Maio 03, 2018

O mundo do trabalho no Cinema

O tema da semana é óbvio, mas importante: o mundo do trabalho e dos trabalhadores. Há filmes de épocas diferentes, histórias que se passam em outro século, mas sempre com um ponto em comum: a luta por direitos. Homens e mulheres que ajudaram a mudar as condições de trabalho, alguns reais e outros da ficção. Há histórias trágicas, comoventes e outras que aliviam o tema com uma dose de humor. Selecionei alguns, mas o número, claro, é bem maior.

Querendo ampliar a lista, escreva no pé na coluna ou mande sua sugestão para cineseries@portalmakingof.com.br

------------------------------------------------

 

A classe operária vai ao paraíso ( Elio Petri – Itália- 1971)

Lulu é um operário bem visto pelos patrões e mal visto pelos colegas, que estão em luta por melhorias de trabalho. Ele não se envolve em nada, mas mesmo assim é uma pessoa conturbada, principalmente na vida pessoal. Um dia, o bom empregado perde um dedo num acidente de trabalho e a fábrica não lhe dá a menor assistência. Isso é um divisor de águas na vida de Lulu e ele adere à corrente mais radical da luta sindical. O protagonista é vivido por  Gian Maria Volonté, um excepcional ator italiano, famoso por sua filmografia política.

 

Norma Rae ( Martin Ritt – EUA – 1979)

O papel título alavancou a carreira de Sally Field, até então a eterna "Noviça Voadora" da famosa série televisiva. Ela é Norma, mãe solteira de dois filhos, operária de uma indústria têxtil com péssimas condições de trabalho. Ela mora com os pais, empregados da mesma empresa. Um dia, um sindicalista se hospeda na casa da família e Norma começa a entender a necessidade de lutar por melhorias para todos. Na fábrica, todos têm medo de se sindicalizar, pois aquele é o único lugar para trabalhar na cidadezinha. Mas Norma acaba incentivando-os e revolucionando as relações entre as partes.

Sally ganhou o Oscar de Melhor Atriz , o Globo de Ouro e todos os prêmios que encontrou pela frente com esse papel.

 

Daens – um grito de justiça ( Stijn Coninx – Bélgica/França/Holanda- 1992)

O filme conta a história do padre belga Adolf Daens, que se transfere para a cidade Aalst, no final do século XIX. Lá ele se depara com a degradação a que a população era submetida por causa do processo de industrialização. Daens fica indignado com as constantes mortes nas indústrias, com a fome, o frio e as condições de vida miseráveis das famílias operárias. O padre se candidata ao Parlamento e , depois de muita luta e pressão do  governo,acaba suspenso de suas atividades sacerdotais em 1898, pelo bispo. Elegeu-se mais uma vez e continuou batalhando pelos direitos dos operários.

 

Pão e Rosas ( Ken Loach - França/R.Unido/Suiça/ Esp/Alemanha– 2000 )

Apesar da produção reunir países europeus, a história se passa em Los Angeles, onde imigrantes mexicanos ilegais trabalham como faxineiros do turno da noite em um edifício de escritórios. Eles recebem salários baixíssimos, não têm assistência médica, nenhuma proteção trabalhista e ainda suportam um patrão abusivo. Maya é uma jovem mexicana que, juntamente com um ativista americano, lidera uma campanha guerrilheira contra corporações, ameaçando as famílias e vidas dos empregadores e correndo o risco de extradições (Reuters).

O nome do filme vem do poema/música "Pão e Rosas", escrito por James Oppenheim, em 1911, depois da morte de operárias num incêndio, o que gerou a criação do Dia da Mulher. Alguns versos dizem:

" (...)Enquanto vamos marchando, avançando,
Lutamos também pelos homens
pois eles são filhos de mulheres,
e como mães os protegemos
.
Não mais seremos exploradas desde o nascimento até à morte
Os corações mirram de fome, assim como os corpos.
Dai-nos pão, mas dai-nos rosas também
 !" (...)

 

China Blue ( Micha X. Peled – EUA – 2005)

Quando a gente vai à loja e compra um jeans não se pergunta como ele chegou às nossas mãos. "China Blue" é um documentário que mostra a dura vida de adolescentes que confeccionam jeans nas fábricas chinesas e recebem 1 dólar por dia. As jovens costureiras vivem amontoadas nos dormitórios das fábricas, sem água encanada, nem um mínimo conforto. Para piorar, o aluguel e as refeições são deduzidas de seu humilhante salário. A maioria dos produtos é comprada por negociantes dos Estados Unidos e outros países. O documentário foi realizado sem autorização do governo da China e é um retrato dos males da globalização e da pressão dos países ocidentais para aumentar seus lucros às custas do trabalho desumano.

