Novembro 20, 2018

Todo artista deve ir aonde o povo está?

Todo artista deve ir aonde o povo está?
Crédito :UN Photo/David Manyua/reprodução

O grande Milton Nascimento e Fernando Brandt escreveram " Nos bailes da vida" sem o ponto de interrogação. Para eles, "todo artista deve ir aonde o povo está". Nem todos concordam, principalmente quando o apoio não é ao SEU candidato ou ao SEU ponto de vista. Refiro-me a ambos os lados.

O debate se acirrou com as eleições: o artista pode/deve se manifestar politicamente? Até que ponto ele realmente influencia os fãs quando se posiciona a favor desta ou daquela proposta de governo? Acompanhei de longe nas últimas semanas a tentativa de um grupo para fazer uma lista de artistas ( cantores, compositores, atrizes, atores, diretores...) que expuseram publicamente sua preferência . Essa ideia me lembrou a "lista negra" do Macartismo . Já falei sobre isso na coluna ( leia mais na edição de 25/10). Joseph McCarthy  foi um senador americano que nos anos 40 perseguiu, interrogou e incentivou delações em Hollywood, levando à prisão centenas de artistas considerados "inimigos dos EUA".

Estive há pouco no espetacular Centro Cultural Kirchner, Buenos Aires, e  na entrada me deparei com a frase de Vanessa Redgrave, uma das minhas atrizes favoritas como já contei aqui, em que ela diz:  "de nada serviria ser um artista se não fosse útil para combater a violência e a opressão". E quem sou eu para discordar dela ?

Dessa reflexão surgiu um tema um pouco diferente para esta edição de "Cine & Séries". Lembrei de artistas que abraçaram uma causa política ou humanitária, lutaram ou ainda lutam contra a guerra, pelo meio ambiente, pela igualdade social, pelo bem estar animal, mesmo pagando caro muitas vezes. " Tá, colunista, e onde entram os filmes nessa história ?". Não por acaso esses artistas escolheram alguns roteiros que têm a ver com a sua visão de mundo e com aquilo que desejam ajudar a mudar. Selecionei o trabalho de cada um que vai nesse sentido.

Lembram de mais alguém? De algum filme que tenha a ver com o tema ? Assim, vamos criando nossa própria lista, muito diferente daquela outra, enquanto cantarolamos... "com a roupa encharcada e a alma repleta de chão/Todo artista tem de ir aonde o povo está"...

No mais, é bom estar de volta à coluna, falando ( muuuuuito...hahaha) de filmes e da vida com vocês, queridos cineseriéfilos!

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GEORGE CLOONEY

Que ele é  MUITO charmoso e talentoso todo mundo sabe. O que nem todos conhecem é a atividade humanitária do ator americano, nascido em 1961, que se tornou um dos nomes mais importantes de Hollywood. "Todos temos de participar" é o lema de Clooney que se dedica a várias causas, principalmente no continente africano, como vemos na foto que abre a coluna. Em 2012, chegou a ser preso por " desobediência civil" ao protestar , em frente à embaixada do país, nos Estados Unidos ,contra o bloqueio de ajuda humanitária ao Sudão. Ele conheceu de perto o drama do país que visitou junto com seu pai, o jornalista Nick Clooney, de quem herdou a consciência social. Clooney ajudou também  a fundar organizações humanitárias como a Not On Our Watch (Não sob os nossos olhos), criada em parceria com os atores Don Cheadle, Matt Damon e Brad Pitt, de quem é muito amigo.

Nas telas, Clooney contribuiu com uma história sobre o período medonho do Macartismo, nos EUA, com "Boa noite e boa sorte", seu segundo trabalho na direção.


George Clooney preso durante protesto em frente à Embaixada do Sudão/reprodução

 

BOA NOITE E BOA SORTE ( 2005)

Edward R. Morrow (David Strathairn) é um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para tanto ele revela as táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy em sua caça aos supostos comunistas. O senador, por sua vez, prefere intimidar Morrow ao invés de usar o direito de resposta por ele oferecido em seu jornal, iniciando um grande confronto público que trará consequências à recém implantada TV nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

O título se refere à forma como o verdadeiro Morrow encerrava seus programas. David Strathairn é um desses atores que nunca chegou ao primeiríssimo escalão da fama, mas é bom pra caramba. Você pode conferir no trecho que escolhi em que o personagem discursa sobre o futuro da TV. (2929 Productions, Davis-Films, Participant Productions, Redbus Pictures, Section Eight, Tohokushinsha Film, Warner Independent Pictures ).

