Março 01, 2019

Os homens maus da publicidade

Os homens maus da publicidade

O tema desta edição é uma espécie de remissão pelo esquecimento imperdoável cometido na coluna anterior sobre minhas séries favoritas. Depois de Os Sopranos ( a n° 1 como vocês  estão carecas de saber), minha série predileta é Mad Men. Quando o meu amigo jornalista e cineseriéfilo, Ricardo Von Dorff, citou-a entre suas preferidas levei as mãos à cabeça! Como pude esquecer dessa produção genial que mostra o ambiente das agências de publicidade em Nova York, nos anos 60, onde os "homens maus" criam campanhas revolucionárias, fumam muito, transam muito e bebem mais ainda, além de cometerem toda sorte de incorreções políticas ? Oh, como pude??!! Talvez a certidão de nascimento explique um pouco... ;-)

Assim, meio por vias tortas, vamos falar sobre a série e filmes onde a publicidade e os publicitários são os protagonistas.

Gostou, não gostou, faltou ? Escreva nos comentários do rodapé da coluna ou pelo e-mail: cineseries@portalmakingof.com.br

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MAD MEN – 7 temporadas – 92 episódios de 1 h – 2007/2015

Para muitos críticos Mad Men é a melhor série já feita para televisão. O pedigree é poderoso: ela tem o mesmo produtor e roteirista de "Família Soprano", Matthew Weiner. Sai a máfia e suas contravenções e entram os publicitários e a venda do sonho americano.

 A autenticidade histórica, cenografia, figurinos e até a abertura com os créditos nos faz viajar no tempo e cair direto nos anos 60. O roteiro é um primor, pois coloca fatos importantes como pano de fundo e faz conexão com a trama de cada episódio. Desde o assassinato de John Kennedy, a chegada do homem à lua, as mortes de Marilyn Monroe e de Martin Luther King, a guerra do Vietnã etc...o mundo está claramente em transformação. E como as técnicas de propaganda e marketing podem acompanhar esse turbilhão? Quem tem criatividade para captar a "voz rouca das ruas" e usar isso para vender mais ? O nome dele é Draper,  Don Draper. Ou talvez esse nem seja seu nome verdadeiro, pois Don é um homem cheio de segredos. Mas vá lá que você ainda não tenha visto a série, tentarei evitar o spoiler, tá ok?

O lema de Mad Men é "não importa quem você é ou o que quer, mas sim como você se vende". Isso Don Draper sabe fazer muito bem e acaba contratado pela grande agência de publicidade Sterling Cooper. No escritório todos sofrem intensamente com a pressão, a arrogância dos clientes e com isso a competição entre funcionários só aumenta. Está presente também o menosprezo pelo trabalho das mulheres - circunscritas a cargos de secretária- e a contratação quase obrigatória da primeira pessoa negra a trabalhar para a Sterling Cooper. O resultado é o estresse, regado a muita bebida sempre presente nas salas dos executivos, envoltos em nuvens de fumaça dos cigarros. Aliás, um dos grandes clientes da agência é a Lucky Strike, que elevou a venda de seu cigarro na vida real durante a exibição da série. Graças a MM, foram consumidos mais dez milhões de cigarros da marca. Não por acaso, o personagem de Don Draper é um pouco baseado em Draper Daniels, lendário publicitário americano que inventou o Marlboro Man/Homem de Malboro. Na série, é bom que se diga, os atores fumaram cigarros sem tabaco e sem nicotina.

Nesse ambiente é quase impossível alguém ter uma vida pessoal harmoniosa, a começar por Don Draper, que é a alma da série. Casado com uma linda e elegante loira, pai de um menino e de uma menina pré-adolescente, Draper está longe de ser o quadro da felicidade. Sabemos logo que algo o corrói por dentro. Seus chefes e colegas também não são modelos de alegria e serenidade. Isso faz da agência um eterno caldeirão de ambições, competição e puxadas de tapete. Quando a secretária Peggy Olson, interpretada pela ótima Elizabeth Moss ( agora arrasando em Handmaids Tale), anuncia que quer mais espaço na empresa, Draper a incentiva, mas a luta para se impor aos homens da área de criação é árdua. Cada qual se vira do jeito que dá, atropelando ética e lealdade. Ninguém é anjo ali.

