Dezembro 20, 2018

NATAL DA D. CLEMENTINA

NATAL DA D. CLEMENTINA
Foto: Acervo pessoal

Quando o Claiton (Selistre) veio com a ideia de uma coluna para o período de Natal, me empolguei. Pensei comigo mesmo:

- Acho que vou escrever sobre o eggnog, a gemadinha alcoólica... Quem sabe sobre o glühwein, o vinho quente alemão... Ou quem talvez sobre a Weihnachts Ale, a cerveja de Natal da qual sou super fã.

Mas antes que eu continuasse a lista e chegasse aos espumantes e coquetéis (algo natural para quem tem uma coluna sobre bebidas), ele veio com o balde de água fria.

- Pode falar sobre bebida, mas não convém. Melhor que seja sobre você. 

- ...

A pausa foi longa e confesso que senti um embrulho no estômago. Não pelo medo de escrever, já que duas décadas e tanto em redação lapidam qualquer vivente.

O problema, no meu caso, é falar em primeira pessoa. Meus amigos sabem como sou reservado e, embora tenha atuado em frente às câmeras de TV por tanto tempo, sempre fui arredio a algumas posturas mais públicas. Imagina então a angustia de abrir a caixa preta e expor lembranças e emoções.

____________________

 

Como missão dada é missão cumprida, passei os últimos dias trabalhando a ideia de falar de questões pessoais. E puxando pela memória alguma passagem em especial.

Ao contrário do meu irmão Cleber, que tem uma memória prodigiosa, as lembranças que surgiram foram vagas. Mas todas me remeteram a reuniões em família. Em especial a infância e adolescência na cidade de Palmitos – terra natal da minha mãe, e tradicional ponto de encontro de tios, primos, sobrinhos e agregados.

Reunir a família sempre foi uma preocupação da minha avó Clementina. Lembro de alguns jantares na noite do dia 24, sempre antecipado por uma oração de mãos dadas e um espumante caseiro que ela fazia – uma bebida proibida pra criançada e que, talvez por isso, mexesse tanto com as fantasias da molecada.

O falecimento dela – no começo da década de 1980 – afetou toda família. Mas meus tios procuraram manter essa união. E hoje reconheço o valor do esforço deles.

_____________________

 

Normalmente os Bonfanti se encontram na noite de Natal para rezar, jantar e colocar a conversa em dia. A algazarra é – e sempre foi – à altura de uma família de italianos que gesticula muito e fala beeeeeem mais alto que a média. Mas o barulho nesses encontros sempre foi de menos. O que preocupa – especialmente os novos na família – são os testes impostos a cunhados e cunhadas. Brincadeiras e implicâncias que viraram uma espécie de batismo de fogo. Um rito de passagem que sempre rende algumas risadas – e muita confusão.

Se alguém bebe demais, não tem jeito. No dia seguinte tem um novo teste pro fígado: churrasco, lasanha caseira, queijo e salame colonial, legumes em conserva, melancia, cuca de uva, suspiro de amendoim, e outras comidas com sabor de infância.  E não importa o quanto se coma, sempre tem alguém dizendo:

- Mas já nene, tu comeu tão pouquinho... Um merengue? Um pedacinho de pudim...

E ai de quem diga não... :)

Pausa para um lanche da tarde (mais comida, afff) e algumas músicas antigas – minha mãe, D.Oda, adora Tonico e Tinoco e até as versões mais atuais da Dama de Vermelho. Não demora muito e já se improvisava um bailinho em plena área de camping.

Como dá para perceber pelas fotos, esses encontros sempre tiveram zero de glamour. O que importa mesmo pra minha família, a diversão.

Um cochilo na rede e é hora de organizar as coisas e se preparar para pegar a estrada. O feriado infelizmente chega ao fim e é hora de voltar pra casa. Já contando as horas para o próximo encontro em família.

_______________________

 

Relembrando essas histórias me toquei de algumas coisas...

Primeiro, acho que (como muitos adultos) não aproveitei tanto maus natais. Pelo menos como não como eu gostaria. Seja pela imaturidade e mau humor da adolescência ou pela distância geográfica dessa turma, já na minha fase adulta.

Segundo, tendo a imaginar que meus natais foram e são muito parecidos com mais de 90% das famílias catarinenses. Gente trabalhadora, ligada ao interior, com hábitos simples e família tão próxima quanto a nossa.

Por fim... Como foi bacana rever prioridades e deixar o papo sobre a cerveja de natal, vinho quente alemão e gemadinha alcoólica pra outra hora. Esses assuntos até podem ser curiosos, mas perdem a importância se colocados em perspectiva com o que realmente importa.

Obrigado Claiton pelo desafio! Obrigado família pelos ótimos momentos. E obrigado nonna Clementina, por ter colocado tanta gente boa na minha vida.

Feliz Natal amigos do Making Of, e obrigado por compartilhar esse momento tão íntimo e pessoal. 

Tags:
Jefferson Douglas da Silva cervejas vinhos gastronomia portal makingof Jefferson
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Jefferson Douglas da Silva

Jefferson Douglas da Silva

Jefferson atuou por mais de 25 anos em jornais e emissoras de televisão de Chapecó, Blumenau, Joinville e Florianópolis. Foi repórter, editor, apresentador e gestor de equipes de TV, entre elas a chefia de redação da RBS TV. Atualmente reside em Balneário Camboriú e trabalha com consultoria na área de comunicação. Como jornalista – e descendente de italianos – pode conhecer em detalhes a rotina de cantinas e alambiques que produzem vinho colonial e cachaça no Oeste do estado. Fez cursos de coquetelaria (Senac) e produção artesanal de cerveja (Escola Superior de Cerveja e Malte). Apaixonado por vinhos, estuda o assunto desde 2001 e está em busca da certificação de sommelier pela Fisar (Itália).

Comentários

Media Social

Fique por dentro

Receba novidades no seu e-mail!