Dezembro 04, 2018

V de ...filmes

V de ...filmes
Maria Callas em

V de filmes ? Hã ? Vilmes ??!! Ou filmes que começam com a letra V ? Não, a colunista não enlouqueceu. É só uma forma metida a engraçadinha de anunciar que nosso tema é... vingança, um dos mais constantes da literatura. Do “Hamlet” de Shakespeare ao “Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas (pai), grandes romances retrataram esse sentimento terrível para quem executa e para quem recebe.  Como o cinema bebe nas águas da literatura há tantos filmes sobre o assunto que quase virou um subgênero.

O mais óbvio da lista seria o que inspirou o título de hoje: V de Vingança, mas já falamos dele tantas vezes na coluna que seria redundante. Entretanto, essa distopia teria que entrar na edição de alguma forma. Por isso a escolha do vídeo onde “V” se apresenta a sua amada Evey e de forma verborrágica e irônica fala de vingança :

“O único veredito é a vingança, uma vendeta, mantida votiva, não em vão, pelo valor e veracidade dos quais um dia deverão vindicar os vigilantes e os virtuosos.”

Vou deixar de fora uma infinidade de filmes onde o pai “ busca implacavelmente” o sequestrador ou assassino do (a) filho(a) para se vingar porque são todos iguais. Só o Liam Neeson, um ótimo ator que de repente se tornou brutamontes de filme de ação , já fez uns dez do tipo! Denzel Washington também em “Chamas da Vingança” e por aí vai...  Como resistir a um cachê de 20 milhões de dólares por filme, né ? Mas há atores que fazem um arrasa-quarteirão para poder financiar outro filme que queiram realmente fazer. Al Pacino fez “Treze Homens e um novo Segredo”, mas também “ O mercador de Veneza”,  baseado na obra de William Shakespeare, por exemplo.

Bem, estou saindo do nosso assunto. Vamos ao que interessa: com vocês a lista de “minha vingança será maligna”!

Gostou? Não gostou?Faltou? Escreva nos comentários abaixo da coluna ou para cineseries@portalmakingof.com.br

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MEDÉIA – direção: Pier Paolo Pasolini – 1969

Vamos começar pela pior vingança que existe na dramaturgia , adaptada para as telas pelo italiano que nunca pegou leve nas suas obras, o mestre Pier Paolo Pasolini. Na tragédia de Eurípedes, Medeia mata seu irmão e foge com Jasão. Quando ela é traída e trocada pela filha do rei de Corinto, Gláucia, ela mata seus filhos com Jasão. Completando a vingança, Medeia envia de presente para Gláucia um manto, que pega fogo quando é vestido, matando-a. Pasolini fez uma escolha peculiar para o papel, a extraordinária cantora lírica Maria Callas, em seu único trabalho no cinema. Ironia do destino, como gostam os gregos, Callas também foi uma mulher rejeitada na vida real pelo seu grande amor, o armador  milionário Aristóteles Onassis, que casou com a viúva mais famosa do mundo, Jaqueline Kennedy.

“Medeia” é uma obra tão poderosa que mesmo tendo sido escrita em 431 antes de Cristo continua sendo adaptada de mil maneiras. Tive a alegria de ver a montagem brasileira com Bibi Ferreira, em São Paulo, lá pelos idos dos anos 70. Pelas mãos talentosas de Paulo Pontes e Chico Buarque  a história foi ambientada numa favela carioca, se transformando em crítica social e política. Tratava-se de um teatro de resistência, mas a censura liberou a peça porque as cenas se passavam no contexto da vida privada. Agora pensem numa interpretação capaz de arrepiar a gente da cabeça aos pés: sim, ela, Bibi Ferreira. Quando canta a música que dá nome ao espetáculo, “Gota D´Água” nos apiedamos daquela mulher capaz de matar os próprios filhos, movida pela vingança.

Para encerrar, pois já está virando textão: existe uma adaptação de “Medeia” do dinamarquês, Lars Von Trier, outro que sempre pega pesado. A produção foi feita para a TV em 1988.

 

CORAÇÃO VALENTE – Direção: Mel Gibson – 1995

No século XIII, soldados ingleses matam a mulher do escocês William Wallace na sua noite de núpcias. O que começa como uma  vingança pela morte da amada acaba transformando Wallace no líder da luta do povo contra o Rei inglês Edward I . Ele deflagra uma violenta batalha para libertar a Escócia de uma vez por todas.

