Maio 24, 2019

Oui, tem cinéma brésilien no Festival de Cannes!

Oui, tem cinéma brésilien no Festival de Cannes!
Leonardo Villar em O Pagador de Promessas

Se o Oscar é o prêmio mais badalado do mundo, o Festival de Cinema de Cannes é o mais  respeitado. Desde 1946, ganhar a Palma de Ouro é um selo de qualidade para filmes em qualquer  idioma do mundo inteiro. O cinema brasileiro já esteve representado no festival várias vezes, desde sua criação em 1946. Ganhamos em 1962, com O pagador de promessas. Antes, em 1959, o vencedor foi Orfeu Negro, baseado na peça de Vinicius de Moraes, Orfeu do Carnaval. Apesar dos atores serem brasileiros, a direção do francês Marcel Camus e a produção França-Itália-Brasil, tornam o filme majoritariamente francês.

Neste ano, o Brasil está presente novamente na categoria principal com Bacurau, de Kleber Mendonça. O Traidor, também na disputa pela Palma de Ouro, é uma co-produção Itália-Brasil-Alemanha e França, com direção do italiano Marco Bellocchio. Outras três produções brasileiras estão nas mostras paralelas:  A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (na mostra Um Certo Olhar); Sem Seu Sangue (na Quinzena dos Realizadores) e Indianara (na ACID). 

Bacurau conta a história dos moradores de um povoado, localizado no sertão brasileiro, que descobrem não constar mais de qualquer mapa, depois da morte da matriarca Dona Carmelita, aos 94 anos. Misturando vários gêneros, tudo acontece num futuro " logo ali". Bacurau recebeu sete minutos de aplausos na estreia no Festival de Cannes. No Brasil, o filme entra em cartaz no segundo semestre.

Enquanto torcemos e aguardamos  os resultados no próximo sábado, 25,  vamos lembrar como foi a participação dos brasileiros nas várias categorias deste importante festival.

____________________________________________________________

 

FILMES

O PAGADOR DE PROMESSAS – Anselmo Duarte – 1962 – Palma de Ouro


Anselmo Duarte

A história de Zé do Burro que faz uma promessa para salvar seu jumento, Nicolau, da morte e carrega uma pesada cruz em direção à igreja da cidade, tornou-se o único filme brasileiro a ganhar o prêmio máximo em Cannes. Mesmo 57 anos depois do seu lançamento, O Pagador de Promessas aborda temas atuais, como a intolerância religiosa. Como Zé fez a promessa à Santa Bárbara/Iansã num terreiro de umbanda, ele é impedido de entrar na igreja pelo padre. Filmado em preto e branco, o filme reuniu um elenco talentoso: Leonardo Villar, como Zé do Burro, Gloria Menezes, a esposa de Zé e Dionísio Azevedo interpreta o padre.

No retorno ao Brasil, a equipe premiada com a Palma de Ouro desfilou em carro aberto. Eleita como a 9ª melhor produção nacional de todos os tempos pela Abraccine-Associação Brasileira de Críticos de Cinema, O Pagador de Promessas é baseado numa peça de Dias Gomes. ( Na foto, o diretor Anselmo Duarte, com a Palma de Ouro).

Disponível grátis no YouTube ou no Now/Net

***

 

CIDADE BAIXA – Sérgio Machado – Prêmio da Juventude- 2005

Gosto muito deste filme que tem uma abordagem crua e forte, cuja cenografia nos carrega pra dentro da história na Bahia. Uma das muitas parcerias de dois dos melhores atores do cinema brasileiro, Lázaro Ramos e Wagner Moura e a estreia gloriosa de Alice Braga (foto), que hoje percorre uma carreira internacional.

Cidade Baixa conta a história de Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura), amigos desde a infância. Os dois jovens ganham o sustento fazendo fretes e aplicando pequenos golpes a bordo de um barco. A dinâmica entre os dois amigos é virada de cabeça para baixo quando oferecem carona para Karinna (Alice Braga), uma prostituta que quer arrumar um "gringo" em Salvador. Na cidade grande, os três protagonistas são jogados em uma trama violenta repleta de ciúmes e paixão. (Sinopse:cineclick)

Além de Cannes, onde o drama ganhou o Prêmio da Juventude, venceu no Festival do Rio nas categorias Melhor Filme e Melhor Atriz (Alice Braga). O longa recebeu ainda outros reconhecimentos como a Menção Especial no Festival de Havana.

***

 

TERRA EM TRANSE- Glauber Rocha- Prêmio da Crítica FIPRESCI -1967

O filme do revolucionário Glauber Rocha não é fácil. É uma alegoria política que se passa em lugar fictício, chamado Eldorado, onde corruptos ocupam o poder e, nas palavras do crítico Paulo Martins, "o povo - aquele que é facilmente enganado por palavras de consolo (...) festeja a chegada de um líder salvador, aclamado por nichos cerceadores de liberdades como se esta fosse a resposta para todos os problemas imediatos pelos quais passam: a falta de terra, a falta de emprego, a falta de comida, a falta de dignidade, a ausência de direitos, o excesso de impostos e deveres".