O discurso foi feito em 1958, mas o belo futuro desejado para a televisão, não chegou.

 

JANE FONDA

Nos anos 60 ela era símbolo sexual, rica e famosa, mas deu a "cara pra bater" ao ser uma das primeiras artistas a se opor à absurda Guerra do Vietnã, até hoje uma chaga aberta nos Estados Unidos. Enfrentou agressões como o apelido pejorativo de "Jane-Hanói" e chegou a ser grampeada pelo FBI. Jane estudou a guerra a fundo, deu palestras em universidades, foi a única artista a viajar para Hanói, ouviu o relato doloroso dos soldados americanos, soube estarrecida que seus conterrâneos usavam napalm para destruir lavouras e envenenavam a água dos moradores. Nesse período, Jane abandonou os papéis sexys e apostou em histórias profundas. O mais marcante foi "Amargo Regresso", a história de um soldado que volta da guerra do Vietnã, física e emocionalmente destruído, como milhares de outros. Até hoje, Jane Fonda é vista por muitos conterrâneos como uma "traidora", esquecem que ela ajudou a levar pra casa milhares de jovens que morreriam como os outros 58 mil ( vietnamitas foram mais de um milhão). Aos 80 anos, Jane continua combativa. Participou recentemente de passeata contra as atitudes misóginas do presidente Donald Trump. Segue bela e corajosa.

 

AMARGO REGRESSO (1978)

Dirigido por Hal Hashby, a história mostra as consequências dramáticas da guerra do Vietnã para a sociedade americana.  Bruce Dern é Bob Hyde, um oficial do exército que vai para a guerra. John Voight , excelente ator hoje conhecido como pai de Angelina Jolie, interpreta o soldado que ficou paraplégico no Vietnã, por quem a mulher de Hyde se apaixona num hospital de veteranos. Ela é Jane Fonda. O filme rendeu o Oscar de Melhor Atriz para ela, Melhor Ator para Jon Voight e Melhor Roteiro Original.

 

SEAN PENN

Considerado um dos melhores atores da sua geração, Sean Penn é também um dos mais combativos. Compra briga cada vez que percebe uma injustiça, gerando polêmica atrás de polêmica. Já viajou para o Iraque e o Irã, fazendo reportagens para jornal; pagou anúncios do próprio bolso contra o governo George Bush; não se contentou em apenas passar pelo Haiti depois do terremoto como fizeram outros famosos, mas permaneceu lá para ajudar concretamente. Saiu do melhor hotel e viveu no acampamento. Penn ajudou também as vítimas do furacão Katrina, em Nova Orleans. Também é chamado de "traidor" por aqueles que acham trabalho humanitário menos importante que brios patrióticos.

Sean Penn escolhe seus filmes com rigor. Raramente fez filmes com histórias bobas. Selecionei a história de outro ativista: Harvey Milk, que mudou para sempre a participação dos gays na política oficial.

 

MILK – A VOZ DA IGUALDADE ( 2008)

Início dos anos 70. Harvey Milk (Sean Penn) é um nova-iorquino que, para mudar de vida, decidiu morar com seu namorado Scott (James Franco) em San Francisco, onde abriram uma pequena loja de revelação fotográfica. Disposto a enfrentar a violência e o preconceito da época, Milk busca direitos iguais e oportunidades para todos, sem discriminação sexual. Com a colaboração de amigos e voluntários (não necessariamente homossexuais), Milk entra numa intensa batalha política e consegue ser eleito para o Quadro de Supervisor da cidade de San Francisco em 1977, tornando-se o primeiro gay assumido a alcançar um cargo público de importância nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

Não é fácil interpretar uma figura real, mas Sean Penn nunca deixa a desejar e acabou ganhando o Oscar de Melhor Ator. "Milk" levou também a estatueta de Melhor Roteiro Original.