Este foi o segundo filme dirigido pelo então mega astro, Mel Gibson, que também interpreta o protagonista William Wallace. “Coração Valente” foi indicado a 10 categorias do Oscar e recebeu cinco: filme, direção, fotografia, maquiagem e efeitos sonoros. Hoje, depois de vários escândalos, Gibson já não tem mais o mesmo “valor de mercado”, mas continua dirigindo.

 

OLDBOY – direção : Park Chan-Wook – 2003

Coloco este filme sul-coreano entre os melhores que vi nos últimos 15 anos. Não é para todos os gostos, tanto que chocou júri e público quando estreou no Festival de Cannes em 2003. Há cenas fortíssimas e outras de humor negro. Mas em tempos de “já vi esse filme antes”, ou seja, histórias cada vez mais previsíveis, “Oldboy” é uma aula de originalidade e provocação. O desfecho totalmente amoral não se repete no remake americano de 2013. Faltou coragem para Spike Lee. Aliás, pra que refilmar, né?  No Brasil, essa versão com Josh Brolin na papel principal recebeu o subtítulo de “Dias de Vingança”. Tudo a ver.

Sinopse: Oh Dae-su é um homem comum, bem casado e pai de uma garota de 3 anos, que é levado a uma delegacia por estar alcoolizado. Ao sair ele liga para casa de uma cabine telefônica, para logo em seguida desaparecer, deixando como pista apenas o presente de aniversário que havia comprado para a filha. Pouco depois ele percebe estar em uma estranha prisão, onde há apenas uma TV ligada, no qual ele recebe pouca comida e respira um gás que o faz dormir diariamente. Através do noticiário da TV ele descobre que é o principal suspeito do assassinato brutal de sua esposa e sem ter outra opção, ele passa a se adaptar à escuridão de seu quarto e a preparar seu corpo e sua mente para sobreviver à pena que está sendo obrigado a cumprir sem saber a causa.

 

KILL BILL – direção: Quentin Tarantino – 2004

Teria que abrir um “boxe” especial para só falar do diretor Quentin Tarantino. Ô cara pra gostar de histórias de vingança! São tantas que não dá pra listar todas. Então escolhi “Kill Bill – A vingança”.

Sinopse: A Noiva (Uma Thurman) é uma perigosa assassina que trabalhava em um grupo, liderado por Bill (David Carradine), composto principalmente por mulheres. Grávida, ela decide escapar dessa vida de violência e decide se casar, mas no dia da cerimônia seus companheiros de trabalho se voltam contra ela, quase a matando. Após cinco anos em coma, ela desperta sem um bebê e com um único desejo: vingança. A Noiva decide procurar, e matar, as cinco pessoas que destruiram o seu futuro, começando pelas perigosas assassinas Vernita Green (Vivica A. Fox) e O-Ren Ishii (Lucy Liu).

Pela longa duração, “ Kill Bill” foi divido em duas partes, sendo lançadas com seis meses de diferença. Tarantino deu o papel de presente a Uma Thurman ( com quem já tinha feito Pulp Fiction) quando ela fez 30 anos. Como é um filme “tarantiniano” foram usados 450 galões de sangue falso durante as filmagens.

 

RELATOS SELVAGENS – direção: Damián Szifron  - 2014

Este longa argentino, filmado em apenas oito semanas, traz seis episódios que têm em comum a perda de controle dos personagens diante de alguma situação. Retrata bem os ataques de fúria que permeiam nossos dias, onde vemos no telejornal pacientes quebrando tudo na sala de espera de um hospital ou um motorista atirando no outro que cortou a sua frente no trânsito. No caso de “Relatos Selvagens” todos querem fazer justiça com as próprias mãos. Ele me faz lembrar de “Um dia de fúria”, de 1993, quando o personagem de Michael Douglas sai atirando em tudo que encontra pela frente depois de passar por uma série de contratempos...

Qualquer episódio de “Relatos” se encaixa no nosso tema: a vingança de uma filha ao reencontrar o homem que matou seu pai; o duelo de dois homens numa estrada por reles problema de trânsito, o cidadão ( Ricardo Darí, presente, claro!) que enfrenta os horrores da burocracia, o suborno para que outra pessoa assuma um atropelamento e...por fim, talvez o melhor, a fúria vingativa de uma noiva que descobre na festa de casamento que foi traída pelo noivo. O título do episódio é bem sugestivo: hasta que la muerte nos separe.Uaaau... Se ainda não viu, vá e veja mais esse primor do cinema feito por nuestros hermanos argentinos.

