Julho 19, 2019

O jornalismo e o cinema vão à guerra

O jornalismo e o cinema vão à guerra
Cena de Repórteres de Guerra

"A primeira vítima da guerra é a verdade" ( HiramJohnson, senador dos Estados Unidos, 1918)

Quando passei no vestibular e contei à minha mãe que ia cursar jornalismo, a primeira reação dela foi: mas, minha filha, tu vais pra guerra?! Era tão zelosa dos filhos que sempre os imaginava em perigo, então imediatamente achou que eu me tornaria uma correspondente internacional e correria os riscos inerentes à atividade. Ela achava que isso era o auge de uma carreira jornalística e, claro, que a filha dela sendo tão especial não deixaria por menos.

Dona Alice podia ficar sossegada, pois jamais estive perto de uma zona de conflito que não fosse a do dia a dia de uma cidade grande. O máximo de risco que corri foi a de levantar pautas indesejáveis pelas forças autoritárias numa cidade do interior onde fui cumprir estágio como repórter ao final do curso de Jornalismo. Depois, me mantive sempre relativamente segura dentro de uma Redação.

Ser correspondente de guerra exige mais que técnica jornalística, exige força emocional e um certo sangue frio( a não ser que não saia da varanda do hotel, localizado em zona segura, como um famoso enviado brasileiro costumava fazer, mas isso já é outra história...). Histórias de homens e mulheres que viveram esta experiência renderam muitos filmes. Tantos, que tive dificuldade em selecionar e acabei deixando a coluna super longa. Mesmo assim não estão todos aqui. Tentei colocar aqueles que trazem reflexões interessantes sobre esse duro trabalho, como ética em zonas de conflito, a interferência ou não do jornalista na realidade, a indiferença diante da dor humana desde que renda o " furo"... São questões muito semelhantes a dos demais profissionais, mas com um peso muito maior. Enfrentam também a pressão dos governos e exército para transformarem a verdade em primeira vítima, como na citação que abre a coluna. (Brígida De Poli)

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UMA GUERRA PESSOAL (A PRIVATE WAR) –  Matthew Heinem -2018

Começando pelo mais recente...Ainda não tive chance de assistir a cinebiografia de Marie Colvin, a mais famosa correspondente de guerra dos nossos tempos, mas quero muito ver. A norte-americana dizia que cobria guerras para ninguém dizer "eu não sabia". Tenho muito curiosidade de saber mais sobre aquela que cobriu conflitos em várias partes do mundo, chegando a perder o olho esquerdo durante bombardeio no Sri Lanka, em 2001. Ela passou a usar um tapa-olho preto que acabou se tornando sua marca registrada. No ano seguinte, a serviço do jornal britânico The Sunday Times, Marion morreu durante o ataque do exército sírio contra o prédio da imprensa na cidade de Homs. Junto com ela, morreu o fotojornalista francês, Rémi Ochlik, de 28 anos.

O papel da protagonista ficou com a britânica Rosamund Pike, talvez bela demais para o papel, mas para quem já interpretou Shakespeare no teatro nada parece demasiado.

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O OCASO DE UM POVO (Circle of Deceit) Volker Schlondorff – 1981

Sinopse: O jornalista Laschen ( Bruno Ganz) é enviado para Beirute para cobrir a guerra civil local. Seus sentimentos sobre essa missão são influenciados pelo seu casamento disfuncional e a incompreensão desse conflito do Líbano. Um caso com uma alemã residente em Beirute e o contato direto com a violência desequilibram ainda mais as suas estruturas.

Gosto de vários filmes deste cineasta alemão, principalmente de O Viajante e A Honra Perdida de Katharina Blum . Mas foi por O Tambor que ele recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (1980) e dividiu a Palma de Ouro em Cannes ( 1979) com Apocalypse Now. O Ocaso de um povo, título pouco inspirado em português, o elenco traz dois grandes intérpretes: Bruno Ganz ( ao centro, na foto) e Hanna Schygulla.

