Setembro 15, 2020

Uma bomba que caiu na crise

Uma bomba que caiu na crise
RODOLFO ESPÍNOLA/AGÊNCIA AL

Ser denunciado pelo Ministério Público Federal na Operação Alcatraz à Justiça Federal, juntamente com parentes e pessoas próximas, não significa que o deputado Julio Garcia (PSD), na foto, seja o culpado das acusações de “lavagem de dinheiro, por ocultarem a origem, disposição, movimentação e propriedade de recursos oriundos de propinas recebidas em licitações e contratações fraudadas e de bens adquiridos com esses valores”, mas isso é o suficiente para ampliar a crise política no Estado.

Peixe grande na investigação deflagrada pela Polícia Federal, em 2019, para analisar fraudes em licitações, inicialmente no sistema prisional, e que, depois, se espalhou para supostas irregularidades no fornecimento de equipamentos para a Udesc e Epagri, Julio tem um prejuízo maior, o da imagem.

Se 27 dos 40 deputados estaduais aceitarem a admissibilidade do impeachment do governador Carlos Moisés e da vice Daniela Reinehr, pela equiparação dos salários dos procuradores do Estado com os da Assembleia, e a Comissão Julgadora ou Tribunal Julgador decidir pelo afastamento de ambos, será o presidente da Assembleia Julio Garcia que assumirá o governo, por até 180 dias (seis meses), algo difícil de explicar à sociedade com a possibilidade de virar réu em um processo de corrupção.

O mundo político de Santa Catarina está de cabeça para baixo e sem pernas para pôr para cima.

 

Extremos

Para proteger o que é óbvio, o MPF usou em suas publicações que denunciou à Justiça Federal o ex-conselheiro do Tribunal de Contas, sem citar Julio Garcia, parentes próximos a ele e um empresário que atuava como operador financeiro do que a força-tarefa de cinco procuradores da República, assinada ainda pela subprocuradora-geral da República Samantha Chantal Dobrowolski.

A denúncia atinge o núcleo famíliar de Julio Garcia, inserido pelos procuradores “no ápice do núcleo dos agentes públicos [da organização criminosa], responsáveis por viabilizar as fraudes nos processos licitatórios e os desvios de recursos públicos” e atinge o ex-secretário-adjunto de Administração do Estado Nelson Castello Branco Nappi Junior, preso quando era diretor de Informática da Assembleia, e o empresário da área de tecnologia Maurício Barbosa. Outros 34 já haviam sido denunciados anteriormente na mesma Alcatraz.

 

A opção

Os deputados estaduais que já estavam decididos a levar Moisés ao impeachment, por razões políticas, e em função da forte liderança de Julio, que articulou acordos futuros, principalmente em 2022, estão em meio a um dilema: levam até o fim a proposta de insurreição política e explicam as razões ou avaliam melhor o cenário que passou a ser nebuloso no quesito substituição dos atuais titulares do Executivo.

Em síntese: nem Julio merece a condenação prévia por algo que nega nem Moisés a condenação política de uma frágil denúncia ou avaliações subjetivas, justamente por ter quebrado a lógica política de gestão do Estado.

 

O plano B

Dentro da proposta de impeachment, a delicada condição de Julio Garcia já era avaliada.

Quando confrontados com a espada da Operação Alcatraz, quem tem os detalhes da articulação para destituir Moisés e Daniela sempre declarou que não havia problema e que o plano B é por alguém do Judiciário na cadeira de governador.

 

Posição aguardada

Quando houve a rumorosa e sempre espetacular ação da Polícia Federal, em maio do ano passado, Julio foi à tribuna da Assembleia afirmar que acreditava na Justiça, ficou bastante abalado com o envolvimento das filhas nas investigações enquanto nos bastidores afirmava que era alvo de uma ação política.

Na maré de más notícias, sofreu um acidente de carro próximo a Lages, no final do ano passado. Agora prefere não se manifestar.

 

Agora

Os adversários do presidente da Assembleia sustentarão agora que Julio, que foi denunciado pelo MPF, não deve permanecer no cargo.

Alegarão que, na condição de investigado, Romildo Titon (MDB), que sequer havia sido denunciado, foi afastado do comando do Legislativo por 180 dias, por determinação monocrática do desembargador José Trindade, em fevereiro de 2014, por conta da Operação Fundo do Poço, que era estadual e a pedido do MP para que não usasse a posição de chefe de poder para atrapalhar as investigações.

 

Como ficam

Os deputados moralistas de ala significativa da Assembleia, principalmente os do PSL, que combateram e usaram o combate à corrupção nos governos petistas para chegar ao poder na hora de votar ao lado de quem é denunciado pelo Ministério Público Federal.

Um dilema que também atinge a bancada do PT ao inverso, que decidirá votar pela cassação de Moisés, sob critérios técnicos, embora os argumentos do governador, de que não cometeu crime de responsabilidade algum, sejam os mesmos que os defensores de Dilma Rousseff sempre alegaram.

