Março 26, 2019

O Cinema em busca da felicidade

O Cinema em busca da felicidade

É possível medir a felicidade? Partindo de alguns tópicos, um grupo de pesquisadores independentes e organizado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas vem tentando colocar em números o grau de satisfação em diferentes países. Na semana passada saiu a nova edição do Relatório Mundial da Felicidade, levantado em 2018. O Brasil caiu seis posições no ranking em relação à pesquisa anterior e agora ocupa o 28° lugar entre 158 países. Nunca fomos tão infelizes, segundo o estudo. De acordo com a pesquisa o país mais feliz do mundo é a Finlândia, com pontuação de 7,6 numa escala de 0 a 10. Não tenho certeza se retrata a realidade, mas é um indicativo.

A dificuldade não está só em medir, mas em definir a felicidade. O que é afinal essa tal de felicidade? A resposta básica ocidental é: ter dinheiro, amor, saúde etc...Já para os budistas, a felicidade está na ausência do desejo. Em grego, felicidade é eudaimonia : o prefixo "eu"significa "bom", e "daimon" é "demônio". Algo como um semideus ou gênio que , para os gregos, acompanhava os seres humanos. Ser feliz era dispor de um "bom demônio", dependendo da sorte de cada um. Quem tivesse um "mau demônio" estava condenado à infelicidade. Ouvi recentemente uma colega questionar se " felicidade demais pode enjoar, se tornar um tédio". Pode? Respondam vocês.

"Ah, tá...e o que isso tem a ver com o Cinema, colunista"? Tudo tem a ver com Cinema ou vice-versa. Mesmo sendo um tema um tanto vago, roteiristas e diretores já se debruçaram sobre ele. Selecionei alguns títulos que - se não chegam a explicar a felicidade - rondam o assunto. Deixei de lado os mais óbvios como "À Procura da Felicidade" ( aquele em que Will Smith luta para sobreviver com o filhinho, até se tornar um empresário bem-sucedido), "Amelie Poulain" (uma gracinha de filme francês sobre o qual já falamos aqui), "A 100 passos de um sonho" e outros.

Quer acrescentar, discordar, criticar ? Escreva no rodapé da coluna ou para cineseries@portalmakingof.com.br

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HAPPY- VOCÊ É FELIZ ? – Documentário - Roko Belic – 2011

O documentário tem apenas 76 minutos, mas aborda as principais descobertas de pesquisas recentes em neurociência, sociologia e psicologia da felicidade. Happy ouve especialistas ao mesmo tempo em que mostra como é a vida do cidadão comum. Desde a realidade de uma família que vive na favela de Calcutá, na Índia, um trabalhador assalariado em Tóquio, no Japão e um surfista brasileiro que adotou uma vida simples em contato com a natureza desde jovem, passando pela Dinamarca, Namíbia, Escócia, China, Quênia, Butão, Índia, Estados Unidos a pergunta a ser respondida é : o que faz as pessoas felizes? Há mecanismos que permitem encontrar a felicidade? O documentário está disponível gratuitamente no Vimeo (o trailer está em inglês, mas o documentário na íntegra tem legendas em português).

 

AS DUAS FACES DA FELICIDADE (Le Bonheur) – Agnés Varda – 1965

A belga Agnés Varda é uma das primeiras mulheres diretoras do cinema contemporâneo. Antes de Le Bonheur, ela já tinha dirigido seu maior sucesso Cleo de 5 a 7, em 1961.

As duas faces da felicidade mostra François e Therese, um casal que vive feliz com seus dois filhos pequenos. Ela é costureira, ele marceneiro. A rotina é simples e alegre com  passeios no bosque aos finais de semana e os afazeres domésticos. Um dia, François conhece Emilie e se apaixonam. Dividido entre as duas mulheres que ama, ele decide contar para Therese a existência de Emilie, sem imaginar a tragédia que estava a caminho. Os cenários e as imagens são paradisíacos, como para sublinhar que ali era um lugar para ser feliz. O filme deu a Vardá o importante Urso de Prata/Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Berlim em 1965.