 

GREGORY PECK

Em "A Princesa e o Plebeu", um de seus filmes mais famosos ao lado de Audrey Hepburn ( atriz também envolvida em causas humanitárias, diga-se de passagem),  ele era, claro, o plebeu. Mas, na vida real, Gregory Peck era considerado um príncipe pela sua educação e amabilidade. Ele ajudou a fundar o American Film Institute, e na década de 40, assinou uma carta em defesa de colegas acusados pelo Comitê de atividades não-americanas, o famigerado período do macartismo. Talvez a maior luta de Peck ao longo da vida tenha sido contra o racismo. Não sei exatamente se essa consciência se deu depois do ótimo" O sol é para todos", um marco sobre o assunto na história do Cinema. Ele era um ativista ferrenho também pelos direitos dos gays, participou de manifestações pela conscientização sobre a Aids quando ainda era um tabu, de protestos contra a guerra, pelos direitos civis e dos trabalhadores. Marchou ao lado de Martin Luther King e, na vida pessoal, foi sempre leal aos seus amigos, tendo assumido as contas e os empregados de Ava Gardner quando ela morreu. Tudo de bom esse cara, né ?

 

O SOL É PARA TODOS ( 1962)

O filme é baseado no romance de Nelle Harper Lee, pelo qual ela recebeu o Prêmio Pulitzer, e muito bem adaptado para o cinema por Robert Mulligan. Gregory Peck interpreta o advogado Atticus Finch que enfrenta todo tipo de perseguições ao defender um jovem lavrador negro acusado de estupro de um garota branca. A história se passa na década de 30, no sul dos Estados Unidos, região historicamente racista ao extremo. A narrativa é feita por Scout, a filhinha de Atticus, que ao lado do irmão mais velho, Jem, descobre o quanto o preconceito é danoso à sociedade. Num dos diálogos mais famosos do filme, o pai diz à menina : " Você nunca entende alguém de verdade até considerar as coisas sob seu ponto de vista". "O Sol é para todos" é a prova de que a arte pode ajudar a mudar a realidade. Ele tocou muita gente que até então nunca havia refletido sobre diferenças raciais e sociais. Gregory Peck ganhou o Oscar de Melhor Ator e o filme "Melhor Roteiro Adaptado".

 

SPIKE LEE

Diretor, produtor, escritor e ator . Esse é o breve currículo do norte-americano Spike Lee, também documentarista e professor de cinema. Seus filmes costumam ser críticos, principalmente, às questões raciais. Entre os mais contundentes estão "Malcom X", sobre o grande líder negro americano, e "Faça a Coisa Certa", onde mistura à comunidade negra, italianos e outras etnias. Ele costuma se envolver em todas as questões políticas onde acredita haver injustiça e opressão. Há poucos dias, no lançamento de seu novo filme no Festival de Los Cabos, México, "Infiltrado no KKKlan" ( Black Klansman) afirmou que o "fascismo usa o medo", referindo-se a Donald Trump ( a quem chama de "laranja") e ao presidente eleito do Brasil. Seus filmes sempre possuem a frase "Wake Up!" (Acorde!), como forma de sacudir o público para a consciência social.

Há vários filmes de Spike que se encaixariam no nosso tema, mas vamos falar do mais recente ( que ainda não tive chance de ver) que traz uma premissa muito interessante.

 

INFILTRADO NA KLAN ( 2018)

Em 1978, Ron Stallworth , um policial negro do Colorado, conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan local. Ele se comunicava com os outros membros do grupo através de telefonemas e cartas, quando precisava estar fisicamente presente enviava um outro policial branco no seu lugar. Depois de meses de investigação, Ron se tornou o líder da seita, sendo responsável por sabotar uma série de linchamentos e outros crimes de ódio orquestrados pelos racistas.

Se você achou a história inverossímil, se enganou. Ela é baseado em fatos. Loucos pra ver ? Eu também !!! Vamos aguardar o lançamento local.

