Julho 31, 2020

Um papo com Eneléo Alcides - diretor da Fundação Cultural BADESC

Um papo com Eneléo Alcides - diretor da Fundação Cultural BADESC
Divulgação

"Diversos campos do conhecimento artístico me constituíram enquanto profissional, mas a pesquisa diária nas áreas da arte me constituiu enquanto sujeito", esse é o Léo.

A entrevista na coluna de hoje é com o Eneléo Alcides, que está há sete anos na direção geral da Fundação Cultural BADESC, em Florianópolis. O espaço é um dos locais mais renomados de cultura do Estado. Neste bate-papo ele conta um pouco sobre sua trajetória pessoal e os trabalhos desenvolvidos à frente dessa Instituição tão importante para Santa Catarina.

Nascido em Florianópolis, formado em jornalismo, direito e antropologia e profundamente apaixonado por arte (com pós doutorado em História da Arte), o gestor cultural, curador e pesquisador de 50 anos também tem incursão nas áreas de música e fotografia.

Confira mais sobre o Léo, como ele é carinhosamente chamado por amigos e frequentadores da Fundação.

 

 

- Quando foi que o mundo das artes entrou na tua vida?

Sou apaixonado por artes desde sempre. Na adolescência vivia em cursos e participava de grupos de teatro, pintura e música, principalmente piano e canto.  Lia compulsivamente sobre esses assuntos. Dos 20 aos 22 anos fui professor de educação artística no ensino de 1º e 2º grau, hoje fundamental e médio, em uma época em que ainda não era exigido a formação específica.

Cheguei a fazer um vestibular para música, mas desisti. Decidi que as artes iam ser a minha área de prazer, meu ponto de fuga, e acabei me formando em jornalismo e direito, que foi meu principal campo de atuação profissional. De qualquer forma, paralelamente à dedicação as atividades profissionais que desenvolvi, eu sempre estive envolvido com música, fotografia, teatro e artes visuais.

Não lembro de um ano em que não estivesse matriculado em algum curso de arte ou participando de um grupo. Apesar desse envolvimento, foi somente em 2013 que me afastei das demais atividades profissionais para me dedicar à área da cultura, como coordenador dos trabalhos da Fundação Cultural BADESC.

 

- É impossível, pra você, viver sem arte?

Te digo que é raro haver um dia em que eu não estude, pense ou produza algo relacionado ao universo das artes. Mesmo nas férias essa dedicação ainda aumenta, nem que seja como observador em museus, galerias, bibliotecas, teatros e espaços culturais em geral que fazem parte de todos os meus roteiros de viagem.

 

- Que demais! E quando foi que você assumiu o cargo de diretor geral da Fundação Cultural BADESC? Como foi essa nomeação? Convite?

A lei que criou a Fundação Cultural BADESC determina que duas de suas diretorias são privativas do quadro de funcionários do BADESC - Agência de Fomento do Estado. A primeira gestão da Fundação, que havia assumido em 2006, pediu exoneração em junho de 2013, deixando todas as diretorias vagas. Foi quando o Presidente do BADESC buscou, no quadro da Agência, alguém que tivesse um perfil ligado às artes e me fez o convite para assumir o cargo de diretor geral.

Na época eu atuava na Agência BADESC como advogado e auditor, funções que exerci em paralelo com as da Fundação BADESC durante dois anos. Em 2015 decidi me afastar das atividades da Agência e me dedicar exclusivamente à gestão da Fundação.    

 

- Sobre a Fundação Cultural BADESC, quando foi inaugurada? É uma instituição sem fins lucrativos?

Sim, a Fundação Cultural BADESC é uma instituição sem fins lucrativos criada pela Lei Estadual nº 13.438/05 e inaugurada em 28 de março de 2006.  Mas é importante esclarecer que as suas atividades são uma continuidade do projeto iniciado pelo Espaço Cultural Fernando Beck, que foi inaugurado no hall da Agência BADESC em 25 de fevereiro de 1991.

Assim, a Fundação está perto de completar 15 anos, mas a sua história vai completar 30 anos no próximo fevereiro.

 

- Qual é o principal objetivo Fundação?

