Março 10, 2019

Simplesmente Paulinha - nas urnas e no combate a violência contra mulher

Simplesmente Paulinha - nas urnas e no combate a violência contra mulher
Fotos divulgação

Ela é uma mulher de fibra - e de números e casos expressivos. Foi eleita a vereadora mais votada de Bombinhas, e, em seu segundo mandato como prefeita de lá, levou 73% dos votos. Ana Paula da Silva, ou simplemente Paulinha, como se apresenta nas urnas, é mãe de duas filhas, de 18 e 20 anos, articulada, carinhosa e mazezinha, sim, ela nasceu em Florianópolis. A, hoje, Deputada Paulinha, que ficou conhecida em todo Brasil por usar um decote chamativo no dia de sua posse e foi duramente criticada e até xingada ofensivamente por uma parcela da população, abriu o coração e as portas de seu gabinete na Assembleia para falar à coluna sobre seu mandato, empoderamento  e luta.

 

 

Como começou seu envolvimento com a política e com a cidade de Bombinhas?

Eu nasci em Florianópolis, mas logo na minha infância já fomos para Bombinhas, que era cidade da minha mãe, meu pai que era da capital. Bombinhas acabou se tornando minha cidade do coração.

Me envolvi muito cedo na política por conta do movimento estudantil, dos movimentos sociais. Eu sempre fui uma pessoa contestadora. Venho de uma família muito pobre, passamos bastante dificuldade na vida, mas sempre com muita dignidade, talvez por isso tenha sido desde cedo muito posicionada e corajosa.

 

 

No seu segundo mandato como prefeita de Bombinhas você foi eleita com mais de 70% dos votos. A que se deve essa vitória avassaladora?

Eu já tinha sido eleita a vereadora mais votada da cidade. Mas depois me candidatei a prefeita e perdi. Após esse período fui morar em Brasília para ser Diretora Nacional de Qualificação no Ministério do Trabalho a convite do meu partido, e ali eu passei quatro anos.

Quando chegou o pleito eleitoral meus amigos começaram, “o prefeito não foi bom, Palinha, você tem que voltar, tem que se candidatar e tal...”. E eu sou assim, eu caminho como o vento, vou pelo meu coração, não meço consequências. Então eu, embora estivesse muito bem posicionada profissionalmente, larguei tudo em Brasília pra ser candidata a prefeita. Acabei voltando pelo ímpeto de querer estar com a minha gente, estar na minha cidade...

Nesse meio tempo eu conheci o Paulinho, que foi meu vice-prefeito nos dois mandatos,  uma pessoa incrível e que agora esta como prefeito, e ali começamos nossa caminhada. Foi uma eleição difícil, dura, a gente sem grana, cinco candidatos, enfim. Sofremos ainda um processo de impugnação, que a gente só conseguiu se livrar dele dez dias antes da eleição, mas era o nosso momento!

A gente conseguiu transmitir confiança e credibilidade à população e vencemos a eleição com 33% dos votos no primeiro mandato e terminamos o governo com 97% de aprovação. Mas eu nem uso esse número porque as pessoas não acreditam, eu tenho que pegar o presidente do Instituto de Pesquisa e levar junto pra comprovar (risos).

 

 

Eu, particularmente, jamais gostaria de entrar pra política. O que é que te move a continuar nessa caminhada cheia de problemas, desafios, intrigas e escândalos...

Quem não tem problemas nessa vida? Eu tenho um amigo que tem uma funerária, eu sempre digo: amigo como você consegue lidar com gente morta? Na verdade acho que Deus nos coloca sempre na posição onde possamos de algum jeito ajudar, contribuir com a construção de uma sociedade.

Claro, tem muito político oportunista, que chega por causa do dinheiro, por causa da vaidade, mas tem muita gente idealista aqui. Vou te dizer, a gente está tão acostumado a falar dos políticos, que até a gente, que é político, tem preconceito contra político.

Porque estou te falando isso? Eu mesma achava: ai, naquela Assembleia só deve ter um bando de interesseiros. E aqui conheci pessoas de vários mandatos que tem tanta nobreza, com vontade de verdade de ajudar as pessoas, entende.

A política é uma vocação, guria, como tem o Padre, o Pastor, o artista, cada profissão tem seus pós e seus contras e muitas delas você nem consegue imaginar quais são.

 

Em uma de suas entrevistas  você diz que sua prioridade são as pessoas. Hoje, aqui na Assembleia, qual sua meta, quais são os projetos mais importantes pra você?

Francamente? Eu não seu te dizer quais serão os “projetos” mais importantes. Mas sei que o que as pessoas precisam lá fora são vagas de creche, médicos no Posto de Saúde, quando tiverem uma pessoas doente, que tenham um hospital que funcione em seu atendimento. A população precisa de emprego, de estrada, enfim, isso não se resolve com uma pauta, um projeto.

