Dezembro 01, 2018

Ruptura do invisível - Sérgio Adriano, o mascate da arte

Ruptura do invisível - Sérgio Adriano, o mascate da arte
Foto Divulgação

Nascido em Joinville (SC) em 1975, Sérgio Adriano H. é artista visual, performer, pesquisador e produtor cultural. Vive e produz entre as cidades de Joinville e São Paulo. 

Formado em artes visuais, mestre em filosofia (Faculdade de São Bento/SP), tem obras em acervos públicos e particulares. Em 2014, em São Paulo, funda a Residência Artística Diva Base 44, com o propósito de acolhimento de artistas de diferentes nacionalidades com o qual quer resinificar o cotidiano e a cidade a partir da arte.

Neste ano integrou mais de 20 exposições individuais, coletivas e salões. O corpo, a palavra, a fotografia e a história são ferramentas discursivas do artista que também incorpora em seus trabalhos o percurso e o diálogo com o público.

Profundamente interessado em colocar as obras artísticas em movimento, o seu modo nômade o aproxima de um mascate que, sem parar, segue por diferentes lugares do Brasil, disponível nas nas escolas, nas praças, nas galerias, nos museus.

O processo de criação se completa, quase sempre, no espaço do encontro das ruas onde, sem afrontas, ativa um vocabulário político, aqui entendido como possibilidade de conversa, reflexão e transformação. A produção situa-se na clave fotografia e performance e arte e engajamento.

Em razão de tudo o que fez, pela singularidade de sua produção, ganha o reconhecimento da Academia Catarinense de Artes e Letras (Acla) no próximo dia 7, no auditório do Tribunal de Contas do Estado, em Florianópolis, quando receberá a medalha Victor Meirelles como Destaque das Artes Visuais 2018.

Nesta entrevista, ele situa parte do seu pensamento de resistência contra o preconceito racial. Sua fala e obra se situam na dor de ser negro no Brasil, onde os quilombos ainda existem, invisíveis.

 

Curioso e com intensa mobilidade pelo Brasil, Sérgio Adriano H. acompanha com atenção o circuito de arte do Estado e do país. Foto Néri Pedroso

 

Como recebe a homenagem da Academia Catarinense de Artes e Letras (Acla) que aponta você como Destaque das Artes Visuais 2018? De que modo um prêmio se reflete na vida de um artista?

Fico honrado com o prêmio, um dos mais importantes do Estado de Santa Catarina. Um homenagem que, tenho certeza, não é somente pra mim mas para as inúmeras pessoas que contribuíram e contribuem nesta minha jornada como meus artistas inspiradores (não posso nem fazer uma lista aqui pra não esquecer de ninguém), professores, mestres, família, amigos, meu amor.  

A caminhada de criar e viver de arte pra valer – verdadeira - no Brasil não é fácil pra ninguém. Imagina para um negro nascido na periferia de Joinville. Esse prêmio fortalece, inspira, e me dá força para criar e acreditar ainda mais no futuro. Não só na minha arte mas na mensagem que ela carrega.

Além disso, possibilita mais visibilidade para despertar novos artistas com arte que faça pensar. Pessoalmente, adoro ver minha arte nas paredes de galerias e das casas das pessoas, mas gosto mais de ver pessoas sendo tocadas por nossas mensagens.

 

Como explicar para um público não especializado a mostra Ruptura do Invisível?

Ruptura do Invisível é uma série de 12 fotografias que são expostas na rua. A montagem é inspirada nos vendedores ambulantes (camelôs) e busca um contato e um diálogo franco e acessível com a população em suas diferentes nuances culturais.

As 12 obras são originárias da série Preto de Alma Branca e Branco de Alma Preta realizada no estúdio em 2013. Em 2017, elas foram submetidas a uma interferência com sabão em pó ou água sanitária - que tem como objetivo levantar/questionar ainda mais o embranquecimento da imagem do negro no Brasil.

Um processo que mistura imagem (a do próprio artista) e crítica social, embasado, em boa parte, na filosofia e, baseado no conceito batizado de “Verdade Apresentada”, crenças e hábitos tão enraizados que se tornam verdadeiros, mas que, quando questionados, não têm base concreta, real.

Tenho como parte do processo e fundamentos da minha arte o desejo de cruzar fronteiras, espaços, expectativas, cores, credos, classes sociais e instituições. Mais do que uma escolha, é o que me move.

