Junho 28, 2019

Tudo sobre Almodóvar

Tudo sobre Almodóvar

Tudo, tudo mesmo sobre Pedro Almodóvar não cabe aqui. O título é apenas uma referência ao meu filme preferido do espanhol, que costumo chamar de "o meu diretor vivo favorito". Tanto é assim que, pela primeira vez, a coluna será dedicada a um único cineasta. Gosto de toda a obra de Almodóvar, mas selecionei apenas cinco longas para sugerir, a começar exatamente por Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre). E, claro, mais um: Dor e Glória que está em cartaz. Antes, um pouco da história dele e como se tornou um dos diretores e roteiristas mais admirados do mundo.

Pedro Almodóvar nasceu em Calzada de Calatrava, cidade da comunidade autônoma de Castilla-La Mancha,em 1949. Durante sua infância, Almodóvar foi enviado para um internato religioso na cidade de Cáceres, onde ele deveria receber a educação preparatória para o seminário. Em vez disso, o jovem Pedro esteve voltado para os filmes que ele podia ver no cinema local - algo que ele não poderia fazer em sua cidade natal. Depois que terminou o ensino médio, Almodóvar se mudou para Madri para perseguir seu sonho de fazer cinema.

De origem humilde, ele não teve condições financeiras para estudar cinema, e de qualquer forma, no início da década de 1970 as escolas de cinema estavam fechadas pelo governo de Franco na Espanha. Então ele foi vendedor de rua, cantor de uma banda de rock e desenhista de quadrinhos. Quando finalmente arranjou algo fixo, em uma empresa de telefonia, economizou seu salário comprar uma câmera Super 8, que usou para fazer curtas no final dos anos 1970. Populares, seus trabalhos foram destaque no movimento cultural La Movida, que surgiu em Madrid nessa época. Seus primeiros trabalhos foram lançados em 16mm, e as dificuldades de financiamento que encontrou o forçaram a abrir sua própria produtora, El Deseo, ao lado do irmão, Agustín Almodóvar.

A El Deseo produziu filmes de cineastas como Guillermo Del Toro e deu chance a Pedro de se lançar de vez no mercado. Foi com Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) que ele então alcançou algum status, arrecadando prêmios e indicações importantes. A partir de então seria figura recorrente em premiações como o Goya, o David di Donatello e em festivais como o de Cannes. Evento do qual foi presidente do júri em 1992. Único cineasta espanhol a ter ganho um Oscar até hoje, Almodóvar ficou famoso por quase sempre trazer em seus filmes o tema da diversidade e da exploração sexual da mulher, além de ser amplamente conhecido por usar e abusar das cores fortes.(Dados:Papo de Cinema e Eurochannel).

Almodóvar tem uma forte ligação com o Brasil. Amigo de Caetano Veloso, que já fez participações musicais nos filmes dele, o espanhol mandou uma mensagem de amor ao nosso país durante o Festival de Cannes em maio passado: "Sei que o povo brasileiro está passando por um momento muito difícil de sua História, mas eu espero que o país vá por outra direção logo. Eu visitei o Brasil com Caetano Veloso, Paula Lavigne e outros amigos da música, mas, ao chegar lá, notei uma semelhança entre a paixão que existe no Brasil e aquilo que eu represento nos meus filmes. É como se o meu amor pelo Brasil fosse anterior a meu contato com esse país que amo".

De minha parte é recíproco, Pedro!

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Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre) – 1999

Este talvez seja o filme de Almodóvar que mais me tocou. Digo, talvez, porque vi Dor e Glória há poucos dias e ele continua "grudado" em mim, girando na minha cabeça. Mas, se lágrimas forem um termômetro, Tudo sobre minha mãe leva vantagem. Chorei rios no cinema com a história de Manuela, uma enfermeira de transplantes de órgãos, que perde o filho Esteban atropelado quando ele tentava conseguir o autógrafo de Huma - uma atriz que os dois admiravam- na saída do teatro. Marcela deixa Madri rumo à Barcelona para procurar o pai do garoto e contar que o filho morreu. Como com Almodóvar nada é comum, o pai é Lola, um travesti. Devastada pela dor da perda, Manuela encontra pelo caminho várias mulheres desconhecidas que se solidarizam e a acolhem generosamente: Agrado (Antonia San Juan), um transexual que exerce a prostituição e é cheio de alegria e afeto; Rosa (Penélope Cruz), uma freira de família burguesa, que engravidou de Lola e dela contraiu Aids; Nina ( Candela Peña), a amante junkie de Huma (Marisa Paredes), a atriz veterana de quem Esteban era fã. O filme é uma homenagem às atrizes pela qualidade dos papéis que Almodóvar escreveu para elas.

