Outubro 25, 2019

MINHA TERRA MORA EM MIM (*)

MINHA TERRA MORA EM MIM (*)
Unicef/UKLA/Schembrucker

Quem acompanha a coluna sabe que o tema refugiados me é muito caro. Por fazer trabalho voluntário, acompanho de perto o drama de famílias que precisaram deixar o país de origem, casa, emprego, parentes e amigos para fugir da guerra, da fome, dos desastres ambientais ou da perseguição política.  Milhões de pessoas estão em deslocamento hoje no mundo. Estima-se que 65 milhões sejam crianças.

O cinema tem olhado com atenção para este drama. Um documentário que vêm comovendo as platéias é For Sama, a história da cineasta síria, Waad al-Kateab, que filmou durante cinco anos sua vida na cidade de Aleppo tomada por rebeldes durante a rebelião síria. Waad ficou na cidade para lutar por uma Síria livre, se apaixonou, casou e teve uma filha, Sama, tudo enquanto documentava a terrível violência que a cerca. Ela gravou um diário para que Sama entenda no futuro de que maneira a mãe resistiu aos ataques do ditador Bashar Al-Assad, até ser forçada a deixar Aleppo.

Selecionei outros títulos sobre o tema. Alguns já passaram por aqui, mas sempre vale a pena ver ou rever para entender o que se passa atualmente e lembrar que muitos dos nossos antepassados vieram para o Brasil em situação semelhante.

Para quem está cansado de chorar ao ver na TV as imagens de crianças nos campos de refugiados ou morrerem durante a tentativa de atravessar de seus países para a Europa em barcos precários, sempre há como ajudar. Existem entidades de apoio precisando de trabalho voluntário, procurando pessoas que possam ensinar português a estrangeiros ou auxiliá-los a se adaptarem ao país.

A curto prazo há um jeito de você ajudar. Saiba como no rodapé da coluna.

Agora, vamos aos filmes! Boa leitura.

Brígida De Poli

 

(*) Todas as pessoas moram na sua terra, mas a minha terra mora em mim ( Said As, professor e refugiado palestino). Título do livro de Bruna Kadletz, coordenadora do Círculos de Hospitalidade, entidade de apoio a refugiados e imigrantes.

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CONTOS QUE NÃO SÃO DE FADAS – animação - UNICEF

Inspirado pela história de três crianças refugiadas, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, lançou pequenos filmes de animação que contam pelo que passaram e como se sentem as crianças que fogem de conflitos.

A série "Contos que Não São de Fadas" é parte de uma campanha que busca incentivar as pessoas a praticarem um ato de humanidade a crianças e jovens refugiados e migrantes, ajudando, assim, a mudar suas vidas e a recomeçarem uma nova história.

Em "Ivine e o Travesseiro", uma menina síria de 14 anos conta sobre sua fuga perigosa do país e sobre como sentiu medo, fome, cansaço e teve pesadelos durante todo o tempo. Veja abaixo.

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A VIDA EM MIM – direção: Kristine Samuelson, John Haptas – 2019

Eu desconhecia a existência da Síndrome de Resignação e, creio, que pouca gente conhece. Este documentário de 40 minutos fala da doença, semelhante ao coma, que acomete crianças e jovens refugiados. Ele mostra a vida das famílias que têm filhos nesse estado quase vegetativo em que ficam como se estivessem hibernando, com todas as suas funções vitais preservadas. Seria uma forma de se proteger do trauma e da incerteza na vida como exilados.

 Retratam também a visão de médicos que parecem ainda não entender de fato o porquê de os casos estarem mais centralizados em uma região específica, embora já haja casos em centro de refugiados de outros países. As dúvidas ainda são muitas, mas ao menos o curta-metragem alerta para a existência da síndrome. Disponível na Netflix.

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NÃO EXISTE EXISTE LAR, SE NÃO HÁ PARA ONDE IR – direção: Ai Weiwei – 2017

O documentarista Ai WeiWei acompanhou a situação dos refugiados em 23 países durante um ano. Ele gravou Human Flow na França, Grécia, Alemanha, Iraque, Afeganistão, México, Turquia, Bangladesh e Quênia, entre outros, para mostrar as causas que levam milhões de pessoas a abandonarem seu país de origem. Guerra, miséria e perseguição política provocam o deslocamento de milhões de pessoas que, muitas vezes, não encontram um refúgio acolhedor e com melhores condições de vida.

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O PASSO SUSPENSO DA CEGONHA – direção: Theo Angelopoulos ( 1991)

A trama: Alexandre é um repórter escalado para a cobertura televisiva da situação dos refugiados turcos, curdos e albaneses numa cidade da fronteira. Ele pensa ter visto entre o grupo um importante político grego que havia desaparecido anos antes. Ao voltar para Atenas, o jornalista pede à suposta viúva do político que vá com ele ajudar na identificação do velho que ele julga ser o político. O pano de fundo da história é a tragédia dos refugiados.

Essa produção Grécia-França-Inglaterra traz no elenco dois monstros sagrados: Marcelo Mastroiani ( o político) e Jeanne Moreau( a esposa).