A jornada de trabalho é tão longa que os empregados da fábrica usam até prendedores nas pálpebras para manter os olhos abertos, como se vê na foto do documentário.

 

O Capital ( Costa Gavras – França- 2012 )

Mais um história política dirigida pelo grego Costa-Gavras, desta vez baseado no romance francês de  Sthéfane Osmont, que previu a crise econômica de 2008. O protagonista é o banqueiro Marc Tourneil que, em dado momento de uma reunião com acionistas, olha para a câmera e diz ironicamente: " Continuaremos tirando dos pobres para dar aos ricos neste jogo, meus senhores. Até que tudo se exploda". Marc fará de tudo para se manter no topo hierárquico do banco Phenix, inclusive explodir também a moral e a ética.

 

Ou tudo ou nada ( Peter Cattaneo – Reino Unido – 1997)

Interrompo a ordem cronológica da seleção para encerrar com uma história divertida, mesmo falando de uma das piores coisas para qualquer pessoa: o desemprego. Adoro esse filme ! Gaz, interpretado por Robert Carlyle, é um dos muitos que ficam sem emprego quando as siderúrgicas de Sheffield, na Inglaterra, fecham. Deprimido e lutando pela custódia do filho, ele tem uma ideia bizarra quando assiste a um show de stripers masculinos. Ele convoca um grupo de amigos que também estão na pior e os convence a montar um grupo de shows de strip-tease. Bem, nenhum é exatamente um Brad Pitt,  nem tem talento para a dança, mas acabam dando um jeito. E as músicas são daquelas de fazer até a gente sair aos pulinhos...Dá para rir, dá para chorar.

 

Outros filmes do tema: Tempos Modernos (1936), Vinhas da Ira (1940), Sindicato de Ladrões (1954 ), Eles não usam Black Tie ( 1981  ), Segunda-feira ao Sol (2002 ), O Corte (2005),  Pride ( 2014 ), Silkwood (1983 ), Pai Patrão (1977)...

------------------------------------------------

 

O LIVRO QUE VIROU FILME

GERMINAL – ÉMILE  ZOLA ( primeira edição: 1885)

Li a obra do escritor francês quando era bem jovem e fiquei impactada. Sombrio e realista, eu conseguia mais que imaginar, sentir a dureza da vida dos trabalhadores, o frio, a falta de um conforto mínimo e, principalmente, a fome constante. Entenda.

Sinopse oficial : 'Germinal' é o nome do primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa. Ao usar essa palavra como título de seu livro, Zola associa as sementes das novas plantas à possibilidade de transformação social- por mais que se arranquem os brotos das mudanças, eles sempre voltarão a germinar. Um dos grandes romances do século XIX, expressão máxima do naturalismo literário, Germinal baseia-se em acontecimentos verídicos. É um espelho da realidade. Para escrevê-lo, Émile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Atuando como repórter, adotando uma linguagem rápida e crua, Zola pintou a vida política e social da época como nenhum outro escritor. Denunciou as péssimas condições de trabalho dos operários, a fome, a miséria, a promiscuidade, a falta de higiene. Mostrou, como jamais havia sido feito, que o ambiente social exerce efeitos sobre os laços de família, sobre os vínculos de amizade, sobre as relações entre os apaixonados. 'Germinal' é o primeiro romance a enfocar a luta de classes no momento de sua eclosão. A história se passa na segunda metade do século XIX, mas os sofrimentos que Zola descreve continuam presentes em nosso tempo. É uma obra em tons escuros. Termina ensolarada, com a esperança de uma nova ordem social para o mundo. (Livraria Cultura).

O FILME – 1993

A versão de "Germinal" para o cinema é bastante honesta com a obra de Zola. O principal nome do elenco é o vigoroso Gerard Depardieu. Nesse momento de enfrentamento ideológico que estamos vivendo, há quem diga que a história é demasiadamente panfletária, incitadora da luta de classes. Mas, guardadas as devidas proporções, aquela realidade desumana ainda persiste em alguns lugares. A toda hora vemos, por exemplo, denúncias de trabalho análogo à escravidão. Em pleno século XXI! Ainda hoje estão presentes os reflexos da luta feroz pela sobrevivência na vida familiar, nas amizades, nas relações com o outro. Tire suas conclusões lendo o livro e/ou vendo o filme, mas é bom se preparar: não espere o conforto das histórias de superação que o cinema americano, por exemplo, costuma oferecer.

