sexta a domingo a gente descia o Morro pra ver os ensaios da Protegidos e de outras escolas.

Foi ali que comecei meu contato com samba e carnaval, por volta dos meus seis, sete anos. Muitas vezes nossa família não queria nos levar porque dormíamos nas arquibancadas, depois, na hora de ir embora, tinham que carregar a gente morro acima chorando (risos).

Na FAC que eu aprendi a sambar, ali foi meu laboratório. Até falo sobre isso na abertura da minha tese de doutorado; no dia que comecei a sambar de fato, fiquei com tanto medo de esquecer como era, que subia e descia o morro sambando pra ter certeza que nunca mais ia perder o samba no pé. Nessas rodinhas que a gente fazia tinha o Petoca, hoje ele trabalha no gabinete do Thiago Silva, e ele sambava muito bem, a gente ficava olhando, tentava imitar mas não conseguia, até que um dia deu certo. E nesse momento me lembro que foi quando eu tomei consciência do corpo como um todo. 

 

E o violão, como se deu esse casamento?

A família da mãe é de músicos e eu aprendi a tocar com eles. Eles faziam aquelas rodas de samba e iniciei com chocalho e instrumentos menores, depois passei pro cavaquinho e na sequencia pro violão, que aprendi a tocar com o Emilson, meu primo, você o conhece! Aí fui estudar, me especializar. 

 

Você só compõe samba?

Componho mais é samba enredo, inclusive no meu CD agora que estou lançando, o Nega Catarina, tem a musica Nego Quirido, que diz: “Hoje quando acordei, vi a Nego Quirido de cima” - que é uma descrição da gente acordando cedo e assistindo os últimos desfiles lá do Morro, da vista que a gente tinha, e tem até hoje, la da casa da minha avó Isaura, que você também conhece (risos) e que da pra ver a Passarela do Samba. (E que vista!)

 

Fale-nos um pouco sobre sua formação acadêmica, Dr. Marcelo! 

Graduei-me em Historia pela UDESC, daí comecei a dar aula no Estado. Meu TCC já foi sobre samba nas camadas populares da Ilha, de 1920 a 1950.

Depois fiz mestrado na UFSC com pesquisa em samba, e foi onde a ponte se construiu, consegui levar o samba pra dentro da academia. No mestrado trabalhei em rodas de samba em três lugares da Grande Florianópolis, o saudoso Bar do Tião, que já fechou, o Canto do Noel e o Praça 11.

Já no meu doutorado, que foi na URGS, trabalhei com Samba Enredo e ampliei esse recorte para três cidades do Sul do Brasil, onde tem carnaval e desfiles de escolas de samba, que são Porto Alegre, Florianópolis e Pelotas.

 

 

Você é Protegidos?

Eu tenho um caso complicado com negócio de Escolas... (risos). Todo mundo escolhe um time de futebol, uma escola de samba, eu não, eu já troquei, já voltei, já tive mais de um time.

Por exemplo, eu sou flamenguista “também”, mas descobri que o Vasco foi o primeiro time a aceitar negros em campo, na época em que o Flamengo não aceitava. Daí me tornei um pouco Vasco da Gama

Nasci no Morro da Protegidos da Princesa, mas era Copa Lord, depois passei a ser Protegidos, porque, além de ter nascido ali, desfilava pela Escola, tocava violão lá também. Na sequência comecei a participar de concurso de escola de samba na Coloninha, que me recebeu muito bem. Então eu digo que sou Copa, Protegidos e Coloninha!

 

É bom que você não sofre! Qualquer que seja a escola que ganhar você vibra!

Então... eu tenho uma dificuldade de ser uma coisa só. Mas o porque disso tem desdobramentos. Nasci na Protegidos, sou Protegidos.

Copa Lord porque o primeiro grupo de samba que toquei na ilha, que se chamava Menores do Samba e depois virou Partido Alto, era do Morro da Caixa. Então no meu morro eu não tocava, participava era da roda de samba do coroas la. Aí virei Copa Lord também.

Daí nos anos seguintes comecei a sair na área de compositores da Coloninha e virei Coloninha também.

 

Vamos falar um pouco da sua trajetória até sair o Negra Catarina!

No ano 2000 o Grupo Bom Partido gravou um samba meu que se chama O Samba na Ilha, e também colocou esse nome no CD deles. Esse samba, que fiz com minha irmã Milene, foi o carro chefe. Muita gente começou a cantar essa música! Depois disso comecei a compor com mais frequência.