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SOB FOGO CERRADO (UNDER FIRE) – Roger Spottiswoode- 1983

Gosto muito de uma análise de Graciliano Rocha, publicada no Observatório da Imprensa, sobre este filme que me impactou muito quando vi há décadas atrás. Escreve ele: "Três jornalistas encurralados num conflito armado na Nicarágua e num triângulo amoroso. Poderia ser um filme sobre a revolução sandinista de 1979, poderia ser sobre a coragem e o destemor de repórteres que aceitam pôr em risco a própria vida em troca de notícias e imagens. É claro que estes aspectos existem, mas eles não são tão importantes quanto as definições sutis da natureza do trabalho jornalístico em zonas de conflito.

Por que razão algumas pessoas deixam a segurança de seus lares para fazer carreira e fama para cobrir guerras em confins de mundo dos quais a maioria da população nunca ouviu falar? O trio composto por Russel Price (Nolte), Claire Stryder (Cassidy) e Alex Grazier (Hackman) faz parte de um seleto clube de voyeurs interessados naqueles pedaços do planeta onde a loucura deixa suas marcas mais aparentes. A tranquilidade e a calma não lhes parecem tão apetitosas quanto guerrilhas no Chade ou as ruas de poeirentas cidades nicaraguenses em ruínas".

Preciso rever para saber se me causaria a mesma impressão, tão forte que na época me deu vontade de largar tudo e ir para a Nicarágua. Gene Hackman, Nick Nolte e Ed Harris enriqueceram a história com suas ótimas interpretações.

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OS GRITOS DO SILÊNCIO (THE KILLING FIELDS) – Rolland Joffé – 1984

Sinopse: Sidney Schanberg (Sam Waterston), repórter do The New York Times, vai cobrir a guerra civil do Camboja. Lá torna-se grande amigo de Dith Pran ( Haing S. Ngor), intérprete e também jornalista. Juntos eles testemunham atrocidades, tragédia, loucura e esperança. Schanberg volta para casa e ganha o prêmio Pulitzer pela cobertura, enquanto seu amigo Dith Pran encara um triste destino no país agora comandado pelo Khmer Vermelho.

Indicado a vários Oscars, ganhou melhor fotografia, melhor edição e melhor coadjuvante para Haing S. Ngor, em seu primeiro trabalho como ator.

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SALVADOR – O MARTÍRIO DE UM POVO – Oliver Stone -  1986

Outro filme  sobre correspondentes que mexeu comigo. Baseado em uma história real vivenciada por Rick Boyle, jornalista amigo de Oliver Stone, só fez sucesso depois que o diretor ganhou o Oscar de direção e melhor filme com Platoon (1986). Boyle era um fotojornalista americano em situação profissional e financeira muito ruim quando resolve viajar como correspondente estrangeiro para El Salvador em companhia de um amigo. Lá eles descobrem um país em guerra civil, onde os direitos humanos não são respeitados e mulheres, crianças e padres são assassinados impunemente. Aí o dilema: pode/deve um jornalista interferir na realidade que está cobrindo, mesmo com a melhor das intenções ?

Rick Boyle é interpretado por James Woods, um bom ator hoje no ostracismo por acusação de assédio sexual, mas o sonho de Oliver Stone para o papel era ninguém menos que Marlon Brando.

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TERRITÓRIO COMANCHE –  Gerardo Herrero – 1997

Esta produção espanhola mostra a vida de jornalistas da TV durante a Guerra da Bósnia. Baseado no livro homônimo, do jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, o filme mostra a rivalidade entre repórteres para conseguir a melhor história.
(Sinopse FSP) : A bem-sucedida Laura é enviada a Sarajevo e se junta aos colegas Mikel, também repórter, e José, cinegrafista. É a primeira guerra de Laura, e a enésima de seus companheiros. Logo de cara, se estabelece um relacionamento de rivalidade entre os três. Enquanto Mikel se dedica a matérias mais factuais, sobre batalhas e mortos, Laura deseja buscar o lado humano da guerra. Mostrando o sofrimento do povo, Laura acaba apelando para o sensacionalismo. Ela não se constrange em exibir as imagens de um franco-atirador metralhando pessoas na rua, por exemplo.


Confrontando os pontos de vista de cada um dos dois jornalistas, Território Comanche questiona a ética da profissão e provoca o espectador, que discute a sua própria conduta frente à TV.

