Outubro 04, 2019

O cinema insólito de Lina Wertmüller

O cinema insólito de Lina Wertmüller
Foto Cine Arteuff

Em junho deste ano lancei um livro dentro da série Palavra de Mulher, da Editora Insular, chamado As mulheres da minha vida. São crônicas sobre escritoras, artistas e ativistas que, de alguma forma, influenciaram minha formação ou simplesmente encantaram minha existência. Simone de Beauvoir, Clarice Lispector, Elis, Mercedes, Winnie Mandela, Oriana Fallaci...Claro que o cinema não poderia faltar, então marcam presença Leila Diniz, Ingrid Bergman, representando as divas, e Lina Wertmüller, a diretora italiana que mexeu com minha jovem cabeça nos anos 70. É sobre Lina, uma das minhas cineastas favoritas, que quero falar com vocês nesta edição.

Transcrevo parte da crônica: A jovem italiana, de origem nobre suíça, sempre foi rebelde. Matriculou-se contra a vontade dos pais no curso de direção da Accademia d'Art Drammatica Pietro Scharoff, em Roma, aos 25 anos. Na universidade,tornou-se uma ativa militante comunista.Depois de formada, Lina trabalhou em teatro, rádio e, no cinema, colaborou com ninguém menos que o mestre Federico Fellini, no seu famoso Oito e Meio. Reza a lenda que isso se deu por interferência de Marcello Mastroianni, ator favorito do cineasta. Lina estrearia na direção com I basilichi, em 1963. Dois anos depois, dirigiu o filme em episódios Questa volta parliamo di uomini e, para a televisão, Il giornalino di Gian Burrasca.

Comecei a acompanhar o trabalho de Lina a partir de Mimi, o Metalúrgico,de 1972, uma sátira amarga, que trazia no papel principal o ator Giancarlo Giannini, uma espécie de alter ego que estaria em todos os seus próximos filmes. Um deles se chamou Por um destino insólito, uma história que hoje poderia ser taxada de machista e misógena (talvez também tenha sido na época, quando eu não me preocupava tanto com isso). (...) Na sequência veio o ótimo Pasqualino Sete Belezas, que tornou Lina Wertmüller a primeira mulher na história a ser indicada ao Oscar de melhor diretor(a). (...) Uma peculiaridade de Lina são os títulos de seus filmes. Um deles entrou para o Guiness como o mais longo da história: Un fatto di sangue nelcomune di Siculiana fra due uomini per causa di una vedova. Si sospettano moventi politici. Amore-Morte-Shimmy. Lugano belle. Tarantelle. Taralluccie vino.(...)

Uma curiosidade que conto no livro é que em 2006, até hoje não sei como, minha admirada diretora italiana esteve em Florianópolis, Santa Catarina, apresentando um espetáculo teatral sobre música no cinema, chamado Pecados da Alegria. Transcrevo: (...) Na noite da única apresentação, lá estava ela, com óculos de aros brancos, sua marca registrada. O teatro do Centro Integrado de Cultura não lotou e, provavelmente, aquela platéia tão jovem nem conhecesse seus filmes. Foram atraídos pela música, uma belíssima seleção de trilhas sonoras que incluía gênios como Nino Rota e Ennio Morricone. Lina dava explicações em italiano, com legendas em português no alto do palco.(...) Ainda não havia a disseminação dos celulares com câmeras de fotografia, portanto, não registrei o momento. Tímida, sequer fui ao camarim cumprimentá-la. Limitei-me a sentar na fila do "gargarejo" e a aplaudir com entusiasmo e gratidão.

 Para meu contentamento, aos 91 anos, Lina Wertmuller continua em atividade, escrevendo roteiros e livros. Na próxima cerimônia do Oscar, em 2020, ela receberá um Oscar honorário por reconhecimento a "uma obra de distinção extraordinária e contribuições excepcionais às artes e ciências cinematográficas".

Bem, selecionei alguns filmes dela, todos disponíveis em streaming, no YouTube ou sistema OD. Em tempos de discursos tão moralistas se pode encontrar no cinema de Wertmuller uma ousadia de quem não se preocupa com bons modos ou sutileza. Um oásis, um respiro, um... ufa !!

Boa leitura, bons filmes.

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MIMI, O METALÚRGICO (Mimì metallurgico ferito nell'onore) – 1972

Quando cobram de Lina a falta de sutileza nos seus roteiros e filmes ela responde que seria impossível fazer filmes delicados com os temas que retratou. Mimi é prova disso.

A trama:Mimi (Giancarlo Giannini), durante as eleições, vota no candidato do partido comunista em vez do candidato da máfia. Os mafiosos então o boicotam para que não encontre emprego. Mimi é forçado a sair da Sicília, deixando mulher e filhos, para tentar a vida em Turim. Lá, ele consegue emprego, mas é obrigado a fingir ser um mafioso porque lá existe ainda mais corrupção do que no lugar de onde veio. Ele passa a viver com uma mulher vendedora de rua, e ativista comunista, com quem tem um filho. Quando ele recebe uma oferta irrecusável em sua cidade natal terá de lidar com suas duas famílias e sua identidade falsa.

