Março 27, 2018

Sobre gripe, fotografia e cinema uruguaio

Coluna curta por uma longa gripe trazida na bagagem de uma viagem a Montevideo na última semana. Então, em retribuição  - não pela gripe , mas pelos belos dias passados  por allá – vamos falar sobre... cinema uruguaio. Em quantidade não se pode comparar à vizinha Argentina, mas o Uruguai tem verdadeiras pérolas na sua cinematografia. Filmes de baixo orçamento e alta criatividade, reconhecidos em outros países. Internamente, difícil de se pagar, pois o país tem apenas três milhões de habitantes e bilheteria não é o seu forte. Muitos tem coprodução com o Brasil e outros países. Bueno, separei alguns de que gosto muito. ! Dale !

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WHISKY - 2004

Este filme é uma pequena joia dirigida por  Pablo Stoll Ward e Juan Pablo Rebella. O dono de uma  pequena fábrica de meias vai receber o irmão que não vê há vinte anos para uma celebração judaica no túmulo da mãe. Ele é sozinho, aliás solidão é o mote da história, então resolve pedir à única funcionária que simule ser sua esposa. O título vem do fotógrafo pedir às pessoas para falarem "whisky" na hora de sorrirem para as fotos. O filme ganhou vários prêmios nos festivais de Cannes, Havana, Gramado e Espanha. Una preciosidad ...


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O BANHEIRO DO PAPA ( El Baño del Papa) – 2007 ( trailer)

Esse filme fala de coisas tão familiares aos brasileiros que aqui em casa "o banheiro do Papa" virou analogia em algumas situações. Baseado numa história real, mostra a movimentação que a visita de João Paulo II ao Uruguai causou na humilde cidade de Melo, em 1988. Os moradores tinham expectativa, alimentada pela mídia, de que o lugar receberia milhares de visitantes para ver o Sumo Pontífice. Com isso, poderiam ganhar muito dinheiro vendendo comida, água, hospedagem. Já Beto, que vive de transportar produtos de cidades maiores em sua bicicleta para os comerciantes locais, tem uma ideia que considera infalível: construir um banheiro para alugar aos romeiros. A partir daqui evitarei o spoiler. A estreia na direção é de Cesar Charlone, uruguaio radicado no Brasil, e excelente fotógrafo de " Cidade de Deus", "O Jardineiro Fiel" e "Ensaio sobre a Cegueira". "O Banheiro do Papa" recebeu os prêmios de melhor ator (César Troncoso), atriz (Virginia Méndez), roteiro (Enrique Fernandez e Cesar Charlone), Prêmio Excelência de Linguagem Técnica, Prêmio da Crítica e Júri Popular no Festival de Cinema de Gramado.

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GIGANTE – 2009

A direção é do argentino Adrián Biniez. "Gigante" levou o Urso de Prata , o Prêmio pela inovação artística e o troféu de melhor longa de diretor estreante no Festival de Berlim. O gigante do título é Jara, o segurança de um supermercado da periferia de Montevideo. Ele tem uma paixão platônica pela faxineira do estabelecimento.

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TANTA ÁGUA – 2013

Ainda não tive chance de ver essa badalada comédia dramática que fez sucesso no Festival de Cinema de Berlim, então coloco aqui a sinopse oficial :  Alberto e seus filhos, Lucía e Frederick, decidem passar as férias nas Termas de Arapey. Quando a chuva começa a afetar os ânimos, Alberto resolve animar a família, mas acaba batendo de frente com a pré-adolescente Lucía. Esta viagem vai marcar a vida de todos com muitos momentos de amizade, discussões e descobertas. Na direção, duas mulheres: Ana Guevara e Letícia Jorge. Acho que vale à pena conferir.

