Janeiro 10, 2020

O CINEMA E A INSANIDADE DA GUERRA

O CINEMA E A INSANIDADE DA GUERRA
Foto: Nick Ut (AP) - Vietnam - 1972

Confesso que tentei fugir de um tema tão doloroso, cheguei mesmo a rascunhar outra coluna mais leve e divertida sobre o Prêmio Pimentão de Ouro, mas acabei me rendendo à necessidade de desabafar diante da insanidade que começou como estratégia de reeleição do presidente norte-americano, Donald Trump, ao mandar assassinar o 2º homem mais poderoso do Irã, e pode descambar para um conflito de proporcionais mundiais. O Irã revidou bombardeando a base americana no Iraque e depois os EUA etc... o que faz lembrar a cena genial do Monty Python em que os lutadores vão cortando os braços, pernas etc... um do outro até restar a única forma possível de ataque: vem que eu te mordo!

O que o cinema tem a ver com isso? Durante muito tempo ele retratou a guerra apenas de forma romântica e heróica. Filmes viraram propaganda da participação dos EUA e aliados na 2ª Guerra Mundial, por exemplo. Mas alguns cineastas foram além e tocaram num ponto crucial: a insanidade da guerra. Generais em seus gabinetes transformando jovens em bucha de canhão, aldeias de civis sendo incineradas, crianças atingidas por bombas, soldados enlouquecendo...são algumas verdades vistas nas telas. Por coincidência, a quase zebra do Globo de Ouro (leia mais abaixo) foi o filme de guerra 1917, que nem estava no radar dos apostadores e levou Melhor Filme em Drama e Melhor Direção para Sam Mendes.

Selecionei alguns títulos que mostram o horror da guerra, tanto na tela grande quanto nas séries de TV. O cinema ajudou a abrir os olhos do público ao expor a dor de pais que perdem filhos, os traumas de guerra, o perigo das armas químicas...Em muitos casos recontou a história que sempre era mostrada sob a ótica do vencedor. É o cinema mostrando sua importância para muito além do entretenimento.

Lista aberta, acrescente os seus filmes se quiser. É sempre um prazer receber a opinião de vocês, cineseriéfilos. Fiquem à vontade. E não se esqueçam de rezar...

*****************************************************************************************

GLÓRIA FEITA DE SANGUE – STANLEY KUBRICK (1957)

Um dos primeiros filmes a mostrar a guerra de outra maneira foi dirigido pelo gênio, Stanley Kubrick. A obra é um libelo humanista que, diferentemente dos filmes da época, não glamoriza os combates e põe o dedo na ferida: generais no comando mais preocupados com sua carreira do que com os homens mortos no campo de batalha. A trama mostra um comandante que joga em três soldados a culpa por uma ação mal sucedida durante a 1ª Guerra Mundial. Kirk Douglas interpreta o militar que também defende os acusados como advogado. A história é baseada em um romance homônimo (Paths of Glory) de 1935, escrito por Humphrey Cobb e inspirado em fatos.

 

JOHNNY VAI À GUERRA  - Dalton Trumbo (1971)

Acho que já contei na coluna que chorei rios quando vi o filme pela primeira vez  no cinema. Há poucos anos consegui encontrar o DVD para revê-lo, mas caí em pratos nos primeiros 15 minutos. Desliguei e nunca mais pude assistir a história do jovem soldado atingido por uma bomba durante a 1ª Guerra Mundial. Johnny  fica cego, surdo, sem braços e pernas, incapaz de se comunicar com o mundo externo. É considerado vegetativo, mas ele pensa, tem lembranças e emoções. Quando percebem isso, os médicos e autoridades não sabem o que fazer com aquele ser "incômodo". A maior parte do filme se passa "dentro da cabeça" de Johnny, a maneira como ele percebe o que acontece a sua volta, as memórias da vida que levava antes da guerra. Não tive coragem de rever, mas quem ainda não viu está perdendo uma lição antibelicista e, em uma linda sequência, sobre a compaixão. Trumbo, um excelente roteirista, dirigiu apenas esta película e preferiu filmar em preto e branco, o que faz todo o sentido para a história. O roteiro se baseia em seu próprio romance " Johhny got his gun" ( Johnny pegou sua arma), de 1939.

 

CORAÇÕES E MENTES – Peter Davis (1974)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário, Corações e Mentes foi a primeira obra cinematográfica a dar voz aos vietnamitas sobre a Guerra do Vietnã e a retratar os efeitos da guerra naquele país. Por isso esmo ficou um ano à espera do lançamento, pois os distribuidores temiam represálias. Quando finalmente foi exibido causou impacto em uns e revolta em outros. Seja como for, ele sempre aparece merecidamente na lista dos mais importantes filmes políticos da história do cinema. (Disponível no YouTube)

 

APOCALYPSE NOW – Francis F. Coppola (1979)

Este é sempre um dos primeiros títulos que me vem à cabeça quando o assunto é guerra. Filme impactante sobre a Guerra do Vietnã e onde a loucura se manifesta de várias maneiras. A trama: o Capitão Willard (Martin Sheen) recebe a missão de encontrar e matar o comandante das Forças Especiais, Coronel Kurtz (Marlon Brando), que aparentemente enlouqueceu e se refugiou nas selvas do Camboja, onde comanda um exército de fanáticos. Apesar dos muitos erros de continuidade, o filme é uma sucessão de cenas antológicas: como esquecer o cel. Kilgore (Robert Duvall) dizendo que "adora o cheiro de napalm no café da manhã" ou ouvindo a Cavalgada das Valkirias no avião enquanto bombardeia uma aldeia? E a entrada em cena de Brando como o cel. Kurtz , sob uma luz difusa, falando o que resume tudo: " o horror, o horror"?

