Abril 03, 2018

O Cinema no tribunal

Filmes de tribunal: quem não gosta?

Existem tantas histórias de advogados, julgamentos e documentários sobre injustiças legais nas telas que até viraram um subgênero: filmes de tribunal. E eu confesso: adoro! Gosto tanto que assisto até as sessões ao vivo da TV Justiça quando transmitem julgamentos importantes do STF. Vai ver eu seria "sua excelência" se não tivesse escolhido o jornalismo como profissão. Talvez não me divertisse tanto, mas ganharia BEM melhor e teria até um polpudo auxílio moradia...hehehe. Data vênia, agora é tarde.

Sei que sempre digo isso, mas são taaaantos filmes nesse tema que ficou difícil bater o martelo ( desculpem o trocadilho...rs)  para apenas alguns. Vou pelo meu gosto pessoal, sem levar muito em conta se foi sucesso de crítica ou público. Meu critério é...não ter critério. Mas, vocês sabem, ficaria muito contente em receber suas listas de preferência. Mande pelo formulário de comentários no final da coluna (agora ficou bem fácil) ou pelo e-mail: cineseries@portalmakingof.com.br

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Começando pelos clássicos:

Testemunha de acusação (1957) – Já escrevi outras vezes aqui sobre esse filmaço, dirigido por Billy Wilder, com Marlene Dietrich. Um homem é acusado de ter assassinado uma mulher e a esposa do réu complica ainda mais a situação dele ao depor. Ela contrata então um advogado veterano e hábil. Baseado em uma história de Agatha Christie, o clima é de suspense e reviravoltas.

 

12 Homens e uma sentença (1957) – Esse classicão mostra 12 jurados tentando chegar a um acordo sobre o veredito em uma acusação de assassinato. Onze deles julgam culpado o adolescente acusado de ter esfaqueado o próprio pai, mas uma discordância faz com que se mantenham horas debatendo. O discordante é vivido por Henry Fonda, perfeito no papel. O filme se passa quase inteiramente dentro da sala do júri e tem direção de Sidney Lumet.

 

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Nota 1 : Esses dois super filmes foram atropelados no Oscar/1958 pelo drama de guerra " A Ponte do Rio Kwai" que fez barba, cabelo e bigode naquele ano. É um grande filme também.

Nota 2 : "Testemunha de Acusação" e " 12 Homens e uma Sentença" receberam remakes em 1982 e 1992, respectivamente. Totalmente desnecessários, diga-se de passagem.

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Singelos, mas interessantes:

O Veredito ( 1982) – O mesmo Sidney Lumet de "12 Homens" volta ao tema tribunal com esse filme estrelado por Paul Newman. Ele interpreta um advogado alcoólatra, com a carreira em baixa, que assume um caso de erro médico. No início a ideia e fazerem um acordo financeiro, mas o advogado resolve levar o drama de sua cliente – uma mulher grávida que fica em coma- a julgamento. Para isso tem que enfrentar uma instituição hospitalar poderosa. Muito bom !

 

As Duas Faces de um Crime ( 1996) – Este filme marca a estreia de um ator que seria dos melhores da sua geração, Edward Norton. O fato dele ser uma cara nova é fundamental para a história. Ele é um coroinha acusado de ter assassinado um arcebispo. Richard Gere é o advogado narcisista que assume o caso para aparecer na mídia e acaba se envolvendo emocionalmente com o indefeso jovem, acreditando piamente na sua inocência.

 

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Para além do cinema americano...

Ok, os americanos são os reis dos filmes de tribunal, mas há muitas boas produções  do gênero de outras nacionalidades

Muito mais que um crime (1989) -  Mesmo tendo sido filmado nos EUA, o filme leva a marca do diretor grego Costa-Gavras, tido como o mais político dos cineastas. Ele conta a história de um imigrante húngaro, acusado 50 anos depois, de ter participado de atividades nazistas. Ele exige que sua filha, interpretada pela ótima Jessica Lange, seja sua advogada de defesa.

