Maio 17, 2018

Nosso futuro sombrio nos filmes distópicos

Desde o início, o Cinema demonstra um grande fascínio pelas narrativas distópicas. Bem, pra começo de conversa, distopia é uma palavra de origem grega e significa "lugar ruim", pois o prefixo "dis" é algo negativo. Já utopia, bem mais familiar aos nossos ouvidos, seria o "lugar ideal". O futuro nos filmes é sempre retratado como "dis": sombrio, sem esperança, com sobreviventes lutando contra a fome e a falta de água potável, cidadãos oprimidos pelos governantes... O que muda é o elemento deflagrador da distopia: a tecnologia, as corporações ou o Estado autoritário.

Uma explicação da Revista Galileu : " uma distopia, portanto, é, uma história com uma lição. Em geral, envolve a denúncia de regimes ditatoriaistirânicos autocráticos. Mas, mais do que isso, é uma janela escancarada para as consequências de qualquer tentativa de moldar e dar direção a algo tão plural quanto a civilização".

O Cinema já nos deu grandes filmes com narrativas distópicas. Selecionei alguns deles, mas há muitos outros que merecem estar na lista. Faltou o seu favorito ? Comente no final da coluna ou escreva para cineseries@portalmakingof.com.br

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METRÓPOLIS ( direção: Fritz Lang – Alemanha- 1927)

Poucos anos depois do seu surgimento, o Cinema já estava tratando de imaginar o futuro do planeta. Não sei se Metrópolis foi exatamente a primeira distopia nas telas, mas certamente foi a pioneira no impacto que causou . Virou um cult, influenciador na estética não só de filmes , mas de outras formas de arte até hoje. Lang colocou sua sociedade distópica em 2026, quando o mundo passa por uma revolução tecnológica e surgem os "Ser-Máquina", algo como os androides e robôs atuais. Os trabalhadores ficam no subsolo, enquanto uma pequena casta tem uma vida confortável. É a exploração do homem pelo homem.  O austríaco Fritz Lang fez outros filmes marcantes como "Dr.Mabuse" e "O Vampiro de Dusseldorf",mas sua obra-prima é mesmo "Metrópolis", já restaurado várias vezes e até colorizado.

 

O PLANETA DOS MACACOS (direção : Franklin J. Schaffner – EUA- 1963)

Esse filme elevou a ficção científica a outro patamar ao mostrar qualidade e viabilidade econômica do gênero. Acabou virando uma franquia com quatro continuações , dois reboots ( nova versão ) em 2001 e 2011, uma série animada de TV e outra live action ( adaptação de animação com atores ). Claro, vocês até já imaginam o que eu vou dizer : nenhum deles superou o original de 1963 !

Charlton Heston interpreta um astronauta que viaja no tempo. Ele e mais dois companheiros despertam com a nave afundando em um lago de um planeta desolado. A única astronauta mulher morreu na queda. Ao explorar o lugar, eles se deparam com humanos mudos e gorilas que falam. Que planeta é esse a gente descobre num dos finais mais geniais que o cinema produziu.

 

THX -1138 ( direção : George Lucas – EUA -1971)

George Lucas ainda não era "O" George Lucas, do mega sucesso "Guerra nas Estrelas", mas já dizia a que vinha nesse primeiro filme. Em uma sociedade distópica, onde cada um desempenha uma função e vive como autômato, o cidadão THX-1138 resolve parar de tomar as drogas fornecidas pelo sistema para bloquear emoções e se apaixona pela colega LUH 3417. Amor, sexo, emoções podem ser coisas muito subversivas e desequilibrar o mecanismo que mantém os trabalhadores vivendo no subsolo, sem livre arbítrio, só produzindo. Eles precisam fugir de um exército de androides. O grande Robert Duval interpreta o rebelde THX 1138.

 

A LARANJA MECÂNICA (direção:Stanley Kubrick –EUA/REINO UNIDO- 1972)

Ao ser lançado nos anos 70, o grau de violência de "A Laranja Mecânica" – baseado no romance de Anthony Burgess  - foi considerado excessivo. Hoje seria visto quase com naturalidade, diante das cenas de violência explícitas e "criativas" que assolam as telas. Em "A Laranja Mecânica" a distopia vem dos métodos que o Estado utiliza para controlar seus cidadãos fora das regras. Malcom McDowell interpreta Alex , líder de uma gangue de delinquentes que mata, rouba e estupra. Preso pela polícia, ele recebe a opção de participar de um programa que pode reduzir o seu tempo na cadeia. Vira cobaia de experimentos destinados a refrear os impulsos destrutivos do ser humano, mas acaba se tornando impotente para lidar com a violência que o cerca.