Apocalypse Now virou um clássico, mas quase matou o diretor Coppola que teve que tirar dinheiro do próprio bolso para continuar as filmagens e ameaçou se suicidar durante a produção. Brando complicando as gravações, Charlie Sheen tendo um enfarte no meio das filmagens. Mas, ah...que resultado!

Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, mas perdeu o Oscar de Melhor Filme para O Franco Atirador, que poderia estar nesta lista.  O olhar de Christopher Walken, um soldado que voltou do Vietnã emocionalmente destruído, na cena em que pratica roleta russa já vale o filme. Outra cena inesquecível de O Franco Atirador é o grupo de amigos jogando sinuca e cantando Can´t take my eyes off you às vésperas de irem para a guerra. O último momento  de felicidade na vida deles.

 

PLATOON – Oliver Stone (1987)

O filme parte da experiência do próprio diretor na guerra do Vietnã. A trama: Chris (Charlie Sheen) é um jovem recruta recém-chegado a um batalhão americano no Vietnã. Idealista, ele se voluntariou por acreditar que devia defender seu país, assim como seu avô e seu pai fizeram em guerras anteriores. Aos poucos, a convivência com os demais recrutas e oficiais , fazem Chris perder a inocência e a experimentar toda a violência e loucura de uma carnificina sem sentido.

Platoon acabou premiadíssimo: Oscar de melhor filme, edição, som, diretor; Globo de Ouro de melhor filme/drama, melhor diretor e ator coadjuvante (Tom Berenger); Bafta de melhor diretor e edição; Independent Spirit Awards de melhor filme, diretor, fotografia, roteiro; Urso de Prata de melhor diretor.

 

DUNKIRK – Christopher Nolan (2017)

Um mais recente que acabou na disputa pelo Oscar em 2018, Dunkirk mostra a Evacuação de Dunquerque,  quando soldados aliados da Bélgica, do Império Britânico e da França são rodeados pelo exército alemão e devem ser resgatados durante uma feroz batalha no início da Segunda Guerra Mundial. Ela é considerada uma das piores derrotas da história militar britânica.  A história acompanha três momentos distintos: uma hora de confronto no céu, onde o piloto Farrier (Tom Hardy) precisa destruir um avião inimigo, um dia inteiro em alto mar, onde o civil britânico Dawson (Mark Rylance) leva seu barco de passeio para ajudar a resgatar o exército de seu país, e uma semana na praia, onde o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) busca escapar a qualquer preço.

*****************************************************************************************

FORA DE SÉRIE

Deadline Gallipoli  (minissérie - Austrália /2015)

A trama é inspirada na Campanha Gallipoli ou Batalha de Dardanelos,  o sangrento conflito de 1915, durante a Primeira Guerra Mundial. O nome vem da península turca Gallipoli, onde a Anzac  (sigla da junção dos exércitos australiano e neozelandês) atuou pela primeira vez.

Em quatro episódios, a minissérie mostra os horrores da guerra, os comandantes incompetentes decidindo sobre a vida de milhares de jovens soldados sem sair de seus confortáveis gabinetes e os preconceitos internos das tropas multinacionais. O objetivo dos aliados era tomar Constantinopla – hoje Istambul - e forçar o Império Otomano a se retirar da guerra. A operação, liderada pelos britânicos, durou oito meses e foi um fracasso.  Resultado: a morte de cerca de 130 mil franceses, ingleses, neozelandezes, australianos e turcos.

Quem gosta do gênero, vai apreciar, mas mesmo quem não é muito fã das histórias de guerra terá outros focos de interesse. O fio condutor é a ação de quatro jornalistas para mostrar o que se passava realmente na península e o quanto a terrível realidade mexe com cada um.  Os correspondentes lutavam contra aquilo hoje já virou um clichê : "na guerra, a primeira vítima é a verdade". A verdade exposta pelos jornalistas poderia por fim ao massacre, mesmo que custasse a sua vida ou uma acusação de traição pela Coroa.

O elenco é muito bom: Sam Worthington (conhecido por "Avatar", "A Cabana"), Charles Dance (o patriarca Lannister de "Game of Thrones") e outros nomes conhecidos. A minissérie foi produzida para marcar o centenário da batalha em 2015 e estava disponível no TNT Séries/Now, mas sempre dá pra recorrer à internet.

****************************************************************************************************

MANHATTAN (WGN – 02 temporadas – 2014/2015- USA)

Pouca gente se ligou na qualidade dessa produção e a baixa audiência nos Estados Unidos fez com que o canal WGN América cancelasse a terceira temporada. Mas as duas temporadas com 23 episódios - ainda disponíveis no Fox Premium do Now/Net – merecem ser vistas.

