Abril 10, 2018

O Cinema e a memória dos anos de chumbo

O assunto está berlinda nos últimos tempos e me espanta quão pouco as novas gerações sabem a respeito. Ou, como os mais velhos parecem ter esquecido. Mas o cinema é a memória de um tempo que, pelo visto, se aprende pouco na escola . O tema rendeu filmes em diversas partes do mundo, mas vamos fazer um recorte e falar das produções que mostram as ditaduras instaladas na América do Sul nos anos 60/70.

É o Cinema ajudando a lembrar o período mais obscuro e sangrento da história recente da região.

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BRASIL

Vamos começar pelo quintal de casa, claro. No Brasil, a ditadura militar durou de 1964 a 1985. O saldo oficial pela CNV-Comissão Nacional da Verdade: 434 mortos e desaparecidos.

Eles não usam Black Tie ( 1981)

O filme é cria da peça de Gianfrancesco Guarnieri, escrita duas décadas antes, e mostra os anseios dos trabalhadores e a luta sindical nos anos 70. Carlos Alberto Ricelli interpreta Tião, operário que não adere à grave ao descobrir que a namorada está grávida. Instala-se um conflito entre ele e o pai, Gianfrancesco, líder grevista. O elenco traz Bete Mendes, como a namorada, e Fernanda Montenegro no papel da mãe de Tião. A direção é de Leon Hirzman.




Pra frente , Brasil ( 1982)

O título vem da música composta para a Copa de Futebol de 1970. O esporte foi utilizado como cortina de fumaça para os horrores que estavam acontecendo no país. Reginaldo Farias é Jofre, um homem comum, como ele mesmo se define, que é preso acusado de subversão. Quase como a história de Kafka (O Processo) que falamos na edição anterior, Jofre não sabe por que está sendo preso e torturado (veja o trecho na abertura). O filme teve problemas com a censura por "incitamento contra o regime militar", mas foi exibido em versão sem cortes em 1983. A direção é de Roberto Farias, irmão do protagonista.




Cabra marcado para morrer ( 1984)

Eleito pela Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema como o melhor documentário brasileiro de todos os tempos, conta a história do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado por ordem de latifundiários em 1962. As filmagens foram interrompidas pelo golpe militar e retomadas dezessete anos depois, quando o diretor, Eduardo Coutinho, reencontrou a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos.




Que bom te ver viva ( 1989)

A diretora Lucia Murat, presa e torturada durante os anos de chumbo, conta a história de oito mulheres que participaram da guerrilha. A linguagem é documental elas relatam como lidam com o trauma da prisão e tortura.




Zuzu Angel (2006)

Patrícia Pilar vive Zuzu Angel, uma estilista de sucesso, que teve o filho sequestrado, torturado e morto durante o regime militar. A história é verdadeira. Zuzu enfrentou forças perigosas em busca do paradeiro do filho, Stuart. Ela mesma acabou morrendo em um misterioso acidente. Chico Buarque fez a canção "Angélica" para ela: "...quem é essa mulher que canta sempre estribilho ? (...) Só queria embalar meu filho que mora na escuridão do mar.".




O ano em que meus pais saíram de férias ( 2006)

Mauro, um garoto de 12 anos, é deixado pelos pais no prédio onde o avô morava, pois precisam "sair em férias" repentinamente. Na verdade, estão fugindo das forças repressoras durante a ditadura militar. A história é contada pelo olhar do menino, apaixonado por futebol. A direção é de Cao Hamburger.




Batismo de Fogo ( 2007)

No final dos anos 60, o convento dos frades dominicanos ,em São Paulo, se torna um local de resistência e apoio a vítimas da ditadura. Um dos cinco religiosos é Frei Betto, autor do livro de memórias, preso e torturado pelo regime juntamente com os outros companheiros de mosteiro. A direção é de Helvecio Ratton.

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ARGENTINA

O regime ditatorial mais sanguinário da região durou de 1976 a 1983 e foi responsável pela morte de cerca de 30 mil civis. Além disso, sequestrou 500 bebês de militantes desaparecidos. Até hoje, as "Abuelas da Plaza de Mayo" procuram pelos netos. Muitos já foram localizados e reconhecidos através do DNA. Os hermanos vizinhos, diferentemente do Brasil, julgaram e puniram os mandantes e executores desses crimes.


A História Oficial ( 1985)

Já falei desse ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e os vários prêmios de melhor atriz para Norma Alejandro na coluna "El Mejor del Cine Argentino".

Mostra um dos lados mais perversos da ditadura militar: o sequestro de bebês.  Norma interpreta uma mulher desconfiada de que sua filha adotiva é um dos bebês raptados depois da execução dos pais pelos militares. "A História Oficial" começou a ser rodada em 1983, ano em que terminou a ditadura naquele país, e foi mantido em sigilo até 1985 por questões de segurança.