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FLOR DO DESERTO –direção: Sherry Hormann-    (2010)

Waris Dirie (Soraya Omar-Scego / Liya Kebede) nasceu em uma família de criadores de gado nômades, na Somália. Aos 13 anos, para fugir de um casamento arranjado, ela atravessou o deserto por dias até chegar em Mogadishu, capital do país. Seus parentes a enviaram para Londres, onde trabalhou como empregada na embaixada da Somália. Ela passa toda a adolescência sem ser alfabetizada. Quando vê a chance de retornar ao país, ela descobre que é ilegal da Somália e não tem mais para onde ir. Com a ajuda de Marylin (Sally Hawkins), uma descontraída vendedora, Waris consegue um abrigo. Ela passa a trabalhar em um restaurante fast food, onde é descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson (Timothy Spall). Através da ambiciosa Lucinda (Juliet Stevenson), sua agente, Waris torna-se modelo. Só que, apesar da vida de sucesso, ela ainda sofre com as lembranças de um segredo de infância.(sinopse:Adoro Cinema)

A verdadeira Waris esteve no Brasil para o lançamento de "Flor do Deserto". O filme venceu o Festival de San Sebastian no Voto Popular.

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TERRA FIRME – Emanuele Crialese ( 2013)

Sicília, Itália. A família Purcillo vive em uma ilha remota, onde a maior fonte de trabalho é o turismo. Ernesto, o patriarca da família, ainda mantém seu barco de pesca, mais por razões sentimentais do que pela renda que consegue obter através dele. Já Nino desistiu de vez da pescaria e agora se dedica a entreter turistas. Um dia, Ernesto e o neto Filippo estão no mar e, ao perceberem que um barco naufragou, ajudam algumas pessoas. O problema é que o barco estava repleto de imigrantes ilegais e ajudá-los, mesmo nestas condições, é considerado crime. Vivendo entre o medo de serem flagrados e a necessidade de prestar ajudar, a família Purcello passa a abrigar em sua própria casa dois dos imigrantes: Sara e seu filho.

"Terra Firme" foi o representante da Itália no Oscar de  Filme Estrangeiro em 2012.

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DHEEPAN-O REFÚGIO – Jacques Audiard ( 2015)

Nessa produção francesa, Dheepan , Yalini e a menina Illayaal  assumem identidades falsas para fugir do Sri Lanka, seu país natal, que está em guerra. Eles não se conhecem e, diante da iniciativa, precisam conviver como se fossem uma família verdadeira ao chegar na França. Apenas a garotinha fala francês. Sem conhecer a língua local, Dheepan consegue emprego como zelador em um condomínio de classe baixa, enquanto que Yalini passa a trabalhar como empregada doméstica de um idoso com problemas de saúde.

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O OUTRO LADO DA ESPERANÇA -  direção: Aki Kaurismäki  (2017)

Aqui o tom é leve e profundo ao mesmo tempo. Esse é considerado um dos melhores trabalhos do diretor finlandês , tanto que ele levou pra casa o Urso de Prata de Melhor Diretor da 67ª edição do Festival Internacional de Berlim.  Sinopse: Khaled fugiu da guerra na Síria e foi buscar asilo na Europa. Depois de percorrer vários países, solicita a permissão de estadia na Finlândia. Enquanto espera pela resposta, busca pela irmã, desaparecida, e consegue a ajuda de um pequeno comerciante, Wisktröm , que aceita empregá-lo em seu pequeno restaurante.

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É COISA NOSSA

ERA O HOTEL CAMBRIDGE – direção: Carla Caffé-   (2017)

O Cambridge foi um tradicional hotel de São Paulo. Fechado e abandonado em 2011, foi ocupado tempos depois por sem-tetos brasileiros e refugiados recém-chegados ao país.

Além da tensão diária que a ameaça de despejo causa, os novos moradores do prédio terão que lidar com seus dramas pessoais e aprender a conviver com pessoas que, apesar de diferentes, enfrentam juntos a vida nas ruas. O drama dos refugiados, vindos de outros países, sem falar português e esperando uma vida melhor num país estranho está bem exposto no filme.

O longa mistura atores profissionais, como José Dumont, e amadores.  Ganhou o prêmio "Cinema em construção", no 63º Festival de San Sebastián, na Espanha, que busca impulsionar projetos em fase de pós-produção. ( Dados: Adoro Cinema)

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FALANDO NISSO...

Lembram que escrevi sobre uma forma imediata de ajudar as crianças órfãs de guerra da Síria e as que estão refugiadas no Líbano? Uma coisa que elas sempre pedem é para voltar à escola. Fica aqui uma sugestão de apoio a dois projetos nesse sentido. Leia mais a respeito na coluna da minha querida colega de Portal, Yula Jorge (aqui).

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MUITO OBRIGADO!

Radwan, menino sírio que ficou surdo aos três anos durante bombardeio em Aleppo, vive hoje no campo de refugiados Bourj El-Barajneh, Líbano. Ele já apareceu na coluna e muitos ajudaram-no a conseguir um aparelho de surdez. Radwan hoje faz tratamento com fonoaudióloga e está reaprendendo a falar.

THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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