 

Em nome do pai ( 1993) – Uma produção Irlanda-Inglaterra, dirigida por Jim Sheridan, que conta uma história real. Daniel Day-Lewis interpreta um jovem irlandês arruaceiro sentenciado injustamente à prisão perpétua como terrorista do IRA. Seu pai, um homem aparentemente frágil, move mundos e fundos para libertar o filho e acaba preso também. Com a ajuda de uma determinada advogada, interpretada por Emma Thompson, o rapaz faz de tudo para limpar o nome do pai.

 

O julgamento de Viviane Amsalem (2014) – França, Israel e Alemanha se juntam nessa produção que mostra uma situação, para nós, inusitada. Em Israel, somente os rabinos tem o poder de realizar ou dissolver um casamento. Mas a separação só acontece se houver total consentimento do marido. No filme, Viviane Amsalem está pedindo divórcio há três anos, mas seu marido a nega. A intransigência do marido e a determinação de Viviane em lutar por sua liberdade dão o contorno deste processo.

A Corte (2016) – Esse filme francês vai mais na linha de comédia dramática, quando um rígido juiz reencontra seu antigo amor fazendo parte do júri popular de um caso de infanticídio sob seus cuidados. O implacável magistrado, conhecido como "dois dígitos" porque suas penas são sempre acima de 10 anos, se vê diante de um dilema. Apesar de premiado, "A Corte" não recebeu unanimidade da crítica.



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Outros tantos: O Vento será tua herança ( 1960), O Julgamento de Nuremberg ( 1961 e remake em 2000), Saco e Vanzetti ( 1971), Meu primo Viny ( 1972), Justiça para Todos ( 1979), Um grito no escuro ( 1988), O povo contra Larry Flint ( 1996), O Júri (2003), Tese sobre um Homicídio (2013), Tribunal (2014)...

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FORA DE SÉRIE

Há  inúmeras séries sobre advogados, algumas dramáticas outras mais para comédia. Escolhi uma bem óbvia porque mistura política, romance e malabarismos jurídicos. A outra, mais recente,  é cria de uma das séries mais famosas da TV.

The Good Wife ( 07 temporadas- USA)

A série começa quando Peter Florrick, ex- Procurador Geral do Estado, é alvo de um escândalo político e sexual. O mundo de Alicia, a "boa esposa" do título, cai ao descobrir as estripulias do marido. Ela fica ao lado dele diante das câmeras, fingindo apoio, mas dentro de casa a separação é inevitável. Impossível não lembrar de Hillary Clinton e seu marido safadjenho, o então presidente Bill Clinton.

Depois do baque, Alicia levanta, sacode a poeira e resolve dar a volta por cima. Primeira providência: voltar a advogar. Difícil conseguir emprego para quem ficou as últimas décadas à sombra do marido e cuidando do casal de filhos. É no grande escritório Lockhart & Gardner, de um antigo namorado, que ela é  finalmente admitida. E, claro, Alicia demonstra habilidade e se sai bem na profissão. Enquanto isso, rola uma recaída com Will Gardner, o ex. A cada episódio há um julgamento, uma história completa. Os juízes são uma atração à parte. Diferentemente de outras séries e filmes, nesta eles tem participação ativa além de bater o martelo. São vaidosos, cheios de manias, às vezes, bizarros... Igualzinho ao mundo real, principalmente para quem assiste a TV Justiça, como já confessei na abertura!

Há outros personagens interessantes, a começar pela sócia de Will Gardner, Diane, a Lockhart da sociedade, e Kalinda Sharma, a investigadora do escritório, capaz de tudo para descobrir o que a defesa precisa pra ganhar o caso.



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Better Call Saul – ( 4 temporadas – Netflix)

O Saul do título é o advogado de Mr. White, personagem principal da famosíssima " Breaking Bad". Com o fim da história do professor que vira fabricante de drogas, o advogado interpretado por Bob Odenkirk ganhou uma série própria. Esse desmembramento se chama spin-off em linguagem serielês.