 

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA – Frank Capra – 1946

Olha quem está na coluna traveiz ?! Ele já apareceu na coluna mais de uma vez, a última no natal, data em que não pode faltar nunca! Com o título original de "It´s Wonderful Life"( A vida é maravilhosa),  o filme dirigido por Frank Capra conta a história de um homem chamado George Bailey que diante de problemas financeiros está prestes a cometer suicídio na véspera de Natal. Clarence, um candidato a anjo há 220 anos, é enviado para impedir que George se atire da ponte. Se for bem sucedido, ele ganhará finalmente seu par de asas. "Ele está doente?", questiona  Clarence. "Pior. Está desanimado," responde uma voz no céu. O quase-anjo tenta convencer o homem desesperançado de que fará muita falta, mas ele não acredita.  Clarence resolve então mostrar cenas de como seria a vida se George não fizesse parte dela. "Foi te dada uma grande oportunidade, ver como seria o mundo sem você". Ele descobre o quanto foi feliz e fez outras pessoas felizes ao longo da vida. James Stewart, um dos mais amados atores da era de ouro de Hollywood, interpreta o papel que marcaria sua carreira para sempre. Difícil imaginar qualquer outro intérprete vivendo um bom homem como George Bailey.

 

A VIDA É UM MILAGRE – Emir Kusturica– 2004

Lembro a alegria que foi descobrir o diretor sérvio Emir Kusturika, num pequeno videoclube de cidade do interior, nos anos 80. O filme era Você se lembra de Dolly Bell ? Em seguida veio o segundo trabalho, Quando papai saiu em viagem de negócios, que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes em 1985. Em 2004, Kusturica dirigiu esse A vida é um milagre e acabou ganhando o César, principal prêmio do cinema francês. A trama:Uma estrada de ferro pode trazer nova vida à economia de um pequeno vilarejo na Bósnia. A grande idéia do engenheiro sérvio Luka é dar acesso ao local e incentivar o turismo. Para isso, se muda para a isolada região com a mulher e o filho adolescente. A única coisa que pode colocar o plano dele a perder é a ameaça iminente de guerra, que o otimista Luka parece fazer questão de ignorar. Só que tudo que ele nunca imaginou que iria acontecer explode numa série de batalhas, no inicio da década de 90. Quando a guerra se torna uma realidade para o engenheiro, ele vê sua vida dar uma reviravolta depois que a esposa foge com um músico e o filho é convocado para lutar no front. Ele ainda tem de lidar com o fato de que o projeto de sua estrada de ferro é inviável.

 

O BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇA – Michel Gondry – 2004

Esse filme levou merecidamente o Oscar de Melhor Roteiro Original, pois se uma palavra pode defini-lo é originalidade! Até torci o nariz quando soube que o protagonista seria Jim Carrey, mas ele está muito bem no papel ( no início o ator cotado era Nicholas Cage, o que seria infinitamente pior). A história permite várias reflexões e leituras. Vale a pena ver e rever.

A trama: Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude, Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória dos quais ela não participa. (Adoro Cinema).

 

HECTOR E A PROCURA DA FELICIDADE – Peter Chelsom – 2014

Cansado de sua vida e frustrado por não conseguir ajudar seus pacientes a encontrarem a felicidade, o psiquiatra Hector resolve buscar respostas. Incentivado pela esposa ele faz uma viagem sozinho ao redor do mundo, buscando novas experiências. Ao questionar as pessoas que encontra em vários continentes sobre o que as faz se sentirem felizes, Hector começa a entender melhor o que ele próprio deseja. Uma comédia dramática super simpática, com um ótimo elenco: Simon Pegg, Stellan Skarsgard, Christopher Plummer e Toni Collette. Disponível na Netflix. 

 

FELICIDADE POR UM FIO – Haifaa al-Mansour – 2018

Ainda não vi essa comédia dramática, mas a diretora tem um trabalho interessante. Seu filme mais recente é sobre a vida da escritora inglesa Mary Shelley, criadora de Frankenstein, um bom filme disponível na Netflix.