Kamchatka ( 2002)

Ricardo Darín ( olha ele aí...), ao lado da ótima Cecília Roth, interpreta um homem que abriga a família no campo por medo já que no auge da ditadura as pessoas sumiam da noite para o dia sem explicação. O filme mostra o "exílio" dessas pessoas que precisam trocar de identidade para sobreviver. O título- Kamchatka – é o de um jogo semelhante ao War.




Kóblic ( 2006)

Tomás Kóblic é um ex-capitão das forças armadas que busca recomeçar a vida em um pequeno lugarejo. Ele foi um dos responsável pelos chamados "voos da morte" que significava jogarem os acusados de subversão do alto dos aviões, ainda vivos, no rio da Prata. Sim, o lindo rio virou um "cemitério" durante a ditadura. Kóblic desperta a curiosidade do delegado local que vai investigar quem é aquele homem misterioso. Quem interpreta Kóblic ? Adivinha ? As iniciais são R.D...

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CHILE

A ditadura começou em 1973, com o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, e durou até 1990. Durante o governo do General Augusto Pinochet foram mortas mais de 3 mil pessoas, 40 mil torturadas e milhares de chilenos se exilaram.

A batalha do Chile ( 1975-1980)

Considerado o documentário mais completo sobre o período, a obra é dividida em três partes. O diretor, Patrício Guzmán, fez outros filmes sobre a ditadura, como Nostalgia da Luz ( já mencionado na coluna) e EL Botón de Nácar, onde traça um paralelo entre a dizimação dos indígenas no sul do país com as execuções dos guerrilheiros durante  o regime.



Desaparecido  ( 1982)

Mais um filme político do diretor grego Costa-Gavras, desta vez mostrando um americano que viaja para o Chile durante a ditadura para procurar o filho ,jornalista, desaparecido. Com a ajuda da nora, ele acaba descobrindo os horrores que estavam sendo praticados no Chile com a ajuda de seu país natal. Jack Lemmon está ótimo no papel do pai obstinado em encontrar o jovem.



NO ( 2012)

Também já falamos dele na edição sobre o cinema chileno, mas ele é importante e merece estar aqui de novo. Em " No", o mexicano Gael Garcia Bernal interpreta um publicitário que produz a campanha do "não", no plebiscito de 1988, que definiria se o ditador Augusto Pinochet permaneceria na presidência. O personagem é filho de um exilado que volta ao Chile sem conhecer o seu país de origem. Depois de 15 anos de um regime sanguinário Pinochet não ganha o plebiscito. É baseado numa peça inédita do escritor Antonio Skármeta ( autor de O Carteiro e o Poeta e do livro que virou " O filme da Minha Vida", de Selton Mello).

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URUGUAI

O regime militar no Uruguai também iniciou em 1973 e durou até 1985. Levantamento recente fala em cerca de 200 uruguaios desaparecidos, muitos em outros países do Conesul, como Argentina, Chile e até Brasil.

A edição sobre o cinema uruguaio ainda deve estar fresquinha em que acompanha a coluna. Basta "voltar duas casas" e a seleção dos filmes está lá. O mais recente sobre o assunto é "O Filho Uruguaio", enfocado naquela edição. Mas tem mais.

Estado de Sítio ( 1972)

Nosso valoroso Costa-Gavras, sempre preocupado em retratar as mazelas dos regimes autoritários, fez essa produção franco-ítalo-alemã sobre a ditadura no Uruguai. No final dos anos 60, o sequestro e morte de Dan Mitrione , cidadão americano, pelos guerrilheiros tupamaros, fez aumentar a repressão no país. Gavras filmou no "calor dos acontecimentos" por isso teve o cuidado de mudar o nome da vítima, acusada de treinar torturadores, e até o nome do país é quase escondido. Esse episódio se entremeia com o Brasil, citado muitas vezes, por causa do sequestro do cônsul brasileiro na mesma época.

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PARAGUAI

Embora se fale menos nele, o golpe militar manteve o General  Alberto Stroessner no poder durante mais de 30 anos. O regime montou uma rede de delação que resultou em 400 pessoas executadas ou desaparecidas e quase 19 mil torturadas, segundo a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai.

Esperança (2013)

Esse documentário francês de Enrique Carbadillo e Sylvie Moreaux aborda um  aspecto muito importante nos tempos das ditaduras sul americanas: a resistência através da arte. O filme mostra o compromisso artístico nos tempos da ditadura de Alfredo Stroessner. Trinta e sete artistas compartilham seus testemunhos de vida em "Esperança". O resultado é comovente porque, como canta Milton Nascimento, " todo artista tem que ir aonde o povo está".

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FORA DE SÉRIE

MAGNÍFICA 70  (HBO/BRA -2015/206- 02 temporadas )

Já falei com entusiasmo desta série na coluna. Mas, nenhuma outra retrata como "Magnífica 70" um dos lados mais perversos dos regimes totalitários: a censura. Por isso, eu a trouxe de volta.

Ela mostra como funcionava a famigerada Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) que determinava o que o público brasileiro podia ver, ler ou ouvir .