A série se passa antes de Saul conhecer Walter White. Ele ainda é um advogado sem grana e importância. Vários personagens da original "Breaking Bad" já apareceram em " Better Call Saul". Para a 4ª temporada a promessa é a participação de Aaron Paul, que interpreta o ajudante de Mr. White, Jesse Pinkman. Um presente para os " viúvos" de Breaking Bad.



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O LIVRO QUE VIROU FILME

O PROCESSO – FRANZ KAFKA ( 1925)

O autor de língua alemã, nascido em Praga em 1883,  é bastante conhecido também pelo romance " A Metamorfose". Seu nome virou adjetivo para  coisas absurdas quando dizemos que tal fato é "kafkaniano". Em "O Processo" ele narra a história de Josef K., um cidadão comum, funcionário de um banco, que se vê tirado de casa pela polícia sem saber por quem ou do que é acusado. Ele tenta de todas as maneiras saber o que houve, contrata um advogado que não resolve nada e fica cada vez mais num emaranhado aterrorizante. O judiciário não lhe dá informações, seu processo será julgado depois de montanhas de outros e as testemunhas são dúbias, algumas até crianças. Como se defender sem nem saber qual é a denúncia ? No final, Josef K. é..... (se não leu ainda, leia !).

O FILME – O PROCESSO ( 1962)

Um gênio que adapta a obra de outro gênio. Não é exagero, pois quem fez a versão para o cinema do livro de Kafka foi Orson Welles! Os ângulos escolhidos pelo diretor aprofundam a sensação de inferioridade do cidadão comum diante do abuso de poder e burocracia do estado. Usando câmeras baixas, Joseph K. , interpretado por Anthony Perkins ( o mesmo ator de "Psicose"), parece ser engolido pelos prédios imensos dos fóruns e órgãos governamentais. Orson Welles mostra em imagens - expressionistas em preto & branco -a insignificância do indivíduo.

Outra adaptação: Em 1993,  outra versão do livro de Kafka chegou às telas. Deste vez pela BBC, numa produção bem mais sofisticada e cara, mas menos inventiva que a original. O papel de Joseph K. é vivido pelo ator de Twin Peaks, Kyle MacLachlan, o que não foi a melhor escolha. Opte por uma das duas ou compare ambas. É sempre um exercício divertido.

Nota: Tem tanta coisa atual nessa história que até arrepia, né?

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É COISA NOSSA

Dramas de julgamentos não são o forte do cinema brasileiro. Há poucos  filmes do gênero. Assim, escolhi dois: um  drama clássico e uma comédia dramática.

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O CASO DOS IRMÃOS NAVES – direção: Luis Sérgio Person ( 1967)

É um daqueles em que a gente diz: o pior é que a história é verdadeira! O filme é uma reconstituição de um dos maiores erros judiciários que se tem notícia no país. Em 1937, durante o governo Getúlio Vargas, dois irmãos são acusados injustamente de terem roubado o dinheiro da venda de uma safra de arroz. Joaquim e Sebastião Naves, homens simples, denunciam o sumiço do sócio e do dinheiro, mas acabam acusados pelo novo delegado militar de terem matado o desaparecido. A dupla é presa e torturada para confessar o crime que não cometeu. Depois de surras, afogamento, de serem jogados em formigueiros com o corpo coberto de melaço, entre outros horrores, o delegado consegue uma confissão de um dos irmãos que achava que o outro havia morrido. Tudo mentira. Fico tentada a contar como a essa terrível e real história terminou. Mas vou deixar sem spoiler para manter a curiosidade de quem não a conhece.

Raul Cortez e Juca de Oliveira interpretam os irmãos. John Herbert, o advogado que luta bravamente para libertá-los e Anselmo Duarte, um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro, vive o tenente torturador fdp... É surpreendente que em plena ditadura militar o filme tenha sido autorizado pela censura.

