Outubro 02, 2020

O Som do Cio

O Som do Cio

Dando um tempo no formato temático de Cine & Séries, mas garantindo a leitura semanal para quem segue a coluna. Toda sexta-feira,  uma nova "Crônica em Quarentena" e, claro, dicas de filmes e séries para amenizar esses tempos difíceis de pandemia e isolamento social. Fiquem bem!

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O Som do Cio

Levanto de madrugada para ir ao banheiro e ouço o canto característico desta época do ano. É o sabiá-laranjeira chamando desesperadamente alguma fêmea da espécie.

Quem acompanha minhas singelas "Crônicas em Quarentena" deve estar lembrado que em junho escrevi "O Som ao Redor- IX" (leia aqui), falando sobre os sabiás terem transferido o ritual de acasalamento para o período da noite nas grandes cidades. Motivo: o barulho do trânsito não permite que as "pretendentes" ouçam o chamamento do parceiro.

Abordei o tema naquele momento porque a quarentena trouxera um silêncio inusitado às nossas noites urbanas, sem o barulho incômodo dos automóveis.

Citando uma querida amiga que reclamava do arrulhar dos pássaros apaixonados que a impediam de dormir, fiz um prognóstico/desejo em junho: "Talvez este ano os pássaros possam chamar a companheira à luz do sol também na grande cidade e minha amiga possa dormir tranquilamente".

Três meses depois percebo que tudo está como "dantes no quartel de Abrantes". Voltaram o som dos motores, das buzinas, das sirenes... No salão de festas, as pessoas gritam e gargalham como se não estivessem no horário que exige silêncio para os vizinhos que preferem dormir. Na madrugada também dá para ouvir ao longe uma batida stunt stunt de algum baile funk no bairro.

Fala-se muito no "novo normal" que virá após o fim da pandemia, mas o som que vem da rua me mostra que essa agitação toda nada tem de nova. É apenas o normal dos "normais".

E com isso, o sabiá-laranjeira voltou a cantar alto à noite toda até ficar rouco. O pássaro está fazendo o som do cio e, pelo jeito, os humanos, também!

(Brígida De Poli)

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CONVERSANDO SOBRE "ISOLADOS, MAS JUNTOS E MISTURADOS".

A crônica da semana passada gerou muitos comentários interessantes. A colunista fica super contente quando recebe retorno. Obrigada pelas manifestações.

Dedé Ribeiro

Quando comecei a ler ,achei que essa crônica ia para o lado de quem está agindo como se já estivesse todo mundo vacinado (que é muuuita gente). Mas não, foi para um lado das "verdades Íntimas difíceis de engolir". É complicado admitir pra nós mesmos que usávamos mal nossa liberdade ou estávamos viciados em consumir. A pandemia botou uma lente de aumento na nossa vida. Nós, sobreviventes, temos outra chance.

Deborah Matte

Pois então, Brígida, estes dias me dei conta que a pandemia provoca depressão por dois grandes motivos: a falta dos abraços e beijos nas pessoas queridas e a falta de novos cenários. Não são estes os princípios da pena de prisão?

Bete Oliveira

Adorei ! Para mim pesa mesmo a falta do abraço. Quanto ao que fazia anteriormente, andar ao vento sem contar o tempo, seja onde for, pelas ruas da cidade e simplesmente olhar vitrines, sinto falta.

Celso Vicenzi

O pior é a falta dos abraços e não poder dividir mesas em bares, restaurantes e residências com o(a)s amigo(a)s.

Bete Nogueira

Também acho, Brígida. O fato de não sair, para quem leva o isolamento a sério e poder ficar em casa sem compromisso de trabalho, faz muita gente ficar atraída por tudo disponível além da porta. Esses dias um amigo disse que se arrependia de não ter ido a festas ou botecos por estar cansado. Na verdade, vamos retomar o que gostamos de fazer como encontrar os amigos e tomar uma bem gelada pelos bares. Disso eu sinto. Ah, e viajar para encontrar filhos, netos, mãe e irmãs.

Suzete Antunes

Sinto muitas saudades. E olha que sou super caseira! Ontem nós ficamos em casa vendo as fotos de uma viagem a Minas, relembrando e pensando em voltar...

Neuza Lopes Ribeiro Vollet

Além do fato de que para muitos de nós esse suposto isolamento acabou se revelando uma grande interação nunca dantes imaginada, também não será dessa vez que vamos simplesmente relaxar e apenas olhar para a natureza... o agito continua!

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DICAS DE SÉRIES E FILMES

NETFLIX

Professor Polvo –doc – direção: Pippa Ehrlich, James Reed - 2020

O documentarista Craig Foster -  premiado e co-fundador do projeto Sea Change – estava bem cansado do trabalho quando resolveu passar um tempo mergulhando na floresta subaquática na África do Sul. No fundo do mar ele acabou encontrando um ser que iria virar quase uma obsessão, um polvo-fêmea. O mergulhador consegue ganhar a confiança do molusco e se estabelece entre eles o que se pode chamar de amizade. Mas, não, não é um documentário sobre bichinhos fofos. É bem mais que isso. Além da história central, as imagens submarinas são espetaculares.

 

O Jovem Wallander – série – 1 temporada

Eu já conhecia o detetive Kurt Wallander - saído dos livros de Henning Mankell - numa versão com o ótimo Kenneth Branagh ( canal....). Ele e´o "velho" Wallander. Mas, como o personagem é ótimo, a Netflix lançou a série sueca O Jovem Wallander  que mostra o início da carreira do policial. E se saiu muito bem, pois a primeira temporada tem ritmo e a história incluiu temas atuais como imigração, xenofobia e racismo.

