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quinta-feira, 7 julho, 2022

“A arte só faz sentido na experiência com o outro”

Foto Fernanda Pozza
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Em incessante vai e vem, entre o sítio onde mora em Schroeder e a Universidade da Região de Joinville (Univille), onde fez sua formação e, agora, dá aulas, a paulistana Alena Marmo, 43 anos, consolida uma vida de pesquisadora, professora e artista.

Mãe de Corah e Sarah, ela tece a rotina diária entre os afazeres caseiros, acadêmicos e o desejo da criação, esse sempre na dependência de sobras no tempo. Forte, a aspiração artística se impôs, sobretudo no período agudo da pandemia. Entre 2019 e 2021, ela produziu 40 pinturas, pasteis e gravuras organizadas nas séries “Céus”, “Varais” e “Janelas”, reunidas na exposição “EnSIMESMAmentos”, aberta até 9 de julho, na Galeria 33, em Joinville. E em outubro a mostra estará na Sociedade Cultura Artística (Scar), em Jaraguá do Sul. O voltar-se para dentro de si mesma resulta em imagens que trazem o fundamento da interioridade, algo que estabelece uma conexão com o externo, os outros.

Nos ajustes do isolamento social, Alena incrementou uma prática nunca abandonada apesar de uma atuação desdobrada no campo da pesquisa acadêmica, na curadoria independente e na gestão do Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke (MAC Schwanke), no qual é diretora cultural.

Com a pandemia, ela redescobre o próprio lugar, reorganiza os espaços, e passa a ter momentos solitários de contemplação que a preencheram de tempo presente, sensação que só tinha em momentos de deslocamento, apreciando a paisagem enquanto dirigia da casa para o trabalho ou do trabalho para casa, momento denominado de “entre-lugares”.

Foto Fábio Moreira

Nesta entrevista, realizada com o apoio da jornalista Néri Pedroso, a artista analisa a própria trajetória e enaltece as transformações do século 21 em que as teorias e práticas ´decoloniais` abrem “espaços para a produção de arte advinda de outras geografias que não aquelas que seguem uma perspectiva eurocêntrica, burguesa e machista”.

 Como a arte chegou até você?

Alena Marmo – Aos três anos, fiz uma pintura à guache sobre papel e minha mãe, ao contemplá-la, disse: “Você poderia ser artista”, e eu acreditei! Ainda criança colecionava livros e fascículos de arte, daqueles que acompanhavam jornais e revistas. Aos dez anos, comecei a fazer aula de pintura; aos 11, como proposta da professora de artes da escola, criei um desenho fazendo uso de pontilhismo. Ela gostou e o inscreveu em um concurso de pintura, o qual envolveu estudantes do colégio Objetivo de toda cidade de São Paulo. Eu ganhei o primeiro lugar. Entretanto, na hora da escolha do curso de graduação optei por ciências biológicas, eu queria estudar genética. Três meses antes do vestibular, mudei de ideia e me inscrevi para artes visuais. Nunca trabalhei com outra coisa. Então posso dizer que a arte, de alguma forma, sempre esteve presente na minha vida.

Foto Fábio Moreira

O artista tem ou não de explicar a sua obra?

Alena – Não tem não. No processo de instauração o artista mobiliza experiências, visões de mundo, ideias e conceitos que são seus. Assim, a materialização do trabalho de arte é fruto de uma subjetividade. Mas ela só existe e faz sentido quando está no mundo em exercício, na relação com o outro que constrói os seus próprios significados que são tão verdadeiros quanto os do artista. É na experiência do outro que a obra se faz, independente da intenção do artista, que não tem mais controle sobre ela, e isso basta. Mas também não significa que a obra não possa ser explicada. Quanto mais informações o público tiver, mais profunda será a sua experiência. Tem artista que gosta de explicar e tem público que almeja receber explicação.

Foto Fábio Moreira

De que modo a pesquisadora influencia a artista? A pesquisa e a academia afastam o fazer-artístico? Como é o processo de criação à luz das múltiplas atividades que realiza?