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O BEIJO 2348/72 –direção: Walter Rogério -   (1990)

O crime desta história ? Um beijo durante o horário de expediente. Norival, interpretado por Chiquinho Brandão, é flagrado beijando sua colega Catarina, Maitê Proença na fábrica onde os dois trabalham. Ele é despedido por justa causa e entra na Justiça para brigar pelos seus direitos. O processo trabalhista, onde depõem até a namorada de Norival e o marido de Catarina,  recebe o número 2348/72 que está no título. O filme é baseado em uma história real e levou três anos para ser lançado por causa do fechamento da Embrafilme no governo Collor.

O elenco traz ainda Antonio Fagundes, Walmor Chagas, Fernanda Torres e Sérgio Mamberti. Tá bom, né?

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AGENDE-SE

A 22ª edição do FAM – Florianópolis Audiovisual do Mercosul  acontece de 19 a 24 de junho.  Antes disso, os pontos de cultura de Santa Catarina – cineclubes, museus, escolas...-podem manifestar interesse em receber os filmes vencedores da edição do FAM do ano passado. As inscrições ficam abertas até 10 de abril.

O Circuito FAM de Cinema completa 13 anos em 2018 e fazem parte da programação 20 filmes que foram divididos em sete programas diferentes. Além do fortalecimento da cinematografia latino-americana, descentralizar e democratizar o acesso às produções para público diverso, sempre com entrada gratuita, o FAM também tem o propósito de apoiar e reconhecer o trabalho dos agentes locais de promoção cultural, educativa e social de Santa Catarina.


O Circuito FAM de Cinema 2018 tem o Patrocínio da Secretaria do Audiovisual, Ministério da Cultura e Governo Federal, com o apoio do Sesc e a realização da Associação Cultural Panvision.

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EM CARTAZ

Filmes com entrada gratuita em cartaz nos cinemas de Florianópolis:

CIC –Centro Integrado de Cultura – dias 5,6,7 e 8 de abril – 20 h

 

A Filha do Nilo – drama – Taiwan – classificação: 14 anos 

Sinopse oficial: LinHsiao-yang (Lin Yang) tenta manter a sua família unida, enquanto trabalha como garçonete em um restaurante e estuda à noite. Sua mãe e irmão mais velho estão mortos. Seu pai trabalha fora da cidade e por isso, ela tem de cuidar da  irmã, que tem o hábito de roubar coisas, e seu outro irmão, que está envolvido em uma gangue.

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Cineclube Fundação Cultural Badesc – centro – dia 06/04 – 19 horas

Passe livre – documentário – 1973 -  73 minutos

O diretor Osvaldo Caldeira mostra a vida do jogador Afonsinho, proibido de jogar futebol por não cortar a barba e os cabelos, visual considerado "subversivo" durante a ditadura.  Os depoimentos personalidades do futebol como Barbosa, João Saldanha e Zagallo ajudam a contar o episódio.

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HASTA LA VISTA, BABY

Frases de Cinema

"É sempre difícil deixar o preconceito fora de uma questão dessas. Não importa pra que lado vá, o preconceito sempre obscurece a verdade". ( 12 Homens e uma Sentença)

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BEIJO DE CINEMA

O beijo da semana não é exatamente de cinema, é de " The Good Wife". Quem acompanhou a série sabe que um dos momentos mais esperados foi  Alicia deixar a vibe "boa esposa" e se entregar ao velho amor, Will Gardner. Demorou, então na base do "aumente a sua sede até não aguentar mais", quando rolou foi intenso.

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Sobre a edição do cinema uruguaio:

"Chiquitita pero cumplidora! Já vou catar os dois filmes que não vi. É incrível como o cinema feito aqui do lado é tão diferente do nosso. Pena que eles não tem mais incentivo público/privado pra desenvolver. São bons! Melhoras na gripe, precisamos de ti!" ( Dedé Ribeiro)

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"Mais duas sugestões de filmes uruguaios : "Os Modernos", de Mauro Sarser ( sobre DR entre 2 ou 3 casais jovens, despretensioso, mas com diálogos que são uma "pérola") e o documentário sobre Wilson Ferreira Aldunate, importante político uruguaio, exilado durante a ditadura militar". ( Ana Carolina Escosteguy)

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THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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