Outubro 09, 2019

Por que jogam tantas pedras na imprensa?

Por que jogam tantas pedras na imprensa?

Como se fosse uma Geni, da música antiga de Chico Buarque, a imprensa virou alvo das pedradas de homens engravatadas, de alto escalão, ungido de poderes e até então com acesso ilimitado sobre nossas vidas e nossas coisas. Gilmar Mendes é o mais recente: terno impecável de fino corte, penteado e com demais cuidados de uma maquiadora, foi o centro das atenções do programa Roda Viva, da TV Cultura, de São Paulo, disparando pedras a torto e a direito.

"O lavajismo militante da imprensa criou falsos heróis", falou com os dentes cerrados.

É claro, estava se referindo as informações divulgadas durante a operação Lava Jato, sem as quais não teria ido adiante com tanta rapidez. E nem saberíamos como que o país foi vítima do maior esquema de corrupção da história. O ministro se pegou ao tecnicismo e a alguma vaidade do promotor Deltan Dallagol, obtido também em vazamento, para questionar o meio e ameaçar o fim.

Mendes tem sua disputa pessoal envolvida, pois consta que o escritório de sua mulher, advogada, estaria sendo investigada sem autorização pelo fisco. Sempre que pode ele dá o troco. E de alguma forma sente sua autoridade ameaçada. 

Mas há outros arremessadores de pedras, em especial lá em Brasília. Elas vêm do palácio do Planalto, do Congresso, de endereços fakes da internet (como na campanha eleitoral, lembram?). Não são Davi arremessando pedras contra Golias, mas ao contrário.

Nos casos mais contundentes de divulgação de informações privilegiadas temos a maior democracia envolvida, os Estados Unidos. Foi o caso das gravações de Richard Nixon divulgadas pelo Washington Post a partir de uma fonte anônima chamada Deep Throat (Garganta Profunda) e acabaram levando o presidente à renúncia. Neste momento, 45 anos depois, Donald Trump está às voltas com problema semelhante, a partir do informante whistheblower (que revelou uma conversa telefônica não republicana com o presidente da Ucrânia). Impeachment está na pauta de novo por lá. 

É por isso que há medo dos vazamentos. E por isso as pedradas. O objetivo é constranger quem participa do processo como fonte ou como meio de divulgação. 

Funciona por um bom tempo, até surgir o próximo vazamento de um novo assunto ou, quem sabe, com mais detalhes do antigo. Como na Roda Viva, do compositor, tem gente que não se entrega, afinal "a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar". E assim será. 

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Claiton Selistre

Claiton Selistre

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi diretor de Jornalismo por 25 anos da RBS TV, TVCom e Rádio CBN/Diário em Santa Catarina. Antes atuou na  Rádio e TV Gaucha do grupo RBS e em redações de jornal, rádio e tv do grupo Caldas Jr. em Porto Alegre. Foi também repórter da na Sucursal do Jornal do Brasil. Planejou e Coordenou coberturas multimídia nas Copas do Mundo de Futebol na Alemanha, Argentina, Espanha, México, Itália, Estados Unidos, França e Japão/Coréia. Dirige a Making of há seis anos.

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