 

LEONARDO DICAPRIO

Como diz uma querida amiga, causas há para todo mundo, basta escolher uma para abraçar. Leo fez do meio ambiente o seu foco. Em 1998, ele fundou a LDF – Leonardo DiCaprio Foundation para proteger os últimos lugares selvagens da Terra e salvar da extinção a vulnerável vida selvagem do planeta. As principais preocupações e metas do ator : Conservação de Áreas Indígenas, Conservação de Oceanos, Mudanças Climáticas, Direitos Indígenas, Califórnia Transformadora e Soluções Inovadoras. Ele luta também pelo bem estar animal, tenso se tornado vegetariano. Isso vem há muito tempo. Lembram que quando ele namorava Giselle Bundchen eles passaram um tempo entre os índios da Amazônia? Pois é, mesmo separados, as duas celebridades mantém a luta pelo meio ambiente.

Recentemente DiCaprio participou da produção de um documentário da National Geographic sobre as mudanças climáticas ( não, não é fantasia, nem coisa de comunista, isso é muito sério!). "Seremos História?", foi transmitido em todas as plataformas digitais e canais da NatGeo.

 

SEREMOS HISTÓRIA ? (BEFORE THE FLOOD – 2016)

O documentário teve 60 milhões de visualizações em apenas 3 meses, tornando-se um dos documentários mais assistidos ( hoje disponível na Netflix). Problemas como mudanças de temperatura, inundações, e outros fenômenos semelhantes estão cada vez mais graves. O que tem sido feito na tentativa de amenizar essa situação? É na busca por respostas para essas questões que Leonardo DiCaprio encarou a missão de testemunhar as mudanças climáticas em diversas partes do mundo. O filme tem as presenças dos ex-presidentes Barack Obama e Bill Clinton também.

 

SEAN CONNERY

Sou super tiete do ator escocês, mais conhecido por seu papel como James Bond ( fez seis filmes do 007), mas também intérprete maravilhoso de filmes como "O Homem que queria ser rei", " Os Intocáveis", " O nome da Rosa", " Encontrando Forrester".  Além de grande ator, Sean também é ativista político, lutando pela causa da independência da Escócia e apoiando organizações de direitos civis. Já recebeu diversas homenagens e condecorações, dentre elas a Legião de Honra do governo francês e o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Saint Andrews, na Escócia. Fiquei curiosa para saber como ele encarou a decisão dos escoceses de rejeitarem a separação do Reino Unido, em plebiscito de 2014, algo pelo que sempre lutou. Como está com 88 anos, porém, Sean está quase recluso na casa onde vive com a artista plástica Micheline Roquebrune, sua mulher há mais de 40 anos. Afastou-se do cinema em 2003, depois de filmar " A Liga Extraordinária", reclamando dos estúdios lhe darem sempre os mesmos papéis, para tristeza dos fãs e minha, principalmente.

 

O HOMEM QUE QUERIA SER REI (1975)

Gosto muito desse filme ( e dos outros todos) do diretor John Huston. Ele tentou levar o conto do Rudyard Kliping para as telas durante 25 anos. A dupla seria Humprey Bogart e Clark Gable. Com a morte de Bogart, Huston engavetou o projeto. Anos depois, pensou em Kirk Douglas e Burt Lancaster, mas também não deu. Em 1975, finalmente Sean Connery e Michael Caine viraram Daniel Dravot e Peachy Carnehan, dois amigos que viajam para o distante Kafiristão com a intenção de ajudar os líderes locais a vencerem seus inimigos para depois derrubá-los a assumir o poder. O filme tem ação e diversão, lindas paisagens asiáticas e um trabalho fantástico dos dois protagonistas. O assunto de fundo é caro ao escocês Sean Connery: o colonialismo.

 

ANGELINA JOLIE

Uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood, famosa pela sua beleza e pelo casamento (desfeito) com Brad Pitt, Angelina Jolie luta pelas causas humanitárias em várias partes do mundo. Tudo começou quando ela viajou ao Camboja, Ásia, para filmar "Lara Croft: Tomb Raider". Comovida com o drama local, Angelina passou a acompanhar o ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados em vários campos para ajudar os desabrigados. Acabou nomeada Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR por ter participado de 40 missões nas regiões mais remotas do mundo. Criou o "Centro Nacional para Crianças Refugiadas e Imigrantes" e outras entidades voltadas à infância. Ela também faz doações significativas do próprio bolso. Angelina já provou que é bem mais que um rostinho bonito. Além de atriz, ela é diretora de filmes como " First they killed my father" (Primeiro eles mataram meu pai). A produção representou o Camboja no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018.