Ao final do filme, uma dedicatória reforça o amor do diretor por outras atrizes que sempre admirou: À Bette Davis de A malvada, à Romy Schneider de l'Important c'est d'aimer e à Gena Rowlands de Noite de estreia, de Cassavetes".

Disponível no Now/Net.

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Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos ( Mujeres al borde de un ataque de nervios) – 1988

Foi através desta comédia doida e divertida que o mundo descobriu o diretor espanhol, até então conhecido apenas no seu país. O título acabou virando um bordão em diversas situações. Essas mulheres são Pepa, Candela e Lucia. Juntas em uma cobertura, cada qual tem seus motivos para estar nervosa: Ivan, o amante de Pepa terminou com ela deixando um recado na secretária eletrônica, Candela descobriu que seu namorado é um terrorista e Lúcia, ex-mulher de Ivan, acaba de sair do manicômio depois de 20 anos. Uma delas quer cometer um assassinato e as outras tentarão evitar. Enfim, uma loucura!

Mulheres à beira de um ataque de nervos foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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Carne Trêmula – 1997

Este drama de Almodóvar mostra como muitas vidas mudam por causa de um único tiro. Começando em 1970, quando uma prostituta (Penélope Cruz) dá à luz seu filho Víctor em um ônibus. A história salta para uma Madri contemporânea. É em cima de Víctor Plaza (Liberto Rabal) que tudo se desenvolve, quando este se envolve numa confusão na casa de Elena (Francesca Néri), a quem conhecera dias antes. A polícia aparece por lá, um revólver dispara acidentalmente e Víctor amarga sete anos na cadeia, onde arma a mais doce das vinganças. Culpa, arrependimento e redenção num thriller sensualíssimo.(Sinopse:Guia da Semana)

Este é o primeiro de seis filmes em que a atriz Penélope Cruz foi dirigida por Pedro Almodóvar. Os outros foram Tudo Sobre Minha Mãe (1997), Volver (2006), Abraços Partidos (2009) e Os Amantes Passageiros (2013) e Dor e Glória (2019).

Foi em Carne Trêmula também que comecei a observar o quanto Javier Bardem é talentoso. Hoje, ele é um dos meus atores favoritos.

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Fale com ela ( Hable com Ella) – 2002

Uma temática delicada, mas o resultado é maravilhoso. Sinopse: Benigno Martin (Javier Cámara), um enfermeiro cujo apartamento fica em frente a academia de balé comandada por Katerina Bilova (Geraldine Chaplin). Ele fica na janela da sua casa observando os ensaios com especial atenção a uma das estudantes de Katerina, Alicia Roncero (Leonor Watling). Quando Alicia é ferida em um acidente de carro, acaba internada no hospital onde ele trabalha. Benigno cuida dela, em coma, com um cuidado acima do normal. No mesmo hospital está em coma a toureira Lidya González ( Rosário Flores). É seu amante Marco ( Darío Grandinetti), um jornalista e escritor, quem cuida dela.

Uma diferença deste para outros filmes de Almodóvar é o protagonismo masculino. Uma curiosidade: Caetano Velloso, amigo de Almodóvar, aparece cantando Cucurrucu Paloma, mas a música que me arrepiou da cabeça aos pés foi Por toda a minha vida, na voz de Elis Regina, na cena espetacular da tourada com Lidya.

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Volver – 2006

Outro filme onde a presença da mãe me tocou profundamente. Penélope Cruz é Raimunda, que retorna à cidade natal, no interior da Espanha, com a filha Paula e a irmã, Sole.  Raimunda tem um ex-marido violento. Suas vidas são transformadas quando o fantasma da mãe morta aparece para ajudá-las a resolver questões do passado.

Penélope foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e recebeu vários outros prêmios pelo papel.

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Outros: A pele que habito (disponível no Now/Net), Julieta (disponível na Netflix), Atá-me, A Lei do Desejo, De saltos altos,  Matador, Abrazos Rotos, A Flor do meu segredo, Kika, Má Educação, Pepi, Luci e outras, Amantes Passageiros (disponível no Now/Net)

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EM CARTAZ

Dor e Glória (Dolor y Glória) – 2019

Falo um pouco sobre o novo filme de Almodóvar neste podcast (clique na imagem para ouvir). Na sequência, você pode ver o trailer. Espero que gostem da novidade.