------------------------------------------------

 

É COISA NOSSA

QUE HORAS ELA VOLTA ? (2015)

O filme de Anna Muylaert causou polêmica no lançamento, pois fala de algo que estava incomodando muita gente naquele momento. Pra começo de conversa a história desmistifica a lenda  "minha empregada doméstica é como se fosse da minha família". Quando Jéssica, a filha da empregada Val,  interpretada por Regina Casé, chega na casa onde a mãe vive o olhar dela revela o que realmente se passa ali. Val fica à disposição dos patrões e do filho adolescente deles 24 horas por dia. Criou o garoto desde bebê, enquanto a filha dela morava no Nordeste com a avó, dorme num quartinho apertado ao lado da lavanderia, não come à mesa, enfim... uma "familiar" de segunda categoria. Uma coisa a mulher que serve e a que é servida têm em comum: seus filhos passaram a infância perguntando pela mãe, de onde vem o título "Que horas ela volta?".

Jéssica "põe fogo no parquinho", com sua insolência e rebeldia: dorme num quarto melhor, usa a piscina, come o sorvete mais caro, destinado apenas aos donos da casa...enfim, a garota não é fácil. Recém aprovada no vestibular de Arquitetura, o que leva a patroa a dizer " é, as coisas estão mudando no país mesmo", Jéssica tem uma consciência que a dedicada Val não possui. A mãe deu a ela condições de estudar e agora será pela mão dela que Val vai entender o mundo e as relações de trabalho de outra maneira.

Ao ser lançado o filme era o retrato do país dividido entre os que querem uma sociedade mais igualitária e os que desaprovavam "pobres andando de avião", metaforicamente falando. Por isso, parte do público, adorou, e outra, odiou "Que horas ela volta?". Sim, ele tem exageros, pode até soar um pouco panfletário, mas também é incômodo por cutucar em questões sociais que varremos para debaixo do tapete desde sempre. Se em uns os questionamentos de Muylaert causaram azia, em outros deu sensação de esperança. É possível mudar. Infelizmente, de lá pra cá...bem, isso já é outro assunto.

"Que horas ela volta?" recebeu vários prêmios no Brasil para a direção e atuação, principalmente de Regina Casé. Ganhou também Prêmio Ariel de Melhor Filme Ibero-Americano, no México.

------------------------------------------------

 

Fora de série

O negócio ( HBO – 4 temporadas )

Relutei um pouco em trazer essa série na edição em que o assunto é trabalho& trabalhadores, mas como esta é considerada a profissão mais antiga do mundo... aqui está "O Negócio".

No caso da série brasileira da HBO, o negócio da venda de sexo vem embalado em glamour e sofisticação. As três garotas de programa são belas, elegantes e não sofrem grandes conflitos com a atividade escolhida. A líder do trio é Karin que, além de bonita, tem um tino invejável para negócios.  É dela que partem as melhores ideias para aumentar cada vez mais o lucro de Luna e Mia, suas sócias. Entre altos e baixos, as três vão atendendo seus clientes ricos e quase sempre charmosos.  Sim, não há homens feios, malcheirosos, violentos... Tudo é soft demais em "O Negócio".

A série não aprofunda o lado horroroso da prostituição, mostrado em " Bruna Surfistinha", por exemplo. Os percalços são mais por dinheiro e a o jogo de cintura para esconder da família a verdadeira profissão. As três atrizes – Rafaela Mandelli, Michelle Batista e Aline Jones - são bem convincentes , mas a grande interpretação é de Guilherme Weber, fazendo um cafetão judeu concorrente. Há cenas hilariantes. Ele está simplesmente ótimo !!

Como outras obras eróticas recentes , " O Negócio" fez grande sucesso e chegou a 4 temporadas, algo pouco usual no Brasil. Além disso, foi exportada para outros 50 países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Muita coisa vem mudando no mundo, mas uma permanece : sexo sempre vende !

------------------------------------------------

 

EM CARTAZ

Programação de filmes que você pode assistir de graça em Florianópolis. Aproveite !

Cinema do CIC- Centro Integrado de Cultura

Em uma integração entre projetos de exibição cineclubista: Cine Paredão, Cinemática e Cineclube Cinema UNISUL  acontece em maio o Especial comemorativo pelo aniversário do cineasta Rogério Sganzerla.

Nota da coluna: Para quem não conhece o cinema de Sganzerla, é bom que se diga que não são filmes acadêmicos, convencionais. Mas se você quer sair da mesmice, encare.

Dia 03/05 -  20 h

A Mulher de todos

Ano: 1969
Duração: 93 minutos
Classificação Indicativa: 18 anos
A ninfomaníaca Ângela Carne e Osso convida o amante para visitar a exótica Ilha dos Prazeres. Desconfiado, seu marido contrata um detetive particular, o qual acaba revelando o plano ao se apaixonar pela moça. Desconcertado diante do flagra, o marido traído prepara uma terrível vingança.