Divulgação ACNUR

 

First they killed my father ( 2017)

Baseado em fatos, o roteiro foi co-escrito por Angelina Jolie que também dirigiu a história que se passa no Camboja em 1975. Quando o regime comunista do Khmer Vermelho assume o controle da capital do país, Phnom Penh, a pequena Loung Ung é obrigada a deixar para trás sua casa e seguir com a família para o interior. Num campo de trabalho forçado ela convive diariamente com o horror, a fome, o medo e a ameaça de separação dos pais e irmãos.

Angelina tem um filho nascido no Camboja, Madoxx. O garoto , de 14 anos, trabalha no filme. Ela comprou um pedaço de selva na região para onde costuma ir para que o filho tenha contato com sua cultura de origem.

 

GIAN MARIA VOLONTÉ

O ator italiano, nascido em 1933, é quase um caso à parte, pois seu ativismo está implícito na escolha da maioria dos filmes que fez ao longo da carreira. "A Classe Operária vai ao Paraíso", "Um cidadão acima de qualquer suspeita", "Sacco e Vanzetti", "O Caso Mattei", "O Caso Aldo Moro", todos de cunho político, tornaram Gian Maria Volonté um nome sempre ligado às questões sociais. Além de tudo, era um grande ator.

 

INVESTIGAÇÃO  SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA ( 1970)

Escolhi esse filme, entre tantos que Volonté fez,  porque gosto muito dele. Dirigido pelo italiano Elio Petri, é um retrato da corrupção, abuso de poder e atropelo da ética e da moral. Volonté interpreta um comissário que assassina a amante ( a brasileira Florinda Bolkan) e planta provas no apartamento que apontam para ele mesmo. Quer mostrar que não será incriminado mesmo com as provas, sendo inatingível por ser um cidadão acima de qualquer suspeita. Fica claro que a opinião pública não é importante e o sistema protege bem os seus próprios erros. O filme desagradou setores políticos e jurídicos da Itália e de outros países e sofreu boicote por isso. A verdade, às vezes, pode ser muito incômoda.

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FORA DE SÉRIE

THE HANDMAID´S TALE ( O CONTO DA AIA) – 2 temporadas


Hulu/Divulgação

Esta é a série mais impactante que venho acompanhando nos últimos tempos.  Demorei para escrever sobre ela por insegurança. Como retratar tudo o que acontece ali, suas metáforas tão atuais, as entrelinhas...? Vou usar a sinopse oficial : baseado na obra de Margaret Atwood, The Handmaid's Tale conta a história na distopia de Gileade, uma sociedade totalitária que foi anteriormente parte dos Estados Unidos. Enfrentando desastres ambientais e uma taxa de natalidade em queda, Gilead é governada por um fundamentalismo religioso que trata as mulheres como propriedade do estado. Como uma das poucas mulheres férteis restantes, Offred é uma serva na casa do comandante, uma das castas de mulheres forçadas à servidão sexual como uma última tentativa desesperada para repovoar um mundo devastado. Nesta sociedade aterrorizante onde uma palavra errada pode acabar com sua vida, Offred vive entre comandantes, as suas mulheres cruéis e seus servos - onde qualquer um poderia ser um espião para Gilead - tudo com um único objetivo: sobreviver e encontrar a filha que foi tirada dela. (Minha série)

É preciso alertar que há cenas muito fortes, seja por imagens explícitas ou pela situação de crueldade e opressão contra as mulheres. É preciso dizer também que todos os prêmios à série foram merecidos, principalmente ao trabalho da protagonista, Elizabeth Moss ( já mostrava ao que vinha em Mad Men). Que atriz ! Mesmo que não dissesse uma palavra, expressa tudo com o olhar. Está bem acompanhada de Alexis Blendel ( vista em Gilmore Girls, quem diria?), uma atriz que se lança às causas político-humanitárias com vigor.