Terra em Transe foi restaurado digitalmente há alguns anos. A montagem foi feita a partir de uma cópia que estava arquivada em Berlim. Os negativos originais foram perdidos num incêndio num laboratório francês há quase 20 anos.

***

 

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS- Marcelo Gomes- Prêmio da Educação Nacional – 2005

Uma trama original em um dos filmes mais interessantes que assisti na última década. A história se passa em 1942, em pleno sertão nordestino. O encontro entre Johann, um alemão fugido da 2ª Guerra Mundial, que dirige um caminhão e vende aspirinas no interior do Brasil e Ranulpho, um sertanejo simples, que após ganhar uma carona acaba trabalhando para o alemão. Eles vão de povoado em povoado, exibindo filmes promocionais sobre o remédio. Era a primeira vez que essas pessoas assistiam um filme na vida. Aliás, isso aconteceu na vida real, quando Cinema, Aspirinas e Urubus foi exibido na cidade de Picote, uma das locações da película. O ator João Miguel concorreu pelo papel com outros 300 candidatos. Escolheram o intérprete certo! Além do Prêmio da Educação em Cannes, o filme de Marcelo Gomes recebeu prêmios em vários festivais.

Disponível no Now/Net

***

 

VIDAS SECAS- Nelson Pereira dos Santos - Prêmio do OCIC/ Prêmio dos Cinemas de Arte – 1963

Baseado no livro de Graciliano Ramos, o filme narra a jornada de uma família de retirantes entre duas grandes secas que tomaram o sertão durante os anos de 1940 e 1942.  Fabiano, Sinhá, os dois filhos e a cachorra Baleia tentam sobreviver à fome e à indiferença humana.

Em abril de 1964, houve um golpe de estado e teve início a primeira fase da ditadura militar. Vidas secas estava sendo exibido no Nordeste, e o governo confiscou as cópias. Contudo, cópias de Vidas secas, Deus e o diabo na terra do sole Ganga Zumba tinham sido enviadas ao Festival de Cannes, onde foram exibidas em maio. (infos :Inst.Moreira Salles). Vidas Secas acabou recebendo o Prêmio dos Cinemas de Arte em Cannes.

Vidas Secas foi eleito o terceiro melhor filme nacional de todos os tempos, segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Ficou atrás apenas de Limite (primeiro lugar) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (segundo colocado).

Disponível online gratuitamente.

***

 

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA – Walter Salles - Prêmio do Júri Ecumênico (Walter Salles) /Prêmio François Chalais (Walter Salles) /Grande Prêmio Técnico (Eric Gautier ) – 2004

Já falei sobre Diários de Motocicleta na coluna mais de uma vez. Acho que o filme do Walter Salles, que já nos deu o belo Central do Brasil, merecia maior reconhecimento. No Festival de Cinema de Cannes, ao menos, ele recebeu três premiações. A história do jovem Che Guevara e seu amigo Alberto Granado, estudantes de medicina que decidem percorrer a América do Sul de moto, encanta pelo roteiro, paisagens e lição de vida. As histórias de vida que vão conhecendo pelo caminho equivalem a uma pós-graduação, algo que a universidade sozinha não dá a quem pretende cuidar da saúde das pessoas. Entre aventuras e desventuras, como a moto que quebra no caminho, os dois estudantes vão descobrindo a enorme disparidade econômica e social dos povos latino-americanos. Sua visão de mundo é outra quando retornam. Diários de Motocicleta é uma produção Brasil- Chile – Argentina- Peru -Reino Unido – Alemanha e França. A canção original Al outro lado del rio, do uruguaio Jorge Drexler, levou o Oscar.

Disponível no YouTube

____________________________________________________________

 

CINEMA NOVO – Erik Rocha -   L'Oeil D'Or – 2016

O documentário que ganhou o Olho de Ouro em Cannes foi dirigido pelo filho de Glauber Rocha, o nome mais importante do movimento Cinema Novo no Brasil.

Um ensaio poético, um olhar aprofundado e um retrato íntimo sobre o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro que colocou o Brasil no mapa do cinema mundial, lançou grandes diretores (como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues) e criou uma estética única, essencial e visceral que mudou a história do cinema e a história do Brasil para sempre.(Adoro Cinema).

____________________________________________________________

 

MELHORES ATRIZES

 

Fernanda Torres – 39ª edição - 1986

Aos 20 anos, ela deixou de ser apenas a "filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres". Mostrou ser uma atriz à altura de ganhar o "Prix d'interprétation féminine" no Festival de Cannes, prêmio concedido à melhor atriz, por sua brilhante atuação no filme "Eu sei que vou te amar", de Arnaldo Jabor. Fernandinha não estava na cerimônia para receber o prêmio que dividiu com a alemã Bárbara Sukowa,  atriz bem mais experiente,  que atuou como Rosa Luxemburgo no longa-metragem homônimo de Margarethe von Trotta.