 

A VINGANÇA  ESTÁ NA MODA – Jocelyn Moorehouse  - 2016

Ainda não vi, mas quero ver esse filme que traz a ótima Kate Winslet no papel de uma mulher que retorna à cidade natal no interior da Austrália depois de ter saído de lá humilhada. Ela se tornou uma importante estilista e ao retornar usa sua habilidade para vingar-se das conterrâneas que a menosprezaram.

Kate Winslet, sempre preciosista na construção de seus personagens, aprendeu mesmo a costurar para o filme.

 

EM PEDAÇOS – direção: Fatih Akin- 2017

Essa produção franco-alemã toca em assuntos terríveis muito em voga na Alemanha e em outras partes do mundo, como a xenofobia e o ressurgimento de movimentos neo-fascista e nazistas. O papel da mãe devastada deu à Diane Kruger o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes em 2018. “Em Pedaços” levou ainda o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro.

Sinopse: Após cumprir pena por tráfico de drogas, o turco Nuri Sekerci (Numan Acar) leva uma vida amorosa e tranquila com a esposa Katja Sekerci (Diane Kruger) e o filho Rocco na Alemanha. Certo dia ele e o menino estão no escritório e morrem vítimas de uma explosão criminosa, tragédia que deixa Katja sem chão. Ela batalha na justiça pela punição dos culpados, um casal neonazista, e, insatisfeita com o desenrolar do caso, decide pela vingança com as próprias mãos.

 

ACRIMÔNIA – ELA QUER VINGANÇA – direção: Tyler Perry – 2018

Outro recém-lançado que ainda não vi. Pra começo de conversa tive que ir ao Aurelião para descobrir o significado de “acrimônia”: sabor acre; acidez.,má vontade; aspereza, azedume. Pela resenha, a portadora desse azedume é uma esposa duplamente traída pelo marido: conjugal e financeiramente. O que ela quer então ? Vin-gan-ça! E sai da frente que Melinda, interpretada pela boa atriz Taraji P. Henson, vai fundo na sua empreitada.

A crítica não morre de amores pelo filme e, a julgar pela sinopse e trailer, é algo que também já vi antes no sofrível “Nunca Mais”, com Jennifer Lopez matando o ex-marido a socos..., ou no ótimo “Atração Fatal”, com Glenn Close, totalmente surtada se vingando do amante que a desprezou a ponto de fazer ensopado do coelhinho da filha dele... E muitos outros semelhantes.

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O LIVRO QUE VIROU FILME

A VISITA DA VELHA SENHORA – autor: Friedrich Durrenmatt – 1956

O suíço Friedrich Durrenmatt escreveu uma obra-prima  da dramaturgia que recebeu e continua recebendo montagens no mundo todo. No Brasil, a “velha senhora” foi interpretada por grandes atrizes como Cacilda Becker, Tonia Carrero e Denise Fraga.

É o tipo de papel que qualquer atriz de teatro sonha em fazer. A trama: Claire Zahanassian tinha 17 nos quando foi expulsa da cidade, grávida do homem que negou a paternidade e a rejeitou para casar com uma mulher rica. Ela come o pão que diabo amassou, precisando até se prostituir para sobreviver.

Muitos anos depois ela retorna à localidade, como a viúva de um dos homens mais ricos do mundo. A cidade empobreceu. Cheia de mágoa, Karla planeja se vingar de Alfred, o ex-amante;  do professor  que a maltratou na infância, da cidade inteira, enfim. Karla tem recursos suficientes para comprar a simpatia e a consciência de todos. Cada um será testado se é capaz de qualquer coisa pelo dinheiro.  A milionária se propõe a ajudar a cidade, mas em troca quer a cabeça de Serge. A peça é um belo estudo sobre a natureza humana e o “abismo que é o coração do Homem”.

 

A VISITA – direção: Bernhard Wicki – 1964

No cinema, Karla (Claire na peça) foi interpretada por Ingrid Bergman. Embora aos 49 anos, ela foi considerada muito jovem para fazer a “velha senhora”, pois continuava bela e maravilhosa como sempre. Mas Ingrid “segurou” o papel. Serge ( Alfred na peça), o ex-amante e pai de sua filha, é interpretado por Anthony Quinn. Uma bela adaptação.

