Abril 18, 2019

NOSSAS HEROÍNAS CONTRA AS DORES DO MUNDO

NOSSAS HEROÍNAS CONTRA AS DORES DO MUNDO
Cena do documentário Filha da Índia

Capitã Marvel, Feiticeira Escarlate, Vampira, a veterana Mulher Maravilha...são algumas das super-heroínas que estão em alta em Hollywood. Demorou, mas o cinema descobriu que a força feminina tem público cativo. Desde a Tenente Ripley, interpretada à perfeição por Sigourney Weaver em Alien8, que as mocinhas nos filmes pararam de torcer o pé na hora da fuga para serem carregadas pelo herói fortão. Enquanto seus colegas morriam dentro da nave dilacerados pelo terrível alienígena, Ripley foi lá e deu conta do recado.

Mas esta abertura é só uma "pegadinha". Já dei uma semana de trégua na edição passada com as séries cômicas. Hoje o assunto voltou a ser muito sério: as heroínas da vida real, filmes e documentários sobre mulheres corajosas, lutando pelos direitos humanos e pela própria sobrevivência. Guerreiras como Nasrin Sotoudeh, uma advogada iraniana que, por defender pacificamente mulheres e outras minorias do seu país, foi sentenciada a 148 chibatadas e 38 anos de prisão. Se horrorizou ? Leia na seção "A Cara do Cinema" como ajudar Nasrin e outras mulheres presas por motivos políticos. Nasrin aparece como ela mesma em "Táxi Teerã", o filme que abre a seleção de hoje.

Acréscimos, discordância, críticas e elogios são bem-vindos. Escreva no roda-pé da coluna ou pelo cineseries@portalmakingof.com.br

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TÁXI TEERÃ – Jafar Panahi – Irã- 2015

Neste falso documentário, o diretor iraniano que está proibido de deixar o país ou filmar durante 20 anos, desafia o governo e grava escondido dentro de um táxi dirigido por ele mesmo. Seus passageiros vão contando histórias, misturando drama, humor, política nacional, costumes locais e a falta de liberdade de expressão no cinema, enquanto percorrem as ruas de Teerã. Uma das passageiras é a advogada iraniana, Nasrin Soutodeh, sobre quem falei na abertura da coluna. No trailer ( com legendas em espanhol, desculpem), ela é a moça sorridente que segura um bouquet de rosas vermelhas. Nasrin fala para o motorista/diretor sobre como o Irã se tornou uma espécie de prisão, onde transformaram melhores amigos em inimigos.

Nem todos os críticos morrem de amor pelo filme e o comparam aos anteriores dirigidos por Panahi, mas Táxi recebeu o Urso de Ouro no 65º Festival de Berlim. "Panahi criou uma carta de amor pelo cinema. Seu filme é preenchido pelo amor por sua cultura, seu povo e seu país", disse Darren Aronofsky, o presidente do júri do Festival.

 

FILHA – Afia Nathaniel – Paquistão – 2014

Os personagens são fictícios, mas a história é real para de milhares de meninas obrigadas a casar com homens muito mais velhos, em troca de dinheiro, segurança ou poder. No filme, Allah Rakhi tem quinze anos quando foi obrigada a se casar com alguém muito mais velho. Duas décadas mais tarde, seu marido tem a oportunidade de selar a paz com seu maior rival unindo as famílias por meio de um casamento. Ele oferece a mão da herdeira de dez anos ao inimigo, mas Allah não quer ver a filha repetindo sua história e foge levando a menina. A coragem dessa mãe para legar outro futuro à garota é rara na vida real, pois normalmente há muitos outros filhos. Há poucas semanas uma querida amiga integrante de uma entidade assistencial presenciou num campo de refugiados do Líbano a tristeza pelo casamento arranjado de uma jovem. O sofrimento da mãe era muito grande, mas esse sacrifício significava a sobrevivência do resto da família. Sem suporte do governo, do Estado, mal tendo o que comer e onde morar, o que fazer? Muito, muito triste.