A cada nova temporada a gente ficava se perguntando: vão conseguir manter o mesmo nível da anterior? Sim, tão criativos quanto o próprio Don Draper, os roteiristas deram conta do recado. Quanto ao episódio final, o desfecho de tudo...bem, a gente nunca fica satisfeito. Foi assim com Os Sopranos.

Para encerrar, precisamos falar de Jon Hamm. Não existe no meio artístico ninguém que pudesse ser mais Don Draper que esse ator, até então pouco conhecido. Bonitão, arrogante, olhar soturno e cara de infeliz. Depois de sete esplêndidas temporadas vivendo o mesmo personagem fica difícil se despir dele, mas Hamm já fez vários filmes e estará em Top Gun-Maverick, a sequência do grande sucesso com Tom Cruise, ainda este ano.

Para fazer justiça: o elenco TODO de Mad Men é ótimo. De John Slattery como Roger Sterling, chefe e amigo de Don, a Christina Hendricks, como Joan, o estereótipo da secretária sexy, tudo funciona à perfeição.

Mad Men fez tanto sucesso que abocanhou 16 prêmios Emmy e cinco Globos de Ouro. Por essas coisas todas, cinco anos depois do final da série ainda sentimos saudades daqueles homens maus.

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OS FILMES

Me empolguei tanto que o texto de Mad Men ficou demasiado longo! Então, a lista de filmes será bem enxuta, tá ok?

Como fazer carreira na publicidade – Bruce Robinson - Reino Unido – 1989

Dennis Dimbleby Bagley é um brilhante executivo de publicidade que enfrenta um sério problema: não consegue chegar a um slogan para vender um novo e revolucionário creme contra espinhas. Sua tensão pelo trabalho atrapalha seu relacionamento com sua esposa, seus amigos e seu chefe, e com seu próprio corpo, já que uma estranha bolha aparece em seu ombro. Mas quando a bolha cresce e cria olhos e uma boca, ele acredita que ficou totalmente louco. (Sinopse:Adoro Cinema). Richard E.Grant, ator britânico indicado a melhor coadjuvante no Oscar deste ano, vive o infeliz publicitário.

 

Crazy People – Tony Bill – USA – 1990

O publicitário Emory Leeson (Dudley Moore) é abandonado pela esposa e , meio surtado, cria uma campanha publicitária para falar integralmente a verdade sobre cada produto. Seu chefe não gosta da ideia e o obriga a se internar para tratamento psiquiátrico. Publicada por engano, a campanha da verdade, faz o maior sucesso e ele é chamado de volta à agência. Acontece que Emory se apaixonou por uma das internas (Daryl Hanna) e não quer deixar a instituição. Seus companheiros de clínica o ajudam a criar outras campanhas baseadas na verdade, enquanto seu ex-chefe se apropria do sucesso dele.

 

O comerciante -  Lars Kraum – Alemanha – 2001

Esta comédia mostra a tentativa de se manter a integridade no mundo da publicidade e da propaganda. Viktor Vogel (Alexander Scheer) tem uma ótima oportunidade na carreira ao ser convidado para realizar uma grande campanha, trabalhando numa poderosa agência de propaganda como associado do experiente dono, Eddie Kaminsky . A maré de sorte de Viktor continua quando conhece em um bar a sexy e talentosa artista Rosa. Envolvido, ele resolve ajudá-la criando uma grande ideia para o lançamento de sua exposição. Mas, sob pressão, Viktor acaba propondo a mesma ideia para sua primeira campanha publicitária na agência. Ele terá que decidir o que é mais importante: sua vontade de ter sucesso ou o amor pela namorada.

 

Do que as mulheres gostam – Nancy Meyers  - USA – 2001

Esta comédia com Mel Gibson fez muito sucesso na época do lançamento. É divertido ver como um homem se sente repetindo práticas do universo feminino, como depilar as pernas e vestir meia calça. Gibson vive o publicitário charmoso e machista, Nick Marshall, que não aceita muito bem ser chefiado por uma mulher ( a carismática Helen Hunt). Ele então começa a experimentar produtos femininos para criar uma campanha bombástica. Acaba sofrendo um acidente durante uma dessas experiências e adquire o dom de ler a mente das mulheres. Um dos momentos mais aterrorizantes para ele é ler os pensamentos de uma namorada durante o sexo. Aos poucos, Nick vai mudando sua maneira de ver as mulheres.