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AMOR E ANARQUIA- (Film d'amore e d'anarchia, ovvero 'stamattina alle 10 in via dei Fiori nella nota casa di tolleranza...) – 1973

Itália, anos 30. Tonino ( Giannini), um camponês ligado aos anarquistas, chega a Roma para matar Mussolini. Seu contato é Salomé, que trabalha num bordel e o acolhe. Tonino se apaixona por uma das prostitutas e passa dois dias com ela, deixando o assassinato em segundo plano. Giannini contracena mais uma vez com a atriz preferida da diretora, Mariangela Melato.

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POR UM DESTINO INSÓLITO (Travolti da un insolito destino nell'azzurro mare d'agosto)- 1974

Como eu me diverti com esse filme, apesar, como já contei lá em cima de ser totalmente politicamente incorreto...rsrs... Gianinni, sempre ele, interpreta Gennarino , um siciliano comunista, empregado por uma socialite durante um cruzeiro de iate. Ela destrata o subalterno o tempo todo e depois de exigir que ele desça o bote apesar da escuridão, eles acabam naufragando numa ilha deserta. Perdidos, sem água, sem comida, sem transporte...as relações de poder mudam.

O remake de 2012, dirigido por Guy Richie, ex-marido de Madonna com ela no papel principal,  é descartável. Melhor nem comparar as duas versões.

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PASQUALINO SETE BELEZAS (Pasqualino Settebellezze) – 1975

A trama:durante a Segunda Guerra Mundial, Pasqualino Frafuso (Giancarlo Giannini), é um militar italiano desertor. Capturado pelos alemães, ele é enviado para um campo de concentração, onde faz de tudo para tentar sobreviver. Em 'flashbacks', ele lembra de suas sete irmãs e recorda outros momentos importantes e cruciais em sua vida.

Covarde e moralista, Pasqualino é o anti-herói que defende as irmãs – que de belas nada têm – com unhas e dentes. Sempre se adaptando às circunstâncias para sobreviver, Pasqualino é o retrato do conformismo, atitude sempre criticada por Lina na sua obra.

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DOIS NA CAMA NUMA NOITE DE CHUVA – ( La Fine del Mondo nel Nostro Solito Letto in una Notte Piena di Pioggia) -1978

Esta produção ítalo-americana juntou Giancarlo Giannini e a linda Candice Bergen.  Ela interpreta uma mulher moderna e liberada tendo que lidar com o namorado e suas ideias antiquadas. É o tanto que me recordo desse filme que gostaria de rever.

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FORA DE SÉRIE

DUE BUONE SERIE ITALIANE...

Por falar na Itália...o país também produz séries de TV ( quem não, né ??). Separei duas menos conhecidas que estão disponíveis no NOW/Net. Buona lettura, buona serie!

MY BRILLIANT FRIEND (Amiga genial) – 1 temporada

Resultado de uma parceria entre a HBO e a emissora italiana RAI, a série não repetiu no Brasil o mesmo sucesso que teve na Itália e em outros países. Ela se baseia nos quatro livros de Elena Ferrante, uma autora italiana cercada de mistérios. A trama: Nos anos 1950, duas meninas vivem em um bairro operário na periferia de Nápoles. Tudo que as cerca, dentro e fora de casa, é hostil: a violência é a regra das relações humanas; a precariedade econômica determina os destinos, principalmente porque a Camorra, máfia da região, está infiltrada no tecido social, borrando os limites entre legalidade e ilegalidade. Um passo em falso é o bastante para cair em um caminho sem volta. É neste cenário que elas desenvolvem uma profunda amizade, apesar de serem muito diferentes. (fonte:Cult)

Os oito episódios da primeira temporada correspondem ao primeiro livro e tratam da infância e da adolescência das protagonistas. Eles estão disponíveis na HBO Go.

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ROMANCE FAMILIAR – 1 temporada

A série que traz Giancarlo Giannini ( sim, ele mesmo, tantos anos depois de ser o fetiche de Lina wertmuller...) como um patriarca poderoso e autoritário tem um tom em novelesco (foto).

A trama:Todos os negócios – contratos de construção naval, petróleo, um pouco de tudo – são geridos pelo chefe da família, Gian Pietro Liège (Giannini) que se tornou viúvo de sua primeira esposa e se casou novamente com a descontrolada Natalia, ex-babá da filha. No entanto, Gian Pietro é diagnosticado com uma doença incurável e degenerativa que o leva a tentar recuperar seu relacionamento com a filha Emma (Vittoria Puccini), que fugiu de casa aos 18 anos, depois de engravidar.

Ela se casou com o marinheiro Agostino Pagnotta (Guido Caprino), com quem reconstruiu uma vida longe de seus parentes, amigos e de seu ex-namorado, Giorgio (Andrea Bosca). Agora, sua filha adolescente, a clarinetista Micol, está grávida de seu professor.

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CINEMA & MÚSICA – DICA

Ennio Morricone – Greatest Hits

Me tornei econômica no uso do adjetivo "genial" porque quando alguém realmente  o merecia não encontrava outra palavra. Mas, para Ennio Morricone, como vocês já leram no texto sobre a Lina Wertmuller, não tenho pudor de usar a expressão: gênio da raça . O italiano é um dos maiores compositores de música para o cinema da história. Talvez "O" melhor, ao lado do conterrâneo Nino Rota. Muita gente conhece suas trilhas sem saber quem a compôs. De Por um punhado de dólares a Cinema Paradiso, passando por A Missão e Bastardos Inglórios, Morricone é o cara ! Ouve só...      

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GRAZIE PER IL TRIBUTO!

Ciao, ciao

(*)Fotosdivulgação/reprodução

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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