 

FLOR DO DESERTO –direção: Sherry Hormann-  2010

Aqui a história se repete e é real ! Waris Dirie nasceu em uma família nômade de criadores de gado da Somália. Aos 13 anos, para fugir de um casamento arranjado, ela atravessou o deserto por dias até chegar em Mogadishu, capital do país. Seus parentes a enviaram para Londres, onde trabalhou como empregada na embaixada da Somália. Quando decide voltar para a Somália, descobre que se tornou ilegal e não tem mais para onde ir. Com a ajuda de uma vendedora, Waris consegue um abrigo em Londres e trabalho em um restaurante fast food, onde é descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson, tornando-se modelo de sucesso. Apesar da fama, ela sofre com as lembranças de um terrível segredo de infância.

 

WASFIA – Sean Kusanagi – Nepal – 2016

Este curta conta um pouco da história de Wasia Nareen, assistente social, escritora e primeira mulher de Bangladesh a escalar os Sete Cumes, as montanhas mais altas de cada continente. Wasfia faz do montanhismo o instrumento para uma causa maior: os direitos da mulheres de seu país. Poético e com belas imagens, o documentário mostra a luta de Wasfia para escalar os lugares mais altos do mundo e ainda melhorar a vida de suas conterrâneas. A National Geographic denominou Nazreen como um dos seus "Aventureiros do Ano" em 2014/2015.

 

Pray the Devil Back to Hell -  Gini Heticker   - 2008

O documentário retrata o Movimento pela Paz na Libéria, organizado pela assistente social Leymah Gbowee. Na ocasião, milhares de mulheres cristãs e muçulmanas se mobilizaram para organizar protestos não-violentos que levaram ao fim da Segunda Guerra Civil da Libéria em 2003. O movimento levou Ellen Johnson Sirleaf a ser eleita presidente, fazendo com que a Libéria se tornasse a primeira nação africana a eleger uma mulher como chefe de estado. Em 2011, Leymah Gbowee ganhou o prêmio Nobel da Paz junto com Sirleaf e a iemenita Tawakel Karman. (Disponível na Netflix)

 

Filha da Índia (India's Daughter) – Leslee Udwin-  2015

O documentário é forte e relembra o estupro coletivo da estudante de medicina Jyoti Singh, em 2012, na Índia, e retrata o movimento social inspirador que tomou as ruas pelos direitos das mulheres e contra a violência de gênero. De acordo com a diretora Leslee Udwin, foram os protestos em resposta ao estupro que a levaram a fazer o documentário. "Eu fiquei fascinada com as mulheres e homens da Índia que tomaram as ruas em resposta a esse terrível estupro coletivo e exigiram mudanças por direitos das mulheres. E pensei que o mínimo que podia fazer era ampliar suas vozes." ( Dados:Themis-Gênero Justiça) – (Disponível na Netflix).

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É COISA NOSSA

A MULHER EM TRAVESSIA – Doc. curta – independente – Brasil

A partir de uma oficina de cartas, o documentário de 16 minutos, mostra o depoimento de mulheres imigrantes e refugiadas no Brasil. Vindas do Congo, Camarões, Venezuela, Gâmbia, Colômbia elas falam do drama de ter que deixar seu país de origem, a família e os amigos. O que encontraram de bom e ruim no Brasil, quais as expectativas para o futuro, a certeza de que não podem desistir nunca. É um vídeo simples, mas tem muito a ensinar para quem não conhece a realidade de refugiadas e imigrantes que vêm para o Brasil. O curta está disponível gratuitamente on line no Vimeo.

