Fevereiro 09, 2019

O Cinema na era da estupidez

O Cinema na era da estupidez

Hoje o assunto é sério. Mais que sério, grave. Tentei não falar a respeito, mas a tragédia de Brumadinho, Minas Gerais, inacreditavelmente se repetiu três anos depois do desastre ambiental que devastou a cidade vizinha, Mariana, causando a morte de 19 pessoas. A de agora pode chegar a centenas de vítimas fatais. Impossível ignorar.

Aliás, creio que "inacreditavelmente" não é a palavra certa. Deveria usar "previsivelmente", "criminosamente", já que não estamos falando de uma catástrofe natural, mas provocada pelo próprio homem. A causa última é a ganância de empresas que se junta à omissão dos governos.

Então, desculpem, mas hoje nosso tema não é para entreter ou divertir, é para alertar e apontar o dedo. E o mais importante: ajudar na reflexão do que estamos fazendo com o planeta, com o país, com a gente mesmo e nossos filhos.

Estamos cavando nossa própria sepultura com a pá da ganância e do consumismo exacerbado. Nem Deus nos protegerá de nós mesmos, se não mudarmos e agirmos rapidamente. Existem filmes de ficção ou baseados em fatos sobre o tema( Silkwood, Contaminação, Chernobyl-Inoccent Saturday...), mas preferi selecionar documentários, a realidade nua e crua. Um deles está no título da coluna e resume os nossos tempos: a era da estupidez. Boa leitura.

Brígida De Poli

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A ERA DA ESTUPIDEZ –direção: Franny Armstrong - Reino Unido – 2009

O aquecimento global, tão discutido se existe ou não ( como se a gente não sentisse na própria pele) é o mote do filme que começa como ficção futurista : em 2025, uma torre gigantesca guarda o que sobrou do conhecimento humano, da cultura e da arte. O planeta está devastado e o grande ator inglês Pete Postlethwaith interpreta o arquivista que cuida do acervo e serve de mestre de cerimônias. Ele pergunta: por que não paramos de afetar o clima quando tivemos chance? A partir daí o filme se torna documental, usando imagens reais e de animação. Simples, didático e aterrador.

 

KOYAANISQATSI – A VIDA EM DESEQUILÍBRIO - direção: Godfrey Reggio – USA – 1983

"Koyaanisqatsi" é uma palavra do vocabulário hopi - nação indígena dos Estados Unidos - que significa vida em desequilíbrio. Ele é feito só a partir de imagens, sem texto, nem narradores, mostrando a relação entre os seres humanos, a natureza, o tempo e a tecnologia. Cidade, campo, paisagem, rotina, pessoas, construções, destruição, com a música de Phillip Glass tornando o filme uma experiência quase hipnótica. O filme é o primeiro da trilogia Qatsi, que tem ainda Powaqqatsi (1988) e Naqoyqatsi (2002). Fiquei imaginando repetir as mesmas imagens hoje, 35 anos depois...e mostrar o quanto ficou ainda pior.

A ÚLTIMA HORA - Direção: Nadia Conners, Leila Conners   - 2007

O título do documentário dá o alerta: esta pode ser A Última Hora para ações que impeçam o aquecimento global e garantam a sobrevivência do planeta.  Enchentes, furacões e outras tragédias foram se tornando cada vez mais comuns. O filme especula como a Terra chegou nesse ponto: de que forma o ecossistema tem sido destruído e o que é possível fazer para reverter este quadro. Entrevistas com mais de 50 renomados cientistas, pensadores e líderes como Stephen Hawking e Mikhail Gorbachev ajudam a esclarecer estas questões e a indicar as alternativas ainda possíveis. O narrador é Leonardo DiCaprio, um dos artistas mais envolvidos na luta contra as agressões ao meio ambiente.

BEFORE THE FLOOD – direção: Fischer Stevens – EUA – 2016

Leonardo DiCaprio volta ao assunto 10 anos depois com Before the flood ( Antes da inundação), onde além de narrador é um dos produtores.Ele viajou durante dois anos e também ouviu líderes como Barack Obama, Bill Clinton e o Papa Francisco sobre uma de suas obsessões: o aquecimento global e suas conseqüências. O documentário foi indicado ao Critics Choice Award.

OUTROS: Uma verdade inconveniente, O planeta, Trashed-para onde vai o nosso lixo, A corporação, Mataram a Irmã Dorothy, Perseguindo o gelo, Chiken a la carte

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O LIVRO QUE VIROU FILME

 

MERCADORES DA DÚVIDA – autores: Naomi Oreskes e Erik Conway

O livro revela como cientistas influentes foram capazes de voltar-se contra a ciência e suas evidências para confundir formadores de opinião e o público em geral. Os temas controversos versavam sobre fumo ativo e passivo, armamento nuclear, chuva ácida, buraco na camada de ozônio e aquecimento global. Carismáticos e eloquentes esse grupo de "aluguel" consegue espalhar a dúvida sobre os males provocados por substâncias em seres humanos e ao planeta como um todo, beneficiando as grandes corporações. Apoiados por grupos de empresários, lobistas e políticos, esses mal-intencionados cientistas ganharam espaço na mídia com a intenção de plantar dúvidas para evitar ou postergar medidas regulatórias ou proibição de determinados produtos.

