Junho 18, 2019

Rendeiro, sim. Por que não?

Rendeiro, sim. Por que não?
Viviane Bevilacqua

Passava em frente ao Armazém das Rendeiras, no Mercado Público de Florianópolis, uma tarde dessas, quando vi um grupo de mulheres parado à porta. Todas fotografavam algo com seus celulares. Fiquei curiosa, claro. A renda de bilro é linda, eu sei, e muita gente fica por ali admirando as rendeiras tramando os fios coloridos sobre as almofadas. Mas parecia haver algo mais aquele dia, pelo burburinho das senhoras que não paravam de tirar fotos, alvoroçadas. Quando elas saíram, fui ver do que se tratava. Para minha admiração – e um pouco de espanto também, confesso – um senhor simpático estava sentado em frente a uma das almofadas e, muito tranquilamente, com uma agulha de crochê na mão, terminava de fazer um arremate numa linda peça de renda.

Com todo o meu conhecimento (zero) no assunto, perguntei:

_ O senhor faz crochê?

Ele levantou os olhos, me encarou, com doçura e firmeza e disse:

_ Crochê não senhora. Faço renda. Renda de bilro, nossa maior tradição que vem desde os imigrantes açorianos.

E aí me explicou que a agulha de crochê é usada apenas para os arremates das peças.

Gostei de ver o orgulho que Ediwaldo Pereira de Oliveira, o Dinho, tem de ser rendeiro. Aliás, o primeiro da Ilha. Quiçá, de toda a região. Homens pescam e tecem rede de pesca. Mas renda, isso sempre foi coisa de mulher. Até aparecer Dinho, para quebrar preconceitos, isso lá nos anos 1970 ou 1980. Depois surgiram outros, mas já trilhando o caminho aberto pelo pioneiro.

Dinho mora no Pântano do Sul, tradicional comunidade de Florianópolis e aprendeu a fazer renda com uma prima. Naquela época, porém, tinha que se esconder para tramar os fios, pois não era coisa de menino e poderia ficar “mal falado”. Mais tarde, decidiu ganhar o mundo, morou no Canadá, teve várias profissões, porém a saudade bateu mais forte e voltou. Sofreu com a danada da depressão, até o dia em que contou ao médico que quando jovem amava a tramoia da renda de bilro, e foi incentivado a voltar a tecer.

Os fios coloridos que formam a renda ajudaram a colorir também a sua vida. E agora, sem medo do que os outros possam pensar ou dizer. Trabalha e expõe no Armazém das Rendeiras, no Mercado Público, e nem se importa com o “das” no nome da loja. Elas, as rendeiras, são maioria na sala. Mas ele é único, e isto é o que faz de Dinho um personagem tão especial.

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Viviane Bevilacqua

Viviane Bevilacqua

Trinta anos de jornalismo diário e predileção por temas ligados ao comportamento humano. Crônicas que falam sobre as relações familiares, educação, saúde e o cotidiano de todos nós, sempre de forma leve e direta, como se fosse um bate-papo entre a jornalista e o leitor.

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