Situada em Los Alamos, Novo México, a série joga luz sobre o Projeto Manhattan durante a corrida para criação da primeira bomba atômica. Ela explora o lado tecnológico, a rivalidade entre os cientistas e as histórias humanas sobre o alto custo dos segredos e seu efeito devastador  sobre  indivíduos,  famílias e relações conjugais.

Por questões de segurança nacional todos que participam do Projeto Manhattan, incluindo os familiares, são proibidos de sair da vila onde moram, trabalham e vivem em constante estresse. No confinamento há esposas entediadas que não sabem exatamente qual o trabalho do marido, mulheres cientistas com pouco espaço por causa do gênero, traições conjugais e casos amorosos transgressores para a época.

Nesse ambiente não poderia faltar um elemento: a espionagem. Estados Unidos e Alemanha disputam passo a passo a primazia de construir o armamento capaz de ganhar a guerra. A paranoia corria solta e qualquer um virava suspeito de estar vendendo segredos para o inimigo nazista.

No centro desse turbilhão duas equipes pesquisam separadamente: uma liderada por  Frank Winter (John Benjamin Hickey), um professor de física veterano obcecado por uma bomba menos letal; a outra pelo jovem Charlie Isaacs (Ashley Zuckerman), brilhante aluno egresso de importante universidade americana. A rivalidade entre eles e as dúvidas morais que surgem diante da invenção daquela que seria a arma mais destrutiva do mundo, criam uma série dinâmica, diferente e cheia de suspense.

****************************************************************************************************

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO GLOBO DE OURO, ALGUNS APONTAMENTOS...

 

1) Uau! : O monólogo mais que ácido, destruidor, do apresentador Rick Gervais. Famoso pelo humor politicamente incorreto, desta vez o inglês pode ter ultrapassado a linha aceitável por Hollywood ao mencionar Jeffrey Epstein, preso por abuso sexual que se suicidou na cela, como "sei que ele era amigo de vocês..." ou criticar a Amazon e Estúdios Disney , a falta de atores negros na premiação (de novo!) etc...

2) Discursos: o mais corajoso foi o da Patrícia Arquete, a única a falar do conflito Trump X Irã e a iminente morte de mais jovens soldados; o mais engraçado, Stellan Skarsgard, que agradeceu ao diretor Milos Forman por dizer que nunca lembrava da cara dele e que em Chernobyl ele ganhara sobrancelhas na maquiagem, razão de se tornar marcante no filme; a questão feminina também esteve presente no discurso de Michelle Williams que conclamou as mulheres a votar pelos seus interesses; e o diretor coreano Bong Joon-Ho deu nos dedos dos americanos por não gostarem de ler legendas ( adorei!).

3) Os óbvios: até as fibras do tapete vermelho sabiam que Joaquin Phoenix ia levar o prêmio de Melhor Ator por Coringa e que o coreano Parasita seria premiado com Melhor Filme Estrangeiro.

4) As supresinhas: Brad Pitt ganhar como Melhor Ator Coadjuvante, não que ele esteja ruim em Era uma vez em Hollywood, está ótimo, mas concorria com Al Pacino, Tom Hanks e Anthony Hopkins !!!! Sam Mendes, que não estava no radar das maiores apostas, levar Melhor Diretor por 2017, o filme de guerra que abocanhou Melhor Filme de Drama.

5) Os esnobados: Hollywood sempre gostou de esnobar Martin Scorsese e desta vez não foi diferente: O Irlandês, produção original da Netflix, saiu de mãos abanando do GO. Jared Harris que está espetacular em Chernobyl e concorria a Melhor Ator em Minissériemas perdeu para Russel Crowe, que nem apareceu para receber o prêmio.

6) Conclusãozinha: adoram premiar atores e atrizes que interpretam personagens reais. Foi assim com Rami Malek no ano passado por interpretar Fred Mercury; Gary Oldman, em 2018, por Winston Churchill. Neste Globo de Ouro, Taron Egerton, um ator pouco conhecido, levou Melhor Ator por interpretar  Elton John em Rocketman e Renné Zelwegger ficou com Melhor Atriz por viver Judy Garland ( não gosto de Renné, mas ainda não vi o filme, então...). Nestas todas, quem dançou foi Leonardo DiCaprio e Scarlett Johansson, que estavam bem cotados.

Que venha o Oscar!

****************************************************************************************************

Pra encerrar, o momento inusitado do Globo de Ouro: a surpresa do ator Brian Cox ao notar que Jason Momoa está usando regata na cerimônia ( o grandão chegou usando um blaser de veludo, mas o calor...) 

 

 

THE END

 

 

 

Fotos: Divulgação/Reprodução 

 

 

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Artigos Relacionados

Exclusivo

O SOM AO REDOR

Junho 26, 2020
Exclusivo

APRENDENDO A SE VIRAR

Junho 12, 2020

Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

Comentários

Media Social

Fique por dentro

Receba novidades no seu e-mail!