Compunha pros festivais de samba enredo, para blocos de carnaval, participava de concursos, enfim. Em 2003 comecei a pensar em juntar alguns sambas pra gravar um CD. Mas só em 2006 que decidi que iria realmente gravar mesmo. Tentava em alguns estúdios, começava a gravar, mas nunca terminava, faltava dinheiro, faltava isso ou aquilo. Uma vez estava finalizando finalmente a gravação e o estúdio do cara pegou fogo e perdemos tudo! Numa outra situação o dono do estúdio se mudou e nunca mais o achei. Aí decidi que a próxima vez que eu tentasse iria até o fim.

Quando comecei meu doutorado em 2013, na cidade de Porto Alege, conheci o Andrezinho do Banjo por lá. Quem nos apresentou foi o sambista Mamau de Castro, que logo me sugeriu pra gravar meu CD no estúdio do Andre, já que eu ficar estudando por mais quatro anos na capital gaúcha. E assim foi. O André cobrava um preço bacana e tinha um estúdio especializado só em gravação de samba. Era tudo que eu precisava! Comecei em abril de 2013 e terminei em Março desse ano.

 

Quantas composições tem no Negra Catarina, e porque esse nome?

11 ao todo. Nove sambas meus, um da Pamela Amaro e um do André. E sobre o nome foi bom você perguntar, porque muita gente acha que Negra Catarina é uma mulher, mas não, é uma refererência ao povo negro do nosso Estado.

 

Bom, sei que para finalizar esse trabalho e pegar finalmente sua obra nas mãos e por o CD na rua você está no Benfeitoria, fala um pouco sobre isso pra gente.

Então, o primeiro foco são 300 cópias de CD, mais a grana do estúdio, porque precisa ainda de mixagem e masterização.

Mas deixa-me explicar como funciona o Benfeitoria: ele é feito por etapas! Se eu conseguir essa primeira etapa agora e somente ela, que é de R$4.600, eu consigo fazer as 300 cópias, sem show de lançamento.

Daí parte para as etapas seguintes, seis mil reais e pouco, é um show de lançamento mais 400 cópias. E assim vai. As metas vão aumentando, até chegar à meta 5.

No final a meta é de R$12.900, onde consigo fazer show de lançamento no teatro, ter registro fotográfico e mil copias de CD.

 

Quando começou sua campanha?

Iniciamos dia 2 de Outubro e vamos até 20 de Dezembro. Hoje, em 12 dias de campanha, estamos com R$1.280 reais arrecadados.

Mas queria ressaltar uma coisa, o mais importante é que as pessoas entendam que no Financiamento Coletivo, como o Benfeitoria, a contribuição é como uma compra antecipada, diferente de uma doação.

Se você contribui com 30 reais, você já esta comprando o CD. Com 50 reais, você compra o CD e um ingresso para o show. 100 reais, dois ingressos e dois CDs. Cada valor contribuído é ligado a uma contrapartida.

Outra forma é alguém que trabalhe com shows ou tenha casa de samba, essa pessoa pode também comprar um pocket show, por exemplo, no valor de mil reais, e explorar esse show quando ela quiser e do jeito que quiser, cobrando ingressos, enchendo a casa, enfim. Até shows para aniversários ou para dar de presente. O Financiamento Coletivo possibilita isso.

E, muuuito importante também : se eu não bater a meta todo dinheiro é devolvido!

 

Conhece muita gente que conseguiu alcançar as metas?

Minha amiga Iara Germer conseguiu na campanha R$13.200, fez um show lindo, lançou o CD em grande estilo no TAC. Ela me deu varias dicas.

Mas tô preocupado mais é em botar meu CD na rua pra todo mundo ouvir, dando pra fazer isso, pra mim já ta legal demais.

 

 

 

Ping Pong

O que você não fica sem: Música

O que mais admira: Aquilo que está se perdendo com o tempo: humanidade

O que não suporta: Repetição

Um lugar: A praia

A melhor viagem: Lagoinha do Leste, onde morei por um ano

Uma mania: Não poder ver louça suja na pia

Um hobby: Fotografia

Uma palavra: Tambor

Uma comida: Feijão

Uma bebida: Cachaça! De preferencia Butiá

Uma frase: Eu sou porque nós somos (filosofia Ubuntu)

Uma paixão: Negra Catarina

Um sonho: Continuar sendo feliz

 

Um brindo ao samba e ao CD Negra Catarina! Que venha cheio de axé como você, Marcelo!

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social entretenimento Floripa Florianópolis gente festas eventos agenda
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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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