 

SOYLENT GREEN – NO MUNDO DE 2020 (direção: Richard Fleischer-EUA-1973)

Olha o Charlton Heston aí de novo , agora interpretando o policial Robert Thorn, que investiga o assassinato de um empresário cuja companhia fabrica um  alimento sintético. Thorn acaba descobrindo também o segredo mais bem guardado da indústria : qual é afinal a matéria-prima do   biscoito verde, o soylent green, que alimenta a população ? Uma cena inesquecível é a morte de Sol, o amigo do policial. Depois de uma certa idade, o cidadão podia determinar o dia de sua morte – uma espécie do suicídio assistido nos dias atuais – e escolhia uma cor e uma música para seus minutos finais em uma câmara. Sol escolhe a cor laranja, então são projetados lindas imagens alaranjadas, enquanto toca a "Pastoral", de Beethoven. Lindo de morrer, com perdão pelo trocadilho.



BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES ( direção: Ridley Scott – EUA – 1982)

Já falamos sobre "Blade Runner" aqui na coluna, mas é impossível não destacar o filme que inspirou - ou foi copiado- centenas de vezes com sua impactante visão do futuro. O curioso é que "Blade Runner" foi um fracasso de bilheteria no lançamento, mas depois acabou se tornando um dos filmes mais cultuados das últimas décadas.

A história é ambientada no início do século 21, em Los Angeles. O clima é sombrio, uma superpopulação se amontoa em arranha-céus decadentes, corroídos por uma incessante chuva ácida que cai sem parar. Harrison Ford interpreta o detetive Deckard, convocado para "aposentar", isto é, exterminar quatro replicantes fugitivos criados para trabalhar em outros planetas. Os androides, dois com características femininas e dois masculinos, querem mais tempo de vida. As cenas memoráveis são tantas que renderiam uma coluna inteira. A trilha sonora também é maravilhosa.

Obs.: No ano passado, um nova versão levou "Blade Runner" para 2049. No elenco, Harrison Ford e Ryan Gosling.


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO ( direção: Burt Brinkehorff  - 1980)

Baseado no importante romance de Aldous Huxley, de 1931, em "Admirável Mundo Novo" a população nasce de forma biologicamente  programada, dividida  em castas.  Aqui é a tecnologia que comanda a distopia. Mantidos satisfeitos e alienados através do "soma", uma droga fornecida pelo Estado, os cidadãos desse "mundo novo" não tem o conceito de família, a ponto de "pai" e "mãe" serem consideradas palavras obscenas.

Há também  uma boa versão de 1998 para a TV, com Leonard Nimoy ( o querido Mr. Spock de " Jornada nas Estrelas") e Peter Galagher.



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Outros títulos  - embora tecnicamente nem todos cumpram os requisitos para ser uma distopia - mas todos são futuristas:

Alphaville ( 1964 – Jean-Luc Godard); V de Vingança ( 2005 – já abordado na coluna); 1984 ( 1984- já falamos sobre ele ), Mad Max ( 2015), Brazil ( 1985 ), Robocop, Matrix, Ela, Lucy, O livro de Eli, Guerra dos Mundos, Os 12 Macacos, Farenheit (já falamos na coluna), Wall-E, O Dorminhoco( de Woody Allen)...

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FORA DE SÉRIE

BLACK MIRROR  ( 4 temporadas – Netflix)

Para usar a própria sinopse da Netflix: "esta série antológica de ficção científica explora um futuro próximo onde a natureza humana e a tecnologia de ponta entram em um perigoso conflito".

O fato de ser uma produção britânica já é indício de qualidade. Cada episódio conta uma história distópica fechada e traz elenco diferente. E histórias de impacto, daquelas que deixam a gente com um travo na boca sobre os reflexos da tecnologia na nossa vida. Black Mirror é mais assustadora porque a paranoia tecnológica que nos mostra é real. Sim, as previsões da série podem acontecer logo, logo. Aliás, acabam de acontecer há cinco minutos...e de novo, de novo!

Por contar uma história a cada vez, mudando inclusive a fotografia de acordo com o tom do roteiro, BM pode ser um pouco irregular: há episódios bem superiores a outros.  Todas as temporadas  estão disponíveis na Netflix.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA ( José Saramago – Portugal – 1995)

Com a palavra o autor do livro: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é necessário termos coragem para o reconhecer".

"Um motorista parado no semáforo, subitamente descobre que está cego". Assim começa o livro. A cegueira acaba virando uma epidemia sem explicação. A cidade se transforma num caos, é um "salve-se quem puder", onde os cidadãos são abandonados à própria sorte. Tentam sobreviver em grupo e aí se manifestam a selvageria, o egoísmo e a barbárie. Entre eles há a mulher de um médico que é a única que consegue ver, algo também inexplicável.

Traduzido em diversas línguas, "Ensaio sobre a cegueira" é uma dura crítica aos males do capitalismo e ao inferno da natureza humana. Uma obra rica e profunda que permite várias leituras.

O FILME ( direção: Fernando Meirelles – 2008 )

Considerado de difícil adaptação, José Saramago recusou inúmeras vezes ceder os direitos de autor de "Ensaio sobre a Cegueira" para o cinema. Quem acabou convencendo o escritor foi o brasileiro Fernando Meirelles ( Cidade de Deus).