Em termos gerais, a Fundação tem por finalidade apoiar e promover o desenvolvimento artístico e cultural no âmbito do Estado de Santa Catarina. Em termos práticos, é um equipamento cultural que abriga dois importantes espaços expositivos:  o Espaço Fernando Beck e Espaço Paulo Gaiad, que além exposições de artes visuais, também é utilizado para a realização de feiras de artes, lançamento de livros, apresentação de música, performance e outras atividades.

A Fundação abriga também o cineclube mais ativo de Florianópolis, exibindo um filme diferente a cada dia, promovendo estreias e mostras de cinema. Também desenvolve uma atividade intensa de arte-educação, que inclui programas dirigidos a grupos e escolas.

No Espaço Oficina e no auditório, realiza cursos e oficinas na área de arte e cultura e ainda promove pesquisas diversas, coletando e produzindo material de acervo, catálogos, vídeos e outros, com o objetivo de preservar a memória das artes no Estado. 

É importante lembrar que todas estas atividades são abertas ao público e sempre oferecidas de forma gratuita.

 

- Quantas pessoas trabalham na instituição?

Além da diretoria que faz a produção e a coordenação geral, temos uma arte educadora, uma designer, um administrador e uma produtora geral que também cuida do cineclube.

Dois estagiários completam o nosso time, um é estudante de jornalismo e outro de cinema. A Fundação tem uma equipe bem enxuta, mas entendemos que diversas pessoas fazem parte dela, como o assessor de imprensa, os vigilantes da casa, a responsável pela limpeza, os colegas do BADESC que apoiam indiretamente a Instituição, e o mais importante são os nossos parceiros. Temos muitos parceiros dedicados.

É impossível citar todos, mas destaco a longa colaboração do grupo Art7 e da Aliança Francesa na exibição de filmes; a dedicação de alguns professores da UDESC e UFSC, que oferecem cursos gratuitos a comunidade; curadores e produtores que nos auxiliam na realização das exposições e diversos artistas que trazem os seus projetos para os espaços da casa. Assim, de um núcleo básico entre quatro e sete pessoas, nos transformamos em muitos. 

 

- Durante a pandemia a instituição segue fechada e prestando atendimento online, isso?

O isolamento social está nos ensinando a reinventar formas de produzir. A casa não está aberta ao público, mas a equipe segue com as atividades online diárias. O Cineclube indica filmes disponíveis em plataformas e realiza rodas de conversa online sobre os temas escolhidos.

Reverberamos nas mídias sociais as obras e artistas que passam pela casa, produzimos exposições virtuais e temos também alguns cursos programados.

Internamente, a equipe está concluindo a edição de um catálogo de artes, que será lançado em breve e desenvolvendo um novo site com ferramentas de pesquisa e interação para disponibilizar todo o acervo e memória das exposições, obras e artistas, que passaram pela Fundação.

Durante a quarentena, finalizamos também a seleção do Edital de Exposições 2020 e divulgamos o nome dos artistas que ocuparão os espaços expositivos assim que puderem ser reabertos ao público. Com as novas tecnologias, há muito o que podemos produzir e promover virtualmente, mas, evidentemente, é enorme a vontade da equipe de retomar as atividades presenciais. 

 

- Como os artistas fazem para expor na Fundação?

Todo o ano a Fundação lança um edital de ocupação, que é um dos mais disputados do Estado. A seleção é feita sempre por uma comissão externa, que muda a cada edital. Para apoiar artistas em início de carreira, o edital reserva uma das vagas do Espaço Paulo Gaiad para a 1ª individual.

A Fundação também reserva algumas datas para artistas com trajetória consolidada, realizando edições especiais, geralmente retrospectivas e também para receber exposições significativas de outras instituições.     

 

- Além das exposições de artes, a Fundação é conhecida também pela realização de diversos eventos culturais, envolvendo música, cursos e lançamentos de livros. Como são essas ações e quem pode participar?

Diferentemente da agenda de exposições, que é muito concorrida, é bem fácil solicitar espaço para lançamento de livros, realização de cursos ou apresentações. Basta entrar em contato com a Fundação e oferecer o evento.

A equipe vai verificar se o projeto está de acordo com a abrangência da programação e informa a agenda disponível. Mas é fundamental que a proposta tenha a qualidade necessária e que seja oferecida gratuitamente ao público, com exceção dos livros e discos lançados, que podem ser comercializados.

A Fundação sempre prospecta e produz com o auxílio de parceria a realização de cursos, eventos, feiras de arte e outros.

 

- E o Cineclube, como funciona?

