Janeiro 18, 2020

Os 100 anos do mestre Federico Fellini

Os 100 anos do mestre Federico Fellini

É quase impossível para qualquer cinéfilo escolher apenas um diretor, um ator, uma atriz... As listas tipo "meus 10 mais" sempre me angustiaram, mas de uma coisa não arredo pé: se me dissessem para escolher apenas UM filme para manter na lembrança, este seria AMARCORD, do meu amado Federico Fellini. O diretor, nascido em Rímini, Itália, faria 100 anos no dia 20 de janeiro.  Nada mais justo que homenageá-lo.

O mestre italiano tinha uma visão única e tão marcante que ganhou até um adjetivo: felliniano. Não por acaso, ele influenciou vários diretores que vieram depois, como Martin Scorsese que admitiu assistir a Oito e Meio, obra-prima de Fellini, uma vez por ano.

Apesar de nem sempre a crítica aceitar ou entender o mundo onírico e poético de Fellini, ele recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro quatro vezes, mais um especial, quantidade só igualada por seu conterrâneo, Vittorio de Sica. Gostava de trabalhar com as mesmas pessoas como Marcello Mastroiani, seu alter ego, com a atriz Giulietta Masina, com quem foi casado a vida inteira,  e com o genial maestro Nino Rota, responsável pelas trilhas sonoras de seus filmes.

Fellini morreu em 1993, aos 73 anos, deixando Giulietta aos prantos (ela morreu 5 meses depois) e 30 filmes inesquecíveis. Selecionei alguns deles, facilmente encontráveis no YouTube e sistemas de streaming.

Como no título do meu filme favorito na vida, Amarcord, sim, eu me recordo e recordarei sempre dos momentos maravilhosos que passei no cinema assistindo Fellini. Grazie, maestro!

 

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NOITES DE CABÍRIA – 1957

A Cabíria do título é uma jovem prostituta, ingênua e cheia de esperança. Vivendo a pobreza de uma Itália pós-guerra, ela se orgulha de ter um lugar seu para morar e nunca perde o otimismo. E,a come o pão que o diabo amassou com um namorado vigarista e quase morre, mas não desiste. Essa figura tragicômica é interpretada por Giulietta Masina, mulher de Fellini. Ela acabou ganhando, merecidamente ,o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes e o filme foi eleito o Melhor em língua estrangeira no Oscar de 1958. É lindo demais!

 

A DOCE VIDA – 1960

O 7° filme de Fellini é também um dos mais conhecidos. Marcello Mastroiani – considerado o alter ego do diretor – interpreta um jornalista de celebridades que quer se tornar um escritor sério. Sua vida é entre festas e gente fútil, o lhe causa tédio muitas vezes, mas ele não consegue fugir desse ambiente. Presença constante no filme são os fotógrafos em busca de clics rendosos e foi o próprio Fellini quem criou a expressão que hoje todos usamos para definir esses profissionais: paparazzi. Essa visão da sociedade italiana quando ainda não existiam as redes sociais de hoje, pródigas em fotos de gente fingindo uma alegria constante, é uma espécie de premonição de Fellini. Uma das cenas mais icônicas da história do Cinema é de La Dolce Vita: o banho da sueca Anita Ekberg na Fontana de Trevi, sob o olhar extasiado de Mastroianni. O filme levou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.

 

OITO E MEIO – 1963

De novo Marcello Mastroianni, de novo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro! A trama: prestes a rodar sua próxima obra, o cineasta Guido Anselmi (Mastroianni) ainda não tem ideia de como será o filme. Mergulhado em uma crise existencial e pressionado pelo produtor, pela mulher, pela amante e pelos amigos, ele se interna em uma estação de águas e passa a misturar o passado com o presente, ficção com realidade. Oito e Meio se tornou uma das obras mais cultuadas do mestre italiano.

 

JULIETA DOS ESPÍRITOS – 1965

Fellini volta a dirigir novamente sua mulher, Giulietta Masina, nesta história de uma burguesa que vive tranquilamente até desconfiar que o marido está sendo infiel. A partir daí, entre o que ela vê- ou pensa que vê – vai se transformando em uma mulher mais emancipada e interessante. Esta foi a primeira vez que Fellini filmou em cores, deixando o p&b tão apreciado dos seus trabalhos anteriores. Julieta não foi tão bem recebido pela crítica, mas mesmo assim faturou o Globo de Ouro. Pode não ser o melhor do mestre, mas está longe de ser um filme ruim.