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É COISA NOSSA

ABRIL DESPEDAÇADO – direção:Walter Salles – 2001

Pena que tanta gente tenha preconceito com o cinema nacional, pois esta co-produção Brasil- França-Suiça é uma beleza! Walter Salles adaptou o romance do escritor albanês Ismail Kadaré para terras bem brasileiras. Aliás, Kadaré gostou muito do resultado final.

Sinopse:” O ano é 1910. Seguindo uma tradição do sertão nordestino na briga por terras, pai impele o filho, Tonho, a matar membro da família rival, vingando assim, a morte de seu irmão mais velho. Cumprida a missão, o rapaz vive na expectativa da vingança inevitável. Seu irmão de 11 anos é o observador mais lúcido desse estúpido círculo vicioso de assassinatos. É o menino também que apresenta Tonho a uma dupla de artistas de circo e o leva a questionar a tradição da vingança”.

Rodrigo Santoro faz um dos seus melhores trabalhos na pele de Tonho. O pai é vivido pelo veterano José Dumont. “Abril despedaçado” foi indicado a melhor filme no Globo de Ouro e no Bafta. Salles foi premiado como melhor diretor no Festival de Cinema de Havana.

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FORA DE SÉRIE

REVENGE –  4 temporadas – 89 episódios –

Confesso que gostei da primeira temporada e depois abandonei por achar as situações demasiadamente forçadas, como os personagens mudando de personalidade para encaixar nas reviravoltas da trama. Mas, sou voto vencido, porque a série fez um tremendo sucesso.  Aliás, como deixar de fora do tema vingança uma série que se chama...”Vingança”? Não dava, né?

“Sinopse : Revenge conta a história de Emily Thorne, uma garota misteriosa que chega aos Hamptons, em Nova York, em busca de vingança contra aqueles que destruíram sua família. Emily é, na verdade, Amanda Clarke, uma garota que morou ali na infância e que agora aluga a mesma casa na qual viu seu pai ser preso por um crime que não cometeu. Agora rica e mais emancipada, a garota retorna para a cidade e começa a executar seu plano, derrubando um inimigo por vez. Entretanto, Amanda/Emily não conta com a interferência de outros fatores em seu caminho, como o amor de infância. Além disso, mais uma pessoa sabe detalhes sobre seu passado, o que faz do personagem um amigo ou inimigo, dependendo de seus próprios interesses. (Site:Minha série)”

As atrizes foram bem escolhidas para os papéis de Amanda ( Emily van Camp) e Vitória Grayson, a antagonista de Amanda ( Madeleine Stowe). Os figurinos das duas deslumbraram os fashionistas a ponto dos produtores fecharem parceria para lançamento de uma coleção inspirada na série.

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BEIJO DE CINEMA

Dois galãs dividiram as preferências em “Revenge”, ambos apaixonados pela vingativa Emily/Amanda Clark (Emily van Camp): Nick Wechsler (Jack Porter) e Joshua Bowman (Daniel Grayson). Em homenagem aos fãs da série, o beijo da edição é duplo.

Pra quem shipa Emily e Nick e não sabe eu aviso: na vida real o casal é Joshua e Emily van Camp!

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HASTA LA VISTA, BABY !

Frases de Cinema

"Em terra de cego, quem tem um olho só, todo mundo acha que é doido". (O menino -Abril Despedaçado)

"A gente é que nem os bois: roda, roda e não sai do lugar".   O menino-(Abril Despedaçado)

“A mãe costuma dizer que Deus não manda um fardo maior do que nós pode carregar! Conversa fiada, às vezes ele manda um peso tão grande, mas tão grande que ninguém aguenta!” ( O menino :Abril Despedaçado)

“O mundo fez de mim uma mulher da vida e eu quero fazer dele um bordel” ( Karla, de “A Visita da Velha da Velha Senhora”).

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TERMINOU MAIS UMA EDIÇÃO. AGRADECEMOS A LEITURA!

THE END

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Brígida Poli

Brígida Poli

é jornalista. Cinéfila desde criancinha, converteu-se à mania das séries depois de assistir a "Os Sopranos". Não se considera crítica de cinema, apenas alguém que gosta de trocar ideias sobre a sétima arte.

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