Em Felicidade por um fio, Violet Jones é uma publicitária bem-sucedida que considera sua vida perfeita. Ela tem um ótimo namorado e uma rotina super organizada e sempre impecável. Depois de sofrer uma grande desilusão, ela decide repaginar o visual e o caminho de aceitação de seu cabelo está intrinsecamente ligado à sua reformulação como mulher, superando traumas que vêm desde a infância. Nessa mudança está embutido algo decisivo: não ser mais escrava da opinião alheia.

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É COISA NOSSA

ONDE ESTÁ A FELICIDADE ? – Carlos Alberto Ricelli – 2011

É uma produção em família, pois o filho de Carlos Alberto Ricelli e Bruna Lombardi, Kim Ricelli, trabalha como assistente do pai e ator no filme. Ele já havia feito o mesmo em O Signo da Cidade (2008). Um depoimento pessoal: fui apresentada ao casal numa edição do Festival de Cinema Brasileiro de Gramado e digo que Ricelli é uma das pessoas mais simpáticas e gentis que conheci no meio artístico. Fecha o parênteses.

Essa co-produção Brasil/Espanha tem locações no Caminho de Santiago de Compostella, São Paulo, Paulínia e no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Conta de forma divertida a história de Teodora (Bruna) que ao descobrir a traição virtual do marido (Bruno Gracia) decide cair na estrada e fazer o Caminho de Santiago de Compostela, junto com uma amiga e o antigo diretor de seu programa culinário de TV. Enquanto isso, o marido "infiel" tenta reconquistá-la. É um filme leve, com belas locações e algumas situações bem engraçadas.

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FORA DE SÉRIE

AFTER LIFE – 6 episódios – Netflix

Nem todo mundo ama o humor ácido do inglês Rick Gervais, mas quem ama, aaaaama ! Nessa minissérie, ele interpreta um bom homem que ao ficar viúvo acha que perdeu toda a possibilidade de ser feliz. Para ele, a mulher era sua única fonte de felicidade. Revoltado com a perda da esposa ele resolve mudar. Faz e fala tudo o que quer e pensa. Mas ao olhar para a comunidade através das matérias que faz para o jornalzinho de bairro, ele passa a ver a vida de outra maneira. Os amigos querendo que ele volte a ser como era antes também gera muita confusão. São seis episódios curtos, bom de maratonar.

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FRASES DE CINEMA

Faz tempo que a seção "Frases de Cinema" não aparecia na coluna, mas o assunto "felicidade" é uma fonte inesgotável de bons diálogos.

Estou sempre ansiosa, pensando que não estou vivendo minha vida ao máximo. (Brilho Eterno de uma mente sem lembranças)

Uma boa maneira de estragar a felicidade é fazer comparações. (Hector em busca da felicidade)

Quantos de nós conseguem recordar o momento de sua infância em que sentiram pela primeira vez a felicidade como uma realidade ? (Hector em busca da felicidade)

Lembre-se que nenhum homem é um fracasso se tem amigos. (A felicidade não se compra)

A expressão "Ichariba chode" significa: quando você encontra alguém - mesmo que apenas uma vez ou por acaso - vocês se tornam amigos para a vida. Se aconteceu de nos esbarrarmos já é suficiente para sermos irmãos e irmãs. ( Filosofia de vida de velhinhos de Okinawa, Japão, mostrados no documentário Happy ).

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A CARA DO CINEMA

Embora nosso assunto seja felicidade, a homenageada da semana é alguém que não teve uma vida exatamente feliz. Atriz, rica por ser viúva do dono da Pepsi-Cola, Joan Crawford ficou famosa não só pelos filmes que fez, mas pelas polêmicas que acumulou. Uma delas, a rivalidade eterna com a grande Bete Davis ( contada na minissérie Feud, com Susan Sarandon e Jessica Lange , disponível no Now/Net) e outra contida no livro "Mamãezinha querida", em que a filha adotiva conta as crueldades que teria sofrido nas mãos de Joan.

Joan foi bastante lembrada e homenageada na semana passada , pois nasceu em 23 de março de 1905. Entre seus filmes mais importantes estão O que terá acontecido a Baby Jane, com sua arqui-rival Bette Davis, Alma em suplício e Johnny Guitar.

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THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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