 

Trabalho da série Ruptura do Invisível, com o qual conquistou o Prêmio Elisabete Anderle 2017

 

Você fez um ano extraordinário, não só no volume de exposições mas também nesse contato, no diálogo permanente com pessoas em museus, nas ruas e galerias de diferentes cidades do Brasil. O que destaca, o que mais comoveu?

É engraçado.... Um dia ouvi que “arte não tinha nada a ver com minha vida”, hoje não vivo sem arte e vivo da arte. 

Esses últimos anos foram sensacionais! Em 2018 realizei mais de 20 exposições, entre coletivas e individuais, projetos em todo o Brasil, principalmente em São Paulo, Santa Catarina, Brasília, Rio de Janeiro e no Paraná, incluindo a Bienal de Curitiba 2017, a Bienal de Arte de Brasília 2018, a 8ª Bienal de Fotografia Documental da Argentina e a exposição Enigmas da Visão. 

Também já carimbei a participação da exposição itinerante Brasil/Europa em 2020 com curadores da Bienal de Curitiba, o italiano Massimo Scaringella - curador da Bienal de Veneza e Havana e o brasileiro Luiz Carlos Brugnera.

Executei ainda o projeto Ruptura do Invisível premiado pelo Edital Elisabete Anderle de Apoio à Cultura de Santa Catarina e o projeto Visível do Invisível premiado pelo edital de cultura de Joinville, além de ganhar menção do júri no Salão de Arte de Limeira e conquistar o Prêmio de Arte Contemporânea Aliança Francesa.

Um super ano! Todo esse volume de exposições/convites e ações se dá ao fato que acabei criando uma forma muito própria de criar /apresentar/abordar a arte com o espectador.

Uma forma simples mas não simplória. Uma arte densa mas generosa. Uma forma em que os espectadores precisam compreender que a arte está em nossas vidas o todo o tempo - ela foi feita para ser apreciada mas também serve como um gatilho para novos pensamentos e reflexões.

É triste, mas infelizmente, não fomos educados para olhar o mundo, somente para ver. Não fomos educados para ouvir o mundo, somente para escutar. Não fomos educados para formular perguntas, somente para responder.

Tive experiências muito emocionantes com crianças que sofrem bullying nas escolas e comunidades. Tive oportunidade de despertar novos pensamentos que as levaram a descobrir novos conceitos através da arte.

Descobrir que tudo é sempre uma questão de ponto de vista. Descobrir que existe as rotulações - do que é “bonito” ou "feio" - determinadas dentro de cada tempo e cada sociedade, mas que existe acima disso o "belo" que é o encontro consigo mesmo e com sua capacidade de se reconhecer e reconhecer o outro. Um encontro de observação, de descoberta quando praticado o olhar e o ouvir. Um encontro que é libertador!

 

Que experiência é construída entre a sua poética e o contato direto com o público?

Meu processo criativo se alimenta pela observação da vida em sociedade, teórico-vivencial, para isso é importante estar vivenciando nas ruas essas experiências, seja como artista ou cidadão.

O importante é fitar o mundo ao seu redor e observar como diversos fatos afetam a minha vida e a do outro. E mais do que ter meu ponto de vista, preciso entender o das outras pessoas.

Minha arte é realmente um chamado interno, é sobre minha existência, da minha família e de mais de 50% da população brasileira, os negros. Parece que hoje ela se faz ainda mais necessária.

É preciso investigar o passado histórico e anular os apagamentos propositais da construção da cultura negra no Brasil. Estou aqui para provocar novas rupturas, colocar luz aos fatos. Um dos meus trabalhos foi usar a praça Ângelo Piazera, em Jaraguá do Sul (SC), que em outros tempos foi palco da resistência no formato de um quilombo.

Hoje não muito tempo depois, ainda serve de espaço para continuar discutindo a liberdade e existência dos que nasceram com a pele preta. A arte que proponho tem o objetivo ainda maior que resistir. O momento atual é de provocar o pensamento, fomentar perguntas sobre o que achamos que já não existe mais.

O quilombo nunca terminou. O quilombo agora é invisível. Só vê quem sente.

 

O contato e as conversas são fundamentais para o artista que apresenta os trabalhos em escadarias, nas praças, nas ruas, além de museus e galerias

 

Você diz que a arte tem o papel de formular perguntas. Muitos afirmam o mesmo. Não é perigoso formular perguntas de modo incessante sem se preocupar com respostas? As respostas perderam valor no tempo contemporâneo?

Estamos vivendo um período de respostas prontas. Vindo basicamente da internet ou ainda de seus grupos das redes sociais que, por razões óbvias, serão na maioria das vezes opiniões muito próximas da sua. 

