Ela recebeu a paciente com um sorriso, largo e acolhedor, apesar de se sentir cansada ultimamente.
Indicou a cadeira mais próxima e a chamou pelo primeiro nome. Será que essa já tinha o próprio diagnóstico e sabia qual remédio queria tomar?
A primeira pergunta foi: Como posso te ajudar? Me conte tudo o que está sentindo.
Após ouvir toda descrição, interrompendo apenas para perguntar a frequência e intensidade dos sintomas, ambas ficaram caladas.
— Algo mais?
— Não, acho que é isso
— E o que está causando todos esses sintomas, você tem alguma ideia?
— Mas … eu não sei, a senhora é a médica, eu não sei…
— Claro, eu que sou a médica, mas você que vive a sua vida, sabe o que come, até escondido. Sabe o que bebe, sabe o quanto dorme. As suas preocupações, o real estilo de vida. A história da sua família, as doenças e desavenças. As tretas e provocações. O quanto te magoaram, vacinaram, cuidaram, deixaram de lado e surpreenderam, pro bem ou pro mal. Se as pessoas te ouviram ou te calaram, reprimiram e elogiaram…
— Mas achei que essa era uma consulta…
— … médica? Sim, essa é uma consulta médica, mas as pessoas carregam muitas coisas além do corpo.
— Entendi…
— E tem muita gente que vem aqui com o diagnóstico pronto, o que na verdade poupa meu trabalho. Às vezes por perceberem algo que a medicina ainda não descobriu, às vezes por desconfiança do meu conhecimento. Tem também quem já consultou com o Dr. Google ou, mais recentemente, com a Dra. Chat GPT, mas não conseguiu se decidir entre os diagnósticos oferecidos.
— Mas eu…
— Tem também muito doutor que vem aqui, com o diagnóstico dado pela vizinha ou pela amiga no zap, mas só precisa de uma receita ou o pedido de exame.
— Não, eu…
— Ah, entendi! Você só quer um atestado porque está cansada de trabalhar, e a pressão do mundo é demais pra sua mente inquieta?
— Eu só…
— Sim, você só o que? Fala, seja sincera!
— Eu realmente só quero melhorar pelas mãos de um profissional, que tem o conhecimento e os meios.
— Ótimo, parabéns, acho que você entendeu! Agora que tudo está esclarecido e todos os personagens já sabem seus papéis, vamos começar a consulta de verdade examinando você.
— Mas não precisa de exame Doutora. Eu só preciso mesmo de um remédio pra emagrecer, outro pra dormir, outro pra ansiedade e um atestado de um mês, com possibilidade de renovar, pode ser?
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Sobre Anna Tscherdantzew

Praticamente uma bucica caramelo, sou uma mistura de russos, mongóis, gregos, alemães, brasileiros e, dizem, descendente de Gengis Khan e dos Romanoff. Morar pelo mundo, ficar no quintal de casa, cozinhar, pegar o caminho errado pra descobrir um lugar novo, música, minha família e amigos, natureza, observar o comportamento humano, ler e escrever mentalmente crônicas ficcionalistas (ficções realistas) são minhas principais ocupações.
Formada em Publicidade pela PUCRS, pós-graduada em Marketing pela FGV, Master em Fashion Design pela NYFA (Seattle) e Digital Design pela Santa Barbara City College (Califórnia). Docente (Unisul), Pesquisadora e moderadora de focus group (Agencia Um, Mapa Pesquisa de Mercado), Designer (Nordstrom), Figurinista Independente de Filmes e Music Videos (Los Angeles), Produtora e Roteirista (Radicci Entretenimentos), Co-apresentadora do programa de Viagem e Pesca On The Rod (Canal Fish TV e Iotti TV) e Colunista (Portais Sler, Fumetta, Leouve e Making Of).
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