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5 DIAS DE GUERRA – Renny Harlin – 2010

Sinopse:Baseado em fatos, o filme conta a história de um jornalista americano, seu cinegrafista e uma garota da Geórgia que acabam presos atrás das linhas inimigas, quando a Rússia invade o território, em agosto de 2008. Eles conseguem registrar terríveis crimes de guerra e vivem momentos importantes da história daquela região.

Esse é um daqueles filmes em que os jornalistas são ousados, enfrentam riscos acima do que seria permitido, quase suicidas, atropelam a ética, enfim, tudo pela notícia. O final também segue o clichê dos filmes americanos, mas há quem goste.

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REPÓRTERES DE GUERRA ( THE BANG BANG CLUB) – Steven Silver – 2010

Uma única foto é capaz de resumir uma guerra e mudar seu rumo. Foi assim na guerra do Vietnam com a icônica imagem da menina nua, correndo com queimaduras pelo corpo, após o bombardeio de sua aldeia. Talvez hoje, abarrotados de imagens e transmissões ao vivo de todos os tipos de horror, já não causasse tanto impacto.

Esse filme baseado no livro biográfico "The Bang-Bang Club: Snapshots from a Hidden War" –mostra um grupo formado pelos fotojornalistas Ken Oosterbroek, Kevin Carter, João Silva e Greg Marinovich que têm a tarefa de cobrir as primeiras eleições sul-africanas após o Apartheid, em 1994. Eles correm sério risco de morrer, enquanto cobrem a miséria do povo local. O filme começa pelo fim e traz um questionamento importante: o fotógrafo Kevin Carter é perguntado sucessivas vezes por uma repórter em um programa de rádio se ele havia salvado a criança que estava prestes a ser devorada por um abutre. Ela se referia a uma fotografia que Carter capturou com essa composição e que lhe rendeu um prêmio Pulitzer. Mais uma questão que rende bom debate...

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MIL VEZES BOA NOITE – Erik Poppe – 2014

Sempre achei a francesa Juliette Binoche uma boa atriz, mas agora na maturidade ela virou uma grande atriz. Neste filme, ela interpreta uma das melhores fotógrafas de guerra em atividade. Tudo parece bem até que o marido dá um ultimato: ela precisa abandonar as situações de perigo, coisa que a filha deles também não suporta mais. Acontece que a fotojornalista ama a família, mas é apaixonada pela profissão. Está montado o dilema que será o fio condutor da trama.

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Outros título sobre o tema:

Reds (1981), A Caçada (2007), Triage (2009), Restrepo (2010), Darfur-Deserto de Sangue ( 2009), Bem vindo a Saravejo ( 1997) ,O resgate de Harrison ( 2009) – Testemunhas de uma guerra (2009)

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FORA DE SÉRIE

Deadline Gallipoli – minissérie -

7 episódios –

Em 2015, ao completar-se 100 anos da campanha de Gallípoli,  durante a Primeira Guerra Mundial, os australianos produziram três séries sobre o pior evento da guerra acontecido no seu país.

Uma delas, Deadline Gallipoli , foi para mim uma surpresa agradável. Gostei muito da história de quatro correspondentes de guerra ingleses e australianos: Charles Charles Bean, Ellis Ashmead-Bartlett, Phillip Schuler e Keith Murdoch, que reportaram os horrores ocorridos na costa de Gallípoli durante o confronto entre Austrália e Turquia. Apesar da censura da época, eles conseguem revelar ao mundo a verdade sobre os campos de batalha, com soldados totalmente despreparados sob o comando do general britânico, Ian Hamilton, incompetente no gerenciamento da guerra.

A minissérie tem sete episódios, uma produção esmerada e traz no elenco alguns nomes conhecidos como Charles Dance (Game of Thrones) e Sam Worthington (Avatar ).

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OS FAVORITOS DE ....

...ROBERTO CATTANI, jornalista, fotógrafo, tradutor e escritor, com 14 livros publicados no Brasil e Itália. Foi correspondente da agência de notícias ANSA no Brasil , depois de alguns anos no Oriente Médio, onde cobriu as guerras na Palestina, no Líbano, no Afeganistão e no Sri Lanka. No Brasil, foi redator do caderno Mundo da Folha de S.Paulo e da revista Status, e diretor do Giornale del Sudamerica.