O Cineclube é outro espaço de grande importância para a Fundação e funciona regularmente de terça a sexta, às 19h.  Festivais, estreias e sessões especiais são também realizados em horários especiais durante os dias de semana ou sábados.

A Fundação tem uma programação intensa e variada, não repetindo o filme. A cada dia é apresentado um filme diferente e é frequente a conversa com o público após a exibição. A curadoria da programação é feita em conjunto pela Fundação e parceiros. São muitos os parceiros que possuem uma sessão fixa mensal ou semanal tratando de temas específicos em sessões com nomes como Psicanálise vai ao cinema, Cine Delas Floripa, África no Cinema, Cine Aliança Francesa, Art7, entre outros.

A equipe da Fundação também organiza mostras ou as prospecta junto às embaixadas, instituições e festivais independentes, trazendo para Florianópolis importantes festivais nacionais e internacionais. Entre tantos, cito a Mostra Anual de Cinema Espanhol, A mostra de Cinema Uruguaio e o Festival Internacional de Cinema Europeu. A maior parte destes festivais acontece em cinemas comerciais em outras capitais, mas aqui em Florianópolis são trazidos pela Fundação e oferecidos gratuitamente ao público.

 

- E como o público faz para acessar ou visitar?

Agora durante a quarentena, estão sendo oferecidos apenas eventos online, divulgados no site (http://fundacaoculturalBADESC.com/), Facebook (https://www.facebook.com/fundacao.BADESC) e Instagram (@fundacaoBADESC) da Fundação. Mas na época de normalidade, as visitas às exposições são abertas ao público de terça à sábado, das 12h às 19h.

Grupos e Escolas que desejarem podem agendar visitas guiadas ou com processos mediativos. Eventos de música, lançamento de livros e outros é só comparecer no horário divulgado na programação, sem necessidade de reservas.

Para alguns festivais ou lançamento de filmes que são muito concorridos, é importante pegar uma senha, distribuída 1 hora antes da sessão. E para cursos e oficinas é só fazer a inscrição online. Lembro que todas as atividades oferecidas pela Fundação são gratuitas.

 

- A Fundação está instalada num dos casarões mais lindos e preservados do Centro Histórico da Capital. Quem viveu nele? Podes compartilhar um pouco dessa história?

O imóvel foi construído nos anos 20 do século XX como residência por Nereu de Oliveira Ramos, um dos políticos mais influentes do Estado que, além de Governador de  Santa Catarina, foi Ministro, Presidente da Câmara do Deputados do Brasil e Vice Presidente do Brasil, chegando a assumir a Presidência por um breve período de tempo.

A casa possui um estilo eclético com referências da art déco e hoje está tombada pelo patrimônio municipal. É muito desenhada e fotografada, atraindo também grupos de alunos de arquitetura, que estudam suas plantas para projetos universitários.

Após servir de residência durante anos para Nereu Ramos e posteriormente para sua filha Olga, passou por muitos proprietários e quase foi destruída. Felizmente, em 2005 a Agência BADESC adquiriu e fez uma meticulosa recuperação do imóvel para que abrigasse a Fundação Cultural BADESC. 

 

- Atualmente você é o diretor geral de uma das instituições mais renomadas e procuradas por artistas de Santa Catarina e do Brasil. Gostaria de uma análise sobre a importância da Fundação Cultural BADESC para os artistas e também para os frequentadores.

Cultura é fundamental e seu acesso é garantido constitucionalmente. Cada espaço cultural é importante para fomentar e fortalecer os projetos de cidade, de cidadania, de estado e de nação. Quanto mais diversificado, melhor.

É preciso haver pluralidade de espaços. Pequenos e grandes, tradicionais, alternativos, particulares, públicos etc.  Mas dado que a maior parte da produção de arte e cultura não gera economia direta, é necessário que o poder público invista nos espaços, que possibilitem o acesso aos artistas, a toda cadeia produtiva e ao público.

Eu tenho certeza que a Fundação Cultural BADESC tem contribuído de forma muito especial para o circuito das artes, o fomento da cultura e a preservação da memória no Estado de Santa Catarina. É um espaço de formação, produção e fruição. Uma instituição pequena em termos de estrutura e investimento, mas com uma reverberação enorme em termos de oportunidade, de acesso e visibilidade da produção catarinense.

 

 

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Yula Jorge

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. 
Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.

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