Ainda não li o livro, mas já me perguntei várias vezes como pode algo como pesticidas, amianto ou cigarro considerado prejudicial pela ciência durante décadas ser, repentinamente, redimido de causar qualquer malefício ? Ou, no mínimo, haver dúvidas a respeito? O livro ajuda a entender o que vem acontecendo.

 

O MERCADO DA DÚVIDA – direção : Robert Kenner – EUA -2014

O documentário realizado a partir do livro mostra bem a história dos esforços de Relações Públicas corporativas/financeiras para disseminar a confusão e o ceticismo sobre as pesquisas científicas. Os realizadores entrevistam cientistas, ativistas e delatores que têm tentado expor tais atividades, bem como alguns daqueles criminosos e arrependidos.

O documentário começa de forma muito criativa: um mágico fala que ele trabalha com ilusionismo com ética, o público sabe que é um truque, mas os "mercadores de dúvida" enganam a opinião pública fingindo autoridade e seriedade no que estão falando como, por exemplo, desfazer da teoria do aquecimento global. Os créditos do filme aparecem nas cartas do baralho que ele manipula. O primeiro caso é o do tabagismo e como cientistas que atestavam ser o cigarro causador de câncer eram ridicularizados e chamados de paranóicos. Até que um dia alguém de dentro da indústria denunciou já saberem desde os anos 60 que o cigarro viciava e causava câncer. Os casos vão sendo costurados sempre com a temática dos ilusionistas e pra quem acha que todo documentário é chato, eu digo que não. Gostei muito e você pode vê-lo facilmente na internet, através do Vimeo (aqui).

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É COISA NOSSA

VOZES DE PARACATU E BENTO – Walter Salles – Brasil – 2018

Quando Walter Salles filmou o documentário ele falava do "maior desastre ambiental do Brasil", referindo-se à Mariana, MG, hoje tragicamente superada pelo de Brumadinho. Salles, um dos maiores cineastas brasileiros em atividade, focou no drama e os desejos das populações atingidas pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, em novembro de 2015. O documentário registra histórias humanas incomuns, a partir dos relatos de personagens das comunidades de Bento Ribeiro e Paracatu de Baixo que sofreram e ainda sofrem as conseqüências da tragédia. Feita em co-produção com a GloboNews, o filme já foi exibido pelo canal e pode ser visto em OD.

OUTROS: Lixo Extraordinário, A Ilha das Flores, A lei da água, Tinha gosto de perfume, Estamira

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FORA DE SÉRIE

NA ROTA DO DINHEIRO SUJO – 06 episódios - 2018

A minissérie está disponível na Netflix e nos ajuda a entender o mecanismo dos atos mais descarados de corrupção e ganância corporativas. Desde empréstimos com juros de agiota a trapaças em testes de poluição de automóveis. O tema do primeiro episódio é o Dieselgate, que mostra como a poderosa Volkswagen mentiu sobre a real quantidade de gases poluentes emitidos por seus veículos a diesel.

Os outros episódios mostram os podres atrás da ascensão vertiginosa da companhia farmacêutica Valiant;  os laços do banco HSBC com os cartéis de drogas mexicanos e, no último, investiga o império construído por Donald Trump, antes de chegar à presidência dos EUA.

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FALAS DE CINEMA

Por que não prevenimos as mudanças climáticas enquanto ainda era tempo? ( A era da estupidez)

Quando poderíamos ter salvado a nós mesmos ? ( A era da Estupidez)

O que damos por certo pode não estar aqui para nossos filhos. (Al Gore- Uma verdade inconveniente)

Ainda temos tempo de escolher um futuro pelo qual nossos filhos irão um dia nos agradecer. (Al Gore- Uma verdade inconveniente)

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Rutilandia Costa ( sobre a coluna das HQs no cinemas):

"Que maravilha! Esse tema de hoje está muito bom! Adoro teu trabalho que além de ser sobre cinema que adoro, me ensina a ver os filmes com outros olhos. Toda semana aprendo algo novo aqui, o que me deixa muito feliz! Hoje aprendi um pouco mais sobre RQ e a origem de alguns filmes que gostei muito, mas a partir de hoje terei um olhar diferente sobre eles, obrigada amiga. Sou suspeita mais minha tendência é concordar com vc sobre o Oscar principalmente para melhor atriz sem dúvida ela está maravilhosa nesse papel" .

Obrigada, Ruti. Sim, Glenn Close está maravilhosa em A Esposa. Acabou de ganhar outro prêmio, o SAG Award. Acho que este ano o Oscar fará justiça a ela que nunca ganhou a estatueta, apesar de merecer.

"Fiquei muito impressionado com "300", filmado com base na HQ "Os 300 de Esparta" que é uma interpretação de Frank Miller sobre a batalha das Termópilas, travada entre espartanos e persas, cerca de cinco séculos antes de Cristo.
Uma curiosidade do filme é a atuação do ator brasileiro Rodrigo Santoro, no papel do poderoso xá da Pérsia de então".

Concordo, Mário. A estética de "300" é impressionante !! ( Na foto Rodrigo Santoro e Gerard Butler)

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A CARA DO CINEMA

Nossa homenageado hoje é Leonardo DiCaprio, não só pelo talento, mas por ser um dos atores mais dedicados à causa ambiental. Na foto, Leo gravando " Before the flood" (Antes da inundação), onde atua também como produtor.

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THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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