E valeu a espera, pois o resultado é muito bom. O próprio Saramago se comoveu às lágrimas ao assistir a estreia do filme. Considero, aliás, que "Ensaio sobre a Cegueira" não teve o reconhecimento merecido. Não é leve, não é fácil de digerir, mas é bom, muito bom.

O filme tem Julianne Moore e Gael García Bernal como protagonistas.

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É COISA NOSSA

3%  ( 2 temporadas – Netflix )

Pois não é que o Brasil produz série de ficção científica ? Claro, não tem o apuro técnico e efeitos especiais dos americanos, por exemplo, mas já é um início. 3% é a primeira produção totalmente brasileira para a Netflix.

Sinopse: Em um futuro pós-apocalíptico não muito distante, o planeta é um lugar devastado. O Continente é uma região do Brasil miserável, decadente e escassa de recursos. Aos 20 anos de idade, todo cidadão recebe a chance de passar pelo Processo, uma rigorosa seleção de provas físicas, morais e psicológicas que oferece a chance de ascender ao Mar Alto, uma região onde tudo é abundante e as oportunidades de vida são extensas. Entretanto, somente 3% dos inscritos chegarão até lá. (FONTE: Adoro Cinema).

A crítica se dividiu em relação ao resultado, mas a assinatura de Cesar Charlone na criação da série é um bom indício. Charlone  é um fotógrafo excepcional que fez, entre outros, a fotografia de "Cidade de Deus", "O Jardineiro Fiel" e " O Ensaio sobre a Cegueira" que está na seção " O livro que virou filme".

Bem, vale conferir e tirar suas próprias conclusões.

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FORA DA PAUTA

O Circuito FAM (Florianópolis Audiovisual do Mercosul) de Cinema 2018 terá lançamento oficial no dia 18 de maio no Cinema do CIC, em Florianópolis, às 19h30min, com Tradução de Libras ao vivo. Nesta edição, participam 41 pontos de cultura com programação para todos os tipos de público, sempre com entrada gratuita.

Vinte filmes vencedores do 21º Florianópolis Audiovisual Mercosul serão exibidos simultaneamente em 27 cidades de todas as regiões de Santa Catarina, entre os dias 19 e 24 de maio, na edição deste ano do Circuito FAM de Cinema. Estão previstas 185 sessões acessíveis com legendagem para Surdos e Ensurdecidos - LSE - além de toda a programação infanto juvenil também possuir Áudio Descrição.

Os filmes estão divididos em sete programas diferentes com os filmes eleitos pelo Júri Oficial e Popular no FAM do ano passado, incluindo 17 curtas e três longas-metragens, com programação adulto e infantojuvenil que está disponível no site www.famdetodos.com.br

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BEIJO DE CINEMA

Ele já apareceu aqui na coluna, mas merece uma reprise. Para alguns faz parte da lista dos beijos mais bizarros da história do Cinema, mas o "selinho"de despedida  entre o astronauta George Taylor/Charlton Heston e Kim Hunter/ Dra. Zira até que é fofo. É a cientista símia quem ajuda os humanos a fugirem. Pura gratidão e afeto.

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HASTA LA VISTA, BABY !

Frases de Cinema & cia

 

" Todas essas lembranças se apagarão com o tempo, como lágrimas na chuva". (Blade Runner: o caçador de andróides)

 

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"Mais humano que os humanos - é o nosso lema." (Blade Runner)

 

                                                 ****

"Eventualmente o governo recorre aos mais cruéis e mais violentos membros da sociedade para controlar os demais, em vez de usar ideias novas.  Definitivamente, (eu) estava curado ".( Alex- A Laranja Mecânica)

                                    

                                   ****          

 

 

 "Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?" (Alex, quando se dá conta que o "tratamento" tira dele suas emoções –A Laranja Mecânica)

 

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"Desafiamos a natureza, moldando-a à nossa vontade. A natureza vem punindo nossa arrogância, desde então." (O Planeta dos Macacos)

 

                                     ****

 

"Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder Executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos Estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores." (Aldous Huxley, autor de "O Admirável Mundo Novo").


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MENS@GEM PARA VOCÊ

De: Victoria Razig

Sobre a coluna do mundo do trabalho no Cinema: há duas animações que se encaixam no tema, "A Fuga das Galinhas" e " Monstros S.A." !

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De: Mário Antonio sobre a coluna "Divas"

A diva da música pop, Amy Winehouse, foi o tema de um documentário recente, vencedor do Oscar de 2016 da categoria. Vítima também da "maldição de outros músicos", morreu aos 27 anos.
Fez toda a carreira já no século XXI e esteve no Brasil - e pareceu ter sido feliz aqui - pouco antes da morte.
O documentário está disponível em serviços de 'streaming' e, embora criticado pela família da cantora quanto à verossimilhança, é uma ótima pedida para fãs e cinéfilos em geral.

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Esta terminou. Agora, é recarregar as baterias para escrever a próxima!



THE END

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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