Mas, nem de longe a série é didática ou chata. Ela mostra a Boca do Lixo, nome informal dado à região da Luz no centro de São Paulo, onde produtoras cinematográficas passaram a dividir espaço com prostitutas e criminosos nos anos 70.  Ali eram filmadas as pornochanchadas, filmes de gosto duvidoso, com muito sexo e atores desconhecidos.  Seja como for, ajudaram a manter empregados os técnicos, produtores, diretores etc... naquele período.

Na série, "Magnífica" é o nome de uma produtora da Boca , responsável pelo filme "A Devassa da Estudante". 

A origem da trama : Vicente (Marcos Winter) trabalha como censor do governo, apadrinhado por ser casado com a filha de um general (Paulo César Pereio). Ao avaliar o filme, ele percebe a semelhança entre o personagem da protagonista, Dora Dumar ( Simone Spoladore ) e sua cunhada já falecida, Angela, por quem sentia forte atração. Vicente veta o filme. Quando o produtor da película e Dora vão até o prédio da Censura apelar contra a proibição, ele fica fascinado pela atriz e decide ajudá-los a liberar "A Devassa da Estudante".  Daí pra frente, visitando a Magnífica, Vicente vai se apaixonando pela arte de fazer cinema. 

O elenco é ótimo e a cenografia nos leva de volta aos anos 70. Claro, não é uma série leve, bonitinha...é para adultos. Afinal, "Magnífica" fala da traição, incesto, crimes , tortura, perseguições e tudo o que envolvia o período dos anos de chumbo.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

O que é isso, companheiro ? ( 1979)

Quem vê aquele senhorzinho magro, enrugadinho, fazendo um programa no canal fechado da maior rede de comunicação do país, talvez não conheça sua história. Fernando Gabeira é um ex-guerrilheiro. Fez parte da luta armada na juventude e quando veio o AI-5, o ato institucional que retirou quaisquer direitos civis, ele liderou sequestro do embaixador americano, Charles Elbrick. Esse que foi um dos atos mais ousados da resistência ao regime no Brasil pretendia a libertação de 15 companheiros presos. Gabeira também acabou detido, torturado e depois exilado. No retorno ao Brasil, escreveu o livro relatando a sua história dentro da luta armada.

Com o tempo, Gabeira se voltou para o  debate ecológico, foi do PT, depois do PV, mudou a maneira de ver as coisas e-pode-se dizer – chegou a refutar seu próprio passado de esquerda ( não li seu livro " Onde está aquilo tudo agora?", mas o título é sugestivo).

O FILME

O diretor Bruno Barreto fez um thriller com a história dos jovens idealistas que aderiram à luta armada. Há todo o suspense do sequestro, da busca da polícia pelo grupo, o medo, a prisão. O elenco tem Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Pedro Cardoso e o bom ator americano, Alan Arkin, interpretando o embaixador sequestrado.

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HASTA LA VISTA, BABY

Frases de Cinema

Deu vontade de publicar na íntegra o antolológico discurso de Charles Chaplin em " O Grande Ditador", mas é muito longo. Sofri para escolher só um trecho, mas acabei naquele que traz as frases mais significativas do texto: não sois máquinas, homens é que sois.

"Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!" ( Nota: 1940 e tão atual...)

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Esta frase de " Pra frente, Brasil" resume o que muitos têm dificuldade de entender: em tempos de exceção não importa se você fez ou não fez alguma coisa considerada errada. Todos corremos risco.  O desabafo é do personagem de Reginaldo Farias, preso por engano.

"O que eu estou fazendo aqui? Sempre fui neutro. Apolítico. Tenho emprego, documentos, trabalho, filhos, pago imposto. Ninguém tem o direito de fazer isso comigo. E os meus direitos?" (Pra Frente , Brasil)

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Alguns comentários muito interessantes sobre nosso último tema: filmes de tribunal.

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Vic diz que deveria haver um troféu Framboesa de Ouro para séries também. Segundo ela, " Como defender um assassino" ( How to get away whit murder) deveria ganhar como a pior do gênero.

Com a devida vênia a quem pensa diferente: vi a primeira temporada por causa da Viola Maravilhosa Davis, mas depois larguei. Acho péssima também, Vic.

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Juraci Perboni escreve: Parabéns por citar O Caso dos Irmãos Naves, filme que vi há poucos dias e fiquei encantada com o roteiro criado pela "Justiça Brasileira" e a ótima atuação dos atores, que tornaram a história eletrizante e revoltante!! Alguns da minha lista: O Leitor, Dançando no Escuro, Hanna Arendt, Libertem Angela Davis e o recente, Insulto.

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Giovanna Flores lembra: Um bom filme sobre julgamento é Hanna Arendt, sobre sua tese a banalidade do mal. O julgamento do último nazista e que ela(Hanna) vai cobrir para TNY. Um excelente filme.

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THE END

*Crédito imagem abertura: blog Papo de Cinema

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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