O protagonista é feito por Adam Palsson, um jovem ator carismático e com cara angelical como convém ao papel ( só poderia sussurrar menos, nova mania de muitos intérpretes...).

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PRIME VÍDEO

Um estranho no ninho – direção: Milos Forman – 1976

A Prime dá chance para quem nunca viu ou quiser rever esse arrasa-quarteirão que levou Oscars de Melhor, Melhor Ator (Jack Nicholson) e Melhor Atriz (Louise Fletcher), Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Nicholson é o maluco beleza que acaba num manicômio após se fingir de louco, achando que lá a vida seria mais fácil que na prisão. Grande engano! Ele vê o sistema cruel a que são submetidos os internos e acaba liderando uma rebelião.

 

Tinha que ser você –direção: Joel Hopkins – 2009

Com o título original de Last chance Harvey, essa é uma rara comédia romântica com um casal maduro. Para interpretá-los, dois astros de primeira grandeza: Emma Thompson e Dustin Hoffmann. Ele é Harvey, um compositor de jingles, mal na carreira e na vida pessoal, que viaja para o casamento da filha em Londres. Lá, descobre que a moça será levada ao altar pelo marido da ex-esposa dele. Quando está afogando as mágoas no bar do aeroporto conhece Emma, uma pesquisadora que também não está muito satisfeita com a vida que leva. Esta é a segunda chance dele...Um filme delicado, bom de ver!

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TELECINE/NOW

Três verões – direção: Sandra Kogut – 2020

Estou curiosa para assistir esse filme brasileiro, dirigido pela Sandra Kogut, comentarista do Estúdio i , da Globonews.

Regina Casé vive Madalena, a empregada de um casal rico que sempre recebe os amigos na mansão da praia nas festas de final de ano. É ela quem faz tudo. Madalena sonha em comprar um terreno para construir uma casinha. O patrão empresta o dinheiro, mas a empregada se verá envolvida em outros negócios.

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HBO

The thirdy Day – minissérie

Por enquanto há apenas 3 episódios disponíveis no Now/Net, então ainda estou tentando entender para que lado vai essa minissérie de supense/terror. Mas, a presença de Jude Law já é garantia de bons momentos. Ele interpreta um homem amargurado pela morte trágica do filho que vai parar numa estranha ilha, onde a regra é manter tradições centenárias. O local foi "povoado" por criminosos trazidos pelo fundador da comunidade. Lá, nem o personagem de Law, nem o público, sabe bem o que é sonho, alucinação ou realidade.

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E OS KIKITOS FORAM PARA ...

Este ano, por motivos óbvios, o Festival de Cinema de Gramado foi todo online. O público teve chance de assistir os concorrentes no Canal Brasil. Talvez por ser online, sem grandes estrelas presentes ao Palácio dos Festivais, na bela cidade da serra gaúcha, o Festival teve pouca cobertura e repercussão.  Deixo aqui alguns dos ganhadores.

Melhor filme nacional: King Kong em Asunción, de Camilo Cavalcante (mais um pernambucano bom de cinema!).

Sinopse: Um velho matador de aluguel está escondido no interior da Bolívia, na região desértica do Salar de Uyuni. Acabou de cometer o seu último assassinato. Após três meses isolado, ele viaja para o interior do Paraguay onde recebe uma boa recompensa e logo segue para Asunción, com o objetivo de realizar a sua despedida antes de parar de matar e se aposentar definitivamente. Mas, no fundo, o verdadeiro motivo da sua ida para a capital paraguaia é conhecer a sua única filha, a qual nunca viu. Nesta jornada em busca do paradeiro dela, que já é uma mulher de 38 anos, ele reflete sobre a sua vida e o que restou dela após passar tantos anos se escondendo e matando gente num fluxo contínuo.

Esta viagem por dentro de si mesmo, acaba despertando instintos primários no velho matador, que explode em fúria e desespero pelas ruas da cidade buscando afeto, como o King Kong aturdido em New York.

Melhor filme Estrangeiro: La Frontera, de David David, da Colômbia

La Frontera acompanha uma jovem indígena que, em meio a uma crise de fronteira entre Colômbia e Venezuela, vive sua vida roubando viajantes em trilhas com seu marido e seu irmão. No entanto, o destino a faz olhar por outra perspectiva de sua ilusão e se perder em sonhos misteriosos. (sinopse: Adoro Cinema)

Prêmio especial do Júri e Melhor filme pelo Júri Popular: El gran viaje al país pequeño

Tive chance de assistir esse documentário sobre um assunto que me toca muito, o drama dos refugiados. Nesse caso, são sírios que deixam o refúgio no Líbano para viver no Uruguai. Incentivados pelo governo José Mujica, eles chegam a Montevideo esperando encontrar uma vida muito melhor do que a realidade que encontram no país. Alguns se arrependem da mudança, outros vão se adaptando aos poucos ao dia e dia de uma cultura muito diferente da deles.

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(...)Ei, quero-quero /Oi, tico-tico Anum, pardal, chapim/ Xô, cotovia Xô, ave-fria/ Xô, pescador-martim /Some, rolinha /Anda, andorinha Te esconde, bem-te-vi /Voa, bicudo /Voa, sanhaço /Vai, juriti /Bico calado /Muito cuidado /Que o homem vem aí /O homem vem aí /O homem vem aí. ( Passaredo- Chico Buarque)

THE END

(*) Fotos reprodução/divulgação

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

Jornalista, cinéfila desde criancinha e maníaca por séries de TV desde "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, pois não consegue deixar o coração de lado na hora de avaliar um filme. Adora falar e escrever sobre o assunto e tenta chamar a atenção para as grandes obras cinematográficas que as novas gerações desconhecem. Concorda com o mestre Federico Fellini quando ele disse que "o cinema é um modo divino de contar a vida".

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