 

Sandra Corveloni – 61ª edição – 2008

Sandra, até então uma atriz de teatro, ganhou por sua atuação no filme Linha de passe, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. Apesar de ser seu primeiro trabalho no cinema, ela desbancou atrizes como Angelina Jolie, que concorria pelo longa "The exchange", Arta Dobroshi, do elogiado "O silêncio de Lorna", e Catherine Deneuve, que ficou com um prêmio especial pelo conjunto da obra. Sandra não participou da cerimônia de entrega porque estava grávida e acabara de perder o bebê. O prêmio foi recebido pelos dois diretores.

____________________________________________________________

 

ATOR REVELAÇÃO

Rodrigo Santoro - Revelação (2004) - Carandiru

O brasileiro recebeu o prêmio de ator revelação quando o filme Carandiru, dirigido por Hector Babenco, foi exibido no Festival de Cannes. A premiação pelo papel da travesti Lady Di abriu as portas para o cinema internacional. ( Na foto com Gero Camilo)

 

DIRETOR

Nelson Pereira dos Santos - Prêmio FIPRESCI – Vidas Secas e Memórias do Cárcere -1964 e 1984

Recebeu em 1964, o prêmio do Office Catholique de Cinéma (Ocic) pelo filme Vidas Secas. Em 1984,  foi o prêmio de melhor filme da Crítica Internacional do Festival de Cannes por Memórias do Cárcere.

 

Glauber Rocha – O dragão da maldade contra o santo guerreiro  - 1969

Glauber foi o único brasileiro a receber o prêmio de melhor diretor em Cannes. O reconhecimento veio com O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de 1969. No filme, o diretor aborda o drama da miséria no sertão nordestino, retornando ao tema do cangaço e a personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), que consolidou sua carreira como cineasta. A produção chegou a ser censurada pela ditadura militar instaurada no Brasil, na época sob o comando de Emílio Garrastazu Médici, mas foi liberada devido à repercussão internacional e o prestígio em Cannes. (dados:Veja)

O diretor baiano foi premiado em Cannes também em 1967, por Terra em Transe, quando recebeu o Prêmio da Crítica Internacional, realizado pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci). Em 1977, seu curta Di Cavalcanti recebeu o Prêmio Especial do Júri de Melhor Curta-Metragem.

 

ANIMAÇÃO

Meow! – Marcos Magalhães – 1982

O curta de oito minutos Meow! foi a única animação brasileira a ser premiada em Cannes. O filme conta através da figura de um gato a questão da globalização que se iniciava na época. Ele recebeu o Prêmio Especial do Júri de Melhor Curta-Metragem em 1982.

____________________________________________________________

 

FORA DA PAUTA

Adeus, Jon Snow, Sansa, Arya, Daenerys, Cersei, Tyron, Brienne, Drogon...

Depois de oito temporadas, 67 episódios, 38 prêmios Emmy e o recorde de série dramática com maior número de transmissão simultânea no mundo, Game of Thrones chegou ao fim no domingo, deixando viúvos e viúvas no planeta inteiro. Claro que a maioria não gostou do desfecho, aliás detestou a solução encontrada pelos roteiristas para a saga dos 7 reinos. Não vou comentar muito para não dar spoiler, mas – se serve de consolo – a gente NUNCA gosta dos finais das séries favoritas. Quanto mais queridas, mais críticas recebem no final. No fundo, os fãs não ficam felizes em se separar dos personagens que acompanharam durante anos. Não poderia ser diferente com Game of Thrones, a série mais popular da história. A partir de agora, vai ser difícil encontrar uma substituta. Meu temor é que venham muitas histórias "tipo GoT". A ver.

____________________________________________________________

 

Mens@agem para você

Sobre a edição " Crianças Invisíveis":

De: Dilma Beatriz Rocha Juliano

Dos filmes que já assisti afirmo: uma fantástica seleção. Dos demais: obrigada, vou assistir.

C&S : Obrigada, Dilma.

***

De: Suzete

Coluna cheia de dicas boas como sempre! Sobre a música, lembro sempre de um cartum do Quino: Mercedes cantando no palco "a
essa hora exatamente hay un niño en la calle" e a plateia burguesa olha seus relógios.

C&S: Sim, Suzete, Quino genial e sua Mafalda, sempre atual.

____________________________________________________________

Boa sorte, Brasil !

THE END

(*)Fotosdivulgação/reprodução

Tags:
cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
Compartilhe: Compartilhe no FacebookCompartilhe no TwitterCompartilhe no Linkedin

Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

Comentários