Agosto 01, 2020

O passado vive em nós

O passado vive em nós
Família Guido e outras/década de 1930

Dando um tempo no formato temático de Cine & Séries, mas garantindo a leitura semanal para quem segue a coluna. Toda sexta-feira,  uma nova "Crônica em Quarentena" e, claro, dicas de filmes e séries para amenizar esses tempos difíceis de pandemia e isolamento social. Fiquem bem!

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CRÔNICAS EM QUARENTENA XIV - O PASSADO VIVE EM NÓS

Paulinho da Viola, nosso príncipe por merecimento e não por herança portuguesa , tem uma observação maravilhosa sobre os versos" meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim", de Wilson Batista, um de seus compositores favoritos. Complementa Paulinho: "meu tempo é hoje, eu não vivo no passado, o passado vive em mim."

Desde o início da pandemia faço parte do grupo dos primos no Whatsapp. Somos vários, morando em estados diferentes e trocando mensagens diariamente. Entre fotos de pratos deliciosos e troca de receitas, como não poderia deixar de ser numa família de descendência italiana, abrimos espaço para a política (sem brigas!), jogos e piadas.

Mas a coisa mais interessante que tem surgido nas nossas conversas são as lembranças de infância e as histórias de família. Somos crias de um matriarcado, pois minha avó teve seis filhas e um filho. As  seis irmãs foram grudadas até a hora da partida, em média aos 80 anos. Hoje restam apenas duas das nossas queridas.

Graças aos aplicativos nós, seus descendentes, ficamos recordando dos grandes almoços de domingo, das festas juninas na garagem, do colo macio e caloroso da nossa avó e seus bolinhos de chuva.  Claro, rimos muito das trapalhadas dos tios e tias e das nossas travessuras, com direito a uma chinelada de vez em quando, porque não era ilegal!

Assim vamos tecendo uma colcha de retalhos nessa quarentena: ah, lembram quando estávamos todos na pickup do tio e ela começou a descer a ladeira de ré? Como era mesmo o sagu que a tia preparava ? E aquela vez que a família fretou um ônibus para ir ao casamento da prima em Pelotas, lembram ? Ah,claro, o melhor bolo de casamento que comi na vida...

Um dia, um dos sobrinhos representante da 4ª geração, abriu o baú de fotos da família e colocou no zap. Revimos nossas imagens de criança, nossa cara adolescente, os rostos das nossas mães, tios e dos muito amigos que frequentavam nossas casas.

Fomos legendando as fotos, cada qual com trechos da própria memória, uma espécie de mosaico coletivo. Como sempre acontece, as lembranças surgiam diferentes para o mesmo fato, dependendo do relator. Então, me dei conta que se antes nossos pais continham nossa história, agora somos nós os guardiões do passado, da mesma forma que os sobrinhos, filhos e netos serão do nosso. Um dia eles também passarão o bastão das reminiscências acumuladas para seus filhos e netos...e o nosso passado viverá um pouco em cada um deles.

(Brígida De Poli)

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DICAS DE FILMES E SÉRIES

 

NETFLIX

Lendas da paixão – direção:Edward Zwicki – 1994

Se alguém ainda não viu esse sucesso dos anos 90 ou quer rever, agora ele está  disponível na Netflix. Lembro bem que me arrependi tremendamente de ter ido assistir Lendas da Paixão numa sessão diurna. A cada aparição de Brad Pitt na tela, a cada close ou sorriso se ouvia a gritaria de "lindo,  liiiindo" na plateia. Impossível prestar atenção à história do Coronel Ludlow ( Anthony Hopkins) e seus três filhos (Pitt, Aidan Quinn e Henry Thomas), moradores de um rancho em Montana, no início do século 20. O silêncio só se fez na sala de cinema quando os espectadores choraram, pois a história mistura um triângulo amoroso e perdas familiares comoventes. No trailer, dá pra ter uma ideia do porqueê de tanto alvoroço !

 

Barra Bravas – série – 1 temporada

Ainda não vi, mas o assunto promete! Tem até a participação de Diego Maradona.

Barra Bravas (Puerta 7) acompanha a história de alguns personagens e como elas se cruzam. É uma série baseada em fatos reais, envolvendo futebol, fanatismo, criminalidade e política. As barra bravas nada mais são que um tipo de torcida organizada mais violenta e com recursos para intimidar os adversários. Esse recursos podem ser obtidos através do tráfico, da exploração da comunidade ou outros crimes. As barras também podem exercer sua influência sobre o próprio time, em decisões administrativas e negociações, através do suborno ou de ameaças. Com o tempo, as barras se tornaram um jogo de poder lucrativo e difícil de ser reprimido. É isso que a série apresenta, através de forma prática, mostrando a dinâmica entre futebol, política e população. Para a contextualização, Barra Bravas cria um time fictício de Buenos Aires chamado Ferroviarios Fútbol Club. (Sinopse: Entreter-se)

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PRIME

Midsommar – O mal não espera a noite- direção: Ari Aster – 2019

Para quem curte o gênero terror, mas não aquele do tipo O Massacre da serra elétrica, este filme é um achado. Como o subtítulo em português já entrega, a história se passa quase toda à luz do sol. O cenário é um local paradisíaco na Suécia, cercado de montanhas, em uma comunidade de pessoas loiras, jovens com guirlandas de flores no cabelo, crianças de branco correndo pela relva... Mas...mas....depois que um grupo de americanos chega lá para acompanhar a cerimônia do solstício, descobre as estranhezas do paraíso. Alerta: algumas cenas quase no início do filme, quando um casal de anciãos se despede da vida, são muito fortes e, eu diria, dispensáveis. O diretor Ari Aster fez também o elogiado terror Hereditário, também disponível em streaming.