Hulu/Divulgação

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O LIVRO QUE VIROU FILME

Já falei sobre esse filme mais de uma vez na coluna. Uma delas foi no tema da "sororidade", a solidariedade entre mulheres. Gosto muito do livro que me fez descobrir a escritora Lillian Helman. Entre o livro e o filme há várias mulheres que foram "aonde o povo está". Começando pela autora  e as atrizes Jane Fonda e Vanessa Redgrave. Todas lutaram , de alguma forma, pelo que acreditavam e pagaram um preço por isso.

Antes de entrarmos no livro e no filme, precisamos falar sobre ela: Vanessa Redgrave. Sempre aguerrida, ela fez  um discurso pacifista ao receber o Oscar de Melhor Atriz, em 1978, por "Júlia". A manifestação causou a sua ida para "geladeira" durante anos. Detida em uma manifestação na embaixada do Vietnã nos Estados Unidos, Vanessa defendia causas relacionadas à Palestina e ao feminismo. Seu irmão, o ator Corin Redgrave, também foi ativista ferrenho. Ele morreu em 2014, três semanas antes da outra irmã, também atriz, Lynn Redgrave.

 

"PENTIMENTO ( A HISTÓRIA DE JÚLIA") – LILLIAN HELMAN – 1973

Este é o segundo livro de memórias da escritora americana Lillian Helman. O primeiro se chamou "Uma mulher Inacabada". Em "Pentimento", ela conta passagens desde a infância, passando pelo seu relacionamento com Dashiel Hammet, -um dos mestres da literatura policial, perseguido durante o McCarthismo - até a história de Júlia que virou filme.

Júlia era uma rica amiga de infância de Lillian que trocou uma vida confortável e burguesa pela resistência ao nazismo em Viena, nos anos 30. Ela conta o encontro com Júlia, a admiração pelo ideal da amiga e como a ajudou naquele momento de luta.

A palavra pentimento é bem usada como titulo :"à medida que o tempo passa, a tinta vermelha em uma tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas originais. Isso se chama pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de ideia.". São imagens já meio apagadas, como acontece com nossa memória.

 

"JÚLIA" ( direção: Fred Zinemann – 1977)

Na adaptação para o cinema, Jane Fonda interpreta Lillian Helman e Júlia é vivida por Vanessa Redgrave que, vocês estão "carecas de saber" é uma das minhas favoritas. Meio caminho andado para explicar o quanto gostei do filme na época. A partir de "Júlia" saí lendo toda a obra de Lillian e, por consequência de Dashiell Hammet, o grande amor de sua vida. O filme mostra que Lillian chegou a contrabandear dinheiro para ajudar a amiga Júlia a salvar vítimas do nazismo.

Além das duas grandes atrizes, "Júlia" trouxe no elenco uma jovem que se tornaria uma das maiores estrelas do cinema americano: Meryl Streep. Filmaço!

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PARA NÃO FAZER INJUSTIÇA

Muitos artistas ficaram de fora da lista por falta de espaço: Marlon Brando, Danny Glover, Susan Sarandon, Marc Ruffalo, Tim Robbins, Martin Sheen, Oprah Winfrey, Elizabeth Taylor, Emma Watson...além dos brasileiros como Christiane Torloni, Osmar Prado, Dira Paes, Wagner Moura, Lázaro Ramos  e Letícia Sabatella. Letícia dirigiu um documentário sobre os índios krahô.

HOTXUÁ ( 2012)

O documentário registra costumes, crenças e cotidiano dos Krahô, tribo que vive em Palmas, Tocantins. Letícia Sabatella faz sua estreia na direção, junto  com o cenógrafo Gringo Cardia, também iniciante atrás das câmeras.

A relação de Letícia com a tribo é antiga: ela esteve na aldeia participando de um laboratório para uma montagem teatral, e desde então mantém relações com os índios. "Estive pela primeira vez na tribo em 2001. Nessa ocasião, criei um vínculo definitivo com os Krahô", afirma a diretora. Ela conta que o convite partiu dos próprios índios, que consideraram importante documentar sua cultura. Eles acompanharam o dia a dia dos krahô e retratou a Festa da Batata, mais importante evento da tribo, que marca a mudança da estação chuvosa para a seca.