 

 

AMARCORD – 1973

Chegamos ao meu filme do coração! Pode não ser o mais cultuado de Fellini, mas para mim está tudo ali nas memórias do diretor ... humor, lirismo, emoção, paixão, vida. O ideal é vê-lo no cinema, o que fiz três vezes em épocas diferentes (e não sou destas que gostam de rever os favoritos...), mas não sendo possível que seja na telinha mesmo. Ambientado numa pequena cidadezinha (Rímini?) , Amarcord faz uma crítica à cultura italiana, à influência da igreja nas questões sexuais e comportamentais, sempre com humor ácido e a exuberância de imagens fellinianas típicas. A trilha sonora do companheiro de sempre, Nino Rota, é simplesmente espetacular. Imagem e música como irmãs siamesas, se me permitem a metáfora. Daria para separar cenas e cenas e , por si só, elas já valeriam a pena. Mas, recomendo a cena da passagem do transatlântico Rex pela cidadezinha, onde o cego pede que  a descrevam para ele...

 

Outros: A Estrada da vida, Satirycon, Os boas vidas, E la nave va, Roma, Casanova, Ensaio de Orquestra...

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SOBRE FELLINI

Fellini: Eu sou um grande mentiroso – Documentário – Damian Pettigrew – 2002

Depoimentos de atores que trabalharam com Fellini, como Donald Shuterland (Casanova) e Roberto Begnini, mais o próprio Fellini falando sobre o papel do cinema, servem para analisar vida e obra do diretor. Tudo costurado com trechos dos filmes de Fellini. Há também o livro com as entrevistas.

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Que estranho chamar-se Federico – Scola conta Fellini – Ettore Scola – 2014

Um grande diretor homenageando outro grande diretor! É isso que Ettore Scola faz de forma apaixonada ao seu amigo Federico. Que Estranho Chamar-se Federico retrata a vida e a obra do mestre, com imagens de arquivo e uma retrospectiva desde a estreia do cineasta em 1939, como jovem designer, até seu quinto Oscar em 1993.  

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Em busca de Fellini

O diretor sul-africano Taron Lexton decidiu que o tema de seu primeiro longa-metragem seria uma homenagem a Fellini.  O filme não fez sucesso junto à crítica, mas pode entrar na categoria "fofo". A trama mostra uma jovem americana superprotegida a vida toda que vai a uma mostra de Fellini, nos anos 70, e se apaixona pela obra do italiano. Incentivada pela mãe, ela parte para a Itália para tentar encontrar o cineasta. Claro que a ideia é que encontre também a si mesma .

Escrita por Nancy Cartwright , a história se baseia na experiência que ela viveu em 1985. Pode não ser uma obra-prima, mas não tem como fãs de Fellini não curtirem a trama repleta de personagens, locações e referências estéticas aos clássicos do diretor, como "Noites de Cabíria", "A Doce Vida" e "8 ½". De quebra, ainda tem as belíssimas paisagens italianas.

Em busca de Fellini foi o vencedor dos prêmios de Melhor Filme, Diretor e Atriz (Ksenia Solo) do italiano Festival de Ferrara-2017.

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 FILOSOFIA FELLINIANA

"Eu sou um mentiroso, mas sou sincero.  Me criticam por
 não contar a mesma história sempre da mesma maneira"

 

"Eu não posso ser outra pessoa. Se há algo que eu sei, é isso"

 

"Uma coisa criada nunca é inventada e nunca é verdadeira:  é sempre e sempre ela mesma"

 

"Sou cercado pela escuridão e pela luz, a escuridão acima e a luz em volta, e depois há uma série de sombras que se movem em volta e tenho arrumá-las. Então eu vou querer que minha vida seja lembrada através dessa imagem" 

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AGENDA

Enquanto o Oscar não chega... (pra gente torcer por Democracia em Vertigem, documentário brasileiro selecionado para disputar a estatueta ) tem muita premiação acontecendo. A próxima é:

PGA – Producers Guild of America Awards – 18/01 – Califórnia, EUA

Esta premiação é super importante porque costuma ser o termômetro mais exato para a categoria de Melhor Filme do Oscar. O Sindicato dos Produtores premia os melhores do cinema e da televisão. Dá uma olhada nos selecionados em duas categorias.

Melhor Filme

  • 1917
  • Ford vs. Ferrari
  • O Irlandês (disponível na Netflix)
  • Jojo Rabbit
  • Coringa (disponível no Now/Net)
  • Entre Facas e Segredos
  • Adoráveis Mulheres
  • História de um Casamento ( disponível na Netflix)
  • Era Uma Vez em... Hollywood ( disponível no Now/Net)
  • Parasita

 

Melhor Série de Drama - disponíveis

  • Big Little Lies (HBO)
  • The Crown (Netflix)
  • Game of Thrones (HBO)
  • Succession (HBO)
  • Watchmen (HBO)

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THE END

 

Fotos: Reprodução/Divulgação

Créditos do vídeo: Nelson Doroso/YouTube

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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