 

Você chegou a comentar sobre o pessoal do governo do Comandante Moisés, que você está pronta para somar forças, porque só assim vocês conseguirão sanar muitos dos problemas do Estado.

A minha estratégia para tentar colaborar com Santa Catarina é prover o diálogo mais fraterno e aberto possível. Estou convencidíssima que não é uma autoridade, ou duas, ou cinco, que vai conseguir mudar o Estado. A gente precisa de mais gente, precisamos construir uma unidade, fortalecer essa nobreza que eu te falei que encontrei em alguns aqui.

 

 

São mais de duas décadas filiada ao mesmo partido. Nunca pensou em mudar?

De coração, não. Eu tenho 28 anos de filiação partidária no PDT, amo meu partido, acredito em nossas pautas ideológicas, mas estou aqui pra te testemunhar, amiga, os partidos estão acabando com esse país!

Infelizmente os partidos são preconceituosos. Se você é de um segmento ideológico e tem alguém, uma figura de outro partido, que faz algo bacana, se você enaltecer essa pessoa, você é criticado, como se você fosse um traidor dos mais desleais.

 

Você também acha que tudo é um jogo de interesse?

É, mas não pode ser. Foi estabelecida uma série de preceitos que podem até ter servido no passado, mas hoje ninguém quer saber de esquerda ou de direita, embora ainda exista fortemente isso. O que eu quero dizer é o seguinte, por exemplo, eu não votei no Bolsonaro, não votei e não votaria, mas o Bolsonaro não se elegeu por ser da direita, ele se elegeu porque o povo está de saco cheio do sistema, está todo mundo cansado, e ele era o cara mais antissistema naquele momento aos olhos da população.

A política não pode ser um jogo de interesse. As pessoas querem encontrar aqui a Paulinha que encontram na farmácia, no mercado, na escola, na rua, na família. Eu não posso vir aqui interpretar um papel, por isso eu sou um pouco independente nesse aspecto.

 

Sobre o escândalo do decote no dia da sua posse... Sei que existe um dress code na Assembleia que é o Traje Passeio Completo, inclusive houve uma emissão de nota da própria Assembleia afirmando que seu traje estava de acordo com a ocasião, como foi isso?

Sim. Eu estava vestida de acordo com uma solenidade, não errei um milímetro. Sabe o que é, meu amor, nós somos cinco mulheres aqui hoje, com a graça de Deus, a bancada recorde em meio aos 40 deputados de Santa Catarina.

Você acha que se fossemos em, no mínimo, 15 mulheres e 25 homens, não teríamos mais nem um decotinho ali? É que nós somos tão poucas no mundo da política que muitas mulheres acabam mudando seu jeito de vestir para se adaptar ao mundo dos homens.

Só que isso aqui não é só dos homens, é nosso também! E eu tenho o direito de me vestir como mulher, como eu quero e como eu acho que devo!

 

 

O que foi mais difícil pra você nesse episódio?

A gente está em um momento de intolerância sem precedentes. As redes sociais estimula a covardia contra a liberdade do outro. E isso na internet reverbera de um jeito muito mais dolorido.

E te digo mais, a maioria das pessoas que me apedrejaram, se consultadas se são machistas, acreditam e afirmam que não. Mas tomaram, sim, uma atitude machista em relação a mim.

Quem conhece minha história, minha vida, sabe que eu sou resiliente. Eu não condeno e nem fico triste com a pessoa que foi ali no facebook e falou, “eu não gostei da roupa da Paula, acho que ela exagerou no decote, foi inapropriado e tal”, as pessoas tem o direito de pensarem diferente de mim.

Mas ninguém tem o direito de promover uma ofensa moral, uma injúria, uma calúnia a um terceiro, apenas por suas escolhas pessoais! Seja sua roupa, seja sua opção sexual, religiosa. Não importa se a pessoa é magra, gorda, negra, não importa! Aquilo que você é, aquilo que está dentro do seu escopo é o que realmente deve ser levado em conta.

À medida que eu me coloco na figura pública, eu tenho que ter couro pra aguentar críticas, mesmo que elas doam, mas ninguém está preparado pra sofrer a violência. Isso ninguém merece.

 

Em uma de suas citações sobre esse episódio, você disse que sofreu demais, que vieram à tona feridas suas que você achava que já estavam curadas.

Cada um tem uma história de vida singular, nós vivemos em uma sociedade muito machista, e na minha história de gênero, como mulher, eu sofri muito preconceito. Até para preservar outras pessoas e outros relacionamentos eu não posso te detalhar. Mas é evidente que quase todas nós em algum momento, passamos por preconceito e extrema dor. E aí quando você se empodera, acha que aquilo não faz mais parte do seu mundo. Você ser atacada depois pela mesma coisa abre feridas novamente.