Há depoimentos em português e merrim, a língua nativa dos Krahôs, que expressam a visão de mundo desse povo sorridente que acredita no equilibro de forças e na graça para resolver conflitos e unir a comunidade.

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BEIJO DE CINEMA

A seção "Beijo de Cinema" andava parada nas últimas edições. Ela volta esta semana com um beijo de John Lennon e Yoko Ono, o casal que fez manifestações pacifistas bem ao jeito dos anos 60: "faça amor, não faça guerra", "hair peace, bed peace"..

Coincidentemente há poucos dias ouvimos falar desse que foi um dos maiores músicos do século XX, pela boca de seu assassino, Mark Chapman. Em audiência, Chapman confessou que usou balas de pontas ocas, chamadas dumdum, para garantir que John morreria. Ele deu cinco tiros e acertou quatro. Está cumprindo prisão perpétua.

Mas, deixando a tristeza de lado, vamos ao beijo de John&Yoko.


Facebook oficial John Lennon

Imagine não existir posses/Me pergunto se você consegue/sem necessidade de ganância ou fome/uma irmandade do Homem/Imagine todas as pessoas/compartilhando todo o mundo... (Imagine)

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ANOTA AÍ ...

Novembro é o mês que marca a consciência negra e por isso o grupo NSC, afiliada da Globo em Santa Catarina,vai apresentar o projeto multimídia "Liberata", a história de uma escrava em terras catarinenses. "Liberata" conta a história de uma negra escravizada que lutou por liberdade quando ainda nem se falava no fim do período escravagista. Para isso, percorreu um caminho improvável para a época: os tribunais.

O trabalho nasceu da inquietação da jornalista Ângela Bastos, repórter especial do Diário Catarinense, que foi instigada por uma reportagem abordando uma pesquisa sobre negros escravizados que, mesmo antes da Lei Áurea (1888), buscavam a liberdade pela Justiça. Entre os cerca de 380 processos levantados pela pesquisadora Keila Grinberg, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, havia o de Liberata, que a partir de 1790 viveu na Enseada das Garoupas, pertencente à antiga Desterro, hoje Porto Belo, no Litoral Norte de Santa Catarina. Ângela convidou o colega jornalista, EdSoul, para tocar o projeto que mistura jornalismo e dramaturgia. Foram nove meses de execução. Vale à pena ver!

Jornal do Almoço ( canal 512 da Net) :: de 19 a 24/11/ NSC Total :: a partir de 22/11/ Superedição dos jornais NSC :: 24/11 /CBN Diário e Itapema :: a partir de 19/11/2018.

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HASTA LA VISTA, BABY!

Frases sobre a arte

"Nossa deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar cultura a outro. Nós temos é que buscar a cultura no povo, dando condições para que ela brote". (Fernanda Montenegro)

 

"A finalidade da arte é, simplesmente, criar um estudo da alma". (Oscar Wilde)

"Todos os artistas, os verdadeiros artistas, abominam a sujeição e adoram a independência. "
( Honoré de Balzac )

"No momento em que um artista descobre o que as pessoas querem e procura atender a demanda, ele deixa de ser um artista e torna-se um artesão maçante ou divertido, um negociante honesto ou desonesto. Perde o direito de ser considerado artista. "
( Oscar Wilde )

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MENS@GEM PARA VOCÊ

Sobre a coluna "Oh, meu Deus!":

Estou louca para ver o novíssimo testamento, minha viu e disse que é muito bom. Um visto para o céu, que também não vi, já gostei só de poder comer de tudo e não engordar, kkk. Beijos! (Juliana Bergmann)

                                           ***************

Ótima a coluna desta semana também!
Parabéns, Brigida!Queria ter mais tempo p/assistir e/ou rever os filmes indicados... ( Cida Garcia)

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ENTÃO, O QUE ACHOU DA COLUNA ?

(Jodie Whitakker/ Dr.Who)

 

E VOCÊ , GOSTOU ?

(Martin Freeman- Dr.Watson/Sherlock)

 

THE END

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cinema séries beijos de cinema arte cultura séries de TV netflix
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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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