Junho 25, 2019

ZENAIDE, A COMANDANTE DO PÂNTANO

ZENAIDE, A COMANDANTE DO PÂNTANO
Foto: Viviane Bevilacqua

A história da Dona Zenaide Maria de Souza, 74 anos, é daquelas que dariam um livro. Quem sabe um dia eu mesma me atreva a escrever com mais detalhes esta pequena mas contundente saga da mulher que venceu preconceitos e tornou-se oficialmente a primeira pescadora artesanal do Pântano do Sul, em Florianópolis. Mas ela não virou profissional só porque gostava de pescar desde menina, não. Foi para o mar no seu barco colorido de madeira, enfrentando tempo ruim e sol no lombo e comandando embarcações com muitos homens porque precisava tirar da água o sustento de seus oito filhos. Após a separação, que ela mesmo pediu, ficou sozinha para criar a garotada, e pescar e cozinhar era o que sabia fazer de melhor, já que o estudo tinha sido pouco. Escola primária lá mesmo no Pântano, até o quarto ano, e só.


Foto: Reprodução/Facebook

Pescar e cozinhar? Quando Zenaide se deu conta de que se unisse estes dois verbos poderia ganhar mais dinheiro não teve dúvidas: começou a vender na beira da praia alguns quitutes feitos de peixe, camarão, siri, berbigão e polvo. O Pântano do Sul era uma praia tranquila, lá pelos anos 1980, com turistas meio ripongas e alternativos, entre os quais conquistou logo fregueses fiéis. Decidiu então, com a valentia que lhe é peculiar, erguer um quiosque na areia. Foi alertada de que era ilegal construir naquele local, mas não deu ouvidos. Quando o quiosque ficou pronto a prefeitura mandou desmanchar. Ainda chorava, pensando no que iria fazer, quando foi chamada pelo prefeito. Zenaide disse que sabia da ilegalidade, mas argumentou que precisava do bar para dar estudo aos oito filhos. Ela sonhava vê-los formados na faculdade. Foi tão convincente que no dia seguinte o fiscal da prefeitura mandou seus homens reconstruirem o quiosque.

Começou assim a história do Restaurante Pedacinho do Céu, que em pouco tempo conquistou freguesia ampla e constante. O bar cresceu, e além do grande pavilhão de madeira tinha área e deck externo de frente para o mar. Era todo decorado com motivos marítimos. Nessa época Zenaide começou a usar um quepe branco de comandante que ganhou de um freguês e virou sua marca registrada. Nunca mais saiu de casa sem ele. Tudo ia bem até a madrugada de 16 de janeiro de 2017, quando um incêndio acidental destruiu o restaurante. Não deu tempo de salvar nada. Os filhos e netos ficaram com medo de que desta vez ela fosse desabar, mas o que viram os deixou ainda mais orgulhosos da matriarca. Zenaide tirou o boné branco chamuscado de fumaça, deu umas batidas para tirar o pó, colocou de novo na cabeça e disse: Sem choro. Hora de recomeçar.


Foto: Arquivo Pessoal

Fizeram vaquinhas na internet, aceitaram ajuda de estranhos e de clientes dos mais diferentes rincões, conseguiram empréstimos e no dia 16 de janeiro de 2018, exatamente um ano após o incêndio, Zenaide fez uma festa para comemorar a inauguração do novo restaurante, ainda mais bonito, e agora todo de tijolos. 


Foto: Arquivo Pessoal

Um passeio ao Pântano do Sul nunca é completo sem uma visita à Dona Zenaide e seu Pedacinho do Céu, nem que seja só para prosear e conhecer detalhes da história da comunidade e de sua moradora mais simpática, que acolhe a todos com um sorriso largo e adora contar seus causos e aventuras de cantar O Rap da Tainha, letra de uma música que fez em homenagem aos pescadores. Mas fica o alerta: é impossível sair de lá sem provar seus petiscos. Irresistíveis, como os abraços na hora da despedida.

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Viviane Bevilacqua

Viviane Bevilacqua

Trinta anos de jornalismo diário e predileção por temas ligados ao comportamento humano. Crônicas que falam sobre as relações familiares, educação, saúde e o cotidiano de todos nós, sempre de forma leve e direta, como se fosse um bate-papo entre a jornalista e o leitor.

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