O conhecimento vem do estudo constante de várias fontes, pontos de vista e a própria formulação de conceitos próprios das pessoas. Perguntar de forma crítica leva o desenvolvimento do conhecimento, por sua vez, o conhecimento te leva a se tornar uma pessoa livre não só para responder mas, para fazer novas perguntas.

Parte do meu trabalho é desconstruir Verdades Apresentadas. Um exemplo de verdade apresentada pode ser o racismo invisível, o preconceito que leva a morte moral e social de milhões de negros.

Não fomos educados para formuladores de perguntas, fomos educados somente para responder perguntas. Meu trabalho é retirar o outro da passividade e fazer com que esse indivíduo entre em Ação formulando perguntas, se questionando sobre a Arte, racismo, pensamentos, relações, existência e vida em geral.

 

Como artista quais são as suas maiores dificuldades?

A falta de mais editais de arte e uma adequação maior nos já existentes à realidade dos artistas brasileiros. Muitos editais não são muito precisos em prazos, critérios e outros ainda tem períodos de pagamentos relativos ao processo anos depois dos trabalhos entregues.

Não é fácil equilibrar uma cabeça de artista com as dificuldades financeiras de se viver de arte! Falta de bolsas de estudos para intercâmbio em outros países. E, por último, um engajamento maior do setor, unindo museus, galerias, empresas privadas e governos para levar arte de mais gente para mais gente. 

 

E quais são as maiores alegrias?

Minha primeira alegria está em pesquisar, pensar e criar fotos, ações, objetos que possam somar conhecimento com o outro e cuidar das pessoas através da arte! Minha segunda alegria é que estou conseguindo viver da primeira.

 

Sérgio Adriano H. vive entre Joinville e São Paulo. Foto Néri Pedroso

 

Situe a importância dos editais, em especial o Elisabete Anderle?

Os editais são super importantes porque acabam validando artistas amadores e profissionais que têm um trabalho sério de pesquisa, processo e execução. Arte de verdade não é uma inspiração de segundos.... é uma transpiração de anos.

Além disso, os editais cumprem o papel de levar arte de excelente qualidade para grande parte da população sem acesso nem muita informação em suas vidas cotidianas. No meu caso, fico feliz de ter a oportunidade de apresentar nas ruas uma produção que, na maioria das vezes, já fez parte de grandes mostras de arte em museus importantes ou ganharam prêmios.

Não conseguiria fazer isso sem o apoio estratégico, técnico e financeiro desses mecanismos e instituições. Um exemplo é o edital de cultura de Joinville, fui premiado em 2017 para montar uma exposição em uma bicicleta, chamada Bike Galeria. A partir desse projeto fui convidado a participar da Bienal de Curitiba 2017.

Sem o edital não teria recursos para executar e acabaria não sendo convidado para a bienal. Já no Prêmio Edital Elisabete Anderle fui contemplado em duas ocasiões, que permitiram circular por 15 cidades com um projeto sobre racismo e preconceito. De alguma forma, me sinto fazendo uma arte que transforma e é transformada pelas pessoas.

É muito interessante ver a mudança de pensamento/objetivos e relação com a vida que tive nos últimos 16 anos e mais que isso pensar onde esse pensamento vai me levar junto com todo mundo.

Viva a arte viva! A arte que transforma vidas!

 

Bike Galeria, um de seus projetos que apostam em arte bem politizada, seus trabalhos abordam o preconceito racial no Brasil

 

Bate-bola

Uma mania - só trabalho quando organizo o ateliê e minha mesa. Tudo alinhado!

O que mais admira - gente real, com histórias próprias!

O que não suporta - mentira, falsidade, grosseria e gente despreparada atrasando a vida de outros.

Um lugar – Muitas cidades, países, lugares são lindos, gostosos, tudo depende de como você desfruta. Meu lugar preferido é onde estou em paz e curioso!

Palavra – igualdade

Saudade – Diva, minha mãe.

Uma viagem – a vida!

Uma bebida – sou dos vinhos.

Um ídolo - Rosana Paulino (artista visual) | Amaury Veríssimo (técnico de atletismo) e Joaquim Cruz (atleta)

Hobby - olhar o mundo passar,sentado num restaurante com muita vista

Felicidade para você é - continuar aprendendo, continuar criando, manter o interesse nos processos, nas pessoas e nos objetos.

Um sonho - viver um mundo menos egoísta, no qual as pessoas acreditem mais na abundância do que na escassez.

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de legal em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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