 

Entre facas e segredos – direção: Rian Johson – 2019

Após comemorar 85 anos de idade, o famoso escritor de histórias policiais Harlan Thrombey (Christopher Plummer) é encontrado morto dentro de sua propriedade. Logo, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é contratado para investigar o caso e descobre que, entre os funcionários misteriosos e a família conflituosa de Harlan, todos podem ser considerados suspeitos do crime. 

A trama é um mistério estilo Agatha Christie, mas toca em assuntos atuais, como xenofobia. Muito humor ácido, elenco super bacana. Uma diversão de alto nível. Concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Original e ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Comédia e melhor ator para  Daniel Craig.

 

Bosch – série – 6 temporadas

Não é uma série nova: foi renovada há pouco para a 7ª e última temporada. Para quem gosta de séries policiais tradicionais  é das melhores. O personagem título é conhecido dos livros de Michael Connely : Harry Bosch, um detetive do departamento de homicídios de Los Angeles, filho de uma prostituta assassinada quando ele tinha onze anos, Bosch cresceu em orfanatos e lares adotivos. Veterano da guerra do Vietnã, foi casado com Eleanor, jogadora de pôquer em um cassino em Macau, com quem teve uma filha, Maddie, com quem tinha pouco contato.

Apesar da triste infância, não é um daqueles indefectíveis detetives sujos e bêbados da maioria das séries policiais. Bosch vive numa bela casa, comprada com os direitos autorais vendidos para um filme ( uma ironia do autor). Na 1ª temporada, ele namora uma recruta ambiciosa , enquanto investiga um crime que tem ligações com seu passado.

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CINE BELAS ARTES

Combo Apocalipse Now- direção:Francis Ford Coppola

Apocalipse Now aparece em todas as listas de melhores filmes da história e no topo quando o assunto é guerra. Realmente, o filme de Coppola sobre a guerra do Vietnã é espetacular. Cenas icônicas como o coronel interpretado por Robert Duvall ouvindo a Cavalgada das Valkirias, declarando que "adoro cheiro de napalm de manhã", a aparição de Marlon Brando como o Cel. Kurtz, o militar que enlouqueceu na selva asiática e está sendo caçado pelo capitão interpretado por Martin Sheen servem para mostrar o horror e a insanidade da guerra como poucos conseguiram.

No Cine Belas Artes à la Carte ( o streaming que já indiquei aqui para quem curte clássicos e custa bem pouco) agora é possível encontrar a "versão do diretor, sem cortes". São 30 minutos a mais da versão vista nos cinemas. Para completar o combo há dois documentários mostrando a intensidade das filmagens que levaram Martin Sheen a um colapso nervoso e quase matou outros membros da equipe. Imperdível!

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EXTRA

Morreu no domingo (26) aos 104 anos, a última grande diva da Era de Ouro do Cinema, Olivia de Havilland. Já tinha contado sobre ela  e a rivalidade com a irmã, a também atriz, Joan Fontaine, aqui na coluna por ocasião do 103° aniversário de Olivia.

A história da atriz Olivia de Havilland, a doce Melanie de E o vento levou, rendeu vários livros, mas desconheço se algum foi traduzido para o português. Uma pena, porque sua vida é um roteiro pronto. Ela e sua irmã, Joan Fontaine, protagonizaram uma das maiores rivalidades de Hollywood. Tudo começou na infância quando a mãe sempre demonstrou preferência por Olivia e aumentou quando Joan resolveu seguir a mesma carreira da irmã mais velha. O embate seguiu por toda a vida, com cada uma disputando as glórias da indústria cinematográfica para dizer "eu sou a melhor". No quesito Oscar, Olivia levou vantagem, com duas estatuetas de melhor atriz: uma pelo filme 'Só Resta uma Lágrima' (1946) e outra por 'Tarde Demais' (1949). Joan recebeu uma estatueta de ouro por Suspicion/Suspeita (1941), do mestre do suspense, Alfred Hitchcock.

Sempre tentando ser superior, Joan Fontaine chegou a dizer :"casei-me antes de Olivia, ganhei o Oscar antes dela e, se eu morrer primeiro, tenho certeza de que ela ficará furiosa de tê-la batido nisso também".

Se Olivia ficou ou não furiosa nunca saberemos, mas Joan " conseguiu" partir bem antes da irmã, mesmo sendo um ano mais nova.  Morreu em 2013, aos 96 anos. As irmãs nunca se reconciliaram.

Já Olivia morreu em Paris, onde vivia discretamente. Só retornou a Hollywood em uma rara aparição pública em 2003 para participar da 75ª edição do Oscar. Aos 104 anos, ainda conservava a suave beleza que acostumamos a ver nas telas.

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THE END

 (*) Fotos reprodução/divulgação

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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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