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Fora de série

The handmaid´s tale (O Conto da Aia)– 3ª temporada

Na última edição dei dicas sobre novas séries e novas temporadas. Faltou uma das chegadas mais importantes de novos episódios : The Handmaid`s tale. Já falei algumas vezes sobre esta série, adaptada de um romance de Margaret Atwood, escrito em 1985. Trata-se de uma distopia que transcorre num futuro indeterminado, depois da morte do presidente dos EUA. Para recuperar a ordem, instala-se uma sociedade patriarcal religiosa, obscurantista, onde as mulheres servem apenas para procriar e fazer os trabalhos domésticos. As aias do título são as raras mulheres férteis, escravas sexuais, obrigadas a engravidarem dos comandantes, cujas esposas não podem ter filhos. Em Gilead, as mulheres são proibidas até de ler e qualquer desobediência é punida com castigos físicos severos e até a morte. Elisabeth Moss, que já fez Mad Men, é a protagonista, June. Ela é aia na casa de Serena (Yvonne Strahovski) e do Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes). Os três estão ótimos nos seus papéis.

Falo dela novamente para avisar que chegou a 3ª temporada. É bom que se diga que O Conto da Aia é uma série para os fortes. A primeira temporada foi um soco no estômago, a segunda manteve o ritmo e esta agora tem sido bastante criticada. Muitos acham que ela perdeu a força na tentativa de agradar aos críticos da segunda temporada que a acharam pesada demais, maldades em excesso... Ufa! Difícil contentar esse público de séries, viu? Seja como for, vale a pena ver. É impossível não se impressionar com as semelhanças do que tem acontecido nos últimos anos no Brasil e em outras partes do mundo.

A 1ª e 2ª temporadas, além dos quatro primeiros episódios da 3ª, estão disponíveis no Canal Paramount/Net.

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OS FAVORITOS DE ...

Gosto muito de ter outras "vozes" de cinéfilos na coluna. Foi daí que veio a ideia para esta nova seção. A convidada de estreia é a jornalista Viviane Bevilácqua, que agora publica suas ótimas crônicas no Portal Making Of, às terças e quintas-feiras. Como toda amante de cinema, ela achou difícil escolher apenas UM nome em cada categoria, mas conseguiu. Com vocês, os favoritos de Viviane!

Minha ligação com o cinema: Adoro cinema desde criança. Por volta dos 10 anos de idade meus pais começaram a me liberar para ir com as amigas nas matinês de domingo do único cinema da minha cidade... E não parei mais. Isso foi na década de 70. Quando apagava as luzes da sala e começava a tocar aquela musiquinha que antecedia o jornal Canal 100, borboletas começavam a dançar no meu estômago. Era muita ansiedade e excitação, mesmo que fosse assistir a um desenho animado. Um pouco mais tarde, lá pelos 14 anos, o bom mesmo nem era o filme, mas sim esperar que o namoradinho sentasse na cadeira do lado e se atrevesse a pegar na minha mão, quando ficasse escurinho. Aí, qualquer filme era ótimo!

Um filme : O Expresso da Meia-Noite (Alan Parker, 1978)

Um diretor: Quentin Tarantino

Um ator : Morgan Freeman 

Uma atriz : Meryl Streep

Uma cena : A batalha final do Coração Valente (Mel Gibson, 1995)

Uma série de TV: Vikings (Netflix)

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DICA DE LEITURA – LIVROS DE CINEMA

Já que nosso tema central foi Pedro Almodóvar, fui buscar na minha própria estante a sugestão da semana.

Conversas com Almodóvar ( Conversations avec Pedro Almodóvar), de Frederic Strauss – Jorge Zahar Editor Ltda.

 

Outra dica: Na Biblioteca de Arte e Cultura da FCC-Fundação Catarinense de Cultura, no CIC-Centro Integrado de Cultura, Florianópolis, você encontra The Pedro Almodovar Archives -Paul Duncan- Taschen. Uma edição sofisticada com quase todos os filmes do diretor espanhol com fotos incríveis. Ah, não conhece a Biblioteca? Não sabe o que está perdendo...corre lá.

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Na próxima sexta-feira, nova edição de Cine&Séries. Hasta la vista, baby!

THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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