Alena – Mesmo que muitas vezes de maneira inconsciente, tudo o que eu vi, li e vivi como professora pesquisadora está dentro do meu trabalho como artista, e vice-versa. Acredito que todas as minhas escolhas artísticas, sejam as temáticas, as técnicas ou as conceituais, a prática docente e os caminhos de pesquisa, são reflexo daquilo que sei e daquilo que sou. Não tem como separar. Acontece que às vezes acesso mais uma atividade do que a outra, mas elas se retroalimentam. Tenho muitas ideias que guiam a prática artística quando trabalho com a pesquisa, e quando estou no ateliê, tenho insights de pesquisa, assimilo e articulo alguns dos conteúdos levantados nas investigações. A diferença está no fato de que meu ganha-pão está na academia, então não tenho a liberdade de escolher, por exemplo, os períodos em que posso estar imersa no ateliê. Tenho pequenas janelas para produzir entre as atividades que exerço. Mas aproveito profundamente cada uma delas. Anoto em um caderninho, um tipo de diário, as ideias e algumas imagens captadas no contexto da rotina. Ele está quase sempre comigo, foi a forma que encontrei de me manter conectada com a produção, mesmo quando não estou no ateliê. É dele que saem todos os trabalhos.

Apagadas da história da arte, as mulheres lutam pelo seu lugar. Como acompanha as questões artísticas relacionadas aos feminismos? Sob essa perspectiva o que é ser uma mulher artista na segunda década do século 21?

Alena – Eu acompanho por meio da minha pesquisa, a qual está muito voltada para as teorias e práticas decoloniais, mas também pelas redes sociais e veículos digitais como revistas, jornais e blogs. Sigo muitas artistas e grupos feministas e podemos afirmar com propriedade que estão cada vez ganhando mais espaço e sendo mais ouvidas. É uma voz poderosa e importante. É lindo ser uma mulher artista no século 21!

Artista Marcelo Motta na abertura – Foto Fábio Moreira

Como alcançar coerência numa investigação poética? Quando o artista pode dizer “isso está pronto!”.

Alena – Eu sempre escuto o trabalho. Tenho as ideias e registros no diário, mas são sempre pontos de partida, quando executo parece que a obra já não faz parte de mim e tem uma certa autonomia. Ela me aponta novos caminhos. Acredito que desta forma mantenho uma certa coerência no meu caminho de produção. Vejo no momento atual, por exemplo, questões que dialogam com as instalações de linhas que fazia há mais de dez anos quando discutia os conceitos de local e lugar, os quais estão ainda muito presentes, embora em outra perspectiva, no que faço hoje. Agora, uma das coisas mais difíceis para mim é entender a hora de parar, de terminar. Eu tenho tomado como medida aquele sentimento de que “falta apenas uma coisa que não sei o que é” como termômetro para entender que está pronto. Mas a verdade é que o trabalho parece nunca estar.

Com Juliano Jahn, o marido – Foto Fábio Moreira

O que identifica na sua trajetória e nos trabalhos como um elemento dominante?

Alena – Pergunta difícil de responder, porque me coloca em outro lugar, olhando meu trabalho de fora. O que não significa que não seja um bom exercício! Acredito que seja justamente a discussão do conceito de lugar como um espaço praticado cujo ponto de partida para minha discussão está no pensamento do historiador francês Michel de Certeau (1925-1986). Os trabalhos que compõem a exposição “EmSIMESMAmentos”, por exemplo, são resultado da minha experiência de ressignificar espaços e me apropriar deles de forma que se tornam um lugar que é meu. Essa mesma reflexão estava presente na série de instalações “Espaço-praticado”, por meio das quais ocupava, por um curto período de tempo, grandes áreas expositivas que podem ser entendidas como espaços de passagem e, portanto, dotadas de uma identidade temporária.

Alena e Nadja Lamas – Foto Fernanda Pozza

Do movimento cultural deste século, o que mais te toca?

Alena Marmo – Estamos na segunda, entrando na terceira década do século 21, então acredito que ainda não tenho distanciamento suficiente para olhar para o século atual e fazer uma escolha segura. Mas confesso que tenho investigado as manifestações artísticas e culturais que caminham em perspectivas decoloniais, assim como também nos reflexos da virada global da arte contemporânea. É incrível ver os espaços se abrirem para a produção de arte advinda de outras geografias que não aquelas que seguem uma perspectiva eurocêntrica, burguesa e machista. É fantástico escutar vozes como a do líder indígena Krenac, por exemplo.