 

Minha ligação com o cinema/o cinema& eu... : minha lembrança mais antiga de cinema deve ser dos sete anos de idade, uma cena de um filme onde havia cavaleiros e dragões, com os efeitos especiais de 1960! Hoje qualquer criança ficaria rindo, mas eu tive pesadelos durante semanas...

Um filme : Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, e -indissociável - o livro Coração de Trevas, de Joseph Conrad. E, também indissociável, a música The End, de The Doors. E a cinematografia de Vittorio Storaro.

Um diretor: Werner Herzog, que me mostrou que o cinema pode ser ao mesmo tempo intelectual e excessivo, inteligente e brutal, delicado (a borboleta na jangada do Aguirre) e delirante. Ele me marcou tanto que ainda influencia os contos que escrevo. 

Um ator : Como não tenho predileção por nenhum ator, vou colocar aqui  uma

Trilha sonora: as trilhas dos filmes de Theo Angelopoulos, todas de Eleni Karaindrou, a compositora grega que é em absoluto minha música preferida. E em particular aquela de 'Um olhar a cada dia'


Cena de "A eternidade e um dia" (música de Eleni Karaindrou)

Uma atriz : Kristin Scott Thomas, para mim o epítome da elegância feminina. E Jennie Jacques, o epítome da graça erótica.

Uma série: não tenho muito tempo e paciência para assistir séries, mas daquelas que assisti, vou destacar Peaky Blinders, pela potência de evocação do período, e o aprofundamento dos personagens.

Uma cena : o jogo de xadrez final entre o Cavaleiro e a Morte, no Sétimo Selo de Ingmar Bergman.

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NOS BASTIDORES DE HOLLYWOOD

Diretor genial ou carrasco e predador sexual ?

Há muitos diretores de cinema com fama de cruéis e carrascos com os atores. Um deles é o mestre do suspense, Alfred Hitchcock, famoso pela frase "ator é como gado". Ele negava: "Nunca disse que atores são gado. O que eu disse é que todos os atores deveriam ser tratados como gado." O que, convenhamos, não melhora em nada a fama do cineasta. Uma das muitas histórias de maldade foi com a atriz Tippi Hedren, durante as filmagens de "Os Pássaros". Além de mantê-la sob constante estresse ,Hitchcock prometeu que usaria pássaros mecânicos para gravar os ataques que a personagem sofreria, mas usou pássaros reais e não avisou sobre a famosa cena em que ela é atacada na cabine telefônica. Tippi ficou com cicatrizes reais ao longo das filmagens (veja abaixo fragmento da cena).

Mesmo assim, a atriz ainda fez no ano seguinte mais um filme sob a direção do carrasco: "Marnie-Confissões de uma ladra", um filme de que gosto muito, onde Tippi contracena com meu querido Sean Connery. E se arrependeu, pois Hitchcock ficou obcecado por ela, a perseguia no set de filmagens e fazia propostas sexuais. Temendo prejudicar sua carreira, a jovem atriz recusava educadamente. Como retaliação, ele a manteve sob contrato durante vários anos sem que ela pudesse aceitar papéis em outros filmes. Duas décadas depois, ela escreveu um livro relatando o assédio.

Um pouco dessa história terrível pode ser visto em A Garota, filme da HBO, de 2012, com Sienna Miller interpretando Tippi Hedren.

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DICA - LEITURA DE CINEMA

Outro livro maravilhoso que ganhei de presente é Tudo sobre Cinema (This is Cinema). Nele está o que aconteceu de mais importante na sétima arte desde o surgimento das primeiras imagens em movimento até filmes contemporâneos. São 576 páginas de textos e fotos das melhores produções mundiais. Na capa, como vocês podem ver, uma foto gloriosa de Al Pacino em O Poderoso Chefão. Fica a dica.

Editora : Sextante

Editor geral : Phillip Kemp

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Obs.: Muitos desses filmes podem ser encontrados no canal Looke/Now, que exige uma assinatura à parte. Outros estão na Netflix ou liberados gratuitamente no YouTube.

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Se gostou ou não, se faltou algum de sua preferência, escreva pra coluna. E até sexta-feira com um tema que promete polêmica...hum !!

THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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