 

Fora e dentro do barco

Sujeito a perder as funções públicas e ter ameaçada a carreira de oficial da Polícia Militar, a punição que poderá vir com o processo de impeachment, o tenente-coronel da ativa Jorge Eduardo Tasca pediu a exoneração do cargo de secretário estadual da Administração.

Tasca, um dos responsáveis por ações que diminuíram o déficit nos serviços públicos, limando muitos contratos dentro do Executivo, se dedicará, a partir de agora, à defesa de Carlos Moisés da Silva, na condição de cidadão e já prepara o pedido de licença da corporação a que serve.

 

Falácia

Não procede a informação de que o ex-deputado Gelson Merisio fechou acordo com o governador Carlos Moisés da Silva, mais uma estratégia de tentar empurrar para a tese do impeachment deputados que não engolem tão fácil o ex-adversário na disputa ao governo do Estado, no segundo turno de 2018, leia-se parte da bancada do MDB.

Aliás, não é só Moisés que entra na mira dos que querem resolver logo a questão, a vice-governadora Daniela Reinehr é alvo de mais uma investida, agora sobre um suposto caso de compra de R$ 50 mil em eletrodomésticos para a residência oficial em Florianópolis.

 

Dúvida

Mas se a coisa já está resolvida, todos os deputados convencidos do pior desfecho para o governador e a vice, por que ainda há disparos contra ambos, Moisés e Daniela?

Seria para dissuadir eventuais dissidências de última hora, evitar abandonos da causa, minar o alvo e a alternativa.

 

Sem influência

Com toda esta movimentação, não espere que o relatório da Comissão Especial, desenhado pelos deputados Luiz Fernando Vampiro (MDB) e Jessé Lopes (PSL), ambos com base em Criciúma, a mesma de forte influência de Julio Garcia (PSD), indique algo diferente do que a admissibilidade do  impeachment contra Moisés e Daniela.

Mesmo que Tasca deva ser excluído do processo de impeachment, a leitura e votação da peça nesta terça (15) será em clima de que “já definimos o futuro”.

 

Novidade

O jornalista Sérgio Guimarães foi homologado candidato a prefeito de Palhoça pelo PL, mais um que se abriga na sigla antes que Jair Bolsonaro tenha seu partido, uma novidade no cenário local à sucessão de Camilo Martins (PSD).

Também concorrem o professor Rangel Medeiros (PSOL), Jailson Rodrigues (PT), Eduardo Freccia (PSD), o coronel Ivon de Souza (PSL) e as aguardadas posições de MDB, PSDB, Podemos e PDT.

 

ALAN SCHOENIGER/DIVULGAÇÃO

NO MEIO DO EXAGERO

Ex-prefeito por duas vezes, ex-deputado estadual e federal, João Paulo Kleinübing retornou de um mestrado em desenvolvimento de cidades sustentáveis, na Inglaterra, para concorrer à prefeitura de Blumenau. Presidente estadual do DEM, Kleinübing escolheu o empresário Ronaldo Baumgarten (à esquerda), do partido do ex-prefeito Napoleão Bernardes, o PSD, para vice. O candidato demista, que também terá o apoio do PP, avisou que não usará o Fundo Eleitoral, em meio ao exagero de ser um dos muitos prováveis candidatos para comandar o terceiro maior colégio eleitoral do Estado, estimados em 11.

 

Chuva de nomes

Confirmados a concorrer a prefeito em Blumenau estão ainda Mário Hildebrandt (Podemos), que busca a reeleição; Débora França Arenhart (Cidadania), Ivan Naatz (PL), João Natel (PDT), Mário Kato (PCdoB), Odair Tramontin (Novo), Ricardo Alba (PSL) e Wanderlei Laureth (Avante). Há expectativa do nome da ex-deputada Ana Paula Lima (PT) e do jornalista Arnaldo Zimmermann (PSB), mais um candidato do PROS e outro do PRTB

Outros nomes devem ser confirmados nas próximas horas, pois o prazo das convenções termina dia 16 e os registros das candidaturas no dia 26, tempo para alguém desistir.

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Roberto Azevedo

Roberto Azevedo
Jornalista com 35 anos de profissão. Foi repórter, editor, chefe de Reportagem, editor-chefe, chefe de Redação, gerente e diretor de Jornalismo na RBS TV (Blumenau e Florianópolis), hoje NSC TV; na TV Record (Florianópolis) e na Rede TV Sul (hoje SCC SBT); comentarista na RIC TV (hoje NDTV) e na Record News; editor de Política e colunista no Diário Catarinense (DC), e colunista no Notícias do Dia (ND). Atuou nas rádios União AM e FM (Blumenau e Florianópolis) e na Rádio Record da Capital. Atualmente, além do Making Of, faz comentários na Rádio Cidade em Dia FM, de Criciúma, e é diretor de Conteúdo na TVBV (Band).
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