 

No – Pablo Larraín - Chile – 2012

Já falamos algumas vezes de No aqui na coluna. Nele, o mexicano Gael Garcia Bernal interpreta Rene, o talentoso publicitário que produz a campanha do "não", no plebiscito de 1988, que definiria se o ditador Augusto Pinochet permaneceria na presidência. O personagem é filho de um exilado que volta ao Chile sem conhecer seu país de origem. Depois de 15 anos de um regime sanguinário ( entre mortos, torturados, desaparecidos e presos foram mais de 40 mil vítimas) era hora de tentar mudar as coisas. Mesmo sem muitas esperanças, a oposição se lança na campanha do não!

A estratégia de Rene não explorar apenas os horrores da ditadura Pinochet e sim mostrar a alegria que seria conquistada se o ditador fosse retirado do poder. Sua campanha está repleta de pessoas felizes, com jingle contagiante e "pra cima". O que o filme mostra é fiel ao que se passou no país em 1988. O slogan "Chile, la Alegria ya viene" ("Chile, a alegria está vindo") e o comercial televisivo mostrado no filme é colorido e otimista. No início, a proposta de Rene é rejeitada por muitos por acharem que não dava para juntar ditadura e alegria. Mas, como se sabe, o "não" venceu e finalmente a ditadura de Pinochet chegou ao fim.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

Thank you for smoking/Obrigado por Fumar

O livro que deu origem ao filme foi escrito em 1994, por Christopher Buckley. Ele é autor de outros livros sobre política, sempre no mesmo tom satírico de Thank you for smoking, mas até onde sei, não traduzidos para o português.

Obrigado por Fumar é um filme que trabalha com uma das indústrias que mais gerou vendas através da publicidade e do marketing. O filme acompanha os bastidores da indústria dos cigarros pelo ponto de vista de um lobista, Nick Naylor (Aaron Eckhart), que é o porta-voz das grandes empresas de cigarro. Nick ganha a vida defendendo os direitos do fumantes nos Estados Unidos, fazendo de tudo para evitar que uma imagem negativa recaia sobre o cigarro.O filme trabalha diversas questões interessantes como o uso de cigarros em filmes de Hollywood, vendendo a imagem que os mocinhos fumam.Algumas das melhores cenas estão nos diálogos entre Nick e seus amigos lobistas, um representando a indústria armamentista e outra a indústria do álcool. Mostrando o poder que uma boa publicidade tem para passar uma imagem positiva para um produto.(sinopse/ Rock Content/Medium). A direção é de Jaison Reitman, a produção de 2006.

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Sobre a edição anterior dos 20 anos de Os Sopranos & outras séries

*Hahaha, então vc tem inveja de mim e eu nem sabia! Mas assim que possível vou assistir "Os Sopranos", entre outras mencionadas na coluna. Eu estava em dúvida sobre a boneca russa, mas decidi assistir (quando der).
Abraços! ( Juliana Bergmann)

Mas prepare-se, Juliana. O mundo de Tony Soprano não é nada bonito. Envolve extorsão, prostituição e às vezes há cenas muito violentas. A parte, digamos, freudiana é ótima. A mãe Soprano é um dos personagens mais...hã...sem spoiler.

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*Mais uma coluna incrível. Quanta informação! E com muito estilo. Eu teria Mad Men, Breaking Bad e Better Call Saul na lista. Mas aí seria a minha lista... Sou eternamente grato à colunista e querida amiga por ter me apresentado "Os Sopranos", série seminal e obra-prima superlativa. (Ricardo Von Dorff)

Ricardo, estou me redimindo nesta edição por ter deixado Mad Men de fora (Breaking Bad, ao menos, foi citada). Esquecimento imperdoável...Escrevendo sobre a série, deu saudades daqueles personagens todos, com suas angústias e maldades. Volta, Don Draper!!