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O FILHO URUGUAIO – 2017

Chegando aos cinemas brasileiros agora, o filme é mais francês - dirigido por Olivier Peyon-  mas tem coprodução  e locações uruguaias.  Conta a história de uma mãe em busca do filho, raptado pelo pai quando bebê e levado para uma pequena cidade do Uruguai. Ela investiga ,descobre onde está menino e viaja para buscá-lo. O que ela fará quando descobrir como vive o filho?  Um daqueles dilemas que a gente não quer estar na pele do personagem nem a pau...

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OTROS MÁS ...

25 watts, Coração de Fogo, Maracanã, Hiroshima, En la puta Vida, El viaje hacia el mar, Mr. Kaplan, Rincón de Darwin ...

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O FILME QUE VIROU LIVRO

A SOCIEDADE DA NEVE

Ué, mas não é o livro que virou filme ? Não, não me enganei. Desta vez foi  mesmo o filme que inspirou o livro. Trata-se de um documentário sobre a tragédia de avião nos Andes, em 1972. Dirigido por Gonzalo Arijón, o filme reúne os depoimentos dos 16 sobreviventes do avião que caiu na Cordilheira dos Andes. A bordo estavam os integrantes de uma equipe de rugby de Montevideo, o Old Christians, além de amigos e familiares que iriam assistir a um jogo no Chile. Para sobreviver eles tiveram que se alimentar da carne congelada dos companheiros que morreram no acidente.

O livro "Milagre nos Andes- 72 Dias na Montanha e Minha Longa Volta para Casa" foi escrito por Nando Parrado, um dos sobreviventes responsável pelo resgate de vários companheiros, e Vince Rause.

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FORA DA PAUTA

Entre as muitas coisas interessantes para se ver em Montevideo  está a retrospectiva do fotógrafo uruguaio Jorge Vidart.  Foi uma agradável surpresa saber que a cidade tem um espaço fixo para expor essa forma de arte, o CdF-Centro de Fotografia de Montevideo. Junto à mostra de Vidart , chamada "Diálogo Oriental- Tri-X :Introspectivo", estão também os trabalhos de três fotógrafas, Ana Casas Broda , Maya Goded, Gisela Volá  (Lo íntimo y lo público. El acto subversivo de la mirada) e também a coletiva "Pretexto".

E o que isso tem a ver com o assunto da coluna? Tudo. Basicamente, o cinema surgiu quando a fotografia ganhou movimento. Em um filme a fotografia ajuda "a traduzir o sentimento da narrativa". Mas, didatismo à parte, deixo aqui uma mostra do impactante trabalho de Vidart. Como diz o texto da exposição: "Vidart se apaixona por seres antes de retratá-los, mergulha em seus mundos íntimos, em suas vidas privadas, sente a necessidade de conhecer de antemão os heróis invisíveis que serão imortalizados nos negativos de gelatina e prata". Quem passar por Montevideo até 02 de junho poderá descobrir esses seres. O CdF fica na famosa avenida 18 de Julio, nº 885.

Pareja-Nordeste de Canelones, 1986 -Jorge Vidart

 

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Guilherme Votto acrescenta outros filmes sobre cinema, tema da coluna anterior: Demons, Filhos das Trevas ;Cada um com seu cinema (França); Cine Majestic (2001); A Dama do Cine Shangai (Brasil); Adeus, Dragon Inn (Twain); A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich...

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Dedé Ribeiro analisa a coluna anterior:  Interessante é que esses filmes sobre cinema se dividem em dois tipos: os emocionantes que são sobre o efeito dessa arte sobre o público e os outros (beeem menos líricos), sobre quem faz os filmes e suas maracutaias. Os assédios recentemente descobertos vão render muito filme, né? Lindo post, lindos filmes...

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HASTA LA VISTA

E para encerrar em alto nível, as frases de dois uruguayos muy especiales:

Não, o poder não muda as pessoas, apenas revela quem elas realmente são". ( Pepe Mujica, ex-presidente da República) 

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" Não acredite em tudo que te contam sobre o mundo (nem mesmo nisso que estou te contando), já te disse que o mundo é incontável". (Mario Benedetti, um dos maiores escritores, poeta e ensaísta ).

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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