Alena Marmo 2013 – Foto Pena Machado

Tem algum sonho secreto de fazer um trabalho especial?

Alena – Não tenho sonho secreto em relação a um trabalho especial, mas tenho um forte desejo de continuar produzindo e cada vez mais, e de ter mais tempo de dedicação para a minha produção.

 

O que é uma boa pintura?

Alena – Aquela que é feita com verdade, que você olha e percebe que tem muito mais além da superfície.

 

Fale um pouco sobre a sua relação com Santa Catarina. Situe as noções de pertencimento já que vive entre duas cidades?

Alena – Eu nasci em São Paulo, moro em Schroeder, mas sou uma artista de Joinville. Foi lá que tive minha primeira formação, a de licenciatura em educação artística na Univille. Aliás, desde que entrei na Univille, em 1998 como aluna, nunca mais saí. Hoje sou professora e coordenadora do curso de bacharelado em artes visuais nesta mesma instituição. Já fui membro da diretoria da Associação dos Artistas Plásticos de Joinville (Aaplaj), período bem importante para minha formação como artista. Fiz estágio no Museu de Arte de Joinville (MAJ), e nele, fazendo mediação, me descobri professora. É lá que eu trabalho e voto. Me considero mais joinvilense do que paulistana.

 

Como acompanha o circuito de arte de Santa Catarina, o que destaca e o que deplora?

Alena – Atualmente acompanho pelas redes sociais. Destaco principalmente o potencial artístico. Tivemos artistas como Schwanke (1951-1992) e Ivens Machado (1942-2015), e temos hoje Fernando Lindote e Sergio Adriano H, entre tantos outros. Deploro a falta de políticas públicas para a cultura e a falta de espaços artísticos e culturais já que temos grandes potências industriais no Estado que poderiam apoiar financeiramente mais projetos de caráter inclusivo.

Drops

O que é imprescindível: família

Um desejo recorrente: paz

O que mais fascina na história da arte: muitas coisas, mas neste momento a atual quebra com a lógica eurocêntrica, burguesa e machista

Corre para ver o quê: os cineastas Pedro Almodóvar e Tim Burton

Um ídolo: tenho várias e vários, mas hoje destaco Schwanke

Modéstia à parte: eu sei o que quero

Elegância: Dona Marina Mosimann

Florianópolis: arte e praias

Infância: Natal

Palavra: ensimesmada

Uma frase: Exercite o olhar de procura

Na pandemia eu… a vivi

 

SERVIÇO

O quê: Exposição “EnSIMESMAmentos

Quando: Até 9.7.2022, sob agendamento no tel.: (47) 99277-2016

Onde: Galeria 33, rua Bento Gonçalves, 33, bairro Glória, Joinville (SC), tel.: (47) 3433-2557

Quanto: Gratuito

 

O quê: Exposição “EnSIMESMAmentos

Quando: 7.10.2022 a 27.10.2022, seg. a sex., 7h30 às 22h

Onde: Sociedade Cultura Artística (Scar), rua Jorge Czerniewicz, 160, bairro Czerniewicz, Jaraguá do Sul (SC), tel.: (47) 3275-2477

Quanto: Gratuito

 

REALIZAÇÃO

Galeria 33

 

SAIBA MAIS:

@alenamarmo

https://www.galeria33.com/

 

Yula Jorge
Jornalista graduada pela UFSC. Antes disso estudou e viveu quatro anos entre o Canadá e os Estados Unidos e quando retornou a sua terra natal, Goiânia, graduou-se pela PUC em Secretariado Bilíngue. Logo mudou-se para Florianópolis, ingressou na Universidade Federal, e da ilha não saiu mais. Atua como colunista desde 2012, assinou uma coluna diária no jornal Notícias do Dia por alguns anos, e, paralelamente, foi repórter da RICTV Record e Record News. Traz todos os dias o que rola de especial em Floripa e Santa Catarina: sobre quem acontece, empreende, se engaja em causas legais. O que inaugura, as festas bombásticas, as melhores casas, restaurantes, os shows, as ações bacanas e o voluntariado.
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