 

Dia 04/05 – 20h

O Bandido da Luz Vermelha

Gênero: Drama
País: Brasil
Ano: 1968
Duração: 92 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
Livremente inspirado em fatos reais. Um assaltante misterioso usa técnicas extravagantes para roubar casas luxuosas de São Paulo. Ele é apelidado pela imprensa de "bandido da luz vermelha", já que traz sempre uma lanterna vermelha e conversa longamente com suas vítimas. No entanto, seus roubos e crimes chamam tanta atenção que um implacável policial começa a perseguir o "bandido da luz vermelha".

 

Dia 05 de Maio de 2018, 20h

Copacabana, mon amour

Gênero: Comédia
País: Brasil
Ano: 1970
Duração: 85 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
Sônia Silk trabalha como prostituta enquanto tenta virar cantora da Rádio Nacional. De tanto ouvir a mãe dizer que ela e o irmão são possuídos pelo demônio, Sônia procura um pai de santo para tentar quebrar o feitiço maligno que atua sobre os dois.

 

Sessão Cinemática exibe o documentário "Sexo, Pregações e Política"

Cinema do CIC – 02/05 – 19h30

Direção de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez ( 2017 – 72 min).A data também representa o primeiro aniversário do projeto. Após o filme, haverá um debate mediado pela diretora de comunicação da Cinemateca/ABD-SC, Cristine Larissa Clasen.

Uma das reflexões abordadas será o fato de que o Brasil vende a imagem de local em que a diversidade é respeitada. Porém, nesse mesmo país muitas mulheres morrem em virtude da proibição do aborto e é onde há mais assassinatos de homossexuais no mundo.

------------------------------------------------

 

PIPOCA NEWS

Filmes de graça também os cinéfilhinhos !

Cinema do CIC – 05/05 – sábado – 16 horas

Sessão de Longa-Metragem Nacional (76 min)

Cocoricó Conta Clássicos


A turma da fazenda mais divertida do Brasil resolveu interpretar alguns dos mais famosos clássicos infantis. Como se isso não bastasse, Júlio e seus amigos ainda deram uma leve mexida nas histórias, deixando-as muito mais engraçadas. Confira os clássicos: "Cocoricunda", com o Feito no papel de Corcunda; "Rapunzilica", com a Lilica e suas lindas tranças; "Os Cigarras e As Formigas", onde Lilica, Caco e Júlio são as cigarras e Zazá, Mimosa e Lola interpretam as formigas; "Belalilica e Ditofera", com a Lilica no papel da Bela e o Dito, da Fera; e "O Gaitista de Quixeramobim", onde o Júlio encanta todos com sua gaita.

------------------------------------------------

 

HASTA LA VISTA, BABY !

Frases de Cinema

Da obra "Germinal", de Émile Zola:

" Quando se vive como um animal, de cabeça baixa, um pouco de ilusão não faz mal, um escape onde se possa sonhar com as coisas que jamias estarão ao alcance da mão".

"Um homem pode ser valente; uma multidão que morre de fome não tem força para nada."

"Nada acaba para sempre, basta um pouco de felicidade para tudo recomeçar."

------------------------------------------------

 

Fora da pauta

Na edição anterior lamentei as mortes de dois grandes cineastas, Milos Forman e Nelson Pereira dos Santos. Esqueci de incluir outra grande perda para o Cinema: o italiano Vittório Taviani que, junto com o irmão Paolo, dirigiu  filmes importantes como "Pai Patrão"  que ganhou a Palma de Ouro  no Festival de Cannes de 1977.

------------------------------------------------

 

MENS@GEM PARA VOCÊ

Boas sugestões de minisséries, mas nenhuma da Netflix (não assino as outras) ? (Biaguiar)

Pois é, desta vez deixei a Netflix de lado, mas já falei aqui sobre a minissérie "O Povo contra O.J.Simpson ", superpremiada, que mostra o julgamento do famoso jogador acusado de assassinar a mulher. Faz parte de American Crime Story e é bem produzida. Não gosto de algumas atuações, como Cuba Gooding Jr. interpretando O.J., mas pior é David Schwimmer ( lembra dele de "Friends"?) vivendo Robert Kardashian ( sim, o pai do clã famoso), amigo e advogado de O.J. Simpson.

------------------------------------------------

Gostaram ? Semana que vem tem mais...

THE END

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

Comentários

Media Social

Fique por dentro

Receba novidades no seu e-mail!