Por exemplo, quando eu tinha 20 anos de idade e usei uma minissaia e fui chamada de puta, eu quase morri! Quando eu fui candidata à vereadora pela primeira vez, onde me elegi, eu passava mais tempo em casa chorando do que na rua pedindo voto!

Imagina você querer ser de um jeito e não poder por causa de uma outra pessoa que vive com você. Chega num ponto que você nem sabe mais de verdade do que você gosta. E lá no meu íntimo esses sentimento que estavam guardados se despertaram de um jeito muito ruim. Você se sente humilhada, machucada, violentada. Não é agradável pra ninguém.

 

Em que você se apegou para passar por essa fase crítica, que tomou proporção nacional?

No apoio de milhares de pessoas. Eu recebi mensagens de muitas mulheres incríveis e empoderadas. De muitas artistas, juízas, jornalistas, desembargadoras, e de homens também, de todas as profissões. Da própria comunidade da imprensa nacional e até internacional.

E te digo, nunca sofri um processo com a imprensa de forma tão elegante. Eles tiveram o cuidado de, em todos os momentos, me preservar, enquanto figura política, enquanto ser humano, enquanto mulher. Isso foi muito generoso!

Hoje posso afirmar; esse debate de gênero acendeu sobre um outro viés, porque veja só, nosso Estado é o quarto em todo Brasil que mais maltrata e agride suas mulheres. Porque? Porque muitas mulheres também patrocinam esse machismo dentro dos seus lares. Isso ficou descoberto. É só ver também quantas ofensas eu recebi de mulheres catarinenses.

 

Sororidade é uma palavra que deveria estar mais presente em nosso vocabulário e em nossas ações, né? O que você gostaria de dizer a essas mulheres que te rechaçaram?

Em relação a mim, só peço que as pessoas tenham mais um pouquinho de paciência de prestar atenção em meu mandato, para me julgarem pelo fato que eu mereço realmente ser julgada, que é meu desempenho político.

Mas mais que isso, queria que elas tivessem um cuidado de pensar entes de ir pra rede social e usar o seu dedinho nervoso ali e promover uma ofensa, um ódio por uma pessoa que ela nunca viram na vida. Todos nos somos filhos do mesmo Deus, todos vamos terminar nossa vida no mesmo lugar.

 

Você entrou com um processo na justiça, né?

Não estou com ódio de ninguém, só estou processando as pessoas que fizeram isso comigo porque violência não se tolera!

 

E o que dizer às mulheres que continuam aí coagidas por seus decotes, suas minissaias, sua condição de gênero?

Isso vai muito de cada uma, mas acredito que a mulher pra sustentar a minissaia ou o decote da forma que ela quer, ela precisa se descobrir e estar preparada, porque muitas vezes ela vai ser rotulada. Infelizmente esse processo preconceituoso, e até covarde, não vai parar tão cedo. Ela tem que passar por isso com firmeza, cabeça erguida, sem se deixar contaminar com sentimentos ruins, com opiniões alheias. Só posso dizer: se preparem porque a luta é grande e estamos juntas nessa!

 

 

O que você não fica sem: Água! Bebo água o dia todo.

Uma mania: Ficar com o ar condicionado desligado

O que você mais admira: Pessoas generosas. A caridade. Gente fraterna

O que não tolera: Arrogância. Corrupção. Egoísmo

Uma saudade: Meu pai

Um lugar: Bombinhas – Praia de 4 ilhas

A melhor viagem: Israel

Uma palavra: Amor

Uma bebida: No momento, Gin tônica, que aprendi a beber com minha filha mais velha.

Comida: Adoro sushi

Um ídolo: Não sou muito de ídolos, mas acho que posso citar um homem que foi muito importante na minha vida; Leonel Brizola

Uma frase: Também não sou de escolher rótulos, premio muito os sentimentos de liberdade, difícil escolher uma frase porque eu me renovo e me refaço a cada dia.

O que te faz sofrer: Eu me envolvo com muita facilidade com a dor das pessoas. Quero sempre promover impactos que diminuam o que as pessoas sentem por conta da inoperância do poder público.

Um Sonho: Tudo que eu desejei da vida ela já me deu, se eu morrer amanhã, morro realizada. Pude cuidar do povo da minha cidade, que é Bombinhas, pude fazer algo pelas pessoas, tive o privilégio de nascer na melhor família do planeta, isso inclui minhas filhas, meus irmãos, minha mãe... Não tenho maiores ambições. O que desejo de todo coração é ser útil.

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de legal em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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