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Achei o portal muito bom, tanto que me deu vontade de assistir a Família Soprano. Adoro filmes e principalmente séries. Mas o tema de algumas não me atraem e foi o caso do Soprano. Porém, você escreveu com tanta paixão que me interessei. (Maria Gobbi)

É bem assim, Maria. Também " implico" com certos temas. Caso você assista Os Sopranos, volte aqui para dizer o que achou. Se não gostar, pode pedir "seu dinheiro de volta".

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Se formos falar sobre séries longas, mas apaixonantes, não tem como não citar Wallander. (Márcia Quartiero)

Wallander não é muito conhecida. Mas uma boa série de investigação com o excelente ator britânico, Kenneth Branagh, merece uma chance. Eu também gostei.

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A(s) CARA(s) DO CINEMA

Nesta edição são aS caraS de cinema: Rock Hudson e Doris Day fizeram muitos filmes juntos. Um deles é Volta, meu amor, de 1961, onde eles interpretam uma dupla de publicitários de agências concorrentes. Carol se irrita com as técnicas condenáveis de Jerry para atrair clientes, usando bebida e mulheres bonitas e o denuncia ao Conselho de Ética. A partir daí começa um sucessão de trapalhadas que envolvem até um produto falso e quando os dois se encontram pessoalmente, Carol não sabe que ele é o seu inimigo ( o que só era possível antes da existência do Google...hahaha). Jerry se aproveita disso para conquistá-la e tirá-la do caminho, mas...não esqueçamos que é uma comédia romântica tradicional de Hudson e Doris.

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EM TEMPO

Como a coluna sai às terças-feiras vocês já sabem desde domingo o resultado do Oscar/2019. Mas já que fiz um bolão (bolinho) na última edição, vamos aos comentários:

Acertei:

Melhor filme: Green Book , embora um filme muito simpático com ótimos atores, não merecia.

Melhor ator : Rami Malek ( mas trapaceei um pouco porque coloquei OU Christian Bale, de Vice)

Melhor ator coadjuvante : Mahershala Ali, de Green Book. Essa era barbada porque ele ganhou todos os prêmios, de Globo de Ouro ao Bafta. Mas é um daqueles casos que dá para discutir se é mesmo um papel coadjuvante ou de protagonista. Seja como for, Ali é ótimo.

Melhor diretor : Alfonso Cuarón ( na coluna de 23/01) escrevi sobre a invasão dos diretores mexicanos no cinema, para tristeza de Donald Trump. O mexicano Guillermo Del Toro entregou o Oscar para o outro amigo do México. Lindo de ver!)

Melhor filme em língua estrangeira : Roma, de Alfonso Cuarón, com a novidade de ser produção da Netflix. Pena para o libanês Cafarnaum, de Nadine Labaki, que disputou na mesma categoria, pois é um filme importante que chama a atenção para a situação do Líbano e das crianças arrastadas pela miséria de alguns países.

 

Errei:

Melhor atriz: Olívia Colman por "A Favorita" tirou o Oscar que parecia certo para Glenn Close em A Esposa. É a sétima indicação para Glenn que nunca ganhou um Oscar apesar de ser uma atriz extraordinária. Se foi para perder para alguém ainda bem que foi para Olívia que está maravilhosa como a rainha do filme. Mesmo assim, fiquei com peninha de Glenn Close que vestiu uma roupa inteiramente dourada que pesava 19 kgs !!! Tem que ser muito boa atriz que não mandar um " fuck you" na hora da revelação.

O que rolou

No mais, uma cerimônia sem apresentador, chata, um cenário brega. Bons momentos: Adam Lambert abrindo a cerimônia cantando com o Queen, Lady Gaga cantando Shallow ( a canção vencedora) com Bradley Cooper, o discurso emocionante de Regina King (melhor atriz coadjuvante).

Momentos uau! : Rami Malek caindo do palco no espaço da platéia logo após receber o prêmio e o modelito ousado de Billy Porter ( da série Pose) no tapete vermelho, ofuscando até a Lady Gaga !!

Ano que vem tem mais. A gente reclama, mas assiste.

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TE METE, LADY GAGA !

 

 (*)Fotos coluna-Reprodução/divulgação

THE END

 

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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