 

ENCANTADAS-MULHERES E SUAS LUTAS NA AMAZÔNIA – Doc.curta – Brasil

O documentário retrata a resistência das mulheres defensoras de direitos humanos em diversos territórios da Amazônia. Indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, agricultoras, as mulheres amazônicas lutam pelo reconhecimento de suas terras, pela preservação das águas, pelo direito de viver bem, em harmonia com a natureza, e por respeito às suas culturas e seus modos de vida. Mobilizadas e mobilizadoras de suas comunidades, elas resistem à pressão dos mega projetos e latifúndios sobre seus territórios, à destruição da floresta e à mercantilização da Amazônia, que geram consequências desastrosas para as suas vidas e as suas comunidades. O filme tem duração de 20 minutos e é assinado como uma obra coletiva, desde a construção do argumento até a criação do roteiro.

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MISS REPRESENTATION – Jennifer Siebel Newson – EUA -2011

Aqui a reflexão é sobre a maneira como a mulher é exposta na mídia há séculos. O documentário mostra como mídia e cultura contribuem para a falta de representação de mulheres em posições de poder, liderança e influência. Sendo uma força persuasiva que molda normas culturais, quão impactante é vender a ideia de que o valor das mulheres se baseia na beleza, juventude e sexualidade, e não na capacidade como líder? Como isso se reflete na sub representação de mulheres no congresso, no governo, como CEOs, em cargos de chefia, como cineastas, roteiristas, diretoras e produtoras? O filme traz estatísticas reveladoras, entrevistas interessantes e propostas de transformação dessa realidade. Mulheres famosas como as atrizes Jane Fonda e Geena Davis e a ex-secretária de estado americano, Condolizza Rice, estão entre as entrevistadas.

Um ponto bem interessante: ao final são sugeridas diversas ações que cada um pode ter para modificar esse cenário injusto.

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FORA DA PAUTA

A esperada volta de Game of Thrones

Contém spoiler!

No domingo a HBO exibiu o primeiro episódio da derradeira temporada de Game of Thrones, a série de maior sucesso, maior orçamento, maior audiência ( superou até a "mãe" de todas, Os Sopranos), mais premiada e mais pirateada da história. Depois de dois anos de espera, não houve cenas de ação. O capítulo se dedicou a mostrar os reencontros de Jon Snow com os irmãos (com Arya foi emocionante), o de Sansa com Tyron, de Sam com Daenerys e o que encerra o episódio: de Jaime com Bran Stark ( ele foi o causador da paraplegia do garoto que o flagrou na cama com a própria irmã, a rainha Cersei, lembram?). Outros momentos impactantes: o casal Daenerys e Jon dando umas voltas, cada qual sobre um dragão; na Muralha o encontro do grupo com a horripilante marca do Rei da Noite e o susto que se segue. Meio decepcionante foi o momento em que Sam conta a Jon que ele é o verdadeiro rei e não um filho bastardo dos Stark.

A última temporada ainda promete muitas emoções, afinal tem que fazer jus ao amor que os fãs espalhados por 186 países têm pela série, algo em torno de 18 milhões de telespectadores a cada episódio. Aguardemos.

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A CARA DO CINEMA

Hoje nossa "cara" não é exatamente de cinema, mas deu seu recado no filme "Táxi Teerã", que abre a coluna. Nasrin Soudeth, a mais famosa advogada iraniana dos direitos humanos, cometeu os "crimes" de protestar contra a pena de morte e de incitar as mulheres a tirarem seus véus e a praticarem atos imorais. Nasrin que decidiu permanecer no país defendeu várias mulheres acusadas de não cobrirem a cabeça, como manda a lei no Irã. Ela já estava detida e , na semana passada, saiu a nova condenação de mais 33 anos e 148 chibatadas. A Avaaz ( "voz" em várias línguas), uma comunidade de mobilização online, está coletando assinaturas para que o G7, reunião dos países mais poderosos do mundo, pressionem o governo iraniano a libertar Nasrin e outras mulheres presas por motivos políticos. Mais de um milhão de pessoas de vários países já assinaram. A operação é bem simples.

Se você quiser, bastar assinar através aqui.

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Na próxima terça-feira voltamos a este mesmo batcanal com filmes e séries sobre.... (ah, não vou dar spoiler)!

THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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